
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
A culpa é
deles
e nós é que (a)pagamos
O
governo decidiu consertar seu erro
da seguinte maneira: o consumidor
precisa desligar 20% da energia e
pagará mais caro por aquilo
que mantiver plugado na tomada
Orlando Brito/Obritonews
 |
|
Na quarta-feira, FHC participou de uma reunião sobre energia feita
num salão iluminado com mais de 100 lâmpadas (foto). Na sexta-feira,
o presidente voltou ao salão para participar do anúncio do pacotão
de racionamento. A diferença é que desta vez o ambiente estava na
penumbra |

Veja também |
|
|
|
O
recado energético de Brasília dado na semana passada tem
o seguinte teor: ou você corta de boa vontade 20% do consumo com
eletricidade em casa ou o governo é que vai cortar sua luz. Na
última sexta-feira com pelo menos seis meses de atraso,
segundo os especialistas , o governo informou à sociedade
a lista de medidas que podem ajudar o país a enfrentar a maior
crise de energia de sua história. Segundo o plano, quem consome
até 100 quilowatts/hora por mês (30% dos lares brasileiros)
não precisa economizar nada. Acima dessa faixa, a redução
é obrigatória e os que não aderirem ao pacote correm
o risco de ter a luz cortada por três dias na primeira infração,
e seis dias em caso de reincidência. Para deixar claro que não
está brincando, o governo impôs um tarifaço punitivo.
Contas superiores a 200 quilowatts/hora por mês pagarão 50%
a mais sobre o que exceder esse patamar. Haverá uma segunda sobretaxa,
de 200%, para as contas acima de 500 quilowatts. Traduzindo o eletriquês,
o plano do governo quer que você fique no escuro espontaneamente
e ainda assim pague mais pela pouca luz a que terá direito.
Ana Araujo
 |
| A
salvação da lavoura: usinas como esta termelétrica
construída em Mato Grosso são uma das alternativas mais
rápidas para tirar o Brasil da crise. Existem 49 delas projetadas.
Juntas, poderiam produzir tanta energia quanto Itaipu, mas só
nove estão em fase avançada |
Pessoas mais desligadas (ops!) podem não ter percebido que cortar
20% da luz equivale a abrir mão de todos os seus eletrodomésticos
e lâmpadas durante quase cinco horas, todos os dias. Num mês,
significa manter tudo apagado por seis dias, quase uma semana. A vantagem
da proposta do governo sobre um apagão permanente de cinco horas
diárias é que agora cabe a cada cidadão a tarefa
de decidir como e o que vai cortar. Cada um promove o próprio apagão.
E aqui é preciso prestar muita atenção: na maioria
dos casos é praticamente impossível reduzir 20% da conta
apenas eliminando o desperdício. Será preciso cortar na
carne. Observe o quadro da página 127, que trata do gasto de energia
de um apartamento de três quartos com suíte, varanda e dependências
completas de empregada. Nele moram um casal, seus dois filhos e uma empregada
doméstica que dorme no local. O imóvel possui onze ambientes
no total e consome 565 quilowatts hora por mês. De acordo com o
programa do governo, os donos desse apartamento precisam economizar 113
quilowatts. O quadro apresenta uma forma racional de fazer isso, mas ela
passa por deixar, ao menos temporariamente, o freezer desligado, entre
outros eletrodomésticos. É isso que se chama cortar na carne.
Como todo projeto emergencial, esse foi anunciado de improviso, sem que
os detalhes operacionais estivessem devidamente definidos. Um exemplo
disso: para definir os 20%, o governo vai usar como base a média
de consumo das pessoas no imóvel nos meses de maio, junho e julho
do ano passado. E quem não morava naquela residência? Vale
a despesa do morador anterior? E se o apartamento é novo? Todas
essas perguntas não têm resposta no momento e serão
discutidas na fase de implantação do programa. Outro tema
importante: o governo tem o direito legal de punir as pessoas que não
reduzirem a despesa cortando a luz? Já há advogados argumentando
que o tema irá parar na Justiça, necessariamente.
Ana Araujo
 |
Antonio Milena
 |
| Autonomia
total: o banqueiro Joseph Safra mandou instalar um gerador em seu
palácio com 11.000 metros de área construída,
localizado em São Paulo. O equipamento tem capacidade para
manter funcionando dois prédios com 24 andares cada um |
A
desorganização nesse caso é compreensível,
já que o governo não trabalhava com a perspectiva do apagão.
