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Auto-retrato
Miguel Horta
Roberto Setton
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Miguel Horta e Costa preside desde 2002 a Portugal Telecom, o maior
grupo privado português. Ex-secretário de Comércio
de Portugal, o executivo tem antepassados que também cruzaram
o Atlântico para aventurar-se no Novo Mundo. Ele conversou
em São Paulo com o editor executivo Marcio Aith sobre a revolução
da telefonia e sua experiência no Brasil.
O QUE O TROUXE PELA PRIMEIRA VEZ AO BRASIL?
Vim pela primeira vez em 1982. Era presidente de uma empresa
que, em parceria com a Embratel, montou um cabo submarino, o Atlantis,
ligando o Brasil a Portugal. Foi paixão à primeira
vista. Hoje, o Brasil é parte integrante de minha vida. Até
comprei um pequeno apartamento no Rio.
SUAS LIGAÇÕES FAMILIARES
COM O PAÍS SÃO BEM MAIS ANTIGAS, NÃO?
Meu avô em quinto grau, Antônio José da
Franca e Horta, foi governador da Capitania de São Paulo
em 1805. Aliás, o nome da cidade de Franca é uma homenagem
a ele. Li suas cartas descrevendo o Brasil do início do século
XIX. Numa delas, relata a alegria de ter provado o café.
Imagine, é fascinante. A atualidade do país também
me interessa muito. Nos últimos quinze anos, o Brasil passou
por uma revolução gigantesca, mesmo que nem sempre
seja tão perceptível. Basta lembrar como era difícil
conseguir uma linha fixa telefônica poucos anos atrás.
Hoje, há mais de 65 milhões de celulares nas ruas
MAS SERÁ QUE O PAÍS AINDA
REPRESENTA UM MERCADO COM CHANCES DE EXPANSÃO, PRINCIPALMENTE
NA ÁREA DE TELECOMUNICAÇÕES?
Sim, tem um potencial de crescimento que só posso definir
como apreciável. Podemos chegar aos 90 milhões de
celulares. Dito de outra forma: já investimos 7 bilhões
de dólares no país e não nos arrependemos disso.
QUANTO, PORÉM, O BRASIL É
ATRAENTE EM RELAÇÃO A OUTROS PAÍSES?
Só a China se equipara ao Brasil sob o ponto de vista
do potencial de mercado. Lá, a grande expectativa é
a abertura do mercado de telecomunicações no ano que
vem, como resultado da adesão do país à Organização
Mundial do Comércio. Por enquanto, estamos operando somente
em Macau, que cresce a taxas absurdas, de 25% a 30% ao ano. A ilha
tem grande vocação para o entretenimento e recebe
25 milhões de turistas a cada ano. É possível
que as receitas anuais dos cassinos em Macau já superem as
de Las Vegas.
O BRASIL AINDA É UM PAÍS
DE MUITAS ASSIMETRIAS E DESIGUALDADE DE RENDA. O QUE A REVIGORAÇÃO
ECONÔMICA DE PORTUGAL PODE ENSINAR AO BRASIL?
A mudança em Portugal ocorreu na abertura democrática,
em 1974. Os novos ares permitiram a ascensão de uma nova
geração na política e na economia. Eram jovens
defensores da abertura econômica e da atração
de investimentos estrangeiros. A democracia permitiu o reencontro
de Portugal com sua vocação histórica. Ficou
claro que, sempre que nos isolamos, perdemos.
O SENHOR ACHA LEGÍTIMO QUE AS EMPRESAS
TRADICIONAIS DE TELEFONIA BARREM AS LIGAÇÕES TELEFÔNICAS
FEITAS PELA INTERNET PORQUE SEUS INVESTIMENTOS EM TECNOLOGIAS MAIS
ANTIGAS AINDA NÃO RENDERAM O ESPERADO?
A telefonia pela internet ainda tem um caminho a percorrer,
mas certamente vai escrever uma nova página na história
das telecomunicações do planeta. Todos nós
merecemos os benefícios dessa inovação. Não
é justo barrá-la. O que temos de fazer é nos
adaptar a ela.
COMO UMA GRANDE EMPRESA CONSEGUE ADAPTAR-SE
A INOVAÇÕES QUE SURGEM NA PERIFERIA DOS NEGÓCIOS?
Temos de fazer um grande esforço e ajustar toda a nossa
arquitetura. O importante é focar na satisfação
do cliente, que sempre quer qualidade e bom preço. Não
há outra solução. Para mim, o principal indicador
da competitividade de uma empresa está em sua capacidade
de mudar.
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