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O susto compensa
Stephen King assina contratos que
o transformam no escritor mais
bem pago de todos os tempos
Carlos Graieb
No começo dos anos 70, depois de ter dois livros
rejeitados para publicação, um jovem americano
resolveu atirar no lixo suas pretensões literárias.
Ele estava lutando com uma nova história, mas perdeu
o ânimo e achou que era tudo um desperdício
de tempo. Amassou as páginas e as jogou no cesto.
Foi sua mulher, Tabitha, quem resgatou a papelada e o obrigou
a prosseguir, tentando a sorte mais uma vez. Deu certo.
Terminado o romance, que se chamava Carrie, uma grande
editora concordou em lançá-lo, pagando um
modesto adiantamento de 2.500
dólares. Assim começou a carreira de Stephen
King, o "mestre do terror", hoje o escritor mais rico de
todos os tempos. Ele acaba de fechar dois contratos, na
Inglaterra e nos Estados Unidos, que vão rechear
ainda mais o seu cofre. Ambos se referem a três livros
ainda não escritos. O contrato inglês lhe rendeu,
de cara, cerca de 48 milhões de dólares. É
provavelmente o maior adiantamento já pago a um autor
em todos os tempos é impossível ter
certeza porque a maioria dos contratos do gênero é
mantida em sigilo. O negócio americano é único
no mercado e também promete alta remuneração.
Os detalhes exatos são um segredo guardado a sete
chaves. Sabe-se, no entanto, que o autor abriu mão
de um adiantamento polpudo. Em troca, a editora Simon &
Schuster vai rachar com ele os lucros da vendagem dos livros.
Estima-se que, em vez dos royalties de praxe para escritores
"normais", que ficam em torno de 10% do preço de
um livro, King acabe recebendo o dobro dessa porcentagem.
Warner Bros.
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John Grisham: 8 milhões
de dólares a cada novo livro
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Em junho do ano passado, King foi atropelado enquanto passeava
nas proximidades de sua casa em Bangor, no Estado do Maine.
Teve vários ossos quebrados, um pulmão perfurado
e ferimentos na cabeça. Sobreviveu, mas passou por
uma longa convalescença. Nesse período, ele
cultivou excentricidades. Tocou guitarra num grupo desconhecido,
The Rock Bottom Remainders. Comprou o carro que o atropelou,
apenas para destruí-lo com marretadas. Pior ainda,
afirmou temer que seus textos degenerassem "num blablablá
de velhote" e aventou a hipótese de ter ficado meio
pancada por causa do acidente. "Quando saí do hospital,
assisti a Titanic e chorei. Foi aí que soube
que meu QI tinha sido afetado", disse. Começaram
a correr boatos de que se aposentaria. Mas os novos contratos
mostram que ele ainda tem muita energia e não vai
deixar o terreno livre para Michael Crichton e John Grisham,
seus concorrentes mais próximos. Autor de livros
como Parque dos Dinossauros, Crichton recebeu adiantamentos
na casa dos 10 milhões de dólares por seu
último romance, Timeline (Linha do Tempo),
ainda inédito no Brasil. Quanto a Grisham, autor
de O Testamento, entre outros best-sellers, estima-se
que receba 8 milhões a cada novo livro.
Números como esses fazem com que os Estados Unidos
sejam um dos poucos países, se não o único
no mundo, em que escritores figuram nas listas de personalidades
mais bem remuneradas na área do entretenimento. No
último levantamento anual da revista Forbes,
publicado em março de 1999, tanto Crichton quanto
King apareceram entre os cinqüenta primeiros. Crichton
ocupou o oitavo lugar, logo abaixo do jogador de basquete
Michael Jordan. Faturou 65 milhões de dólares
naquele ano. Já King foi o 32º, com 40 milhões,
ficando ensanduichado entre os atores Brad Pitt e Nicolas
Cage. Um dos motivos para que isso se torne possível
é a proximidade com Hollywood. Livros dessas megaestrelas
da literatura são disputados a tapa pelos grandes
estúdios de cinema, e a venda dos direitos de filmagem
se transforma numa preciosa fonte extra de dólares.
