Chegada triunfal
O diretor inglês Sam Mendes estréia
nas telas
com o ótimo Beleza Americana
Isabela Boscov
O
inglês Sam Mendes mal tinha chegado aos 20 anos quando
Judi Dench, uma das mais respeitadas atrizes britânicas,
o anunciou à imprensa de seu país como "um
garoto simplesmente brilhante". Judi acabara de ser dirigida
por ele nos palcos e sabia do que estava falando. Hoje Mendes
tem 34 anos e está deslumbrando as platéias
pela segunda vez, só que em escala mundial. Sua primeira
incursão pelo cinema, Beleza Americana (American
Beauty, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta
sexta-feira no Brasil, é um dos filmes mais extraordinários
a sair de Hollywood nos últimos tempos. Com oito
indicações para o Oscar, é o recordista
deste ano e o candidato mais empolgante desde Ligações
Perigosas, de 1988, que acabou não levando o
troféu.
Beleza Americana concorre aos prêmios de
melhor filme, ator, atriz, roteiro original, fotografia,
montagem, trilha sonora e, claro, diretor. "Se ganhar, ficarei
feliz. Se perder, não terei de passar a vida agüentando
o peso de um Oscar pelo meu primeiro filme", disse Mendes,
que faz o tipo brincalhão, a VEJA. Ao que parece,
ele é o cineasta que tem mais chances de sair da
cerimônia do dia 26 de março com esse fardo
nos ombros. Festejado como diretor teatral na Inglaterra,
esse descendente longínquo de portugueses da Ilha
da Madeira tem várias passagens invejáveis
em seu currículo. Sua montagem londrina de Cabaret
fez tanto sucesso que foi exportada para a Broadway, em
Nova York, invertendo a rota tradicional desse tipo de espetáculo.
O mesmo aconteceu com The Blue Room, peça
na qual Nicole Kidman revelava ao público ângulos
de seu corpo que só o maridão, Tom Cruise,
conhecia. Mendes nunca tinha pensado em se colocar atrás
de uma câmara. A sugestão para que o fizesse
partiu de ninguém menos que Steven Spielberg. Encantado
com a montagem teatral de Cabaret, Spielberg ofereceu
seu estúdio, o DreamWorks, para que o diretor rodasse
seu primeiro filme.
Masturbação e catatonia A segurança
e a maturidade demonstradas por Mendes pegam a platéia
de surpresa. Ainda mais porque o território de Beleza
Americana é o mesmo das sitcoms, aquelas comédias
de meia hora produzidas em série pela televisão:
os subúrbios abastados e aparentemente perfeitos
das grandes cidades dos Estados Unidos. Esse é o
mundo de Lester Burnham, interpretado pelo magistral Kevin
Spacey (veja quadro). Ele se
sente um capacho de sua empresa e só se alegra quando,
pela manhã, se masturba no chuveiro. Lester é
casado com uma mulher castradora (Annette Bening) e tem
uma filha adolescente que detesta os pais. Seus vizinhos
não são muito melhores. O do lado direito
é um militar tirano que reduziu a esposa à
catatonia. O filho deste é o único que parece
ter alguma paz. Posando de bom moço para não
despertar a ira do pai, ele vende drogas para comprar equipamentos
de vídeo, com os quais registra a beleza "quase insuportável",
em suas palavras, do cotidiano.
Apresentados de início como caricaturas, esses
personagens rapidamente se revelam muito mais intrigantes
do que se supõe. A começar por Lester, que
acorda de sua letargia ao pôr os olhos na sedutora
amiguinha de sua filha (Mena Suvari, de American Pie).
Impulsionado pelo desejo, ele empreende uma retumbante volta
à juventude. O tom sardônico com que narra
suas desventuras rende boas risadas entre a platéia.
Mas a fita passa longe da sátira, o tom preferido
dos diretores independentes que se debruçam sobre
esse tema. "Satirizar implica ser mais esperto do que os
personagens. E eu não sou", diz Mendes.
Com sua composição visual estudada e sua
observação aguda dos tipos humanos, Beleza
Americana lembra uma obra de gigantes, como o americano
Stanley Kubrick ou o sueco Ingmar Bergman. Mas revela uma
compaixão para com as fraquezas de seus personagens
que raramente se vê nos filmes desses dois cineastas.
O curioso é que seu roteiro vem assinado por um autor
íntimo das sitcoms: Alan Ball, que passou cinco anos
produzindo enredos para o seriado Cybill, protagonizado
por uma mulher prepotente que lembra muito a senhora Burnham.
"A trama é uma revanche de Ball", admite Mendes.
