"As políticas
raciais beneficiam uma elite
negra, que chegou lá e precisa de ajuda
para lá ficar, e não a imensa maioria negra,
que é pobre e não consegue sair do lugar"
O sociólogo
Carlos Antonio Costa Ribeiro, do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), acaba de embarcar
para os Estados Unidos, a convite da Universidade Princeton.
Vai apresentar aos americanos seu trabalho intitulado "Classe,
raça e mobilidade social no Brasil". É uma pena
que a Secretaria de Igualdade Racial, da ministra Matilde
Ribeiro, não tenha tomado a mesma iniciativa de Princeton.
O trabalho do sociólogo é um poderoso facho
de luz na discussão racial no Brasil. Com base em dados
colhidos pelo IBGE em 1996, e aplicando fórmulas estatísticas
ilegíveis para um leigo mas que não comprometem
a compreensão do texto, Costa Ribeiro chega a conclusões
que todo estudioso do assunto deveria conhecer.
Entre os
mais pobres, a chance de subir na vida é determinada
por sua origem de classe, e não pela cor da pele. Ou
seja: os pobres enfrentam dificuldades para chegar lá
porque são pobres, e não porque são negros.
Exemplo: o filho de um modesto trabalhador urbano tem 1,3
vez mais chance de melhorar de vida do que o filho de um trabalhador
rural e não importa a cor da pele de cada um.
Entre os
mais abastados, as coisas mudam. A chance de se manter no
topo da pirâmide é maior entre os brancos do
que entre os negros ou pardos. Exemplo: os filhos brancos
de profissionais mais graduados têm duas vezes mais
chance de ficar no topo do que de cair; já os filhos
negros e pardos desses profissionais têm 1,2 vez mais
chance de se manter lá em cima.
Ao analisar as
oportunidades educacionais de brancos, negros e pardos, o
sociólogo encontrou um cenário semelhante. Nos
níveis escolares mais baixos, como o ensino básico
e o ensino médio, o peso da origem de classe é
maior que o peso da cor da pele. Mas, nos níveis escolares
mais altos, como concluir o primeiro ano de universidade ou
diplomar-se, o peso da cor da pele aumenta. Exemplo: para
completar o ensino médio, a pobreza é um obstáculo
seis vezes maior que a cor da pele, mas, para cursar o primeiro
ano de universidade, a pobreza é um obstáculo
2,5 vezes maior que a cor da pele.
O que tudo isso
significa? Que há mais desigualdade racial na cúpula
da sociedade brasileira do que na base. Costa Ribeiro escreve:
"Esta conclusão nos leva a sugerir que a discriminação
racial ocorre principalmente quando posições
sociais valorizadas estão em jogo". O trabalho do sociólogo
prova estatisticamente que existe discriminação
racial no Brasil, o que não é novidade. Também
prova que, mesmo na universidade, mesmo nos bons empregos,
mesmo nos ambientes onde a discriminação racial
cresce, a origem de classe sempre pesa mais que a cor da pele.
Sempre.
Portanto, as políticas
raciais do governo beneficiam uma elite negra, que chegou
lá e precisa de ajuda para lá ficar, e não
a imensa maioria negra, que é pobre e não consegue
sair do lugar. Isso sugere que o governo seria mais justo
e eficaz com negros e pardos se combatesse a pobreza. O movimento
negro, em vez de ameaçar professores, deveria pensar
nisso.