
A seguir, o primeiro capítulo do livro À
Espera de um Milagre, de Sthephen King, título
relançado pela Editora Objetiva. O livro, adaptado
para o cinema, concorre ao Oscar de melhor filme deste ano
e é estrelado por Tom Hanks.
Parte
um
As duas meninas
mortas
1
Isso aconteceu em 1932, quando a penitenciária
estadual ainda ficava em Cold Mountain. E, é claro, a cadeira
elétrica também estava lá.
Os detentos faziam piadas sobre a cadeira
do mesmo modo que as pessoas fazem piadas sobre coisas que
lhes dão medo, mas que não podem ser evitadas. Chamavam-na
de "Velha Fagulha" ou "Carga Pesada".
Faziam piadas a respeito da conta de eletricidade e de como
o Diretor Moores iria cozinhar a sua ceia do Dia de Ação
de Graças naquele outono, com sua mulher Melinda doente
demais para cozinhar.
Mas, para os que efetivamente teriam que
se sentar naquela cadeira, logo, logo a situação perdia
a graça. Presidi a setenta e oito execuções durante o tempo
que passei em Cold Mountain (essa é uma cifra sobre a qual
nunca me confundi e me lembrarei dela no meu leito de morte)
e acho que a maioria daqueles homens finalmente se apercebia
por completo da realidade do que lhes estava acontecendo,
quando seus tornozelos estavam sendo afivelados ao carvalho
sólido das pernas da Velha Fagulha. Vinha-lhes então a percepção
(podia-se vê-la enchendo seus olhos, uma espécie de desalento
frio) de que suas pernas tinham encerrado suas carreiras.
O sangue ainda fluía nelas, os músculos ainda estavam fortes,
mas mesmo assim elas estavam liquidadas: nunca mais iriam
caminhar um quilômetro pelo campo nem dançar com uma moça
em uma festa de galpão. Os clientes da Velha Fagulha chegavam
à noção de sua morte a partir dos tornozelos. Havia um saco
de seda negra que era colocado nas suas cabeças depois que
tinham terminado seus últimos comentários destrambelhados
e, na maioria das vezes, desconjuntados. O saco supostamente
era para o bem deles, porém eu sempre achei que, na verdade,
era para o nosso bem, para impedir-nos de ver a horrível
onda de desalento nos seus olhos, quando se davam conta
de que iam morrer com os joelhos dobrados.
Em Cold Mountain, não havia um corredor
da morte, apenas o Bloco E, isolado dos outros quatro e
com aproximadamente um quarto das dimensões deles, de tijolos
em vez de madeira, com um telhado horroroso de metal nu
que, no verão, resplandecia como um olho em delírio. Havia
seis celas lá dentro, três de cada lado de um largo corredor
central, cada uma quase o dobro das celas dos outros quatro
blocos. Além disso, cada uma para um só ocupante. Ótimas
acomodações para uma prisão (principalmente nos anos trinta),
mas os detentos as trocariam por celas em quaisquer dos
outros quatro blocos. Pode acreditar no que lhe digo, eles
trocariam sim.
Durante os meus anos como superintendente
de bloco, nunca todas as seis celas ficaram ocupadas ao
mesmo tempo é preciso agradecer a Deus pelas pequenas
benesses. O máximo foi de quatro, brancos e pretos misturados
(em Cold Mountain não havia segregação alguma entre os mortos-vivos)
e isso era uma pequena amostra do inferno. Um deles era
uma mulher, Beverly McCall. Era preta como um ás de espadas
e linda como o pecado que você nunca teve coragem suficiente
para cometer. Tinha aturado seis anos de espancamento pelo
marido, mas não aturaria um único dia de pilantragem dele.
Na noite em que descobriu que ele a estava traindo, ficou
esperando pelo infeliz do Lester McCall, conhecido por seus
cupinchas (e, presumivelmente, por sua amante de curtíssima
duração) como Cortador, no topo da escada que conduzia ao
apartamento por cima de sua barbearia. Esperou até que ele
estivesse a meio caminho de tirar seu sobretudo e então
despejou suas entranhas traidoras por cima dos seus sapatos
bicolores. Usou uma das navalhas do próprio Cortador para
isso. Duas noites antes da data em que devia se sentar na
Velha Fagulha, chamou-me à sua cela e disse que tinha recebido
num sonho a visita do seu pai-de-santo. Ele lhe tinha dito
que devia abandonar seu nome-escravo e morrer com seu nome-livre,
Matuomi. Esse era o seu pedido, que sua ordem de execução
fosse lida com o nome de Beverly Matuomi. Imagino que seu
pai-de-santo não lhe havia dado nenhum prenome ou, de qualquer
modo, um nome que ela pudesse entender. Eu disse que estava
bem, certo, sem problema. Uma coisa que aqueles anos como
chefe dos guardas me tinham ensinado era nunca recusar nada
a um condenado a menos que não tivesse outro jeito. No caso
de Beverly Matuomi, de qualquer maneira, não fazia a menor
diferença. O Governador telefonou no dia seguinte, por volta
das três da tarde, comutando sua sentença para prisão perpétua
na Colônia Penal para Mulheres de Grassy Valley só
penal e nada de pênis, costumávamos dizer naquela época.
Deixe que lhe diga que fiquei contente ao ver a bunda redonda
de Bev indo para a direita ao invés de para a esquerda,
quando ela chegou diante da mesa da guarda.
Uns trinta e cinco anos depois tinha
que ser pelo menos trinta e cinco vi aquele nome
na página de avisos fúnebres do jornal, embaixo do retrato
de uma senhora preta de rosto magricela, com uma nuvem de
cabelos brancos e óculos com pedras de fantasia nos cantos
da armação. Era Beverly. Passara os últimos dez anos de
sua vida como uma mulher livre, dizia o necrológio, e tinha
salvo a biblioteca da cidadezinha de Raines Falls praticamente
sozinha. Também lecionara na escola dominical e tinha sido
muito querida naquele pequeno fim de mundo. A manchete dizia
BIBLIOTECÁRIA MORRE DE ATAQUE CARDÍACO e, embaixo, em tipo
menor, quase como uma lembrança tardia: Passou Mais de
Duas Décadas na Prisão por Homicídio. Somente os olhos,
grandes e radiantes por trás dos óculos com pedras de fantasia
nos cantos da armação, eram iguais. Mesmo com setenta e
tantos, eram os olhos de uma mulher que não hesitaria em
pegar uma gilete de um jarro azul com desinfetante caso
o impulso parecesse premente. Sabe como são os assassinos,
mesmo que acabem como velhas bibliotecárias em cidadezinhas
sonolentas. Pelo menos saberia se passasse tanto tempo como
eu tomando conta de assassinos. Só houve uma ocasião em
que tive uma dúvida. É por isso, acho eu, que estou escrevendo
isso.
O corredor largo no centro do Bloco E tinha
o piso coberto com linóleo da cor de limas velhas, de modo
que o que nas outras prisões era chamado de O Último Quilômetro,
em Cold Mountain era, às vezes, chamado de O Quilômetro
Verde. Ou então, o Corredor da Morte. Calculo que
media umas sessenta passadas grandes, no sentido norte-sul,
de uma ponta à outra. Numa ponta, ficava a solitária. Na
outra, havia uma junção em T. Uma volta para a esquerda
significava a vida se você chamasse de vida o que
transcorria no pátio de exercícios calcinado de sol, e muitos
assim chamavam. Muitos levavam essa vida durante anos, sem
quaisquer conseqüências ruins visíveis. Ladrões, piromaníacos
e pervertidos sexuais, todos falando suas conversas, andando
suas caminhadas e fazendo seus pequenos tratos.
Entretanto, uma volta para a direita
e as coisas eram diferentes. Primeiro você entrava na minha
sala (onde o carpete também era verde, algo que estava sempre
querendo trocar mas nunca chegava a fazê-lo) e passava em
frente à minha mesa, que era flanqueada à esquerda pela
bandeira dos Estados Unidos e à direita pela bandeira estadual.
No lado oposto havia duas portas. Uma dava para um pequeno
banheiro usado por mim e pelos guardas do Bloco E (às vezes
até pelo Diretor Moores). A outra se abria para uma espécie
de galpão de depósito. Ali é que você terminava quando percorria
o Corredor da Morte.
Era uma porta pequena quando eu
passava por ela, tinha que abaixar a cabeça e John Coffey
na realidade teve que se sentar e deslizar. Saía-se para
um patamar pequeno, depois se descia por três degraus de
cimento para um piso de tábuas corridas. Era uma sala deprimente,
sem aquecimento e com um teto de metal, igual ao do bloco
ao qual estava anexado. Durante o inverno, o frio ali era
forte o bastante para fazer enxergar seu hálito e no verão
era sufocante. Na execução de Elmer Manfred acho
que foi em julho ou agosto de 30 tivemos nove testemunhas
que desmaiaram.
Do lado esquerdo mais uma vez
do galpão de depósito havia vida. Ferramentas (todas trancadas
em molduras entrecruzadas de correntes, como se fossem carabinas
em vez de pás e picaretas), mantimentos secos, sacas de
sementes para o plantio de primavera nas hortas da prisão,
caixas de papel higiênico, engradados com chapas lisas para
a fábrica de placas de automóvel da prisão... até sacos
de cal para a marcação do losango de beisebol e do campo
de futebol os presos jogavam no que era conhecido
como o Pasto e, em Cold Mountain, as tardes de outono eram
aguardadas com grande interesse.
Do lado direito uma vez mais
morte. A própria Velha Fagulha, assentada numa plataforma
de madeira no canto do sudeste da sala de depósito, sólidas
pernas de carvalho, braços largos de carvalho que tinham
absorvido o suor aterrorizado de homens nos poucos minutos
derradeiros de suas vidas e o capacete de metal, geralmente
pendurado de esguelha no espaldar da cadeira, como uma espécie
de gorro redondo de um menino-robô numa história em quadrinhos
de Buck Rogers. Um fio saía dele e entrava por um orifício,
cercado por uma gaxeta, na parede de tijolos por trás da
cadeira. Num lado, havia um balde de latão. Se olhasse dentro
dele, veria uma rodela de esponja, cortada no tamanho exato
para se ajustar ao capacete metálico. Antes das execuções,
ela era empapada de água salobra para proporcionar melhor
condutividade à descarga de eletricidade de corrente contínua,
que passava pelo fio, através da esponja e penetrava no
cérebro do condenado.
2
1932 foi o ano de John Coffey. Os detalhes
ainda estarão nos jornais, para quem se interessar o suficiente
para procurá-los alguém com mais energia do que um
homem muito velho passando a cochilar o final da sua vida
em um lar para idosos na Georgia. Lembro-me de que foi um
outono quente, muito quente mesmo. Outubro era quase como
agosto e a mulher do diretor, Melinda, estava no hospital
lá em Indianola. Foi no outono em que tive a pior infecção
das vias urinárias da minha vida, não ruim o bastante para
me pôr no hospital, mas quase tão ruim para me fazer ter
vontade de morrer cada vez que tinha que fazer pipi. Foi
o outono de Delacroix, o francesinho meio careca com o camundongo,
o que era capaz de fazer aquele número engraçadinho com
o carretel. Porém, o mais importante é que foi o outono
em que John Coffey veio para o Bloco E, condenado à morte
pelo estupro e assassinato das gêmeas Detterick.
Havia quatro ou cinco guardas no bloco
em cada turno, mas muitos deles eram temporários. Dean Stanton,
Harry Terwilliger e Brutus Howell (a quem os homens chamavam
de Brutal, mas era de brincadeira, pois ele não faria mal
a uma mosca, a menos que fosse preciso, apesar do seu tamanho)
estão todos mortos agora, bem como Percy Wetmore, que era
brutal de verdade... para não mencionar que era burro. Percy
não tinha nada que estar no Bloco E, onde um temperamento
violento era inútil e às vezes perigoso, mas de algum modo
era aparentado com o Governador pelo lado da mulher e por
isso ficava ali.
Foi Percy Wetmore quem introduziu John
Coffey no bloco, com o berro supostamente tradicional de
"Homem morto caminhando! Homem morto caminhando por
aqui!".
Mesmo já sendo outubro, ainda estava tão
quente quanto as dobradiças do inferno. A porta do pátio
de exercício se abriu, deixando entrar uma inundação de
luz intensa e o maior homem que jamais vi, salvo alguns
dos sujeitos do basquete que aparecem na TV, lá na sala
de recreação, desse lar para babões desgarrados em que acabei
vindo parar. Ele tinha correntes nos braços e cruzando seu
tórax de barril, estava com grilhões de ferro nos tornozelos
e arrastava uma corrente entre eles que fazia um barulho
como uma cascata de moedas, enquanto ele caminhava pelo
corredor de cor verde, entre as celas. Percy Wetmore estava
de um lado dele, o pequeno magricela do Harry Terwilliger
do outro e os dois pareciam crianças andando junto com um
urso capturado. Até Brutus Howell parecia um garoto ao lado
de Coffey, e Brutal tinha ombros largos e um metro e oitenta
de altura, havia jogado como defensor de futebol americano
e chegara até o nível de campeonatos universitários, quando
foi reprovado na Universidade Estadual de Louisiana e voltou
para o interior.
John Coffey era preto, como a maioria dos
homens que vinha passar uma temporada no Bloco E antes de
morrer no colo da Velha Fagulha e tinha dois metros e cinco
de altura. Mas não era todo comprido e fino como aqueles
sujeitos do basquete na TV tinha os ombros largos,
o peito estufado, coberto de músculos em todas as direções.
Tinham posto nele uma roupa azul de brim do maior tamanho
que encontraram no depósito, mas ainda assim as bainhas
das calças ficavam a meia altura de suas barrigas das pernas,
encalombadas e cheias de cicatrizes. A camisa estava aberta
até abaixo do peito e as mangas paravam em algum ponto dos
antebraços. Segurava seu boné com a mão enorme, o que era
melhor: encarrapitado no seu coco pelado de mogno, pareceria
o tipo de boné usado por um mico de realejo, só que azul
em vez de vermelho. Dava a impressão de que poderia ter
rompido as correntes com que estava preso com a mesma facilidade
com que se rompem as fitas de presentes de Natal, mas quando
se olhava nos seus olhos via-se que ele não ia fazer nada
disso. Não é que eles parecessem imbecilizados embora
Percy pensasse isso e não demorou para que começasse a chamá-lo
de idiota mas sim perdidos. Não parava de
olhar em volta, como se estivesse querendo entender onde
estava. Talvez até quem ele era. Meu primeiro pensamento
foi de que ele parecia um Sansão negro... só que depois
de Dalila tê-lo raspado tão lisinho com sua mão infiel e
retirado dele toda a alegria.
Homem morto caminhando! trombeteava
Percy, puxando pela manga da camisa aquele homem do tamanho
de um urso, como se realmente achasse que era capaz de movê-lo
mesmo que Coffey resolvesse que não queria mais se mover
por seus próprios pés. Harry não disse nada, mas estava
com uma expressão encabulada. Homem morto...
Chega disso falei. Estava
dentro da que ia ser a cela de Coffey, sentado no seu catre.
