Edição 1 637 - 23/2/2000

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É revoltante

Programas exploram a desgraça do cantor
Rafael, viciado em drogas pesadas

Ricardo Valladares

 
Marcio Capovilla

Ratinho: hipocrisia ao lamentar o drama do ex-Polegar

Fazer circo com a desgraça alheia é um procedimento comum em alguns programas da televisão brasileira. A vítima da vez é o cantor Rafael Ilha, de 26 anos. Depois de um sucesso relâmpago como vocalista do grupo Polegar nos anos 90, época em que chegou a namorar beldades como a atriz Cristiana Oliveira, Rafael mergulhou no inferno das drogas. Chegou a ser preso por roubar 1 real para comprar uma pedra de crack. Recentemente, durante uma crise de abstinência, engoliu três isqueiros, uma caneta e uma pilha. Rafael, um homem doente, virou presa fácil dos shows de horrores, como o de Ratinho, do SBT. Na semana passada, Ratinho apelou para o ex-Polegar duas vezes. Na segunda-feira, Rafael apareceu em seu programa contando suas desgraças. Na terça, o apresentador promoveu um encontro entre ele e o pai, que nunca conhecera. A produção trouxe da Bahia o agricultor Jorge Meirelles, de 56 anos. Resultado: comoção geral e salvação para um programa em franca decadência. O show de Ratinho, que já chegou a dar 30 pontos de audiência, hoje patina nos 12. Graças a Rafael, o roedor conseguiu um ibope de 20 pontos na segunda e na terça-feira. Foi também na terça, depois da meia-noite, que o cantor foi exibido no evangélico Fala que Eu Te Escuto, da Record. A audiência média dobrou, passando de 2 para 4 pontos.

 
Divulgação
Claudio Rossi
Gugu Liberato: sensacionalismo para aumentar a audiência
aos domingos

Leão: ele foi o primeiro a faturar com o infortúnio do artista

Muita gente que assiste a programas como o Fala que Eu Te Escuto e Ratinho acha que seus apresentadores estão querendo ajudar Rafael. Não há, infelizmente, nenhuma boa intenção envolvida. É tudo briga rasteira por ibope. Antes de se debulhar em lágrimas com o drama do rapaz, Ratinho o xingara várias vezes só porque Rafael havia aparecido no programa de seu rival Gilberto Barros, o Leão. Uma pessoa com dependência química e psicológica de drogas precisa de tratamento, não de exposição pública. Se tivesse quem zelasse por ele, Rafael estaria interditado judicialmente, sob as asas de um tutor e proibido de aparecer na televisão. Mas nem sua mãe, que sobrevive com dificuldade com um salário de 700 reais por mês, e muito menos o pai, que nos últimos dias estava mais preocupado em dar entrevistas, assumem a responsabilidade. Incrível: até o dono da clínica Maxwell, em Bragança Paulista, onde o cantor se encontra internado de graça para desintoxicação, o incentivou a ir à TV. "Ele é um artista e precisa de aplauso", tenta justificar o psiquiatra Sabino Farias Neto. Ao ser entrevistado por VEJA, Sabino ameaçou expulsar Rafael de sua clínica caso saísse algo negativo sobre seu trabalho. Apesar da doença, Rafael tem consciência do que acontece com ele. "As pessoas não querem saber de minha carreira artística, só me chamam quando estou mal", queixa-se. No passado, Leão e Gugu já se aproveitaram da desgraça do ex-Polegar. É revoltante. Do jeito que as coisas vão, a triste história de Rafael terá um final ainda mais infeliz.

 

Banana não é um banana e tem preço de banana

 
Divulgação
Ed Banana: ibope de fruta madura

Ratinho jogou Rafael aos leões por se sentir acossado por Edilson Oliveira, o Ed Banana, que desde o mês passado apresenta um programa na Record. Com picos de 15 pontos, ele freqüentemente ultrapassa o roedor do SBT. Ao contrário do de Ratinho, o show de Banana vem se mostrando inofensivo até agora. É, em última análise, um programa de calouros. Seu quadro mais bizarro é um em que, para ganhar dinheiro, pessoas escolhidas na platéia enfiam a mão numa cumbuca cheia de baratas, escorpiões e ratos. "É tudo inseto de laboratório, as baratas comem farinha láctea e o escorpião nem ferrão tem", diz Banana. Ah, bom.

O apresentador de 35 anos é veterano na televisão. Atua como produtor desde os 15 anos e fez sua estréia na frente das câmaras como dublê do palhaço Bozo, nos anos 80. Banana, que interpreta o personagem Chiquinho no infantil da apresentadora Eliana, agarrou com unhas e dentes a oportunidade de ter um programa próprio. Depois de vê-lo cantando com sua banda de ritmos caribenhos ao lado de Eliana, a direção da Record pediu que ele criasse o piloto de um show para cobrir as férias da Escolinha do Barulho. Edilson inspirou sua indumentária no personagem Máskara, vivido por Jim Carrey no cinema. Como a audiência do horário subiu, Banana foi efetivado. É uma solução boa e barata. O custo de produção de seu programa é de 40 000 reais por mês, enquanto o de Ratinho consome 30 000 por dia.