Quem pensa que as editoras ficam com algum tostão
dessas negociações está enganado. Em
seus contratos, os autores se reservam os direitos de vendagem
de suas obras para as telas. Como autor da história
original ou roteirista, Stephen King aparece nos créditos
de cinqüenta produções de televisão
e cinema incluindo aí À Espera de um
Milagre, fita com Tom Hanks que acaba de ser indicada
para o Oscar de melhor filme. Crichton e Grisham também
são figuras muito valorizadas entre os executivos
dos grandes estúdios. O primeiro vendeu os direitos
do romance Airframe para a Disney por um valor recorde,
10 milhões de dólares. Grisham, numa entrevista
recente, falou a respeito de sua relação com
Hollywood: "Tenho o poder de vetar um diretor, de impugnar
um roteiro ou até uma locação".
Esses nababos da literatura só existem porque o
mercado editorial americano é uma mina de ouro com
muitos acessos. Enquanto num país como o Brasil os
livros saem num formato apenas, nos Estados Unidos os modos
de publicação se multiplicam. Os romances
de Stephen King, por exemplo, costumam ter tiragem inicial
de 1,5 milhão de exemplares em capa dura. Depois
vêm as versões bolso e também o chamado
"audio-book" no qual o texto é lido em voz
alta, normalmente por um ator conhecido. Os clubes do livro
também são grandes escoadouros: um título
escolhido por eles já tem vendagem garantida de pelo
menos 1 milhão de volumes. E ainda há a pesquisa
de novos formatos. "Neste momento, o mercado anda alvoroçado
com a possibilidade de criação do chamado
livro eletrônico, que poderá ser comercializado
pela internet", informa a agente Karol Fredericks, de Nova
York. Por fim, é claro, há o lucro obtido
com os lançamentos em outros idiomas. Stephen King
já viu seus livros traduzidos para 35 línguas,
em mais de uma centena de países. Santa Tabitha,
que não teve medo de sujar as unhas na lata de lixo.
Enquanto isso, no Brasil...
Quando
Stephen King anunciou que abriria mão de um
adiantamento para dividir os lucros e os riscos da
publicação com seus editores americanos,
deixou muita gente de boca aberta. O adiantamento
é considerado uma apólice de seguro
para o autor ao receber um bom dinheiro no
ato de entrega do original, ou até antes de
concluir sua obra, ele fica livre dos humores do mercado.
O editor, por sua vez, tem de torcer para que as vendas
sejam rápidas, o que lhe permite recuperar
o dinheiro desembolsado. Mesmo escritores de vendagem
garantida, como John Grisham, continuam adeptos fervorosos
desse modelo tradicional. Surpreendentemente, dois
autores brasileiros de grande sucesso estão
seguindo o caminho de King: Paulo Coelho e Jô
Soares. Por O Homem que Matou Getúlio Vargas,
Jô não pediu nada em antecipação,
mas seus royalties aumentam à medida que crescem
as vendagens do livro (a Companhia das Letras mantém
segredo sobre os valores exatos). Já Paulo
Coelho ganhou um adiantamento de 1 dólar da
editora Objetiva por Veronika Decide Morrer.
Insistiu, entretanto, que a editora gastasse 400 000
reais com a publicidade da obra, uma quantia pouco
usual por aqui. "Fico também com 17% do preço
de cada livro vendido", afirma ele. O mercado duvida
desse número, dizendo que ele tiraria toda
a margem de lucro da Objetiva. Ainda que os royalties
fossem de 15%, seriam os maiores já pagos no
país. Seriam altos, aliás, até
nos Estados Unidos. Mas, para o azar financeiro de
Paulo Coelho, sua pátria ainda é o Brasil
(veja quadro acima).
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