É claro que eu sabia que ele ia vir e estava ali para dar-lhe
as boas-vindas, mas não tinha a menor idéia do verdadeiro
tamanho do homem até vê-lo. Percy me lançou um olhar que
dizia que todos nós sabíamos que eu era um imbecil (com
exceção do bobo grandalhão, é claro, que só sabia de estuprar
e assassinar menininhas), mas não falou nada.
Eles três pararam do lado de fora da porta
da cela, que estava toda aberta, corrida para trás no trilho.
Fiz um aceno de cabeça para Harry, que perguntou:
O senhor tem certeza de que quer ficar aí dentro com ele,
chefe? Não tinha ouvido Harry Terwilliger ficar com
um tom nervoso muitas vezes. Ele estava lá ao meu lado durante
os distúrbios de seis ou sete anos antes e nunca titubeara,
nem mesmo quando começaram a circular boatos de que eles
tinham armas de fogo. Agora, porém, ele estava com um tom
nervoso.
Você vai me dar trabalho, garotão?
perguntei, sentado ali no catre e tratando de não
mostrar nem pela expressão nem pela fala como me sentia
infeliz aquela infecção nas vias urinárias que mencionei
antes não estava ainda tão ruim como ficou depois, mas não
era nenhuma brincadeira, posso lhe garantir.
Coffey abanou a cabeça lentamente
uma vez para a esquerda, uma vez para a direita e depois
parou de volta no centro. Depois que seus olhos me encontraram,
nunca mais me largaram.
Harry estava com uma prancheta de mão contendo
os formulários relativos a Coffey. Entregue pra ele
disse para Harry. Ponha na mão dele.
Harry assim fez. O cachorrão pegou-os como
se fosse um sonâmbulo.
Agora traga-os para mim, garotão
disse eu. Coffey assim fez, as correntes tilintando
e chacoalhando. Teve que abaixar a cabeça para entrar na
cela.
Olhei-o de alto a baixo, mais para registrar
sua altura como um fato e não como uma ilusão de ótica.
Era real: dois metros e cinco. Seu peso constava como cento
e trinta, mas acho que isso era apenas uma estimativa. Ele
devia pesar uns cento e quarenta e cinco, talvez até cento
e sessenta quilos. No espaço destinado a cicatrizes e sinais
particulares, havia uma palavra escrita em letra de imprensa,
na caligrafia trabalhosa de Magnusson, o velho preso com
privilégios especiais do Registro de Movimentação: Numerosos.
Ergui os olhos. Coffey tinha se mexido
um pouco para um lado, e eu podia enxergar Harry de pé,
do outro lado do corredor, em frente à cela de Delacroix
quando Coffey chegou, ele era nosso único outro prisioneiro
no Bloco E. Del era um homem franzino, ficando careca, com
a expressão amedrontada de um contador que sabe que logo
vão descobrir que desviou dinheiro. Seu camundongo amestrado
estava sobre seu ombro.
Percy Wetmore estava encostado no portal
da cela que acabara de se tornar a cela de John Coffey.
Tirara seu cassetete de peroba da alça de couro feita sob
medida na qual o carregava e estava batendo com ele na palma
da mão do jeito que faz um homem quando tem um brinquedo
que quer usar. De repente, não suportava vê-lo ali. Talvez
fosse o calor fora de época, talvez fosse a infecção das
vias urinárias me esquentando o baixo-ventre e tornando
quase insuportável a comichão dentro das minhas cuecas de
flanela, talvez fosse saber que o estado me tinha mandado
um preto que era quase um idiota para ser executado e estava
claro que Percy queria antes trabalhar um pouco em cima
dele. Provavelmente eram todas essas coisas. Mas, o que
quer que fosse, por uns instantes parei de me preocupar
com as ligações políticas de Percy.
Percy disse eu. Estão
fazendo a mudança lá na enfermaria.
Bill Dodge está encarregado desse
grupo...
Sei que está falei.
Vá e lhe dê uma mão.
Isso não é trabalho meu retrucou
Percy. Esse granfeitor é trabalho meu. Granfeitor
era o nome de gozação que Percy dava aos grandalhões
uma combinação de grandee malfeitor. Ele não
gostava dos grandalhões. Ele não era magricela como Harry
Terwilliger, mas era baixo. Uma espécie de galinho-de-briga,
do tipo que gosta de comprar briga, principalmente quando
tem todas as vantagens.
Então seu trabalho terminou
falei. Vá lá para a enfermaria.
Ele esticou o lábio inferior. Bill Dodge
e seus homens estavam carregando caixas e pilhas de roupa
de cama, até mesmo camas. A enfermaria toda estava indo
para um novo edifício pré-fabricado, lá do lado oeste da
prisão. Trabalho encalorado, levantar coisas pesadas. Percy
Wetmore não queria nada com nenhum dos dois.
Eles têm todos os homens de que
precisam disse ele.
Então vá até lá e dê uma de assistente
do chefe redargüi, elevando a voz. Vi Harry fazer
uma careta e não lhe dei atenção. Se o Governador mandasse
o Diretor Moores me despedir por me meter com a pessoa errada,
quem é que Hal Moores ia botar no meu lugar? Percy? Isso
era piada. Na verdade, não me interessa o que que
você vai fazer, Percy, basta que você fique fora daqui por
algum tempo.
Por um momento, achei que ele não ia ceder
e aí haveria um problema sério, com Coffey de pé ali esse
tempo todo, como o maior relógio parado do mundo. Depois
Percy enfiou seu cassetete de volta na alça feita de encomenda
coisa da mais tola vaidade e foi andando batendo
os pés pelo corredor. Não me lembro de quem estava sentado
na mesa da guarda naquele dia acho que era um dos
temporários mas Percy não deve ter gostado do seu
jeito, porque rosnou enquanto passava:
Apague esse ar de zombaria da sua
cara de merda, senão eu apago você.
Um chacoalhar de chaves, uma explosão súbita
de luz do sol quente vinda do pátio de exercício e então
Percy Wetmore sumiu, pelo menos momentaneamente. O camundongo
de Delacroix corria sem parar de um ombro para o outro do
francesinho, mexendo seus bigodes finíssimos.
Fique quieto, Sr. Guizos
disse, e o camundongo se deteve no seu ombro esquerdo como
se entendesse. Trate apenas de ficar muito parado
e muito quieto. No sotaque cantado de cajun de Delacroix,
a palavra quieto tinha um som exótico e estrangeiro
qui-iet'.
Vá se deitar, Del disse eu
com rispidez. Vá descansar. Você também não tem nada
com isso.
Ele fez como mandei. Delacroix tinha estuprado
uma menina, matou-a e depois jogou o corpo atrás do edifício
onde ela morava, embebeu-o em óleo combustível e ateou-lhe
fogo, na esperança algo confusa de assim destruir a prova
do crime que cometera. O fogo se alastrou para o próprio
edifício, tomou conta dele e mais seis pessoas morreram,
dentre elas duas crianças. Era o único crime que tinha dentro
de si e agora era apenas um homem de modos suaves, com uma
expressão preocupada e cabelos compridos caindo-lhe despenteados
por cima da parte de trás da gola da camisa. Dentro em breve,
iria se sentar com a Velha Fagulha e ela lhe daria fim...
mas, o que quer que tivesse feito, aquela coisa horrível
já tinha sumido, e agora ele ficava deitado no catre, deixando
seu pequeno companheiro correr, dando gritinhos, por cima
das suas mãos. De um certo modo, isso era o pior: a Velha
Fagulha nunca queimava o que estava dentro deles e as drogas
que atualmente são injetadas neles não fazem isso adormecer.
Isso sai, salta para dentro de alguma outra pessoa e nos
deixa para matar as carcaças que, de qualquer jeito, não
estão mais vivas.
Voltei minha atenção para o gigante.
Se eu deixar o Harry tirar essas
correntes, você vai ficar bonzinho?
Ele confirmou com a cabeça. Foi como quando
tinha abanado a cabeça: para baixo, para cima, de volta
para o centro. Seus olhos estranhos olharam para mim. Havia
neles uma espécie de paz, mas não do tipo em que tinha certeza
que podia confiar. Chamei Harry com o dedo, ele entrou e
soltou as correntes. Agora ele não estava demonstrando medo
algum, nem mesmo quando se ajoelhou entre os dois troncos
de árvore das pernas de Coffey para soltar os grilhões dos
tornozelos, e isso me tranqüilizou um pouco. Percy é que
tinha posto Harry nervoso e eu confiava nos instintos dele.
Confiava nos instintos de todos os homens do meu dia-a-dia
no Bloco E, com exceção de Percy.
Tenho um discursinho padrão, que faço para
os homens recém-chegados ao bloco, mas hesitei no caso de
Coffey, porque ele parecia tão anormal, e não só pelo tamanho.
Quando Harry deu um passo atrás (Coffey
tinha permanecido imóvel durante toda a cerimônia da retirada
dos ferros, plácido como um cavalo Percheron), olhei para
minha nova responsabilidade, batendo na prancheta com o
polegar, e disse: Você fala, garotão?
Sim senhor, patrão, falo
respondeu. Sua voz era um troar grave e baixo. Fez-me pensar
num motor de trator que acabava de ser regulado. Não tinha
um autêntico sotaque arrastado de sulista, mas havia uma
espécie de construção sulista no seu modo de falar o que
observei mais tarde. Era como se viesse do Sul e
não como se fosse do Sul. Não parecia analfabeto,
mas tampouco parecia ter instrução. Na sua maneira de falar,
como em tantas outras coisas, ele era um mistério. Eram
sobretudo os seus olhos que me perturbavam eles tinham
uma espécie de ausência pacífica, como se ele estivesse
flutuando longe, muito longe.
Seu nome é John Coffey.
Sim senhor, patrão, como o que se
toma com leite, só que não se escreve do mesmo jeito.
Então você sabe soletrar, é? Ler
e escrever?
Só meu nome, patrão disse
ele com serenidade.
Dei um suspiro, depois fiz para ele uma
versão curta do meu discurso padrão. Já tinha chegado à
conclusão de que ele não ia causar nenhum problema. Nisso
eu estava tanto certo como errado.
Meu nome é Paul Edgecombe
falei. Sou o superintendente do Bloco E o
chefe dos guardas. Se quiser alguma coisa de mim, peça para
me chamarem usando meu nome. Se eu não estiver aqui, chame
esse outro homem o nome dele é Harry Trewilliger.
Você entendeu isso?
Coffey fez que sim com a cabeça.
Só não espere ter o que quiser a
menos que nós achemos que é o que você precisa isso
aqui não é hotel. Continua me acompanhando?
Ele tornou a confirmar com a cabeça.
Isto é um lugar sossegado, garotão
não é feito o resto da prisão. São só você e o Delacroix
aqui. Você não vai trabalhar. Na maior parte do tempo, você
vai só ficar sentado. Vai ter a oportunidade de refletir
sobre as coisas. Era tempo demais para a maioria
deles, mas isso eu não disse. De noite ligamos o
rádio, se tudo estiver em ordem. Você gosta de rádio?
Assentiu com a cabeça, mas de forma dúbia,
como se não tivesse certeza do que era um rádio. Mais tarde
descobri que isso era verdade, de certo modo: Coffey conhecia
as coisas quando as encontrava de novo, mas nesse meio tempo
ele se esquecia delas. Conhecia os personagens de Our
Gal Sunday, mas tinha apenas a mais vaga lembrança do
que estavam fazendo da última vez.
Se você se portar bem, vai comer
na hora certa, nunca verá a solitária lá no final do corredor
nem terá que usar um daqueles paletós de lona que são abotoados
nas costas. Vai ter duas horas no pátio todas as tardes,
de quatro às seis, exceto nos sábados, quando o resto da
população da prisão tem suas partidas de futebol. Você pode
receber suas visitas nos domingos de tarde, se tiver alguém
que queira visitá-lo. Tem, Coffey?
Ele abanou a cabeça. Não tenho ninguém
respondeu.
Bem, então, o seu advogado.
Acho que vi as costas dele pela
última vez falou. Ele foi emprestado pra mim.
Acho que ele não vai conseguir achar o caminho até aqui
nas montanhas.
Olhei bem para ele para ver se estava tentando
ser engraçadinho, mas pareceu que não. Nem tinha esperado
outra coisa. Os recursos não eram impetrados para gente
como John Coffey, não naquela época. Tinham o seu dia em
juízo ou dois ou três e depois o mundo se
esquecia deles até ver uma notinha no jornal dizendo que
um certo sujeito tinha levado um pouco de eletricidade por
volta da meia-noite. Mas um homem com mulher, filhos ou
amigos por quem esperar nas tardes de domingo era mais fácil
de controlar, se parecesse que controle ia ser um problema.
Mas ali isso não parecia um problema, o que era bom. Porque
ele era tão danado de grande.
Remexi-me um pouco no catre, depois resolvi
que talvez me sentisse um pouco mais confortável nas minhas
partes inferiores se ficasse de pé e assim fiz. Ele se afastou
de mim, para trás, respeitosamente, e juntou as mãos na
frente do corpo.
O seu tempo aqui pode ser fácil
ou duro, garotão, só depende de você. Estou aqui para lhe
dizer que será melhor se você facilitar as coisas para todos
nós, porque, no final, dá tudo no mesmo. Nós o trataremos
tão bem quanto você merecer. Você tem alguma pergunta?
Vocês deixam uma luz acesa depois
da hora de dormir? perguntou imediatamente, como
se só estivesse esperando por uma oportunidade.
Pisquei os olhos ao ouvir isso. Os recém-chegados
ao Bloco E me tinham feito um bocado de perguntas esquisitas
uma vez até sobre o tamanho dos peitos da minha mulher
, mas essa nunca.
Coffey estava sorrindo um pouco sem jeito,
como se soubesse que nós o acharíamos bobo, mas não tinha
como evitar.
Porque às vezes eu fico com um pouco
de medo no escuro disse ele. Se é um lugar
que não conheço.
Olhei para ele o tamanhão dele
e me senti estranhamente comovido. Eles comoviam a gente,
sabe. Você não os via no que tinham de pior, malhando seus
horrores como demônios numa forja.
É, isso aqui fica bastante claro
a noite inteira falei. Metade das luzes ao
longo do Quilômetro fica acesa das nove até as cinco todas
as manhãs. Então me dei conta de que ele não teria
a menor idéia do que eu estava dizendo ele não distinguia
o Corredor da Morte da margem do Mississippi de modo
que apontei com o dedo: No corredor.
Ele indicou com a cabeça que tinha entendido,
aliviado. Também não tinha certeza se ele sabia o que era
um corredor, mas ele podia ver as lâmpadas de 200 watts
nas suas gaiolas de arame.
Então fiz algo que nunca fizera antes com
um preso: estendi-lhe a mão. Até hoje não sei por quê. Talvez
tenha sido por ele perguntar sobre as luzes. Posso lhe garantir
que isso fez Harry Terwilliger piscar os olhos. Coffey pegou
minha mão com uma delicadeza surpreendente, minha mão quase
desapareceu na dele, e foi só isso. Tinha ganho mais um
e pronto.
