Onde há fumaça...
Al Pacino e Russell Crowe brilham em drama
sobre os segredos da indústria do tabaco
Isabela Boscov
Buena Vista Internacional
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Pacino e Crowe: uma
dupla contra
o poder das grandes corporações
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Cigarro vicia. Mais: é feito para viciar. Não
há fumante, hoje, que duvide disso. Mas mesmo uma
verdade tão simples pode ter de percorrer caminhos
tortuosos para vir a público. É o que mostra
O Informante (The Insider, Estados
Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito
nacional, com sete indicações ao Oscar
melhor filme, ator, diretor, roteiro adaptado, fotografia,
montagem e som. Tenso à maneira dos filmes políticos
dos anos 70, como Todos os Homens do Presidente,
este drama narra um episódio verídico. Em
1993, Jeffrey Wigand, cientista e alto executivo de um dos
sete grandes fabricantes americanos de tabaco, é
demitido do emprego. Não sem antes ser amordaçado
por um pacto de sigilo que o proíbe de revelar os
truques do seu ramo. A consciência, porém,
lhe dói. Entra em cena Lowell Bergman, produtor do
programa jornalístico 60 Minutes. Percebendo
a agitação de Wigand, o repórter se
empenha em convencê-lo a revelar seus segredos. Na
verdade, o que o bom senso já sugeria: que a nicotina
causa dependência e que a indústria do tabaco
acentua seus efeitos para garantir a clientela.
O Informante se constrói em torno desse
jogo entre o ex-executivo e o jornalista. O que o torna
tão envolvente é, acima de tudo, o elenco.
Al Pacino exibe sua intensidade habitual como o repórter
briguento. Pesado e envelhecido, o neozelandês Russell
Crowe é uma bomba-relógio no papel de Wigand.
Mal lembra o tira truculento de Los Angeles Cidade
Proibida, e é um candidato forte à estatueta.
Só faltou uma indicação para Christopher
Plummer, que reproduz em minúcias a figura de Mike
Wallace, entrevistador do 60 Minutes. De sua parte,
o veterano cineasta Michael Mann contribui com um vigor
insuspeito. Criador do seriado Miami Vice e diretor
de produções comerciais como O Último
dos Moicanos, ele sempre foi um artesão a serviço
da indústria no caso, a de Hollywood. Agora faz
sua vingança. Focalizando sempre os personagens em
primeiríssimo plano, o que aguça seu isolamento,
a câmara do diretor não encontra descanso.
É o exemplo mais refinado de um estilo que vem tomando
força nos últimos anos.
O tema central do filme, contudo, é a ética,
não o cigarro. Com a vida aos pedaços e desamparado
pelo 60 Minutes (sua entrevista quase não
foi ao ar porque a rede CBS ficou com medo de tomar um processo
que a levasse à falência), Wigand é
um Davi que tenta derrotar o Golias da América corporativa.
Na vida real, essa é uma história sem final
feliz, apesar do tom triunfalista do roteiro. Afinal de
contas, para cada bilhão pago em indenizações,
a indústria do tabaco continua a ganhar muitos outros
fazendo o que sempre fez vender cigarros. Bons tempos
aqueles em que bastava pegar um presidente com a boca na
botija, como aconteceu com Richard Nixon, para cortar o
mal pela raiz.