O fotógrafo das grandes modelos e celebridades conta o que faz para
deixar as belas do mundo mais belas ainda
Bel
Moherdaui
M J Kim/Getty Images
"Eu
danço, me jogo, faço graça. Passo até ridículo
para que a outra pessoa perceba que não precisa ser perfeita"
Quer ter certeza de que vai
sair bem na foto? É só chamar Mario Testino. O único problema
é que o fotógrafo de 52 anos, certidão de nascimento peruana,
endereço londrino e fama global, está acostumado a mirar em beldades
como Gisele Bündchen ou a inglesa Kate Moss. Com alguma sorte, porém,
talvez seja possível cruzar com ele no Rio de Janeiro, que ama e freqüenta
desde os 15 anos e onde foi homenageado com o título de cidadão
e a medalha Tiradentes na semana passada. Famosas ou anônimas enfrentam
as câmeras de Testino com a garantia de que ficarão melhores do que
nunca a prova máxima são as célebres fotos que fez
da princesa Diana. Além do pleno domínio da profissão, ele
tem o dom de extrair verdade, beleza e espontaneidade cuidadosamente planejada
de seus modelos. Não é vanguardista suas fotos são
bem focadas e deixam as mulheres bonitas , mas tem uma aura de contemporaneidade
e trabalha duro para se manter no topo. "A concorrência tem vinte anos a
menos", brinca. Com olho treinadíssimo e capacidade de impulsionar carreiras,
deu origem a um bordão entre aspirantes a modelo no Brasil: "Testino pode
mudar o seu destino". Em excelente portunhol, o fotógrafo falou a VEJA.
Veja O Brasil
é um país onde ser modelo parece aspiração nacional
da população feminina adolescente. Com que idade uma menina deve
começar a trabalhar?
Testino Sou muito amigo da Kate
Moss, que começou a trabalhar aos 15 anos. Para mim, é muito cedo,
mas também entendo que há pessoas que não têm condições
econômicas, e isso pode ser uma maneira de ajudar a família. Então,
poderia dizer o seguinte: se a família tem uma situação econômica
confortável, talvez fosse melhor primeiro terminar a escola. Mas acho difícil
falar uma coisa assim no Brasil, onde muitas pessoas não têm dinheiro
e às vezes ter uma filha modelo pode ajudar até os outros filhos
a comer.
Veja
Com sua experiência, que conselhos daria aos pais de jovens aspirantes a
modelo? Testino Para começar,
é muito difícil dizer quem dará certo como modelo. Aos 13,
14 anos, a aparência de uma menina ainda pode mudar. Os pais devem ser honestos
com os filhos. Se eu fosse pai, também tentaria ficar junto dos meus filhos
até eles poderem se defender sozinhos.
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Não é muito cruel para uma menina de 15, 16 anos lidar
com a frustração de expectativas ou com um eventual fracasso? Testino A vida é cruel.
Na escola, quem é diferente, usa óculos, é mais magro ou
mais gordo já tem de enfrentar muita crueldade das outras crianças.
Se você quer ser esportista, talvez não seja o melhor, e isso pode
ser cruel. Temos de viver a vida. Não é porque podemos fracassar
que vamos deixar de fazer.
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Qual é, afinal, o segredo que faz com que determinadas modelos
sejam tão bem-sucedidas e outras, igualmente belas, não decolem?
Testino O sucesso tem muita relação com a personalidade da
modelo, não apenas com a estética. Kate Moss, por exemplo, é
mais baixa que as outras, não tem pernas perfeitas, mas transmite muita
força. O mesmo acontece com Gisele Bündchen. Hoje olhamos para ela
e vemos que tem um corpo incrível. Mas, quando começou, não
era aquele padrão saudável que se procurava no mundo da moda. Ela
precisou batalhar muito.
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As opiniões sobre o mundo da moda e das modelos costumam ser
antagônicas: ou é um olimpo de perfeição, fama, sucesso
e dinheiro ou um antro de perdição, drogas e vazio existencial.
Depois de tanto tempo de experiência, o que o senhor concluiu? Testino
Estou nesse negócio há 27 anos e garanto: é o mais
incrível do mundo para trabalhar. Tem possibilidades, surpresas, belezas,
criatividade, energia. O problema do mundo da moda é que ele cria ciúme.
Mas já vi tanta coisa pior. Que tal comparar com os trabalhadores das minas
de diamante ou com as crianças nas fábricas indianas?