Saí da cela. Harry fechou a porta, correndo-a
no seu trilho, e passou os dois ferrolhos. Coffey ficou
parado onde estava por mais um ou dois minutos, como se
não soubesse o que fazer a seguir, e então sentou-se no
catre, juntou suas mãos de gigante entre os joelhos e baixou
a cabeça como um homem que está se lamentando ou rezando.
Então ele disse alguma coisa, naquela sua voz estranha,
quase de sulista. Ouvi com absoluta clareza e, embora até
então não soubesse muito sobre o que ele tinha feito
não é preciso saber o que um homem fez para alimentá-lo
e cuidar dele até que chegue a hora de pagar pelo que deve
, ainda assim senti um calafrio.
Não pude evitar disse ele.
Tentei tirar de volta, mas já era tarde demais.
3
Você vai ter uns probleminhas com
Percy disse Harry enquanto íamos andando pelo corredor
e entrávamos na minha sala. Dean Stanton, uma espécie de
meu terceiro na escala de comando na verdade, não
tínhamos nada disso, situação que Percy Wetmore teria retificado
num segundo , estava sentado à minha escrivaninha,
atualizando os arquivos, uma tarefa que eu parecia nunca
encontrar tempo para fazer. Ele mal ergueu os olhos quando
entramos, apenas empurrou seus óculos pequenos com a polpa
do polegar e mergulhou de volta na sua papelada.
Tenho tido problemas com esse pica-pau
desde o dia em que chegou aqui disse eu, puxando
minhas calças para longe das virilhas e fazendo uma careta.
Você ouviu o que ele estava berrando quando trouxe
aquele grandalhão para baixo?
Não podia deixar de ouvir
falou Harry. Eu estava lá, lembra?
Eu estava na privada e ouvi muito
bem disse Dean. Puxou para si uma folha de papel,
levantou-a contra a luz para que eu pudesse ver que nela
havia, além da escrita, um anel de marca de xícara de café,
e depois jogou-a na cesta de papéis. "Homem
morto caminhando". Deve ter lido isso numa daquelas
revistas de que gosta tanto.
E provavelmente tinha mesmo. Percy Wetmore
era leitor assíduo de Argosy, Stag e Men's
Adventure. Parecia que em cada número havia uma história
de prisão e Percy as lia com avidez, como um homem que estivesse
fazendo uma pesquisa. Era como se estivesse tentando descobrir
como atuar e achava que essa informação estava naquelas
revistas. Estava comigo fazia seis meses tinha vindo
logo depois que cuidamos de Anthony Ray, o assassino da
machadinha e na realidade ainda não tinha participado
de uma execução.
Ele conhece gente disse Harry.
É bem relacionado. Você vai ter que responder por
tê-lo mandado sair do bloco e vai ter que responder ainda
mais por esperar que ele faça algum trabalho de verdade.
Eu não espero isso disse
eu e não esperava... mas tinha esperanças. Bill Hodges não
era do tipo de deixar um homem ficar apenas vagando por
aí e como único trabalho pesado ficar olhando os outros.
Por enquanto, estou mais interessado no grandalhão.
Ele vai nos criar problemas?
Harry abanou a cabeça com vigor.
No tribunal lá no Condado de Trapingus,
ele ficou quieto como um cordeiro disse Dean. Tirou
seus óculos pequenos e sem aros e começou a limpá-los no
colete. É claro que eles tinham posto mais correntes
nele do que as que Scrooge viu no fantasma de Marley, mas
ele podia ter armado o diabo se quisesse. Isso é um jogo
de palavras, filho.
Eu sei retruquei, embora
não soubesse. É só que detesto deixar Dean Stanton levar
vantagem sobre mim.
Sujeito grande, não é? falou
Dean.
É sim concordei. Monstruosamente
grande.
Provavelmente vamos ter que aumentar
a força da Velha Fagulha para Cozimento Máximo a fim de
fritar-lhe o rabo.
Não se preocupe com a Velha Fagulha
disse eu, distraído. Ela transforma os grandes
em pequenos.
Dean apertou os lados do nariz, onde havia
duas manchas vermelho vivo feitas pelos óculos, e concordou
com a cabeça. É certo. Há algo de verdade nisso.
Perguntei: Algum de vocês sabe de
onde ele veio antes de aparecer em... Tefton? Foi em Tefton,
não foi?
Certo disse Dean.
Tefton, lá no Condado de Trapingus. Parece que ninguém sabe,
antes de ele aparecer lá e fazer o que fez. Acho que ele
apenas vagava por aí. Talvez você consiga descobrir um pouco
mais nos jornais, se está mesmo interessado. Na biblioteca
da prisão, eles guardam os exemplares de até um ano e meio
e não vão fazer a mudança disso até a semana que vem.
Deu um sorriso largo. Mas você talvez tenha que ouvir
seu amiguinho Percy xingando e gemendo no andar de cima.
De qualquer modo, talvez eu vá dar
uma espiada disse eu e nessa tarde foi o que fiz.
A biblioteca da prisão ficava nos fundos
do edifício que ia ser transformado na oficina de automóveis
da prisão pelo menos esse era o plano. Eu achava
era que isso ia significar mais comissões ilegais no bolso
de alguém, mas estávamos na Depressão e guardei minhas opiniões
para mim do modo como devia ter ficado calado a respeito
de Percy, mas às vezes um homem simplesmente não consegue
manter o bico fechado. Na maioria das vezes, a boca de um
homem lhe cria mais problemas do que seu pirulito jamais
poderia criar. De qualquer modo, a oficina de automóveis
nunca foi montada na primavera seguinte, a prisão
foi deslocada cem quilômetros mais adiante na estrada que
ia para Brighton. Acho que foram mais negociatas feitas
nos escritórios. Mais pilhas de comissões ilegais. Para
mim não tinha importância.
A administração tinha passado para um edifício
novo, no lado leste do pátio; a enfermaria estava sendo
transferida (pra começar, de quem tinha sido a idéia de
jerico de colocar a enfermaria no segundo andar era apenas
mais um dos mistérios da vida). A biblioteca estava só parcialmente
abastecida não que jamais tivesse tido muita coisa
e ficava vazia. O velho edifício era um caixote quente
de paredes de tábuas, meio enfiado entre os Blocos A e Bloco
E. Os banheiros dos dois ficavam encostados nele e o edifício
inteiro estava sempre exalando aquele vago odor de mijo,
o que provavelmente era a única boa razão para a mudança.
A biblioteca tinha a forma de um L e não era muito maior
do que o meu escritório. Procurei um ventilador, mas tinham
levado todos embora. Devia estar fazendo uns trinta e oito
graus lá dentro e, quando me sentei, pude sentir aquele
latejar quente no baixo-ventre. Feito um dente infeccionado.
Sei que isso é absurdo, considerando-se a região de que
estou falando, mas é a única coisa com que posso fazer comparação.
Ficava muito pior durante e logo depois de fazer pipi, que
tinha acabado de fazer antes de ir até ali.
No final das contas, havia um outro sujeito
lá um velho preso de confiança esquelético chamado
Gibbons, cochilando no canto com um romance de faroeste
no colo e o chapéu puxado sobre os olhos. O calor não o
estava incomodando, nem os grunhidos, baques e palavrões
ocasionais vindos da enfermaria no andar de cima (onde tinha
que estar pelo menos uns seis graus mais quente e eu esperava
que Percy Wetmore estivesse gostando). Não incomodei o velho
e fui para a perna curta do L, onde ficavam guardados os
jornais. Pensei que podiam ter sido levados embora, junto
com os ventiladores, a despeito do que dissera Dean. Mas
ainda estavam ali e o negócio sobre as gêmeas Detterick
foi bem fácil de encontrar: tinha sido notícia de primeira
página desde quando o crime fora cometido, em junho, até
o fim do julgamento, em julho. As coisas andavam muito mais
depressa naquela época.
Logo me esqueci do calor, dos baques no
andar de cima e do rouco assobio do velho Gibbons. A idéia
daquelas menininhas de nove anos suas cabeças de
fofos cabelos louros e seus sorrisos encantadores como os
das Gêmeas Bobbsey em ligação com a escuridão volumosa
de Coffey era desagradável, mas impossível de ser ignorada.
Dado seu tamanho, era fácil imaginá-lo literalmente comendo-as,
como um gigante num conto de fadas. O que ele tinha na realidade
feito era ainda pior e tinha sido uma sorte para ele que
não tivesse sido simplesmente linchado lá mesmo naquela
margem do rio. Quer dizer, isso se você considerar que ficar
esperando para caminhar pelo Corredor da Morte e se sentar
no colo da Velha Fagulha é uma sorte.
4
O Rei Algodão tinha sido deposto no Sul
setenta anos antes que todas essas coisas acontecessem e
nunca mais seria rei de novo, mas naqueles anos da década
de trinta teve um pequeno ressurgimento. Não havia mais
as grandes plantações de algodão, mas havia quarenta ou
cinqüenta fazendas de algodão na parte sul de nosso estado.
Klaus Detterick era dono de uma delas. Pelos padrões dos
anos cinqüenta, ele seria considerado como estando um degrau
acima da pobreza, mas pelos dos anos trinta ele era considerado
como estando bem de vida porque pagava sua conta na mercearia
em dinheiro no final da maioria dos meses e era capaz de
olhar nos olhos o presidente do banco caso se cruzassem
na rua. A casa da fazenda era linda e espaçosa. Além do
algodão, havia dois outros bens: galinhas e algumas vacas.
Ele e sua mulher tinham três filhos: Howard, de uns doze
anos, e as gêmeas, Cora e Kathe.
Em uma noite morna de junho daquele ano,
as meninas pediram e receberam permissão para dormir no
alpendre lateral, fechado com tela, que se estendia por
todo o comprimento da casa. Isso era um grande evento para
elas. Sua mãe lhes deu um beijo de boa-noite pouco antes
das nove, quando a última luz tinha sumido do céu. Foi a
última vez em que as viu antes de que estivessem nos seus
caixões e o agente funerário reparasse na parte pior dos
danos.
Naquela época, as famílias do campo iam
cedo para a cama "logo que ficava escuro debaixo
da mesa", dizia minha mãe às vezes e dormiam
profundamente. Sem dúvida assim dormiram Klaus, Marjorie
e Howie Detterick na noite em que as gêmeas foram apanhadas.
Era quase certo que Klaus teria sido acordado por Bowser,
o velho e grande mestiço de Collie da família, se ele tivesse
latido. Mas Bowser não latiu. Nem naquela noite nem nunca
mais.
Klaus se levantou com a primeira luz da
manhã, para fazer a ordenha. O alpendre ficava do lado da
casa oposto ao estábulo e Klaus não pensou em ir dar uma
olhada nas meninas. O fato de que Bowser não se juntara
a ele tampouco era causa para alarme. O cão tinha o maior
desprezo pelas vacas e pelas galinhas, e geralmente se escondia
na sua casinhola por trás do estábulo quando essas tarefas
estavam sendo realizadas, a menos que fosse chamado... e,
ainda por cima, chamado com energia.
Marjorie desceu uns quinze minutos depois
de que o marido tinha enfiado as botas no quartinho de ferramentas
e saíra com passos fortes para o estábulo. Começou a preparar
o café, pôs o bacon para fritar. Os cheiros combinados atraíram
Howie, que desceu de seu quarto na mansarda, mas não as
meninas do alpendre. Ela enviou Howie até lá para buscá-las,
enquanto estalava ovos na gordura do bacon. Klaus ia querer
que as meninas pegassem outros frescos logo que terminasse
o café da manhã. Só que não se tomou café da manhã na casa
dos Detterick naquela manhã. Howie voltou do alpendre branco
como folha de papel e com seus olhos, antes inchados de
dormir, inteiramente arregalados.
Elas sumiram disse ele.
Marjorie foi até o alpendre, inicialmente
mais aborrecida do que alarmada. Mais tarde disse que tinha
imaginado, se é que tinha imaginado alguma coisa, que as
meninas resolveram dar uma volta e pegar flores com a luz
do começo do alvorecer. Isso ou alguma tolice semelhante
de meninas pequenas. Uma olhada e entendeu por que Howie
tinha ficado pálido.
Berrou por Klaus gritou histérica
por Klaus que veio numa corrida desabalada, as botas
de trabalho pintadas de branco pelo meio balde de leite
que tinha derramado nelas. O que encontrou no alpendre teria
amolecido as pernas do mais valente dos pais. As colchas
nas quais as meninas se tinham enrolado à medida que a noite
avançou e ficou mais fria tinham sido atiradas para um canto.
A porta de tela tinha sido arrancada da dobradiça superior
e agora estava pendurada, torta, no portal. E sobre as tábuas,
tanto do alpendre como dos degraus diante da porta de tela
mutilada, havia manchas grandes de sangue.
Marjorie implorou ao marido para não sair
à caça das meninas sozinho e para não levar o filho se achasse
que tinha que ir atrás delas, mas podia ter poupado o fôlego.
Ele pegou a escopeta que guardava, armada, no quartinho
de ferramentas, bem no alto, fora do alcance de mãos miúdas,
e deu a Howie a .22 que estavam guardando para o seu aniversário
em julho. Então saíram, nenhum dos dois dando a menor atenção
à mulher que, aos gritos e em prantos, queria saber o que
fariam se topassem com um bando de vagabundos errantes ou
um punhado de negros maus fugidos da fazenda do condado
lá em Lavine. Nisso eu acho que os homens estavam certos,
sabe. O sangue não estava mais escorrendo, mas ainda estava
apenas pegajoso e mais próximo do vermelho vivo do que do
grená que aparece quando o sangue já está bem seco. O seqüestro
não tinha ocorrido há muito tempo. Klaus deve ter raciocinado
que ainda havia uma chance para as meninas e estava decidido
a buscá-la.
Nenhum dos dois sabia nada de rastrear
eram catadores, não caçadores, homens que entravam
no mato atrás de gambás e veados, na estação de caça não
porque tivessem muita vontade, mas porque era o que se costumava
fazer. E o quintal em volta da casa era uma área de terra
coberta de pegadas que não queriam dizer nada. Contornaram
o estábulo e logo viram por que Bowser, que era ruim de
mordida mas bom de latido, não tinha dado o alarme. Estava
caído, metade dentro e metade fora da casinhola, que tinha
sido feita com sobras das tábuas do estábulo (havia uma
placa com a palavra Bowser escrita com capricho por cima
do buraco curvo da frente vi uma fotografia dela
num dos jornais), a cabeça virada quase inteiramente para
trás. Teria sido preciso um homem de enorme força para ter
feito uma coisa assim num animal tão grande, disse mais
tarde o promotor para o júri do caso John Coffey... e então
olhou por muito tempo e de forma estudada para o réu gigantesco,
sentado atrás da mesa da defesa, com os olhos baixos e usando
um macacão novo em folha que o estado comprara e que por
si só parecia a própria condenação. Ao lado do cão, Klaus
e Howie encontraram restos de lingüiça cozida. A teoria
bem fundada, não tenho dúvida era de que Coffey
tinha primeiro atraído o cão com bocados e então, quando
Bowser começou a comer a última lingüiça, estendera as mãos
e lhe quebrara o pescoço com um giro forte dos pulsos.