No relatório trimestral de inflação divulgado pelo
Banco Central no dia 30 de março, os técnicos simplesmente
não dedicaram uma única linha à crise energética.
O relatório do BC analisa a política monetária e
as taxas de juros do país e as perspectivas para os próximos
meses. Pior ainda foi o Boletim de Acompanhamento Macroeconômico
referente aos meses de abril e maio preparado pelo secretário de
Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward
Amadeo. O documento foi elaborado em 8 de maio e divulgado no dia seguinte.
A crise energética e a possibilidade de racionamento foram resumidas
em algumas poucas linhas, redigidas no seguinte tom: "Pairam dúvidas
quanto ao efeito da escassez de energia. Trata-se de um choque de oferta
típico, com as conseqüências conhecidas. O resultado
final para o desempenho da economia nos próximos meses dependerá
em muito da capacidade de adaptação, via esforços
de racionalização do setor produtivo". A assessoria do Banco
Central informa não se ter referido à crise porque não
recebeu até o final de março nenhuma informação
sobre a situação dramática da oferta de energia elétrica.
A assessoria de Amadeo foi procurada, mas não deu explicações.
Esse descaso acaba produzindo uma situação desconfortável
para a economia nacional. "Já há empresas desistindo de
investir no Brasil. A expectativa nacional é de recessão",
diz Paulo Feldman, sócio da consultoria americana Ernst & Young
em São Paulo. O problema é maior porque a área atingida
pelo racionamento de energia é justamente a responsável
por 78% do PIB do país, 76% da produção industrial
e 67% das exportações. Lembra-se da Belíndia, criação
do economista Edmar Bacha para definir o Brasil como uma mistura da riqueza
(Bélgica) e da pobreza (Índia)? Pois bem: vão cortar
a luz da Bélgica. Uma parcela reduzida das companhias estava devidamente
preparada para um apertão desse tipo. "O empresariado estava acostumado
a ouvir falar da ameaça da falta de energia, mas como esta ameaça
nunca se concretizava ninguém levava o problema a sério",
diz Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim,
um dos maiores consumidores de energia do país. A Votorantim, dona
de onze hidrelétricas, produz cerca de 50% da energia que sua empresa
de alumínio, a Companhia Brasileira de Alumínio, consome.
Paul J. Richards/AFP
 |
| Os
Estados Unidos contra o apagão: o presidente George W. Bush
visita uma usina. Ele anunciou na semana passada um plano bilionário
para aumentar a oferta de energia. Quer liberar a exploração
de petróleo em reservas naturais e incentivar formas alternativas
de energia |
A situação atual é a seguinte. Entre os maiores consumidores
de energia, alguns se prepararam para a crise. É o caso da Companhia
Siderúrgica Paulista (Cosipa), dona de uma usina termelétrica,
que produz 15% da energia que consome e está aumentando a capacidade
para 22%. A cervejaria Kaiser associou-se a produtores de energia para
garantir o fornecimento. Investiu 12 milhões de dólares
no projeto. Suas duas principais fábricas podem funcionar independentemente
do sistema público de energia. A rede de supermercados Pão
de Açúcar compra geradores desde 1998 e, a partir desta
semana, as gôndolas serão menos iluminadas.
Outras companhias foram menos previdentes. Deixaram o tempo passar e,
embora estejam apavoradas, agora enfrentam algumas barreiras, como a falta
de geradores no mercado. Mais do que isso, nem há turbinas para
montar termelétricas a toque de caixa. Por isso, a atitude mais
sensata parece ser mesmo a economia brava. "O Brasil está no meio
de uma operação de guerra", diz Roberto Hukai, consultor
e professor do curso de pós-graduação em energia
na Universidade de São Paulo.
O racionamento só entra em vigor em 1° de junho, mas a sociedade
já começava a fazer a sua parte na semana passada. De acordo
com os computadores das empresas de distribuição de energia,
o consumo em diversas cidades havia caído. Na Grande São
Paulo, registrava-se uma queda da ordem de 5% em comparação
com a semana anterior. Isso só confirma que a população
brasileira parece possuir uma boa vontade ilimitada. No governo Sarney,
concordou em ficar com o salário congelado. No governo Collor,
aceitou ficar com a poupança apreendida. E agora, no governo Fernando
Henrique, admite desligar 20% de sua luz, em muitos casos abrindo mão
dos eletrodomésticos que conseguiu comprar graças ao aumento
de renda proporcionado pelo Plano Real.
|
|
 |
|
 |

|
 |