Veja Todo mundo quer parecer bonito na foto, ou melhor do que é
na realidade. O que o senhor diz para o fotografado quando isso não acontece?
Testino Há pessoas que são mais bonitas na vida real do que
quando saem em uma foto. Isso tem muito a ver com a forma como elas se relacionam
com a câmera. Se você está relaxado, faz muita diferença.
Também faz diferença o que você está escondendo ou
querendo mostrar.
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Como o senhor consegue arrancar o melhor dos seus fotografados?
Testino Tento fazer duas coisas. Com as mulheres, em geral eu me sento
ao lado do cabeleireiro e do maquiador e acompanho o que eles estão fazendo.
Já aprendi que, se eu gosto antes de fazer a foto, na hora sai muito melhor.
E também tento fazer uns exercícios para que as pessoas fiquem à
vontade comigo. Elas precisam acreditar que eu estou disposto a tudo para que
saiam bem. Há fotógrafos que gostam de mostrar o lado ruim das pessoas.
É um aspecto da fotografia, mas não o meu. No meu trabalho, quero
que saiam o melhor possível.
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Como relaxar celebridades do nível da falecida princesa Diana?
Testino Se você entra para fotografar alguém sentindo-se menor
que essa pessoa, fica muito difícil. Minha sorte é que eu gosto
de gente. Seja uma estrela de Hollywood, seja uma cozinheira, vou tratar da mesma
maneira. Acho que esse meu jeito ajuda a deixar as pessoas à vontade comigo,
independentemente de quem elas sejam.
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Qual a pessoa mais interessante que já fotografou? Testino
Diana, que tinha muitas coisas juntas: beleza pictórica e beleza
interior, glamour, generosidade e bondade. Era muito verdadeira, muito especial.
Veja É
verdade que no início da sessão de fotos ela estava rígida
e formal? Testino
Exatamente. Nós, que somos sul-americanos, ficamos à vontade com
mais facilidade. Foi difícil no começo, mas na verdade é
sempre difícil. Muitas vezes passo ridículo para que a outra pessoa
perceba que não precisa ser perfeita. Eu danço, me jogo, faço
graça. Qualquer coisa para que ela se sinta à vontade. Da mesma
forma que você, como jornalista, quer achar alguma coisa que outros jornalistas
não acharam para que a sua reportagem seja mais interessante, nós,
fotógrafos, também temos de conseguir que a pessoa que está
sendo fotografada nos dê algo que não daria a outro. Não é
fácil, até porque temos pouco tempo. Eu tive apenas um dia para
fotografar Diana, o que é muito pouco para ter quantidade e qualidade.
Veja Qual fotografado
deu mais trabalho? Testino
Acho que o trabalho é sempre difícil. Com cada atriz que fotografo
tenho de trabalhar o que ela quer, o que ela acha que é, e trazer um pouco
para o meu mundo. Quando fotografo uma modelo é ainda mais difícil,
porque não quero repetir o que já fiz antes e muitas delas já
fotografei várias vezes. Tenho de encontrar soluções novas
sempre, e isso implica quebrar barreiras, destruir o que já foi feito e
achar uma forma nova. Estou com 27 anos de profissão e a minha concorrência,
hoje, tem uns vinte anos menos que eu. Poucos fotógrafos da minha geração
continuam trabalhando com essa intensidade. É muito difícil se renovar
todos os dias.
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Qual a sua foto mais memorável? Testino
Sem dúvida, Diana marcou mais que qualquer outra e virou uma imagem
bem mítica. Depois fiz uma capa do disco Ray of Light, da Madonna,
que também marcou época. Incluo ainda as minhas imagens para a Gucci,
com Tom Ford. Foi ali que achei meu estilo e foram essas fotos que fizeram minha
carreira dar um salto. Na verdade, meu estilo foi muito determinado pelo Rio de
Janeiro. As férias que eu passei na cidade, com 16, 17, 18 anos, foram
as mais incríveis da minha vida. No meu trabalho sempre tento recriar aqueles
anos. Quando comecei a voltar ao Brasil e fazer minhas imagens no país,
muitas vezes trabalhando com Gisele, meu estilo ganhou muita força. Antes
disso eu morava em Londres e imitava os ingleses, pois admirava muito o trabalho
deles e minha formação em fotografia vem da Inglaterra. Foi só
quando descobri que eu não era inglês, mas sul-americano, e comecei
a fazer fotos no Brasil, que consegui um estilo único.