Para lá do estábulo, ficava o pasto norte
de Detterick, onde nesse dia nenhuma vaca iria pastar. Estava
empapado do orvalho da manhã e, cruzando-o em diagonal para
o noroeste, clara como o dia, estava a trilha marcada pela
passagem de um homem.
Mesmo no seu estado de quase histeria,
Klaus Detterick inicialmente hesitou em segui-la. Não era
medo do homem ou homens que tinham levado suas filhas, era
medo de estar seguindo pela trilha por onde o seqüestrador
viera... de ir exatamente na direção errada num momento
em que cada segundo podia contar.
Howie resolveu o dilema puxando um trapo
de pano de algodão amarelo de um arbusto que crescia logo
adiante do limite do quintal. Esse mesmo trapo de pano foi
mostrado a Klaus quando ele estava sentado na cadeira de
testemunha e ele começou a chorar ao identificá-lo como
um pedaço do short de dormir de sua filha Kathe. Vinte metros
adiante, pendente de um galho que se projetava de uma moita
de framboesas, encontraram um pedaço de tecido verde-claro
que coincidia com a camisolinha que Cora estava usando quando
dera um beijo de boa-noite em sua mamãe e em seu papai.
Os Detterick, pai e filho, saíram quase
correndo, com as armas seguras à sua frente, como fazem
os soldados quando estão atravessando um território em disputa
sob fogo intenso. Se há uma coisa daquele dia com a qual
me espanto é que o menino, correndo desesperadamente atrás
do pai (e muitas vezes com o risco de ser deixado inteiramente
para trás), não tenha caído e disparado uma bala nas costas
de Klaus Detterick.
A casa da fazenda estava ligada na central
da telefonista outro sinal, para os vizinhos, de
que os Detterick estavam prosperando, pelo menos de forma
moderada, em tempos desastrosos e Marjorie utilizou
a central para telefonar para todos os vizinhos que também
estavam ligados a ela, contando-lhes o desastre que se tinha
abatido como um raio que caísse de um céu azul, sabendo
que cada chamada produziria círculos concêntricos superpostos,
como pedrinhas atiradas rapidamente em um laguinho de águas
quase paradas. Depois ergueu o fone pela última vez e disse
aquelas palavras que eram quase uma marca registrada dos
primeiros sistemas telefônicos daquela época, pelo menos
na zona rural do sul do país: Alô, central, você
está na linha?
A central estava, mas por um instante não
conseguiu falar nada aquela mulher respeitável estava
completamente aturdida. Por fim conseguiu dizer:
Sim, senhora, Sra. Detterick, sem dúvida que estou, oh meu
querido doce santo Jesus, estou rezando agora mesmo para
que suas garotinhas estejam bem...
Sim, obrigada disse Marjorie.
Mas trate de dizer ao Senhor que espere o tempo suficiente
para você me passar para o escritório do xerife-geral lá
em Tefton, está bem?
O xerife-geral do Condado de Trapingus
era um veterano com nariz de bebedor de uísque, uma pança
que parecia um barril e uma massa de cabelos brancos tão
finos que pareciam pêlos de limpador de cachimbo. Conhecia-o
bem estivera em Cold Mountain muitas vezes para ver
os que ele chamava de "seus meninos" serem despachados
para o grande espaço do Além. As testemunhas de execução
se sentavam nas mesmas cadeiras dobráveis em que você provavelmente
também se sentou em uma ou duas ocasiões, em enterros, ceias
da igreja ou bingos nas associações de fazendeiros (na realidade,
as nossas foram tomadas emprestadas da Associação Laço Místico
Nº 44 lá naquela época) e, todas as vezes em que o Xerife
Homer Cribus se sentava em uma, eu ficava esperando o estalido
seco que indicaria o desabamento. Eu temia e torcia por
esse dia, ao mesmo tempo, mas foi um dia aue nunca veio.
Pouco tempo depois não pode ter sido mais de um verão
depois que as meninas Detterick foram seqüestradas
ele sofreu um ataque cardíaco no seu escritório, aparentemente
enquanto estava transando com uma moça preta de dezessete
anos chamada Daphne Shurtleff. Houve muito falatório sobre
isso, pois ele estava sempre exibindo sua mulher e seus
seis filhos por todo lado quando chegava a época das eleições
aquela era a época em que, se você queria se candidatar
a alguma coisa, o ditado era que você tinha que "ser
Batista ou não ser nada". Mas, você sabe, as pessoas
adoram um hipócrita reconhecem um dos seus
e é sempre tão bom quando algum outro é apanhado com as
calças abaixadas e o peru levantado e não é você.
Além de ser um hipócrita, era um incompetente,
o tipo de sujeito que se fazia fotografar afagando a gata
de alguma senhora, quando tinha sido outro o Vice-Xerife
Rob McGee, por exemplo quem na verdade tinha arriscado
quebrar uma clavícula ao subir na árvore onde estava a Senhorita
Gatinha e trazê-la para baixo.
McGee ouviu Marjorie Detterick tartamudear
durante talvez uns dois minutos, depois interrompeu-a com
quatro ou cinco perguntas rápidas e curtas, como
um lutador treinado disparando pequenos socos ao rosto,
do tipo de socos que são tão rápidos e tão fortes que o
sangue brota antes da dor. Quando obteve as respostas que
queria, disse: Vou chamar Bobo Marchant. Ele tem
cães. A senhora fique onde está, Sra. Detterick. Se seu
marido e seu filho voltarem, faça com que eles fiquem aí
também. De qualquer maneira, tente.
Nesse meio tempo, o marido e o filho dela
tinham seguido a trilha do seqüestrador por quatro quilômetros
e meio para noroeste, mas a perderam quando ela deixou o
campo aberto e penetrou num bosque de pinheiros. Como eu
disse, eles eram fazendeiros, não caçadores, e àquela altura
sabiam que estavam atrás de um animal. Ao longo do caminho,
tinham encontrado a parte de cima que casava com o short
de Kathe e outro pedaço da camisolinha de Cora. Ambas as
peças estavam empapadas de sangue e nem Klaus nem Howie
estavam mais com a mesma pressa do princípio. Àquela altura,
uma espécie de certeza fria devia estar se filtrando sobre
suas esperanças quentes, escorrendo para baixo do mesmo
jeito que faz a água fria, penetrando porque é mais pesada.
Procuraram por indícios em volta, num trecho
do bosque, mas não encontraram nada. Buscaram num segundo
lugar, com o mesmo resultado negativo. Depois num terceiro.
Dessa vez encontraram um leque de sangue espalhado sobre
as agulhas caídas de um pinheiro grande. Foram um pouco
na direção que ele parecia apontar e então recomeçaram o
processo de procurar em volta. Eram então umas nove da manhã
e, detrás deles, começaram a ouvir homens falando alto e
cachorros ladrando. Rob McGee tinha reunido um grupo de
busca improvisado no espaço de tempo que o Xerife Cribus
levaria para terminar sua primeira xícara de café adoçado
com conhaque, e por volta das nove e um quarto alcançaram
Klaus e Howie Detterick, ambos tropeçando desesperados em
volta da orla do bosque. Os homens logo retomaram a busca,
com os cães de Bobo mostrando o caminho. McGee deixou que
Klaus e Howie seguissem com eles eles não voltariam
mesmo que lhes ordenasse, independente de quanto temiam
o desfecho, e McGee deve ter visto isso mas os obrigou
a descarregar suas armas. McGee disse que os outros tinham
feito o mesmo, era mais seguro. O que não lhes disse (nem
ninguém mais) foi que os Detterick eram os únicos a quem
tinha sido pedido que entregassem a munição ao vice-xerife.
Meio confusos e só querendo chegar ao final do pesadelo
e acabar logo com aquilo, fizeram como ele lhes pedira.
Quando Rob McGee conseguiu que os Detterick descarregassem
suas armas e lhe entregassem a munição, provavelmente salvou
o que era a miserável vida de John Coffey.
Os cães, latindo e ladrando, os arrastaram
por mais três quilômetros e meio de pinheiros e arbustos,
sempre no rumo aproximado do noroeste. Então chegaram à
margem do Rio Trapingus, que naquele trecho é largo e lento,
correndo para o sudeste em meio a colinas baixas e arborizadas
onde famílias com sobrenomes como Cray, Robinette e Duplissey
ainda fabricavam suas próprias guitarras e freqüentemente
cuspiam fora seus próprios dentes podres enquanto estavam
arando o campo. Um sertão afastado onde os homens eram capazes
de pegar serpentes com as mãos na manhã de domingo e deitar-se
em amplexos carnais com suas filhas na noite de domingo.
Eu conhecia essas famílias a maioria delas tinha,
de vez em quando, enviado uma refeição para Fagulha. Os
homens do grupo de busca podiam ver, no lado oposto do rio,
o sol de junho se refletindo nos trilhos de aço de um ramal
da Great Southern. Cerca de um quilômetro e meio rio abaixo,
uma ponte de madeira atravessava em direção aos campos de
carvão de West Green.
Ali encontraram uma área ampla de capim
e de moitas baixas pisoteadas, tão coberta de sangue que
muitos dos homens tiveram que se precipitar para dentro
do bosque para se livrar do que tinham tomado no café da
manhã. Também encontraram o resto da camisolinha de Cora
caída nessa área ensangüentada e Howie, que até então agüentara
tudo de forma admirável, cambaleou nos braços do pai e quase
desmaiou.
Foi ali que os cães de Bobo Marchant tiveram
seu primeiro e único desentendimento do dia. Havia seis
ao todo, dois sabujos, dois mastins e um par desses vira-latas
que parecem terriers e que os sulistas da fronteira chamam
de caça-gambás. Os caça-gambás queriam ir para noroeste,
rio acima pela margem do Trapingus, o resto queria ir na
direção oposta, para sudeste. Ficaram todos emaranhados
nas correias e, embora os jornais não tivessem dito nada
sobre essa parte, posso imaginar os palavrões horríveis
que Bobo deve ter despejado sobre eles enquanto usava as
mãos sem dúvida a parte mais bem-educada dele
para arrumá-los direito de novo. Nos meus tempos, conheci
alguns caçadores com cães e minha experiência me ensinou
que, como alguns tipos de pessoa, eles se comportam exatamente
como a gente espera.
Bobo encurtou as correias de todos, juntando-os
bem, e depois passou a camisolinha rasgada de Cora Detterick
por baixo das suas narinas, como para recordar-lhes o que
estavam fazendo no campo num dia em que a temperatura ia
chegar aos trinta e cinco ao meio-dia, e as primeiras massas
escuras já começavam a aparecer no meio das nuvens que se
formavam. Os caça-gambás deram outra cheirada, resolveram
votar por uma chapa única, e lá se foram todos acompanhando
a correnteza, latindo a plenos pulmões.
Não se passaram mais de dez minutos e os
homens pararam, percebendo que podiam ouvir mais do que
apenas os cães. Era um uivar, mais do que um ladrar, um
som que nenhum cão jamais soltara, nem mesmo nos seus instantes
finais de agonia. Era um som que nenhum deles jamais ouvira
qualquer coisa emitir, mas perceberam imediatamente,
todos eles, que era um homem. Assim disseram e acredito
neles. Acho que também o teria reconhecido. Já ouvi homens
berrarem exatamente desse jeito, acho eu, a caminho da cadeira
elétrica. Não muitos a maioria se fecha e vai em
silêncio ou fazendo piadas, como se fosse um piquenique
de escola , mas uns poucos. Geralmente são os que
acreditam no inferno como um lugar de verdade e sabem o
que está esperando por eles no final do Corredor da Morte.
Bobo tornou a juntar os cães pelas correias.
Eles eram valiosos e não tinha nenhuma intenção de perdê-los
para o psicopata que estava uivando e balbuciando logo ali
adiante. Os outros homens recarregaram e engatilharam suas
armas. Aqueles uivos tinham dado calafrios em todos eles
e feito com que o suor que lhes escorria pelos braços e
pelas costas parecesse água gelada. Quando homens sentem
calafrios assim, precisam de um líder para seguir em frente,
e o Vice-Xerife McGee os liderou. Pôs-se na frente e caminhou
com passos firmes (mas aposto que ele não estava se sentindo
muito firme naquele exato momento) até um grupo de árvores
baixas que se projetava para fora do bosque à direita, com
os demais andando devagar, nervosos, a uns cinco passos
atrás dele. Deteve-se apenas uma vez, para indicar ao maior
deles Sam Hollis que ficasse perto de Klaus
Detterick.
Do outro lado das árvores havia mais campo
aberto, se estendendo até o bosque do lado direito. Para
a esquerda, ficava uma encosta suave e comprida até a margem
do rio. Todos ficaram onde estavam, paralisados. Acho que
dariam tudo para deixar de ter visto o que estava diante
deles e que ninguém jamais esqueceria era esse tipo
de pesadelo, descarnado e quase fumegante sob o sol, que
fica para além das cortinas e utensílios de vidas boas e
comuns ceias de igreja, passeios por trilhas no campo,
trabalho honesto, beijos de amor na cama. Cada homem tem
uma caveira e, eu lhe digo, há uma caveira na vida de todos
os homens. Eles a viram naquele dia, aqueles homens
eles viram o que às vezes está arreganhando os dentes por
trás de um sorriso.
Sentado na margem do rio, com um macacão
desbotado e manchado de sangue, estava o maior homem que
qualquer um deles jamais vira John Coffey. Seus pés
enormes, de dedos separados, estavam descalços. Usava um
pano vermelho desbotado na cabeça, do jeito que uma mulher
do campo usaria um lenço para entrar na igreja. Moscas-varejeiras
o circundavam numa nuvem negra. Aninhado em cada braço estava
o corpo de uma menina nua. Seus cabelos louros, que tinham
sido encaracolados e leves como cachos de mimosa, agora
estavam grudados na cabeça e estriados de vermelho. O homem
que as segurava estava sentado, uivando para o céu como
um bezerro alucinado, suas bochechas marrom-escuro cobertas
de lágrimas, sua fisionomia contorcida numa máscara monstruosa
de sofrimento. Respirava em espasmos, com o peito se enchendo
até forçar as fivelas dos suspensórios do macacão e depois
soltando o imenso volume de ar em outro daqueles uivos.
Freqüentemente você lê nos jornais que "o assassino
não demonstrava nenhum remorso", mas não era o que
se via ali. John Coffey estava dilacerado pelo que fizera...
mas iria viver. As meninas não. Elas tinham sido dilaceradas
da forma mais literal.
Ninguém parecia saber por quanto tempo
tinham ficado parados ali, olhando para aquele homem uivando
que, por sua vez, estava olhando por cima da grande superfície
lisa do rio para um trem do outro lado, descendo veloz pelos
trilhos em direção à ponte que cruzava o rio. Pareceu-lhes
que ficaram olhando durante uma hora ou para sempre e, no
entanto, o trem não pareceu avançar, parecia estar correndo
no mesmo lugar, como uma criança sapateando de má-criação,
e o sol não passou para trás de uma nuvem e a visão não
se apagou dos seus olhos. Estava ali, diante deles, tão
real quanto uma dentada de cachorro. O preto balançava o
corpo para a frente e para trás; Cora e Kathe se balançavam
com ele, como bonecas louras nos braços de um gigante. Os
músculos, manchados de sangue nos braços enormes e nus do
homem, se contraíam e se relaxavam, se contraíam e se relaxavam,
se contraíam e se relaxavam.
