Edição 1 637 - 23/2/2000

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Onde há fumaça...

Al Pacino e Russell Crowe brilham em drama
sobre os segredos da indústria do tabaco

Isabela Boscov

 
Buena Vista Internacional

Pacino e Crowe: uma dupla contra
o poder das grandes corporações

Cigarro vicia. Mais: é feito para viciar. Não há fumante, hoje, que duvide disso. Mas mesmo uma verdade tão simples pode ter de percorrer caminhos tortuosos para vir a público. É o que mostra O Informante (The Insider, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, com sete indicações ao Oscar – melhor filme, ator, diretor, roteiro adaptado, fotografia, montagem e som. Tenso à maneira dos filmes políticos dos anos 70, como Todos os Homens do Presidente, este drama narra um episódio verídico. Em 1993, Jeffrey Wigand, cientista e alto executivo de um dos sete grandes fabricantes americanos de tabaco, é demitido do emprego. Não sem antes ser amordaçado por um pacto de sigilo que o proíbe de revelar os truques do seu ramo. A consciência, porém, lhe dói. Entra em cena Lowell Bergman, produtor do programa jornalístico 60 Minutes. Percebendo a agitação de Wigand, o repórter se empenha em convencê-lo a revelar seus segredos. Na verdade, o que o bom senso já sugeria: que a nicotina causa dependência e que a indústria do tabaco acentua seus efeitos para garantir a clientela.

O Informante se constrói em torno desse jogo entre o ex-executivo e o jornalista. O que o torna tão envolvente é, acima de tudo, o elenco. Al Pacino exibe sua intensidade habitual como o repórter briguento. Pesado e envelhecido, o neozelandês Russell Crowe é uma bomba-relógio no papel de Wigand. Mal lembra o tira truculento de Los Angeles – Cidade Proibida, e é um candidato forte à estatueta. Só faltou uma indicação para Christopher Plummer, que reproduz em minúcias a figura de Mike Wallace, entrevistador do 60 Minutes. De sua parte, o veterano cineasta Michael Mann contribui com um vigor insuspeito. Criador do seriado Miami Vice e diretor de produções comerciais como O Último dos Moicanos, ele sempre foi um artesão a serviço da indústria – no caso, a de Hollywood. Agora faz sua vingança. Focalizando sempre os personagens em primeiríssimo plano, o que aguça seu isolamento, a câmara do diretor não encontra descanso. É o exemplo mais refinado de um estilo que vem tomando força nos últimos anos.

O tema central do filme, contudo, é a ética, não o cigarro. Com a vida aos pedaços e desamparado pelo 60 Minutes (sua entrevista quase não foi ao ar porque a rede CBS ficou com medo de tomar um processo que a levasse à falência), Wigand é um Davi que tenta derrotar o Golias da América corporativa. Na vida real, essa é uma história sem final feliz, apesar do tom triunfalista do roteiro. Afinal de contas, para cada bilhão pago em indenizações, a indústria do tabaco continua a ganhar muitos outros fazendo o que sempre fez – vender cigarros. Bons tempos aqueles em que bastava pegar um presidente com a boca na botija, como aconteceu com Richard Nixon, para cortar o mal pela raiz.