Edição 1 637 - 23/2/2000

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O susto compensa

 

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O primeiro capítulo de À Espera de um Milagre

Stephen King assina contratos que
o transformam no escritor mais
bem pago de todos os tempos

Carlos Graieb

No começo dos anos 70, depois de ter dois livros rejeitados para publicação, um jovem americano resolveu atirar no lixo suas pretensões literárias. Ele estava lutando com uma nova história, mas perdeu o ânimo e achou que era tudo um desperdício de tempo. Amassou as páginas e as jogou no cesto. Foi sua mulher, Tabitha, quem resgatou a papelada e o obrigou a prosseguir, tentando a sorte mais uma vez. Deu certo. Terminado o romance, que se chamava Carrie, uma grande editora concordou em lançá-lo, pagando um modesto adiantamento de 2.500 dólares. Assim começou a carreira de Stephen King, o "mestre do terror", hoje o escritor mais rico de todos os tempos. Ele acaba de fechar dois contratos, na Inglaterra e nos Estados Unidos, que vão rechear ainda mais o seu cofre. Ambos se referem a três livros ainda não escritos. O contrato inglês lhe rendeu, de cara, cerca de 48 milhões de dólares. É provavelmente o maior adiantamento já pago a um autor em todos os tempos – é impossível ter certeza porque a maioria dos contratos do gênero é mantida em sigilo. O negócio americano é único no mercado e também promete alta remuneração. Os detalhes exatos são um segredo guardado a sete chaves. Sabe-se, no entanto, que o autor abriu mão de um adiantamento polpudo. Em troca, a editora Simon & Schuster vai rachar com ele os lucros da vendagem dos livros. Estima-se que, em vez dos royalties de praxe para escritores "normais", que ficam em torno de 10% do preço de um livro, King acabe recebendo o dobro dessa porcentagem.

 
Warner Bros.

John Grisham: 8 milhões de dólares a cada novo livro

Em junho do ano passado, King foi atropelado enquanto passeava nas proximidades de sua casa em Bangor, no Estado do Maine. Teve vários ossos quebrados, um pulmão perfurado e ferimentos na cabeça. Sobreviveu, mas passou por uma longa convalescença. Nesse período, ele cultivou excentricidades. Tocou guitarra num grupo desconhecido, The Rock Bottom Remainders. Comprou o carro que o atropelou, apenas para destruí-lo com marretadas. Pior ainda, afirmou temer que seus textos degenerassem "num blablablá de velhote" e aventou a hipótese de ter ficado meio pancada por causa do acidente. "Quando saí do hospital, assisti a Titanic e chorei. Foi aí que soube que meu QI tinha sido afetado", disse. Começaram a correr boatos de que se aposentaria. Mas os novos contratos mostram que ele ainda tem muita energia e não vai deixar o terreno livre para Michael Crichton e John Grisham, seus concorrentes mais próximos. Autor de livros como Parque dos Dinossauros, Crichton recebeu adiantamentos na casa dos 10 milhões de dólares por seu último romance, Timeline (Linha do Tempo), ainda inédito no Brasil. Quanto a Grisham, autor de O Testamento, entre outros best-sellers, estima-se que receba 8 milhões a cada novo livro.

Números como esses fazem com que os Estados Unidos sejam um dos poucos países, se não o único no mundo, em que escritores figuram nas listas de personalidades mais bem remuneradas na área do entretenimento. No último levantamento anual da revista Forbes, publicado em março de 1999, tanto Crichton quanto King apareceram entre os cinqüenta primeiros. Crichton ocupou o oitavo lugar, logo abaixo do jogador de basquete Michael Jordan. Faturou 65 milhões de dólares naquele ano. Já King foi o 32º, com 40 milhões, ficando ensanduichado entre os atores Brad Pitt e Nicolas Cage. Um dos motivos para que isso se torne possível é a proximidade com Hollywood. Livros dessas megaestrelas da literatura são disputados a tapa pelos grandes estúdios de cinema, e a venda dos direitos de filmagem se transforma numa preciosa fonte extra de dólares. Quem pensa que as editoras ficam com algum tostão dessas negociações está enganado. Em seus contratos, os autores se reservam os direitos de vendagem de suas obras para as telas. Como autor da história original ou roteirista, Stephen King aparece nos créditos de cinqüenta produções de televisão e cinema – incluindo aí À Espera de um Milagre, fita com Tom Hanks que acaba de ser indicada para o Oscar de melhor filme. Crichton e Grisham também são figuras muito valorizadas entre os executivos dos grandes estúdios. O primeiro vendeu os direitos do romance Airframe para a Disney por um valor recorde, 10 milhões de dólares. Grisham, numa entrevista recente, falou a respeito de sua relação com Hollywood: "Tenho o poder de vetar um diretor, de impugnar um roteiro ou até uma locação".

Esses nababos da literatura só existem porque o mercado editorial americano é uma mina de ouro com muitos acessos. Enquanto num país como o Brasil os livros saem num formato apenas, nos Estados Unidos os modos de publicação se multiplicam. Os romances de Stephen King, por exemplo, costumam ter tiragem inicial de 1,5 milhão de exemplares em capa dura. Depois vêm as versões bolso e também o chamado "audio-book" – no qual o texto é lido em voz alta, normalmente por um ator conhecido. Os clubes do livro também são grandes escoadouros: um título escolhido por eles já tem vendagem garantida de pelo menos 1 milhão de volumes. E ainda há a pesquisa de novos formatos. "Neste momento, o mercado anda alvoroçado com a possibilidade de criação do chamado livro eletrônico, que poderá ser comercializado pela internet", informa a agente Karol Fredericks, de Nova York. Por fim, é claro, há o lucro obtido com os lançamentos em outros idiomas. Stephen King já viu seus livros traduzidos para 35 línguas, em mais de uma centena de países. Santa Tabitha, que não teve medo de sujar as unhas na lata de lixo.

 

Enquanto isso, no Brasil...

Quando Stephen King anunciou que abriria mão de um adiantamento para dividir os lucros e os riscos da publicação com seus editores americanos, deixou muita gente de boca aberta. O adiantamento é considerado uma apólice de seguro para o autor – ao receber um bom dinheiro no ato de entrega do original, ou até antes de concluir sua obra, ele fica livre dos humores do mercado. O editor, por sua vez, tem de torcer para que as vendas sejam rápidas, o que lhe permite recuperar o dinheiro desembolsado. Mesmo escritores de vendagem garantida, como John Grisham, continuam adeptos fervorosos desse modelo tradicional. Surpreendentemente, dois autores brasileiros de grande sucesso estão seguindo o caminho de King: Paulo Coelho e Jô Soares. Por O Homem que Matou Getúlio Vargas, Jô não pediu nada em antecipação, mas seus royalties aumentam à medida que crescem as vendagens do livro (a Companhia das Letras mantém segredo sobre os valores exatos). Já Paulo Coelho ganhou um adiantamento de 1 dólar da editora Objetiva por Veronika Decide Morrer. Insistiu, entretanto, que a editora gastasse 400 000 reais com a publicidade da obra, uma quantia pouco usual por aqui. "Fico também com 17% do preço de cada livro vendido", afirma ele. O mercado duvida desse número, dizendo que ele tiraria toda a margem de lucro da Objetiva. Ainda que os royalties fossem de 15%, seriam os maiores já pagos no país. Seriam altos, aliás, até nos Estados Unidos. Mas, para o azar financeiro de Paulo Coelho, sua pátria ainda é o Brasil (veja quadro acima).

 

Saiba mais
Veja aqui o site oficial do filme À Espera de um Milagre