Foi Klaus Detterick quem rompeu o quadro
parado. Aos gritos, atirou-se sobre o monstro que tinha
estuprado e matado suas filhas. Sam Hollis sabia o que tinha
que fazer e tentou, mas não conseguiu. Ele tinha mais quinze
centímetros de altura do que Klaus e pelo menos mais trinta
quilos, mas Klaus pareceu quase ter sacudido com facilidade
os braços com que Sam tentou envolvê-lo. Klaus voou pelo
espaço de campo aberto à sua frente e desferiu um pontapé
voador na cabeça de Coffey. Sua bota de trabalho, coberta
de leite derramado, que secara e azedara com o calor, acertou
em cheio na têmpora esquerda de Coffey, que não pareceu
sentir nada. Continuou apenas sentado ali, carpindo e se
balançando, olhando para o outro lado do rio. Da forma como
imagino a cena, podia ter sido uma imagem retirada de algum
sermão pentecostal no meio de bosques de pinheiros, com
os fiéis seguidores da Cruz olhando ao longe na direção
da Terra de Goshan... isto é, se não fossem os cadáveres.
Foram precisos quatro homens para arrancar
o fazendeiro histérico de cima de John Coffey e, antes que
o conseguissem, ele deu não sei quantas boas pancadas em
Coffey. Não parecia fazer diferença alguma para Coffey,
de uma maneira ou de outra: ele continuou olhando para o
outro lado do rio e se lamuriando. Quanto a Detterick, quando
finalmente foi arrancado de cima de Coffey, perdeu toda
a ânsia de lutar, como se uma estranha corrente galvanizadora
estivesse correndo pelo corpo do preto gigantesco (você
vai ter que me desculpar, mas ainda tenho uma tendência
a pensar em metáforas elétricas) e, quando o contato de
Detterick com aquela fonte de força finalmente se rompeu,
ele ficou prostrado como um homem atirado para trás por
um fio desencapado. Ficou ajoelhado, com as pernas abertas,
na margem do rio, cobrindo o rosto com as mãos, soluçando.
Howie juntou-se a ele e se abraçaram, testa contra testa.
Dois homens ficaram tomando conta deles,
enquanto os demais formaram um círculo de rifles em volta
do preto gemendo e se balançando. Ele continuava parecendo
não se dar conta de que havia ali outras pessoas além dele.
McGee avançou, ficou passando o peso do corpo de um pé para
o outro, hesitante, depois se agachou.
Ei, você falou ele num tom
suave e Coffey se calou imediatamente. McGee olhou para
uns olhos que estavam injetados de chorar. E ainda continuavam
a verter lágrimas, como se alguém tivesse deixado uma torneira
aberta dentro deles. Aqueles olhos choravam e, no entanto,
estavam de alguma forma insensíveis... distantes e serenos.
Achei-os os olhos mais estranhos que jamais vira na minha
vida e McGee sentiu praticamente a mesma coisa. Como
os olhos de um animal que nunca viu um homem antes
dissera a um repórter pouco antes do julgamento.
Ei, você, está me ouvindo?
perguntou McGee.
Lentamente, Coffey confirmou com a cabeça.
Ainda continuava com os braços em torno das suas bonecas
indescritíveis, cujos queixos estavam caídos sobre o peito,
de modo que seus rostos não podiam ser vistos direito, uma
das poucas graças que Deus resolveu conceder naquele dia.
Você tem nome? indagou McGee.
John Coffey respondeu ele
numa voz grossa e embargada pelo choro. Coffey, como
o que se toma com leite, só que não se escreve do mesmo
jeito.
McGee assentiu com a cabeça e depois apontou
com um polegar para o bolso no peito do macacão de Coffey,
onde algo fazia volume. Pareceu a McGee que podia ser um
revólver não que um homem do tamanho de Coffey precisasse
de um revólver para causar grandes danos se resolvesse perder
a calma.
O que está aí dentro, John Coffey?
Por acaso é um pau de fogo? Uma pistola?
Nãosinhô disse Coffey na
sua voz grossa e aqueles olhos estranhos vertendo
lágrimas e agoniados por cima, distantes e esquisitamente
serenos por baixo, como se o verdadeiro John Coffey estivesse
em algum outro lugar, olhando para algum outro panorama
onde menininhas assassinadas não fossem nada para causar
agitação não se desviaram dos do Vice-Xerife McGee
por um instante. É só um lanchezinho que eu tenho.
Ah, é, um lanchezinho, é?
perguntou McGee e Coffey confirmou com a cabeça e disse
simsinhô com os olhos chorando e uma secreção transparente
escorrendo-lhe do nariz. E onde é que alguém como
você conseguiu um lanchezinho, John Coffey? continuou,
obrigando-se a permanecer calmo, embora então pudesse sentir
o cheiro das meninas e pudesse ver as moscas pousando e
provando os lugares nelas que estavam úmidos. Mais tarde
ele disse que o pior eram os cabelos delas... e isso não
estava em nenhuma matéria de jornal, pois foi considerado
macabro demais para leitura familiar. Não, isso eu obtive
do repórter que escreveu a história. Procurei-o depois,
porque depois John Coffey se tornou uma obsessão para mim.
McGee contou para esse repórter que os cabelos louros delas
não estavam mais louros. Estavam castanhos. O sangue havia
escorrido deles por suas faces como se tivesse sido uma
tintura malfeita e não se precisava ser médico para ver
que seus crânios frágeis tinham sido esmagados um contra
o outro naqueles braços poderosos. Provavelmente elas estavam
chorando. Provavelmente ele quisera fazê-las parar. Se as
meninas tiveram sorte, isso aconteceu antes dos estupros.
Pensar ficava muito difícil para um homem
vendo aquilo, mesmo um homem tão decidido como era o Vice-Xerife
McGee. Pensar mal podia ocasionar equívocos, talvez mais
derramamento de sangue. McGee respirou fundo e se acalmou.
De todo modo, tentou.
Bemsinhô, não me lembro direito,
quero ser bicho se me lembro disse Coffey na sua
voz embargada de choro , mas é um lanchezinho mesmo,
sãodíche e acho que pickle doce.
Talvez eu mesmo possa ver, se você
não se importa falou McGee. Agora, John Coffey,
não se mexa. Não se mexa, crioulo, porque há armas apontadas
para você em quantidade suficiente para fazer você sumir
da cintura para cima se sequer tremer um dedo.
Coffey ficou olhando para o outro lado
do rio e não se mexeu, enquanto McGee enfiou a mão suavemente
no bolso do peito daquele macacão e retirou alguma coisa
embrulhada em papel de jornal, amarrado com um pedaço de
barbante de açougueiro. McGee arrebentou o barbante e abriu
o papel, embora tivesse certeza de que era exatamente o
que Coffey tinha dito, um lanchezinho. Havia um sanduíche
de bacon e tomate e uma panqueca enrolada com geléia. Havia
também um pickle, embrulhado no seu próprio pedaço
de uma página de caricaturas que John Coffey nunca seria
capaz de entender. Não havia nenhuma lingüiça. Bowser tinha
comido as lingüiças do lanchezinho de John Coffey.
McGee passou o lanche por cima do ombro
para um dos homens sem tirar os olhos de Coffey. Agachado
daquele jeito, estava perto demais para permitir que sua
atenção se desviasse por um segundo que fosse. O lanche,
embrulhado de novo e amarrado por via das dúvidas, finalmente
acabou com Bob Simms, que o colocou no seu bornal, onde
guardava bocados para os cães (e algumas iscas de pesca,
não me surpreenderia). Não foi apresentado como prova no
julgamento a justiça nessa parte do mundo é rápida,
mas não tão rápida quanto o sumiço de um sanduíche de bacon
e tomate , mas fotos dele sim.
O que é que houve aqui, John Coffey?
indagou McGee na sua voz baixa e séria. Você
pode me dizer?
E Coffey falou para McGee e os outros quase
exatamente a mesma coisa que falou para mim. Foram também
as últimas palavras que o promotor repetiu para o júri no
julgamento de Coffey. Não pude evitar falou
John Coffey, segurando nos braços as meninas nuas, assassinadas
e violadas. As lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto
de novo. Tentei tirar de volta, mas já era muito
tarde.
Crioulo, você está preso por assassinato
disse McGee e então cuspiu na cara de John Coffey.
O júri ficou na sua sala, deliberando,
durante quarenta e cinco minutos. Mais ou menos o tempo
suficiente para comerem seu próprio lanchezinho. Pergunto-me
como tiveram estômago para isso.
5
Acho que você sabe que não descobri tudo
isso numa tarde quente de outubro, na biblioteca prestes
a ser fechada da prisão, de um conjunto de jornais velhos,
empilhados em dois caixotes de laranjas Pomona, mas descobri
o suficiente para ter dificuldade em dormir naquela noite.
Quando minha mulher se levantou às duas da manhã e me encontrou
na cozinha, tomando coalhada e fumando cigarros de palha
Bugler, perguntou-me o que é que estava errado e menti para
ela numa das poucas vezes no decurso dos nossos quarenta
e três anos de casados. Disse que tivera outro incidente
com Percy Wetmore. Tinha tido mesmo, é claro, mas essa não
era a razão pela qual ela me encontrara acordado tão tarde.
Geralmente eu conseguia deixar Percy para trás, no escritório.
Bem, esqueça-se dessa maçã podre
e vamos voltar para a cama disse ela. Tenho
uma coisa que vai ajudá-lo a dormir e você pode ter tanto
quanto quiser.
Isso parece bom, mas acho melhor
deixarmos para outro dia respondi. Estou com
alguma coisa no encanamento e não quero passá-la para você.
Ela levantou uma sobrancelha.
Encanamento, é? disse.
Acho que você deve ter-se metido com a garota de esquina
errada na última vez que esteve em Baton Rouge. Nunca
estive em Baton Rouge e nunca sequer toquei numa garota
de esquina, e nós dois sabíamos disso.
É apenas uma simples infecção antiga
das vias urinárias disse eu. Minha mãe costumava
dizer que os meninos pegavam isso por fazer pipi quando
estava soprando o vento norte.
Sua mãe também costumava ficar em
casa o dia todo quando derramava sal na mesa disse
minha mulher. O Dr. Sadler...
Não, senhora falei, erguendo
a mão. Ele vai querer que eu tome sulfa e vou ficar
vomitando por todos os cantos do escritório até o final
da semana. Isso vai passar, mas, nesse meio tempo, acho
que é melhor que João e Maria deixem de brincar.
Ela beijou-me a testa logo acima da minha
sobrancelha esquerda, o que sempre me faz sentir cócegas...
como Janice bem sabia. Pobre bebê. Como se não bastasse
aquele horroroso do Percy Wetmore. Venha logo para a cama.
Obedeci, mas antes fui até a varanda dos
fundos para esvaziar o reservatório (e primeiro conferi
a direção do vento com um dedo molhado o que nossos
pais nos dizem quando somos pequenos raramente fica esquecido,
mesmo que possa ser tolice). Fazer pipi ao ar livre é uma
das alegrias da vida no campo que os poetas nunca chegaram
a descobrir, mas naquela noite não foi nenhuma alegria:
o líquido que saía de mim queimava como um fio de óleo de
lamparina acesa. Entretanto, achei que tinha sido um pouco
pior naquela tarde e sabia que tinha sido pior nos
dois ou três dias anteriores.
Tinha esperança de que talvez estivesse
começando a ficar bom. Nunca uma esperança foi mais infundada.
Ninguém me tinha dito que, às vezes, um bichinho que se
mete lá dentro, onde é quente e úmido, pode tirar um ou
dois dias para descansar antes de retornar com força outra
vez. Ficaria surpreso de saber disso. Ficaria ainda mais
surpreso de saber que, dentro de mais quinze ou vinte anos,
haveria pílulas que liquidariam esse tipo de infecção do
seu organismo em tempo recorde... e embora essas pílulas
pudessem fazer você sentir o estômago um pouco embrulhado
ou lhe soltar os intestinos, quase nunca faziam você vomitar
como as pílulas de sulfa do Dr. Sadler. Lá em 32 não havia
muito que se pudesse fazer a não ser esperar e tentar ignorar
aquela sensação de que alguém tinha derramado óleo de lamparina
dentro do seu peru e depois encostara um fósforo nele.
Terminei minha guimba, fui para o quarto
e finalmente consegui dormir. Sonhei com meninas com sorrisos
tímidos e sangue nos cabelos.
6
Na manhã seguinte havia uma folha de memorando
cor-de-rosa sobre minha escrivaninha, pedindo que passasse
pelo escritório do diretor assim que pudesse. Sabia do que
se tratava havia regras não-escritas mas muito importantes
para o jogo e eu tinha parado de obedecê-las durante algum
tempo na véspera de modo que retardei o máximo que
pude. Suponho que era como ir ao médico por causa do meu
problema com o encanamento. Sempre achei que se dava importância
demais a esse negócio de "acabar logo com isso".
De qualquer maneira, não fui correndo ao
escritório do Diretor Moores. Em vez disso, tirei a túnica
de casimira do meu uniforme, pendurei-a no encosto da minha
cadeira e depois liguei o ventilador no canto era
outro dia de calor. Então me sentei e comecei a examinar
a folha de ocorrências da noite feita por Brutus Howell.
Não havia nada ali para ficar alarmado. Delacroix tinha
chorado um pouco depois de se deitar fazia isso na
maioria das noites e, tenho certeza, mais por ele próprio
do que pelas pessoas que ele tinha queimado vivas
e depois tinha tirado o Sr. Guizos, o camundongo, da caixa
de charutos onde dormia. Isso o tinha acalmado e dormira
como um bebê o resto da noite. O mais provável era que o
Sr. Guizos tivesse passado a noite sobre a barriga de Delacroix,
com sua cauda enrolada sobre as patas, os olhos sem piscar.
Era como se Deus tivesse resolvido que Delacroix precisava
de um anjo da guarda, mas, na Sua sabedoria, decretara que
só um camundongo serviria para um rato como nosso amigo
homicida de Louisiana. É claro que tudo isso não estava
no relatório de Brutal, mas tinha dado plantões noturnos
em quantidade suficiente para preencher as entrelinhas.
Havia uma anotação curta sobre Coffey: "Ficou deitado
acordado, a maior parte do tempo sossegado, pode ter chorado
um pouco. Tentei começar alguma conversa, mas depois de
algumas respostas grunhidas de Coffey, desisti. Talvez Paul
ou Harry tenham mais sorte."
Na verdade, "fazer começar a conversa"
estava na essência do nosso trabalho. Não o sabia então,
mas olhando para trás com a perspectiva privilegiada dessa
estranha velhice (acho que todas as velhices parecem estranhas
para as pessoas que têm que suportá-las), compreendo o que
era e por que não o via naquela época era grande
demais, tão essencial para nosso trabalho como a respiração
é para nossa vida. Não era importante que os temporários
fossem bons em "fazer começar a conversa", mas
era vital para mim, Harry, Brutal e Dean... e era uma das
razões pelas quais Percy Wetmore era um tamanho desastre.
