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André
Petry Demagogia juvenil
"O
que está acontecendo com os jovens da Febem de São Paulo é
um escárnio desmesurado que coisifica a eles e a nós próprios"
Eu defendo os jovens da Febem. Eu os defendo porque eles são
criminosos, delinqüentes e marginalizados. Eu os defendo porque são
feios, pobres, analfabetos. Eu os defendo porque são pretos e pardos. Eu
os defendo porque eles têm muitas cicatrizes e poucos dentes. Porque são
párias da sociedade. Porque são tratados como lixo humano, escória
social, monturos desprezíveis. Eu os defendo porque estão do lado
errado da vida, estão no avesso do conforto, do prazer, do brilho. Eu os
defendo porque uma sociedade que deixa alguém sem defesa, à deriva
de respeito, desumaniza-se a si mesma. Eu os defendo porque sou a favor de nossa
própria humanidade e o que está acontecendo com os jovens
da Febem de São Paulo é um escárnio desmesurado que coisifica
a eles e a nós próprios. São fugas, rebeliões, estupro,
tortura, paulada, espancamento. E o que faz
o governo de São Paulo? Está
fazendo uma reforma radical, que os especialistas até acham boa e necessária,
mas já advertem que não resolverá o problema.
E o que diz o governo de São Paulo?
Diz que não pode resolver da noite para o dia problemas
que começaram há anos e anos. Textualmente, o presidente da Febem,
Alexandre de Moraes, disse o seguinte: "Eu seria leviano em afirmar que de uma
hora para outra tudo vai melhorar. O que vem de trinta anos..." Claro, seria mesmo
leviano prometer uma solução completa em tempo tão curto.
Mas sua declaração tem um defeito grave: parte do princípio
de que as atuais autoridades do governo paulista chegaram ao posto anteontem.
É uma enganação grosseira cujo objetivo parece ser apenas
o de inocentar um político que está no governo de São Paulo
há lembremo-nos nada menos que dez anos! O governador Geraldo
Alckmin, um tucano cuja plumagem vistosa alçou à condição
de presidenciável, está no governo há anos e anos, portanto.
Foi vice-governador no primeiro mandato de Mário Covas, eleito em 1994.
Foi vice-governador no segundo mandato, durante o qual, com a morte do titular,
virou o governador de fato e de direito. Depois, foi eleito ele próprio
governador... Como vice e titular, Geraldo Alckmin está lá há
dez anos. Repetindo: dez anos. Há dez anos,
a Febem já era um depósito humano, uma universidade de degeneração,
atrocidades e barbárie. Será que, no linguajar das autoridades que
cuidam da juventude infratora em São Paulo, uma década inteira quer
dizer "de uma hora para outra"? Será que dez anos é pouco tempo
para fazer uma reforma na Febem? Ou será que o governo só levou
o assunto a sério depois que com risco para sua "imagem"
começaram a pipocar descontroladamente fugas em massa e rebeliões
sangrentas? Talvez este seja o ponto: o governador resolveu mexer no assunto (dignando-se,
finalmente, a retomar projetos relevantes inaugurados por Mário Covas)
depois que pressentiu um risco à sua "imagem". É revoltante, mas
parece que pouco importava que os jovens estivessem encarcerados numa latrina
humana enquanto isso não ferisse a "imagem" do governo. Eu
defendo os jovens da Febem porque, além de tudo, ainda são vítimas
da demagogia das autoridades. |