Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Carta ao leitor
As Farc e a capa de VEJA


Celso Junior/AE
Reunião mista do Congresso discute documento da Abin sobre doação de guerrilha ao PT

A reportagem de capa de VEJA da semana passada revelou que nos arquivos da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, havia um documento em que se registrava o anúncio da doação por parte das Farc, a narcoguerrilha colombiana, de 5 milhões de dólares à campanha eleitoral do PT em 2002. A apuração de VEJA conseguiu comprovar que o assunto foi mesmo investigado pela Abin e informa não ter sido possível chegar a evidências sólidas de que o dinheiro efetivamente entrou no país. A reportagem produziu reações fortes de integrantes do governo e do Partido dos Trabalhadores, que colocaram sob suspeita as fontes e as motivações de VEJA. Criticou-se, em especial, o fato de o assunto ter sido estampado na capa da revista.

O teor das reações contrárias à reportagem é, em si, uma prova de que ela não poderia ter merecido atenção menor por parte da revista. Tinha mesmo de ser a capa. Depois da publicação da capa de VEJA, as Farc, adeptas das práticas do terrorismo e do seqüestro, não podem mais ser vistas da forma romântica e ingênua como eram encaradas por militantes esquerdistas e até pelo governo brasileiro. A reportagem de VEJA forçou os petistas dentro e fora do governo a explicitar pública e inequivocamente seu repúdio às Farc e, pela primeira vez, a descrevê-las como elas são: um grupo violento, criminoso, antidemocrático, expansionista, financiado pelo narcotráfico e cuja ação é nociva à Colômbia e a seus vizinhos. Um grande avanço, portanto.

Na semana passada, a denúncia foi discutida em uma reunião da comissão mista do Congresso que trata do Controle das Atividades de Inteligência. Confirmou-se a existência de um documento na Abin segundo o qual "as Farc estariam doando" dinheiro a petistas, mas o órgão não teria julgado o relato forte o suficiente para merecer apuração oficial mais profunda. Uma nova reportagem de VEJA sobre o assunto publicada na presente edição mostra que não foi bem assim. A revista traz à luz a figura do coronel Eduardo Adolfo Ferreira, que integrou os quadros da Abin e cuidou diretamente da investigação sobre a prometida doação das Farc. Ferreira revela que a questão não foi tratada apenas em um breve relato, mas em três extensos memoriais que foram parar nas mãos de Marisa Del'Isola, então chefe da Abin. Que destino os documentos tiveram ainda é um mistério. Ainda.

 
 
 
 
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