Os detentos o odiavam e os guardas o odiavam... presumivelmente
todo o mundo o odiava, com exceção de seus contatos políticos,
o próprio Percy, e talvez (mas só talvez) sua mãe. Ele era
como uma dose de arsênico borrifada sobre um bolo de casamento
e acho que ele significava um desastre desde o começo. Era
um acidente esperando para acontecer. Quanto ao resto de
nós, teríamos rido da idéia de que funcionávamos de forma
muito mais útil como psiquiatras dos condenados do que como
seus guardas uma parte de mim ainda quer rir dessa
idéia hoje em dia , mas sabíamos como fazer começar
uma conversa... e, sem a conversa, homens que estavam com
a Velha Fagulha pela frente tinham o mau hábito de ficar
loucos.
Fiz uma anotação na parte de baixo do relatório
de Brutal para conversar com John Coffey tentar,
pelo menos e depois passei para um bilhete de Curtis
Anderson, o Assistente-Chefe do Diretor. Dizia que ele,
Anderson, estava esperando para dentro em pouco uma ordem
de DDE para Edward Delacrois (erro de grafia de Anderson:
o nome do homem na verdade era Eduard Delacroix). DDE queria
dizer data de execução e, segundo o bilhete, Curtis soubera
de boa fonte que o francesinho ia dar sua caminhada pouco
antes da Noite das Bruxas 27 de outubro era seu melhor
palpite, e os palpites de Curtis Anderson eram muito bem
informados. Porém, antes disso, podíamos esperar um novo
residente, de nome William Wharton. Na sua caligrafia inclinada
para trás e um tanto efeminada, Curtis escrevera: "Ele
é o que se poderia chamar de `uma criança problema'. Louco
desvairado e com orgulho disso. Vagueou por todo o estado
durante mais ou menos um ano e, por fim, acertou em cheio.
Matou três pessoas num assalto, uma delas uma mulher grávida,
matou uma quarta pessoa na fuga. Um Patrulheiro Estadual.
Só deixou de acertar numa freira e num cego." Sorri
um pouco ao ler isso. "Wharton tem 19 anos, uma tatuagem
na parte superior do braço com os dizeres Billy the Kid.
Você vai ter que lhe dar uns tapas uma ou duas vezes, isso
eu garanto, mas tenha cuidado quando der. Esse homem
simplesmente não se importa com nada." Tinha sublinhado
duas vezes essa opinião, depois concluiu: "Além disso,
ele é capaz de demorar por aí. Está impetrando recursos
e existe o fato de que é menor."
Um garoto maluco, impetrando recursos,
com tendência a se demorar por algum tempo. Ora, isso tudo
parecia ótimo. De repente o dia pareceu mais quente do que
nunca e não podia mais ficar retardando ir ver o Diretor
Moores.
Trabalhei para três diretores durante meus
anos como guarda em Cold Mountain e Hal Moores era o melhor
deles, disparado. Honesto, direto, sem sequer ter o espírito
brincalhão rudimentar de Curtis Anderson, porém dotado da
habilidade política necessária para reter seu emprego durante
aqueles anos sombrios... e integridade bastante para não
se deixar seduzir pelo jogo. Não iria subir mais, porém
isso parecia estar bem para ele. Tinha então cinqüenta e
oito ou nove, um rosto com rugas profundas que lhe davam
uma aparência de sabujo com que Bobo Simms provavelmente
se sentiria perfeitamente à vontade. Seus cabelos estavam
brancos e suas mãos tremiam com uma espécie de paralisia
parcial, mas era forte. No ano anterior, quando um preso
correra para ele no pátio de exercício com uma estaca pontiaguda
feita de uma ripa de caixote, Moores ficou firme, agarrou
o pulso do facínora e torceu-o com tanta força que os ossos
se partiram com um som semelhante ao de gravetos secos queimando
num fogo vivo. O facínora, esquecendo todas as suas queixas,
ajoelhou-se na terra e começou a berrar por sua mãe. Na
sua voz bem-educada, com sotaque sulista, Moores disse:
Eu não sou ela, mas se fosse, levantaria
minhas saias e mijaria em você com as entranhas que lhe
deram a luz.
Quando entrei no seu escritório, fez menção
de se levantar e eu fiz sinal com a mão para que ficasse
sentado. Sentei-me diante dele, em frente à escrivaninha,
e comecei por perguntar por sua mulher... só que, na nossa
parte do mundo, não é assim que se faz. O que perguntei
foi: Como vai aquela sua moça bonita? , como
se Melinda só tivesse visto dezessete verões em vez de sessenta
e dois ou três. Meu interesse era sincero era uma
mulher que eu próprio poderia ter amado e com quem poderia
ter-me casado, se as linhas de nossas vidas tivessem coincidido
, mas também não me importava de desviá-lo um pouco
do seu assunto principal.
Suspirou fundo.
Não muito bem, Paul. Não está nada
bem mesmo.
Mais dores de cabeça?
Só nesta semana, mas foi a pior
de todas, deixou-a de cama durante a maior parte do dia
ontem. E agora ela apareceu com essa fraqueza na mão direita...
Ergueu sua própria mão direita, com manchas de fundo
hepático. Ambos a vimos tremer acima do seu mata-borrão
por um ou dois segundos e depois ele a abaixou novamente.
Podia ver que ele daria praticamente qualquer coisa para
não ter que me dizer o que estava dizendo e eu teria dado
praticamente qualquer coisa para não ter que escutar. As
dores de cabeça de Melinda tinham começado na primavera
e durante todo o verão seguinte seu médico dizia que eram
"enxaquecas devidas à tensão nervosa", talvez
causada pelo estresse da aproximação da aposentadoria de
Hal. Só que ambos mal podiam esperar pela aposentadoria,
e minha própria mulher me dissera que a enxaqueca não é
um mal de velhos e sim de jovens. Quando as pessoas que
padeciam de enxaquecas chegavam à idade de Melinda Moores,
geralmente melhoravam em vez de piorar. E agora essa fraqueza
na mão. Não me parecia tensão nervosa, parecia mais um maldito
derrame.
O Dr. Haverstrom quer que ela vá
ao hospital em Indianola disse Moores. Fazer
uns exames. Ele quer dizer umas chapas de raios X da cabeça.
E quem sabe o que mais. Ela está apavorada. Fez uma
pausa e depois acrescentou. Para dizer a verdade,
eu também.
É, mas faça com que ela vá
disse eu. Não espere. Se for alguma coisa que eles
possam ver com raios X, pode acabar sendo alguma coisa em
que eles podem dar um jeito.
É concordou ele e então,
só por um instante o único durante aquela parte do
encontro, segundo me recordo nossos olhos se encontraram
e ficaram presos uns nos outros. Estabeleceu-se entre nós
aquela espécie de entendimento perfeito e total que não
necessita de palavras. Podia ser um derrame, sim. Também
podia ser um câncer crescendo no seu cérebro e, se fosse
isso, as chances de que os médicos em Indianola pudessem
fazer qualquer coisa eram escassas passando para zero. Isso
era em 32, lembre-se, quando até mesmo algo relativamente
tão simples como uma infecção das vias urinárias era ou
sulfa e vomite ou sofra e espere.
Obrigado por seu interesse, Paul.
Agora vamos falar sobre Percy Wetmore.
Dei um gemido e cobri os olhos.
Recebi um telefonema da capital
estadual hoje de manhã disse o diretor num tom sereno.
Foi um telefonema furioso, como estou certo de que
você pode imaginar. Paul, o governador é tão casado que
ele nem raciocina, se você entende o que quero dizer. E
sua mulher tem um irmão que tem um filho. Esse filho é Percy
Wetmore. Percy telefonou para o pai ontem à noite e o pai
de Percy telefonou para a tia de Percy. Preciso delinear
o resto disso para você?
Não disse eu. Percy
foi se queixar. Bem como o maricas da escola dizendo à professora
que viu João e Maria se esfregando no vestiário.
É concordou Moores ,
é mais ou menos isso.
Você sabe o que aconteceu quando
Delacroix chegou aqui? perguntei. Percy com
aquele seu maldito cassetete de peroba...
Sei, mas...
E você sabe como ele vai batendo
com ele nas grades às vezes, só para se divertir. Ele é
mau e ele é burro e não sei quanto tempo mais vou aturá-lo.
Essa é a verdade.
Conhecíamo-nos há cinco anos. Isso pode
ser bastante tempo para homens que se dão bem, especialmente
quando parte do trabalho é trocar a vida pela morte. O que
estou dizendo é que ele entendia o que eu queria dizer.
Não que iria me demitir, não com a Depressão dando voltas
do lado de fora das paredes da prisão como um criminoso
perigoso, que não podia ser engaiolado como os nossos detentos.
Homens melhores do que eu estavam nas estradas ou pegando
carona nos vagões de carga. Eu tinha sorte e sabia disso:
filhos criados e tirara de cima de mim a hipoteca, aquele
bloco de mármore de cem quilos, fazia dois anos. Mas um
homem precisa comer e sua mulher também precisa comer. Além
disso, costumávamos mandar para nossa filha e genro vinte
pratas sempre que podíamos (e, às vezes, quando não podíamos,
mas as cartas de Jane tinham um tom particularmente desesperado).
Ele era um professor secundário desempregado e, se isso
não justificava ficar desesperado naquela época, então a
palavra não significa nada. Portanto, não, você não deixava
para trás um trabalho com salário garantido como o meu...
isto é, não de cabeça fria. Mas, naquele outono, minha cabeça
não estava fria. As temperaturas do lado de fora estavam
altas demais para a estação e a infecção se arrastando dentro
de mim tinha feito o termostato subir ainda mais. E, quando
um homem está nesse tipo de situação, que diabo, às vezes
seu punho dispara independente da sua própria vontade. E
se você acerta um homem como Percy Wetmore uma vez, é melhor
continuar batendo, porque não dá pra voltar atrás.
Agüente disse Moores com
calma. Foi para lhe dizer isso que o chamei aqui.
Sei de boa fonte na realidade, a pessoa que me telefonou
hoje de manhã que Percy deu entrada num requerimento
em Briar e que esse requerimento será deferido.
Briar disse eu. Era Briar
Ridge, um dos dois hospitais do estado, ambos o fim da picada.
O que é que esse garoto está fazendo? Uma excursão
pelos estabelecimentos estaduais?
É um cargo administrativo. Melhor
salário e papéis para empurrar em vez de camas de hospital
no auge do calor do dia lançou-me um sorriso grande,
de lado. Sabe, Paul, você poderia já se ter livrado
dele se não o tivesse colocado na sala da chave com Van
Hay quando foi a vez do Cacique.
Por um instante o que ele disse pareceu
tão esquisito que não consegui perceber a que estava se
referindo. Talvez eu não estivesse querendo perceber.
Em que outro posto poderia colocá-lo?
perguntei. Deus meu, ele mal sabe o que está
acontecendo no bloco! Fazer dele membro da equipe de execução
propriamente dita... Não concluí. Não podia concluir.
As possibilidades de lambanças pareciam intermináveis.
Apesar disso, você faria bem em
colocá-lo na equipe para Delacroix. Isto é, se quer se ver
livre dele.
Olhei para ele boquiaberto. Por fim consegui
situar as coisas no seu lugar, de modo a poder falar.
O que é que você está dizendo? Que
ele quer ter a experiência bem de perto, de onde possa sentir
o cheiro das bolas do sujeito sendo cozinhadas?
Moores encolheu os ombros. Seus olhos,
tão suaves quando falara sobre sua mulher, agora estavam
duros.
As bolas de Delacroix vão ser cozinhadas
quer Wetmore esteja ou não na equipe disse ele.
Certo?
É, mas ele pode fazer alguma lambança.
Na realidade, Hal, é quase inevitável que vá fazer
uma lambança. E diante de umas trinta testemunhas... repórteres
vindos lá de Louisiana...
Você e Brutus Howell tratarão de
impedir que faça disse Moores. E, de qualquer
maneira, se fizer, vai para a ficha dele e ainda estará
lá muito depois que acabem suas ligações com a casa de governo.
Entendeu?
Entendi. Fez-me ficar enojado e assustado,
mas entendi.
Ele pode querer ficar para Coffey,
mas, se tivermos sorte, terá tudo que quer com Delacroix.
Trate apenas de colocá-lo na equipe para essa aí.
Tinha planejado meter Percy na sala da
chave novamente, depois embaixo, no túnel, tomando conta
da maca de metal que levaria Delacroix para o rabecão do
outro lado da rua, na frente da prisão, mas atirei todos
esses planos por cima do ombro sem pensar duas vezes. Assenti
com a cabeça. Tinha consciência de que estava assumindo
um risco dos infernos, mas não me importei. Se com isso
me livrasse de Percy Wetmore, torceria o nariz do próprio
diabo. Ele podia participar dessa execução, colocar o capacete
e depois olhar pela grelha e dizer a Van Hay para ligar
em dois, podia ficar olhando o francesinho montar no raio
que ele, Percy Wetmore, tinha liberado da garrafa. Ele que
tivesse sua excitaçãozinha perversa, se isso era o que o
assassinato aprovado pelo estado representava para ele.
Ele que fosse para Briar Ridge, onde teria seu próprio escritório,
com um ventilador para refrescá-lo. E se o seu tio por afinidade
perdesse na próxima eleição e ele tivesse que descobrir
como era o trabalho no duro mundo tostado de sol onde nem
todos os maus elementos estavam trancafiados atrás das grades
e às vezes você mesmo levava uma surra, tanto melhor.
Muito bem disse eu, pondo-me
de pé. Vou colocá-lo lá na frente para Delacroix.
E, nesse meio tempo, vou manter a paz.
Bom disse ele e também se
levantou. A propósito, como anda aquele seu probleminha?
Apontou com delicadeza na direção do meu baixo-ventre.
Parece que está um pouco melhor.
Bem, que bom. Acompanhou-me
até a porta. E, a propósito, quanto a Coffey? Será
que vai causar problemas?
Acho que não respondi.
Até agora ele tem estado quieto como um galo morto. Ele
é estranho tem olhos estranhos mas
sossegado. Mas vamos ficar de olho nele. Não se preocupe
com isso.
É claro que você sabe o que ele
fez.
Claro.
A essa altura estava me levando para a
sala de espera, onde a velha Srta. Hannah estava sentada,
martelando na sua Underwood como, ao que parecia, vinha
fazendo desde que findara a última Era Glacial. Estava contente
por ir embora. Levando tudo em consideração, sentia-me como
se tivesse me saído bem. E era bom saber que, afinal de
contas, havia uma chance de sobreviver a Percy.
Dê todo meu carinho a Melinda
disse eu. E não fique imaginando o pior. Provavelmente
isso vai acabar não sendo mais do que enxaquecas no final
das contas.
Sem dúvida falou ele e, por
baixo de seus olhos tristes, os lábios sorriram. A combinação
era quase de assustar.
