Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Auto-retrato
Miguel Horta

Roberto Setton


Miguel Horta e Costa preside desde 2002 a Portugal Telecom, o maior grupo privado português. Ex-secretário de Comércio de Portugal, o executivo tem antepassados que também cruzaram o Atlântico para aventurar-se no Novo Mundo. Ele conversou em São Paulo com o editor executivo Marcio Aith sobre a revolução da telefonia e sua experiência no Brasil.

O QUE O TROUXE PELA PRIMEIRA VEZ AO BRASIL?
Vim pela primeira vez em 1982. Era presidente de uma empresa que, em parceria com a Embratel, montou um cabo submarino, o Atlantis, ligando o Brasil a Portugal. Foi paixão à primeira vista. Hoje, o Brasil é parte integrante de minha vida. Até comprei um pequeno apartamento no Rio.

SUAS LIGAÇÕES FAMILIARES COM O PAÍS SÃO BEM MAIS ANTIGAS, NÃO?
Meu avô em quinto grau, Antônio José da Franca e Horta, foi governador da Capitania de São Paulo em 1805. Aliás, o nome da cidade de Franca é uma homenagem a ele. Li suas cartas descrevendo o Brasil do início do século XIX. Numa delas, relata a alegria de ter provado o café. Imagine, é fascinante. A atualidade do país também me interessa muito. Nos últimos quinze anos, o Brasil passou por uma revolução gigantesca, mesmo que nem sempre seja tão perceptível. Basta lembrar como era difícil conseguir uma linha fixa telefônica poucos anos atrás. Hoje, há mais de 65 milhões de celulares nas ruas

MAS SERÁ QUE O PAÍS AINDA REPRESENTA UM MERCADO COM CHANCES DE EXPANSÃO, PRINCIPALMENTE NA ÁREA DE TELECOMUNICAÇÕES?
Sim, tem um potencial de crescimento que só posso definir como apreciável. Podemos chegar aos 90 milhões de celulares. Dito de outra forma: já investimos 7 bilhões de dólares no país e não nos arrependemos disso.

QUANTO, PORÉM, O BRASIL É ATRAENTE EM RELAÇÃO A OUTROS PAÍSES?
Só a China se equipara ao Brasil sob o ponto de vista do potencial de mercado. Lá, a grande expectativa é a abertura do mercado de telecomunicações no ano que vem, como resultado da adesão do país à Organização Mundial do Comércio. Por enquanto, estamos operando somente em Macau, que cresce a taxas absurdas, de 25% a 30% ao ano. A ilha tem grande vocação para o entretenimento e recebe 25 milhões de turistas a cada ano. É possível que as receitas anuais dos cassinos em Macau já superem as de Las Vegas.

O BRASIL AINDA É UM PAÍS DE MUITAS ASSIMETRIAS E DESIGUALDADE DE RENDA. O QUE A REVIGORAÇÃO ECONÔMICA DE PORTUGAL PODE ENSINAR AO BRASIL?
A mudança em Portugal ocorreu na abertura democrática, em 1974. Os novos ares permitiram a ascensão de uma nova geração na política e na economia. Eram jovens defensores da abertura econômica e da atração de investimentos estrangeiros. A democracia permitiu o reencontro de Portugal com sua vocação histórica. Ficou claro que, sempre que nos isolamos, perdemos.

O SENHOR ACHA LEGÍTIMO QUE AS EMPRESAS TRADICIONAIS DE TELEFONIA BARREM AS LIGAÇÕES TELEFÔNICAS FEITAS PELA INTERNET PORQUE SEUS INVESTIMENTOS EM TECNOLOGIAS MAIS ANTIGAS AINDA NÃO RENDERAM O ESPERADO?
A telefonia pela internet ainda tem um caminho a percorrer, mas certamente vai escrever uma nova página na história das telecomunicações do planeta. Todos nós merecemos os benefícios dessa inovação. Não é justo barrá-la. O que temos de fazer é nos adaptar a ela.

COMO UMA GRANDE EMPRESA CONSEGUE ADAPTAR-SE A INOVAÇÕES QUE SURGEM NA PERIFERIA DOS NEGÓCIOS?
Temos de fazer um grande esforço e ajustar toda a nossa arquitetura. O importante é focar na satisfação do cliente, que sempre quer qualidade e bom preço. Não há outra solução. Para mim, o principal indicador da competitividade de uma empresa está em sua capacidade de mudar.

 
 
 
 
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