"Mas também era preciso fazer a platéia crer
que conhece os personagens a fundo, para daí subverter
essas impressões", explica. Dá certo. Aos
poucos, tudo o que parecia vazio e banal nessa vida suburbana
se mostra rico e mesmo poético. Trata-se de uma ironia
simétrica ao título do filme: "american beauty"
é a espécie de rosa vermelha mais vendida
nos Estados Unidos. Ou seja, perfeição cultivada
para consumo.
Rusgas diárias É um fato raro
que um favorito na corrida do Oscar exponha uma visão
tão crítica da sociedade americana. Mais raro
ainda é que os podres do país sejam alvo também
de seu principal concorrente no caso, O Informante
(veja resenha).
Desde o final dos anos 60 e início dos 70 o cinema
produzido pelos grandes estúdios não se mostrava
tão franco. Naquela época, desdourar a pílula
era a palavra de ordem porque os Estados Unidos estavam
levando uma surra no Vietnã, descobrindo a corrupção
na Presidência e penando com a crise do petróleo.
Hoje, quando a hegemonia militar, econômica e cultural
do país é incontestável, o fenômeno
não tem uma explicação tão clara.
Beleza Americana teve um custo baixo. O estúdio
DreamWorks destinou 15 milhões de dólares
à fita, uma ninharia numa Hollywood que gasta em
média 40 milhões por produção.
Cabe lembrar que a quantia empregada para a confecção
do filme é pouco mais do que Guilherme Fontes recebeu
para fazer (e não concluir) Chatô, considerando-se
o valor do real com relação ao dólar
na ocasião em que ele captou recursos. Mendes diz
admirar cineastas como Kubrick e Robert Altman por seu dom
para contar histórias complexas com parcimônia
de recursos estilísticos. Sem dúvida, conseguiu
fazer o mesmo que seus mestres. O diretor relata que tinha
rusgas diárias com os produtores, porque sempre pedia
mais tempo para filmar. "Agora, convenientemente, eles já
esqueceram essas brigas e dizem que sempre souberam que
Beleza Americana seria um sucesso", entrega o diretor,
às risadas.
Um ator
que hipnotiza a platéia
Kevin Spacey adora ser um enigma. É tão
bom nisso que passou praticamente despercebido do
grande público durante toda a primeira parte
de sua carreira. Nela, aperfeiçoou-se no teatro
sob o comando de monstros sagrados, como o diretor
Joseph Papp, e fez pontas no cinema. Os críticos
já estavam de olho nele. Sua estréia
na Broadway, ao lado de Liv Ullmann, numa peça
de Ibsen, foi motivo de aclamação. Assim
como sua parceria com Jack Lemmon em Longa Jornada
Noite Adentro, do dramaturgo Eugene O'Neill, em
1986. Mas foi só quase uma década depois,
no intrincado Os Suspeitos, que as platéias
cinematográficas se deram conta do furacão
que estava a sua frente. Com a fita, Spacey ganhou
o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel de um
sujeito que, quanto mais conta à polícia,
mais esconde sua verdadeira história. Na festa
de entrega da estatueta, agradeceu à mãe.
Em seu trabalho seguinte, interpretou um assassino
de inspiração bíblica no macabro
Seven. Desde então, assediado pela imprensa,
não se cansa de dizer que sua vida particular
é assunto proibido. Argumenta que só
mantendo sua verdadeira personalidade em sigilo será
capaz de convencer o público com suas atuações.
Com essa postura, é claro, levanta insinuações.
Há dois anos, a revista americana Esquire
garantiu que o segredo que Spacey tanto quer esconder
é de natureza sexual. O ator ficou furioso.
"Não sou gay", disse. "Mas também não
vou dizer o que sou."
Apesar de seu sucesso recente nas telas, foi graças
a um trabalho nos palcos que Spacey, de 40 anos, ganhou
lugar de honra em Beleza Americana. Sua interpretação
impetuosa no dificílimo texto The Iceman
Cometh, de Eugene O'Neill, encantou o diretor
Sam Mendes, que foi assistir ao espetáculo
durante uma curta temporada londrina. "Quando ofereci
o papel principal do filme a Kevin, ele suspirou aliviado:
pela primeira vez, não teria de matar todos
os outros personagens ou ser a figura mais inteligente
em cena", relembra Mendes. Sempre um ator de sutilezas
e nuances, Spacey se supera em Beleza Americana.
Seja passando ridículo (como nas cenas em que
baba pela loirinha Mena Suvari), seja no momento em
que recobra a auto-estima há muito perdida,
ele mantém a platéia em estado de atenção
durante todo o filme. Ganhe ou não o Oscar,
pode-se ter certeza: ele é um dos maiores atores
de sua geração.
|