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Edição 2009

23 de maio de 2007
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Auto-retrato
Jay Kopelman

Divulgação


Ex-tenente-coronel dos fuzileiros navais, Jay Kopelman, de 46 anos, trouxe um peculiar suvenir de guerra do Iraque: Lava, um cachorro encontrado em Falluja. A experiência está relatada em De Bagdá, com Muito Amor (editora Best Seller), escrito em parceria com a jornalista Melinda Roth. De La Jolla, na Califórnia, onde vive com Lava e a família, Kopelman conversou com o repórter Jerônimo Teixeira.

É COMUM SOLDADOS ADOTAREM CACHORROS EM ZONAS DE CONFLITO? Sim, muito comum, tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Os militares americanos, ingleses e das outras nações envolvidas na ocupação adotam cachorros e gatos como mascotes, apesar das regras contrárias a isso. As Forças Armadas dos Estados Unidos têm um regulamento muito claro a respeito do assunto, proibindo ao soldado até mesmo alimentar um bicho. Mas achei que valia a pena contornar as proibições. Por que empreguei meu tempo salvando um cachorrinho? Não sei, mas pelo menos salvei alguma coisa.

QUE PROBLEMAS O SENHOR ENFRENTOU PARA TRANSPORTAR LAVA DO IRAQUE PARA OS ESTADOS UNIDOS? Precisei lidar com os regulamentos de que falei. Mas não tive outros problemas, porque não usei recursos das Forças Armadas. Não empreguei veículos militares no transporte do cachorro para fora do Iraque nem mobilizei militares em serviço.

O QUE ACHA QUE ACONTECERIA COM LAVA SE NÃO TIVESSE SIDO ADOTADO? Teria morrido, com certeza. Quando foi encontrado, em Falluja, tinha apenas cinco ou seis semanas de vida. Era muito pequeno e ainda não sabia se defender sozinho. Sem cuidados, acabaria abatido no meio de algum confronto armado. Ou seria devorado por algum cachorro maior. Os animais de Falluja estavam sempre famintos. Há muitos deles pelas ruas, pois a população local os considera impuros.

FALLUJA FOI O LUGAR MAIS DIFÍCIL DE SUA CARREIRA MILITAR? Creio que sim. Havia muito de inesperado. Nunca se sabia o que viria no dia seguinte.

UMA DE SUAS TAREFAS NO IRAQUE FOI AJUDAR NO TREINAMENTO DAS FORÇAS ARMADAS DO PAÍS. COMO FOI A EXPERIÊNCIA COM OS SOLDADOS IRAQUIANOS? Os iraquianos estavam longe de ser os soldados mais qualificados do mundo, mas tinham muita vontade de aprender. Eu falo muito pouco árabe e contava com um intérprete, porém a maior parte do treinamento dispensa palavras. Não precisamos falar a mesma língua para motivar as pessoas. Convivi bastante com os soldados iraquianos. Passamos o Ramadã junto com eles, acompanhando o jejum. Quando você está em um país que não é o seu, é importante aprender sobre a cultura local, tentar entendê-la. De outra forma, você só faz parte da ocupação. Não está ajudando ninguém.

E EM QUE SITUAÇÃO ESTÃO AS FORÇAS ARMADAS IRAQUIANAS? Estamos tentando fazer com que elas sejam responsáveis pela segurança do país, que assumam a própria soberania. Espero que essa transição se complete e nós possamos sair do Iraque. Acredito que não podemos simplesmente deixar o país do jeito que está hoje. Os iraquianos não estão prontos para tomar conta de si mesmos. Mas também não podemos ficar lá para sempre.

NA SUA PERCEPÇÃO, COMO A POPULAÇÃO IRAQUIANA VEM REAGINDO AOS OCUPANTES? Isso tem mudado bastante. Fomos muito bem recebidos quando chegamos. Éramos vistos como libertadores – afinal, estávamos derrubando Saddam Hussein. Depois de uns seis meses, já nos consideravam invasores. É uma dinâmica muito curiosa. Minha impressão é que os iraquianos querem sobretudo segurança. E nós não estamos conseguindo garantir isso. Se pudéssemos dar segurança às pessoas, elas gostariam de nós novamente.

LAVA FOI A MELHOR COISA QUE RESULTOU DE SUA EXPERIÊNCIA NO IRAQUE? Foi uma das melhores coisas. O melhor de tudo foi conseguir deixar o país sem perder um braço ou uma perna.

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