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Conhecendo tão bem o Rio de Janeiro, o senhor crê que a
cidade pode se tornar um centro de turismo sexual, para gays e héteros? Testino É impossível
não ter um contexto sensual, nem digo sexual. No verão, que é
quando os turistas vão mais para o Rio de Janeiro, tem muito corpo na cidade.
É tanto calor que não dá para colocar nem a camisa. E os
brasileiros são lindos, então tudo bem mostrarem o corpo. Mas não
diria que o turismo sexual está na base disso tudo. Acho que isso é
uma minoria.
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O livro sobre Lima que o senhor está preparando é uma viagem nostálgica? Testino Resolvi fazer esse livro
porque, quando falo que venho do Peru, muitas vezes as pessoas pensam que minha
mãe tem uma lhama e mora na montanha. Por mais que eu explique que venho
da costa, onde nem existem lhamas, quem nunca esteve no Peru não consegue
imaginar como é, porque tudo o que vemos do Peru no exterior é Machu
Picchu. Notei uma nova geração de artistas que olha para o país
para se inspirar, busca mais a própria identidade. Muitos trabalham fotografando
e pintando sujeitos típicos peruanos, na verdade típicos de Lima,
porque o Peru é um país muito variado, que tem a costa com praia,
as montanhas na Cordilheira dos Andes e a selva. Decidi fazer esse livro para
mostrar o que é verdadeiramente Lima: uma mistura de muitas raças,
e vou reunir o trabalho de uns 120 artistas.
Veja
O senhor fica triste quando vê a Lima de hoje, da mesma forma
que cariocas da sua geração se angustiam quando vêem o que
aconteceu com o Rio? Testino
Eu não gosto de viver no passado, sou muito do presente. Adoro a Lima de
agora. Tive uma infância incrível e gosto também da mentalidade
dos jovens de hoje, que são muito mais abertos, muito mais informados.
Lembro que quando jovem eu viajava e, ao voltar ao Peru, botava uma calça
florida, e todo mundo me olhava como se eu fosse louco. Ia para Nova York e via
todo mundo se vestindo assim. Era um problema de informação.
Veja
A temida Anna Wintour, editora da revista Vogue americana, comentou
certa vez que o senhor tem um grande senso de estilo e realmente entende de moda.
Como se mantém informado? Testino
Eu adoro o meu trabalho. Vou a todos os desfiles que posso em Milão,
Londres, Paris, Nova York, duas vezes por ano. Coleciono arte também e
estou sempre preocupado em me manter bem informado sobre o que está acontecendo.
Tenho muita curiosidade sobre a juventude, então saio, vejo o que acontece,
vou a festas. Acho que é essencial focar na juventude, porque a moda é
para os jovens. Não sou eu que vou sair com o último grito da moda,
são os jovens.
Veja
Na sua opinião, quem é a mulher mais bonita de todos os
tempos? Testino Que difícil!
Tem tanta mulher linda no mundo. Quando vou ao Brasil, também tem tantas
belezas, como Gisele, Fernanda Tavares, Fernanda Lima, Ana Beatriz Barros. Acho
que não dá para escolher uma única. Vamos dizer que, no passado
recente, tivemos Sophia Loren, que era de uma beleza incrível. Cresci com
essas atrizes: Marlene Dietrich, Marilyn Monroe.
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E se fosse escolher uma só? Testino
Na verdade, eu sempre escolhi Kate Moss. Porque para mim a beleza não
é só uma coisa física. A beleza física cansa. Quando
você olha para uma menina bonita, depois de um tempo, como acontece com
qualquer coisa bonita, você se cansa por não ter outras coisas ali.
Kate vem com muito bom humor, bom gosto, criatividade, novidade. Ela vira outra
coisa. As pessoas esquecem que os fotógrafos têm de viver com essas
modelos todos os dias. E, se elas não são interessantes, simpáticas,
divertidas, fica muito chato.
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Por que o senhor elogia tanto Kate Moss quando se sabe que ela não
é nenhum modelo de conduta exemplar? Testino
As pessoas são um pouco duras com Kate. Trabalhamos muito juntos
e comigo ela sempre foi muito responsável.
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O que uma modelo deve fazer para cair nas suas graças? Testino
Precisa ser bonita, ter um bom corpo, estar no peso certo, ter pernas e
ser divertida e inteligente.
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Por favor, revele-nos o segredo: o que uma pessoa comum deve fazer quando
está diante de um fotógrafo? Testino
Em vez de fingir e tentar mostrar o que não é, deve mostrar
quem realmente é.