Quanto a mim, voltei para o Bloco E para
iniciar mais um dia. Havia papéis para ler e escrever, havia
pisos que tinham que ser lavados, havia refeições a serem
servidas, uma lista de plantão para ser feita para a semana
seguinte, havia uma centena de detalhes para tratar. Mas,
sobretudo, havia a espera numa prisão há sempre muito
disso, tanto que não acaba nunca. Esperando que Eduard Delacroix
percorresse o Corredor da Morte, esperando que William Wharton
chegasse com seu lábio estendido e a tatuagem de Billy the
Kid, e, acima de tudo, esperando que Percy Wetmore saísse
da minha vida.
7
O camundongo de Delacroix era um dos mistérios
de Deus. Antes daquele verão, jamais vira um no Bloco E
e jamais vi outro depois daquele outono, quando Delacroix
deixou nossa companhia numa noite quente e cheia de trovões
em outubro deixou-nos de uma maneira tão indescritível
que mal posso fazer-me recordá-la. Delacroix afirmava que
ele tinha amestrado o camundongo, que começara sua vida
conosco como Willie do Barco a Vapor, mas eu realmente acho
que foi ao contrário. Dean Stanton achava a mesma coisa
e Brutal também. Ambos estavam lá na noite em que o camundongo
fez sua primeira aparição e, como Brutal dizia: O
bicho já tava meio amestrado e era duas vezes mais esperto
do que o Cajun que pensava que era seu dono.
Dean e eu estávamos no meu escritório,
revendo a caixa de registros relativa ao ano anterior, nos
preparando para escrever as cartas de acompanhamento para
as testemunhas de cinco execuções, e escrever acompanhamentos
de acompanhamentos em relação a outras seis, que se estendiam
para trás até 29. Basicamente, queríamos saber apenas uma
coisa: estavam satisfeitos com o serviço? Sei que isso parece
grotesco, mas era uma consideração importante. Como contribuintes
da Receita, eram nossos clientes, embora de um tipo muito
especial. Um homem ou uma mulher que se dispõe a comparecer
à meia-noite para assistir à morte de alguém tem que ter
uma razão especial, preponderante, para estar ali, uma necessidade
urgente, e se a execução é uma forma apropriada de castigo,
então essa necessidade precisa ser satisfeita. Tiveram um
pesadelo. O propósito da execução é mostrar-lhes que o pesadelo
acabou. Talvez até funcione desse jeito. Às vezes.
Ei! falou em voz alta Brutal
do lado de fora da porta, onde estava sentado à mesa da
guarda no princípio do corredor. Ei, vocês dois!
Venham até aqui!
Dean e eu nos entreolhamos com a mesma
expressão de susto, pensando que alguma coisa tinha acontecido
com o índio de Oklahoma (seu nome era Arlen Bitterbuck,
mas nós o chamávamos de Cacique... ou, no caso de Harry
Terwilliger, Cacique Queijo de Cabra, porque Harry afirmava
que era esse o cheiro que tinha), ou o camarada que chamávamos
de Presidente. Mas aí Brutal começou a rir e nos apressamos
para ver o que estava acontecendo. Dar risadas no Bloco
E parecia tão errado como dar risadas numa igreja.
O velho Tut-Tut, o preso de confiança que
naquela época estava encarregado do carrinho de comida,
tinha passado com suas guloseimas, e Brutal tinha feito
um estoque para uma noite comprida: três sanduíches, dois
refrigerantes e duas fatias de torta. E também uma porção
de salada de batatas que Tut certamente surrupiara da cozinha
da prisão, onde supostamente ele não podia entrar. Brutal
estava com o livro de registro aberto à sua frente e, por
um desses milagres, ainda não tinha derramado nada nele.
É verdade que ele acabara de começar seu turno.
O quê? perguntou Dean.
O que é?
Afinal de contas, a assembléia estadual
deve ter afrouxado os cordéis da bolsa o suficiente para
contratar outro guarda neste ano disse Brutal, ainda
rindo. Olhem só pra lá.
Apontou com o dedo e vimos o camundongo.
Comecei também a rir e Dean se juntou a nós. Não podíamos
mesmo evitar, porque um guarda fazendo suas rondas de inspeção
a cada quarto de hora era exatamente como aquele camundongo:
um guarda minúsculo, peludo, certificando-se de que ninguém
estava tentando fugir ou cometer suicídio. Ele trotava um
pouco na nossa direção, pelo Corredor da Morte, depois virava
a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse conferindo
as celas. Depois dava outra corridinha curta para diante.
O fato de que podíamos escutar ambos os nossos detentos
de então roncando tranqüilos apesar de toda a gritaria e
risada de algum modo tornava isso ainda mais engraçado.
Era um camundongo marrom perfeitamente
comum, salvo pela maneira como parecia estar conferindo
o interior das celas. Ele até entrou em uma ou duas delas,
esgueirando-se agilmente por entre as grades inferiores
de uma maneira que, imagino, causaria inveja a muitos dos
nossos detentos, passados e presentes. Só que, é claro,
os presos estariam sempre querendo esgueirar-se para
fora.
O camundongo não entrou em nenhuma das
duas celas ocupadas, só nas que estavam vazias. Finalmente,
ele tinha vindo quase até o ponto em que nós estávamos.
O tempo todo fiquei esperando que desse meia-volta, mas
não deu. Não demonstrava o menor medo de nós.
Não é normal que um camundongo se
aproxime de pessoas desse jeito comentou Dean, um
pouco nervoso. Talvez esteja com raiva.
Oh, meu Deus disse Brutal
com a boca cheia de um sanduíche de carne moída prensada.
O grande perito em camundongos. O Homem dos Camundongos.
Está vendo ele espumando pela boca, Homem dos Camundongos?
Nem consigo ver sua boca
disse Dean e isso nos fez rir novamente. Eu também não conseguia
ver-lhe a boca, mas podia enxergar as pequenas contas escuras
que eram seus olhos e a mim não pareciam loucos nem raivosos.
Pareciam interessados e inteligentes. Já levei homens para
a morte homens com almas supostamente imortais
que tinham ar mais idiota do que aquele camundongo.
Ele veio numa corridinha pelo Corredor
da Morte até um ponto que ficava a menos de um metro da
mesa da guarda... que não era nada de especial, como você
pode estar imaginando, mas apenas o tipo de mesa por trás
da qual os professores costumavam se sentar na escola secundária
do distrito. E lá parou, enrolando sua cauda em torno das
patas com o mesmo cuidado de uma senhora idosa ajeitando
as saias.
Parei imediatamente de rir, sentindo subitamente
um frio atravessar-me a pele e ir até os ossos. Quero dizer
que não sei por que me senti desse jeito ninguém
gosta de revelar alguma coisa que vai fazê-lo parecer ridículo
, mas é claro que não sei e, se sou capaz de dizer
a verdade sobre o resto, acho que posso dizer a verdade
sobre isso. Por um instante, me imaginei sendo aquele camundongo,
não um guarda, de forma alguma, mas apenas mais um criminoso
ali no Corredor da Morte, condenado e sentenciado, mas ainda
conseguindo erguer os olhos valentemente para uma mesa que
devia parecer-lhe a quilômetros de altura (como a cadeira
do Juízo de Deus sem dúvida nos parecerá um dia) e para
os gigantes de voz forte, vestidos de azul, que se sentavam
por trás dela. Gigantes que abatiam os da sua espécie com
espingardas de ar comprimido, os esmagavam com vassouras
ou lhes preparavam armadilhas, armadilhas que quebravam-lhes
a espinha enquanto eles estavam avançando cuidadosamente
por cima da palavra VICTOR para mordiscar o queijo sobre
a pequena placa de cobre.
Não havia nenhuma vassoura perto da mesa
da guarda, mas havia um balde com rolos de espremer o enxergão,
com um enxergão ainda entre os espremedores. Pouco antes
de me sentar diante da caixa de registros com Dean, tinha
feito minha parte de lavar o piso de linóleo verde e das
seis celas. Vi que Dean fizera menção de pegar o enxergão
e dar uma pancada com ele no camundongo. Toquei seu pulso
bem quando seus dedos tocaram o cabo fino de madeira.
Deixe-o em paz falei.
Ele deu de ombros e retirou a mão. Tive
a sensação de que ele, como eu, não queria mais esmigalhar
o camundongo.
Brutal arrancou um naco do seu sanduíche
de carne moída prensada e segurou-o na frente da mesa, apertando-o
delicadamente entre dois dedos. O camundongo pareceu olhar
para cima com um interesse ainda maior, como se soubesse
exatamente o que era. Provavelmente sabia. Pude ver seus
bigodes estremecerem enquanto remexia o nariz.
Ah, Brutal, não! exclamou
Dean e depois olhou para mim. Não o deixe fazer isso,
Paul! Se ele der de comer a essa maldita coisa, podemos
perfeitamente estender um tapete de boas-vindas para qualquer
coisa de quatro pernas.
Só quero ver o que ele vai fazer
disse Brutal. Como se fosse no interesse da
ciência. Olhou para mim eu era o chefe, mesmo
em pequenos desvios da rotina como esse. Pensei no assunto
e encolhi os ombros, como se não tivesse muita importância,
de um jeito ou de outro. A verdade é que eu também queria
ver o que ele iria fazer.
Bem, ele comeu, é claro. Afinal de contas,
estávamos em meio a uma depressão. Porém, o modo
como ele comeu nos fascinou a todos. Ele se aproximou do
fragmento de sanduíche, cheirou em volta dele e então se
sentou na sua frente sobre as patas traseiras, como um cachorro
fazendo um truque, agarrou-o e retirou o pão para chegar
à carne. Fez isso de maneira tão proposital e consciente
como um homem comendo um bom prato de rosbife no seu restaurante
predileto. Nunca vi um animal comer assim, nem mesmo um
cão doméstico bem ensinado. E durante todo o tempo em que
estava comendo, jamais tirou os olhos de nós.
Ou bem é um camundongo esperto ou
está com uma fome dos infernos disse uma nova voz.
Era Bitterbuck. Tinha despertado e agora estava de pé junto
das grades de sua cela, nu salvo por um calção de pugilista
de fundilhos grandes. Havia um cigarro de palha preso entre
o segundo e o terceiro nó dos dedos da mão direita e seu
cabelo cinza-escuro lhe caía em duas tranças sobre os ombros
que um dia tinham provavelmente sido musculosos,
mas que agora começavam a ficar amolecidos.
Você tem algum conhecimento especial
de índio a respeito de camundonguinhos, Cacique?
perguntou Brutal, observando o camundongo comendo. Estávamos
todos bastante fascinados pela maneira habilidosa com que
segurava o pedaço de carne prensada com as patas dianteiras,
de vez em quando dando-lhe voltas ou olhando para ela como
se a estivesse admirando ou apreciando.
Nããão respondeu Bitterbuck.
Cunhici um guerreiro um dia que tinha um par do que
ele dizia que era luvas de pele de camundongo, mas num acreditei.
Depois deu uma gargalhada, como se tudo não passasse
de uma piada e se afastou das grades. Ouvimos o catre ranger
quando ele se deitou de novo.
Este pareceu ser o sinal para o camundongo
ir embora. Terminou o que estava segurando, deu uma cheirada
no que sobrava (quase só pão com mostarda amarela empapada
no miolo) e depois olhou de volta para nós, como se quisesse
se lembrar de nossos rostos caso nos encontrássemos novamente.
Aí deu meia-volta e saiu correndo na direção de onde tinha
vindo, dessa vez sem se deter em qualquer inspeção das celas.
Sua pressa me fez pensar no Coelho Branco de Alice no
País das Maravilhas, e dei um sorriso. Ele não parou
diante da porta da solitária e sim se enfiou por baixo dela.
A solitária tinha paredes forradas, para as pessoas que
estavam de miolo um pouco mole. Quando não estávamos precisando
dela para a finalidade para que tinha sido feita, guardávamos
ali material de limpeza e alguns livros (a maioria era de
histórias de faroeste por Clarence Mulford, mas um
só emprestado em ocasiões especiais continha uma
história com profusas ilustrações em que Popeye, Brutus
e até Dudu, a fera do hambúrguer, se revezavam comendo Olívia
Palito). Havia também coisas para trabalhos manuais, inclusive
os lápis pastel que depois Delacroix utilizou muito bem.
Não que ele já fosse então problema nosso; lembre-se, isso
foi antes. Além disso, na solitária também estava o casaco
que ninguém queria usar branco, feito de lona costurada
em camada dupla, com os botões, fivelas e presilhas subindo
pelas costas. Todos nós sabíamos como prender uma criança-problema
naquela camisa-de-força bem depressinha. Nossos meninos
perdidos não ficavam violentos com freqüência, mas quando
ficavam, meu caro, a gente não ficava esperando que a situação
melhorasse por conta própria.
Brutal esticou a mão para dentro da gaveta
que ficava no centro da mesa, sobre o espaço para os joelhos,
e retirou o livro grande, encadernado em couro, com a palavra
VISITANTES gravada na frente, em folha de ouro. Geralmente
esse livro ficava na gaveta por meses a fio. Quando um preso
recebia visita a menos que fosse um advogado ou padre
ele era levado para a sala ao lado do refeitório,
que estava reservada especialmente para essa finalidade.
Nós a chamávamos de A Galeria. Não sei por quê.
Que diacho você acha que está
fazendo? perguntou Dean Stanton, espiando por
cima da armação dos óculos quando Brutal abriu o livro e
foi passando pomposamente pelas páginas, de anos passados,
de visitantes de homens agora mortos.
Obedecendo à Regra 19 respondeu
Brutal, achando a página da época. Pegou o lápis e lambeu
a ponta um hábito desagradável do qual não conseguia
se livrar e preparou-se para escrever. A Regra 19
rezava simplesmente: "Cada visitante do Bloco E deverá
exibir um passe amarelo da Administração e será registrado
imediatamente."
Ele ficou maluco disse Dean
para mim.
Ele não nos mostrou seu passe, mas
por essa vez vou deixar passar falou Brutal. Deu
mais uma lambida na ponta do lápis, para dar sorte, depois
escreveu 21:49 na coluna intitulada ENTRADA NO BLOCO.
Claro, por que não, os chefes importantes
provavelmente abrem exceção para camundongos disse
eu.
Claro que sim concordou Brutal.
Por falta de bolsos. Virou-se para olhar para
o relógio de parede atrás da mesa, depois escreveu 22:01
na coluna intitulada SAÍDA DO BLOCO. O espaço maior entre
esses dois números era intitulado NOME DO VISITANTE. Depois
de pensar intensamente por um momento provavelmente
para reforçar sua limitada capacidade de escrita, pois tenho
certeza de que já estava com a idéia na cabeça Brutus
Howell escreveu cuidadosamente Willie do Barco a Vapor,
que era como a maioria das pessoas chamava Mickey Mouse
naquela época. Era devido àquele primeiro desenho animado
falado, no qual ele girava os olhos, mexia as cadeiras e
puxava o cordel do apito na cabina do piloto do barco a
vapor.
Pronto disse Brutal, fechando
o livro com força e repondo-o na sua gaveta , tudo
feito e acabado.
Dei uma risada, mas Dean, que não conseguia
deixar de levar as coisas a sério mesmo quando via que era
uma brincadeira, estava franzindo a testa e limpando os
óculos freneticamente.
Você vai ter problemas se alguém
vir isso. Hesitou e acrescentou. O alguém
que não devia. Hesitou novamente, passando seu olhar
míope ao redor, quase como se esperasse ver que as paredes
tinham orelhas, antes de concluir: Alguém como Percy
Puxe-meu-Saco-e-Vá-para-o-Céu Wetmore.
Hã disse Brutal. O
dia em que Percy Wetmore sentar sua bunda magra aqui nessa
mesa será o dia em que eu me demito.
Você não vai precisar fazer isso
falou Dean. Eles vão botar você na rua por
escrever piadas no livro de visitantes, se Percy disser
a palavra certa na orelha certa. E ele pode. Você sabe que
pode.
Brutal olhou fixo para ele, mas não disse
nada. Mais tarde nessa noite, achei que ele iria apagar
o que tinha escrito. E se ele não apagasse, eu apagaria.
Na noite seguinte, depois de levar primeiro
Bitterbuck e depois o Presidente até o Bloco D, onde dávamos
banho de chuveiro no nosso grupo depois que os presos comuns
estavam trancados nas suas celas, Brutal me perguntou se
não devíamos dar uma olhada em Willie do Barco a Vapor lá
na solitária.
Acho que devíamos respondi.
Tínhamos dado boas risadas por causa daquele camundongo
na noite anterior, mas sabia que se Brutal e eu o encontrássemos
lá na solitária especialmente se descobríssemos que
ele tinha roído um lugar numa das paredes forradas para
fazer seu ninho nós o mataríamos. É melhor matar
o guia, por mais divertido que ele seja, do que ter que
conviver com os imigrantes. E não devia precisar lhe dizer
que nenhum de nós tinha muitos problemas de consciência
com um pequeno assassinato de camundongo. Afinal de contas,
era para matar ratos que o Estado nos pagava.
Mas não encontramos Willie do Barco a Vapor
que mais tarde seria conhecido como Sr. Guizos
naquela noite, nem aninhado nas paredes forradas nem por
trás da pilha de quinquilharias acumuladas que retiramos
para o corredor. Aliás, havia uma grande quantidade de quinquilharias,
mais do que eu esperava, porque fazia muito tempo que não
usávamos a solitária. Isso iria mudar com a chegada de William
Wharton, mas, é claro, não sabíamos disso então. Que sorte
a nossa.
Onde é que ele se meteu?
perguntou Brutal por fim, enxugando o suor da nuca com uma
faixa azul grande de usar na cabeça. Nenhum buraco,
nenhuma fenda... tem aquilo ali, mas... Apontou para
o ralo no chão. Um camundongo poderia passar pela grade,
mas por baixo dela havia uma tela fina de aço através da
qual nem uma mosca poderia passar. Como foi que ele
entrou? Como foi que ele saiu?
Não sei respondi.
Ele entrou aqui dentro, não entrou?
Quero dizer, nós três o vimos.
Foi, bem por baixo da porta. Teve
que se espremer um pouco, mas passou.
Puxa vida disse Brutal, uma
palavra que parecia estranha, vinda de um homem grande daquele
jeito. Ainda bem que os detentos não podem ficar
pequenos assim, não é?
Pode apostar que sim disse
eu, correndo os olhos pelas paredes forradas, uma da cada
vez, procurando um buraco, uma fenda, qualquer coisa. Não
havia nada. Venha. Vamos embora.
Willie do Barco a Vapor apareceu de novo
três noites depois, quando Harry Terwilliger estava na mesa
da guarda. Percy também estava de serviço e perseguiu o
camundongo de volta pelo Corredor da Morte com o mesmo enxergão
que Dean tinha pensado em usar. O roedor escapou de Percy
com facilidade, enfiando-se pela fresta por baixo da porta
da solitária, vencendo de ponta a ponta. Xingando o mais
alto que podia, Percy destravou a porta e carregou para
fora toda aquela merda de novo. Foi engraçado e assustador
ao mesmo tempo, disse Harry. Percy jurava que pegaria o
maldito camundongo e arrancaria sua cabeça empestada todinha,
mas, é claro, não conseguiu. Suando e descabelado, com a
fralda da camisa do uniforme por fora das calças nas costas,
voltou para a mesa da guarda meia hora depois, procurando
tirar os cabelos de cima dos olhos e dizendo a Harry (que
tinha ficado calmamente lendo durante toda essa agitação)
que ia pôr uma fita isolante na parte inferior daquela porta.
Isso ia resolver o problema daquela praga, declarou.
O que você achar melhor, Percy
disse Harry, virando a página do romance barato que estava
lendo. Achou que Percy ia se esquecer de bloquear a fresta
por baixo da porta, e tinha razão.
8
Mais adiante naquele inverno, muito depois
de terem terminado esses acontecimentos, uma noite Brutal
veio até mim quando só estávamos nós dois, com o Bloco E
temporariamente desocupado e todos os outros guardas distribuídos
para outros blocos. Percy tinha partido para Briar Ridge.
Venha cá disse Brutal numa
voz fina, engraçada, que me fez olhar para ele de repente.
Tinha acabado de entrar, saindo de uma noite fria e com
um princípio de neve úmida e estava tirando a neve dos ombros
do meu casaco antes de pendurá-lo.
Há algo errado? perguntei.
Não respondeu , mas
encontrei por onde o Sr. Guizos estava entrando e saindo.
Quero dizer, quando ele veio pela primeira vez, antes de
que Delacroix o adotasse. Você quer ver?
Claro que eu queria. Segui-o pelo Corredor
da Morte até a solitária. Todas as coisas que guardávamos
lá estavam no corredor. Aparentemente, Brutal tinha aproveitado
a interrupção no tráfego de fregueses para fazer uma faxina.
A porta estava aberta e vi nosso balde com o enxergão lá
dentro. O piso, da mesma tonalidade enjoativa de verde-claro
que o próprio Corredor da Morte, estava secando em estrias.
De pé no centro do piso, havia uma escada de abrir, a que
geralmente ficava guardada na sala de depósito que também
servia de parada final para os condenados do estado. Havia
uma prateleira que se projetava da parte traseira da escada,
perto do topo, o tipo de coisa que um operário usaria para
apoiar sua caixa de ferramentas ou um pintor seu balde de
tinta com que estivesse trabalhando. Havia uma lanterna
de pilha sobre ela e Brutal passou-a para mim.
Suba até lá. Você é mais baixo do
que eu, de modo que vai ter que subir quase tudo, mas eu
seguro suas pernas.
Sinto cócegas nelas disse
eu, começando a subir. Principalmente nos joelhos.
Prestarei atenção nisso.
Ainda bem disse eu ,
porque uma bacia partida é um preço muito alto a pagar só
para descobrir as origens de um único camundongo.
Hã?
Deixa pra lá. A essa altura,
estava com a cabeça junto da lâmpada dentro de uma gaiola
de arame, no centro do teto, e podia sentir a escada gingando
um pouco com meu peso. Podia escutar o vento de inverno
gemendo do lado de fora. Apenas trate de me segurar.
Estou segurando, não se preocupe.
Agarrou meus tornozelos com firmeza e subi mais um
degrau. Agora o cocuruto da minha cabeça estava a menos
de trinta centímetros do teto e podia enxergar as teias
que algumas aranhas empreendedoras tinham tecido nos vértices
onde as vigas do telhado se juntavam. Passeei a luz em volta,
mas não vi nada que compensasse o risco de estar ali em
cima.
Não falou Brutal.
Você está olhando para muito longe, chefe. Olhe para a sua
esquerda, onde aquelas duas vigas se juntam. Está vendo?
Uma delas está meio sem cor.
Estou vendo.
Coloque a luz na junta.
Assim fiz e quase imediatamente vi o que
ele queria que eu visse. As vigas tinham sido presas com
pitocos de madeira, uma meia dúzia deles, e um tinha sumido,
deixando um orifício preto, circular, do tamanho de uma
moeda de vinte e cinco centavos. Olhei para ele, depois
olhei desconfiado por cima do ombro para Brutal.
Era um camundongo pequeno
disse eu , mas tão pequeno assim? Cara, acho que não.
Mas foi por aí que ele passou
disse Brutal. Tenho absoluta certeza.
Não vejo como pode ter tanta certeza.
Incline-se mais para perto... não
se preocupe, estou segurando, e dê uma cheirada.
Fiz como me pedia, tateando com uma das
mãos em busca de uma das outras vigas e me sentindo melhor
quando consegui agarrá-la. O vento lá fora deu outra lufada
e o ar saiu daquele buraco bem no meu rosto. Pude sentir
o cheiro agudo de uma noite de inverno na fronteira do sul...
e alguma outra coisa também.
O cheiro de hortelã.
Não deixe acontecer nada com o Sr.
Guizos, podia ouvir Delacroix dizendo numa voz que não
ficava firme. Podia ouvir isso e podia sentir o calor do
Sr. Guizos quando o francês o entregou a mim, apenas um
camundongo, mais esperto do que a maioria da sua espécie,
sem dúvida, mas ainda assim, com tudo somado, apenas um
camundongo. Só que esse aí não tinha nenhuma razão para
estar vivo. Não deixe aquele sujeito malvado machucar
meu camundongo, disse ele e eu prometi, como sempre
prometia para eles no final, quando percorrer o Corredor
da Morte não era mais um mito ou uma hipótese, mas algo
que eles de fato tinham que fazer. Pode pôr essa carta no
correio para meu irmão, que não vejo há vinte anos? Prometo.
Pode dizer quinze Ave-Marias pela minha alma? Prometo. Pode
me deixar morrer com meu nome de santo e fazer com que seja
escrito na minha tumba? Prometo. Era o jeito de fazê-los
ir e portar-se bem, o jeito de fazê-los se sentar na cadeira
no final do Corredor da Morte com sua sanidade ainda intacta.
É claro que não conseguia cumprir todas essas promessas,
mas cumpri a que fiz a Delacroix. Quanto ao próprio francês,
foi um inferno. O sujeito malvado não pôde machucar o camundongo,
não pela segunda vez, mas machucou Delacroix e muito. Oh,
eu sei o que ele tinha feito, sim, mas ninguém merecia o
que aconteceu com Eduard Delacroix quando ele caiu no abraço
selvagem da Velha Fagulha.
Um cheiro de hortelã.
E alguma outra coisa. Alguma coisa no fundo,
dentro do buraco.
Tirei uma caneta do bolso do peito com
a mão direita, ainda segurando a lanterna com a esquerda,
sem me preocupar mais que Brutal, sem querer, me fizesse
cócegas nos joelhos sensíveis. Tirei a tampa da caneta com
uma só mão, depois meti a ponta da pena lá dentro e puxei
alguma coisa para fora. Era uma pequenina lasca de madeira,
que tinha sido tingida de amarelo vivo, e uma vez mais ouvi
a voz de Delacroix, tão nitidamente agora que seu espírito
poderia estar pairando ali conosco naquele aposento
no qual William Wharton passou tanto do seu tempo.
Ei, vocês, caras! disse a voz dessa
vez a voz risonha e maravilhada de um homem que se
esqueceu, pelo menos por um pouco de tempo, onde está e
o que espera por ele. Venham e vejam o que o Sr. Guizos
é capaz de fazer!
Deus meu murmurei. Senti
como se tivesse perdido o fôlego.
Você encontrou mais uma, não foi?
perguntou Brutal. Encontrei três ou quatro.
Desci e pus a luz sobre sua palma da mão,
grande e aberta. Havia várias lasquinhas de madeira espalhadas
nela, como varetas de presente para duendes. Duas eram amarelas,
como a que encontrara. Uma era verde e outra era vermelha.
Não tinham sido pintadas e sim coloridas, com lápis de cera
Crayola.
Puxa disse eu com a voz baixa
e trêmula. Por quê? Por que estão lá em cima?
Quando eu era menino, não era alto
como sou agora disse Brutal. A maior parte
do que cresci foi entre quinze e dezessete. Até então eu
era uma minhoca. E quando fui para a escola pela primeira
vez, me senti tão pequeno... ora, tão pequeno como um camundongo,
acho que se poderia dizer. Estava apavorado. Então sabe
o que eu fiz?
Abanei a cabeça. Do lado de fora, outra
lufada de vento. Nos ângulos formados pelas vigas, as teias
de aranha se sacudiam nas correntes de ar, como renda despedaçada.
Nunca estivera num lugar que me dava a sensação de ser tão
assombrado e foi bem então, enquanto ficamos parados ali
olhando para os restos em lascas do carretel que tinha causado
tantos problemas, que minha cabeça começou a perceber o
que meu coração tinha entendido desde que John Coffey tinha
percorrido o Corredor da Morte: não podia mais ficar nesse
trabalho. Com ou sem a Depressão, não podia mais olhar muitos
outros homens passarem pelo meu escritório a caminho da
sua morte.
Pedi a minha mãe um de seus lenços
disse Brutal. Assim, quando me sentia pequeno
e com vontade de chorar, podia tirá-lo discretamente do
bolso e cheirar o perfume dela e não me sentir tão mal.
Você acha o quê? que
aquele camundongo arrancou com os dentes uns pedaços daquele
carretel colorido para se lembrar de Delacroix? Que um camundongo...
Ele ergueu os olhos. Por um instante achei
que tinha visto lágrimas nos seus olhos, mas acho que me
enganei a esse respeito.
Eu num disse nada, Paul. Mas encontrei
elas lá em cima e senti o cheiro de hortelã, do mesmo jeito
que você você sabe que sentiu. E não posso mais fazer
isso. Não vou mais fazer isso. Se visse só mais um
homem naquela cadeira, iria morrer. Vou requerer minha transferência
para o Centro Correcional de Meninos na segunda-feira. Se
conseguir antes do próximo, ótimo. Se não, peço demissão
e volto para trabalhar em fazenda.
O que é que você já colheu na vida,
além de pedras?
Não tem importância.
Eu sei que não disse eu.
Acho que vou me juntar a você.
Ele olhou bem para mim, para se certificar
de que eu não estava apenas brincando com ele, depois assentiu
com a cabeça como se já fosse coisa decidida. O vento deu
outra lufada, dessa vez com força bastante para fazer as
vigas rangerem, e nós dois olhamos inquietos para as paredes
forradas. Acho que por um instante pudemos ouvir William
Wharton não Billy the Kid, não ele, para nós ele
tinha sido Bill Selvagem desde seu primeiro dia no bloco
gritando e dando gargalhadas, nos dizendo que nós
íamos ficar doidos de alegria de nos livrarmos dele, dizendo-nos
que nunca o esqueceríamos. Nisso ele tinha razão.
Quanto ao que Brutal e eu combinamos naquela
noite na solitária, acabou sendo daquele jeito mesmo. Foi
quase como se tivéssemos feito um juramento solene sobre
aqueles pedacinhos de madeira colorida. Nenhum dos dois
tornou a participar de outra execução. A de John Coffey
foi a última.