Edição 1 637 - 23/2/2000

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Chegada triunfal

O diretor inglês Sam Mendes estréia nas telas
com o ótimo Beleza Americana

Isabela Boscov

O inglês Sam Mendes mal tinha chegado aos 20 anos quando Judi Dench, uma das mais respeitadas atrizes britânicas, o anunciou à imprensa de seu país como "um garoto simplesmente brilhante". Judi acabara de ser dirigida por ele nos palcos e sabia do que estava falando. Hoje Mendes tem 34 anos e está deslumbrando as platéias pela segunda vez, só que em escala mundial. Sua primeira incursão pelo cinema, Beleza Americana (American Beauty, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira no Brasil, é um dos filmes mais extraordinários a sair de Hollywood nos últimos tempos. Com oito indicações para o Oscar, é o recordista deste ano e o candidato mais empolgante desde Ligações Perigosas, de 1988, que acabou não levando o troféu.

Beleza Americana concorre aos prêmios de melhor filme, ator, atriz, roteiro original, fotografia, montagem, trilha sonora e, claro, diretor. "Se ganhar, ficarei feliz. Se perder, não terei de passar a vida agüentando o peso de um Oscar pelo meu primeiro filme", disse Mendes, que faz o tipo brincalhão, a VEJA. Ao que parece, ele é o cineasta que tem mais chances de sair da cerimônia do dia 26 de março com esse fardo nos ombros. Festejado como diretor teatral na Inglaterra, esse descendente longínquo de portugueses da Ilha da Madeira tem várias passagens invejáveis em seu currículo. Sua montagem londrina de Cabaret fez tanto sucesso que foi exportada para a Broadway, em Nova York, invertendo a rota tradicional desse tipo de espetáculo. O mesmo aconteceu com The Blue Room, peça na qual Nicole Kidman revelava ao público ângulos de seu corpo que só o maridão, Tom Cruise, conhecia. Mendes nunca tinha pensado em se colocar atrás de uma câmara. A sugestão para que o fizesse partiu de ninguém menos que Steven Spielberg. Encantado com a montagem teatral de Cabaret, Spielberg ofereceu seu estúdio, o DreamWorks, para que o diretor rodasse seu primeiro filme.

Masturbação e catatonia – A segurança e a maturidade demonstradas por Mendes pegam a platéia de surpresa. Ainda mais porque o território de Beleza Americana é o mesmo das sitcoms, aquelas comédias de meia hora produzidas em série pela televisão: os subúrbios abastados e aparentemente perfeitos das grandes cidades dos Estados Unidos. Esse é o mundo de Lester Burnham, interpretado pelo magistral Kevin Spacey (veja quadro). Ele se sente um capacho de sua empresa e só se alegra quando, pela manhã, se masturba no chuveiro. Lester é casado com uma mulher castradora (Annette Bening) e tem uma filha adolescente que detesta os pais. Seus vizinhos não são muito melhores. O do lado direito é um militar tirano que reduziu a esposa à catatonia. O filho deste é o único que parece ter alguma paz. Posando de bom moço para não despertar a ira do pai, ele vende drogas para comprar equipamentos de vídeo, com os quais registra a beleza "quase insuportável", em suas palavras, do cotidiano.

Apresentados de início como caricaturas, esses personagens rapidamente se revelam muito mais intrigantes do que se supõe. A começar por Lester, que acorda de sua letargia ao pôr os olhos na sedutora amiguinha de sua filha (Mena Suvari, de American Pie). Impulsionado pelo desejo, ele empreende uma retumbante volta à juventude. O tom sardônico com que narra suas desventuras rende boas risadas entre a platéia. Mas a fita passa longe da sátira, o tom preferido dos diretores independentes que se debruçam sobre esse tema. "Satirizar implica ser mais esperto do que os personagens. E eu não sou", diz Mendes.

Com sua composição visual estudada e sua observação aguda dos tipos humanos, Beleza Americana lembra uma obra de gigantes, como o americano Stanley Kubrick ou o sueco Ingmar Bergman. Mas revela uma compaixão para com as fraquezas de seus personagens que raramente se vê nos filmes desses dois cineastas. O curioso é que seu roteiro vem assinado por um autor íntimo das sitcoms: Alan Ball, que passou cinco anos produzindo enredos para o seriado Cybill, protagonizado por uma mulher prepotente que lembra muito a senhora Burnham. "A trama é uma revanche de Ball", admite Mendes. "Mas também era preciso fazer a platéia crer que conhece os personagens a fundo, para daí subverter essas impressões", explica. Dá certo. Aos poucos, tudo o que parecia vazio e banal nessa vida suburbana se mostra rico e mesmo poético. Trata-se de uma ironia simétrica ao título do filme: "american beauty" é a espécie de rosa vermelha mais vendida nos Estados Unidos. Ou seja, perfeição cultivada para consumo.

Rusgas diárias – É um fato raro que um favorito na corrida do Oscar exponha uma visão tão crítica da sociedade americana. Mais raro ainda é que os podres do país sejam alvo também de seu principal concorrente – no caso, O Informante (veja resenha). Desde o final dos anos 60 e início dos 70 o cinema produzido pelos grandes estúdios não se mostrava tão franco. Naquela época, desdourar a pílula era a palavra de ordem porque os Estados Unidos estavam levando uma surra no Vietnã, descobrindo a corrupção na Presidência e penando com a crise do petróleo. Hoje, quando a hegemonia militar, econômica e cultural do país é incontestável, o fenômeno não tem uma explicação tão clara.

Beleza Americana teve um custo baixo. O estúdio DreamWorks destinou 15 milhões de dólares à fita, uma ninharia numa Hollywood que gasta em média 40 milhões por produção. Cabe lembrar que a quantia empregada para a confecção do filme é pouco mais do que Guilherme Fontes recebeu para fazer (e não concluir) Chatô, considerando-se o valor do real com relação ao dólar na ocasião em que ele captou recursos. Mendes diz admirar cineastas como Kubrick e Robert Altman por seu dom para contar histórias complexas com parcimônia de recursos estilísticos. Sem dúvida, conseguiu fazer o mesmo que seus mestres. O diretor relata que tinha rusgas diárias com os produtores, porque sempre pedia mais tempo para filmar. "Agora, convenientemente, eles já esqueceram essas brigas e dizem que sempre souberam que Beleza Americana seria um sucesso", entrega o diretor, às risadas.

 

Um ator que hipnotiza a platéia

Kevin Spacey adora ser um enigma. É tão bom nisso que passou praticamente despercebido do grande público durante toda a primeira parte de sua carreira. Nela, aperfeiçoou-se no teatro sob o comando de monstros sagrados, como o diretor Joseph Papp, e fez pontas no cinema. Os críticos já estavam de olho nele. Sua estréia na Broadway, ao lado de Liv Ullmann, numa peça de Ibsen, foi motivo de aclamação. Assim como sua parceria com Jack Lemmon em Longa Jornada Noite Adentro, do dramaturgo Eugene O'Neill, em 1986. Mas foi só quase uma década depois, no intrincado Os Suspeitos, que as platéias cinematográficas se deram conta do furacão que estava a sua frente. Com a fita, Spacey ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel de um sujeito que, quanto mais conta à polícia, mais esconde sua verdadeira história. Na festa de entrega da estatueta, agradeceu à mãe. Em seu trabalho seguinte, interpretou um assassino de inspiração bíblica no macabro Seven. Desde então, assediado pela imprensa, não se cansa de dizer que sua vida particular é assunto proibido. Argumenta que só mantendo sua verdadeira personalidade em sigilo será capaz de convencer o público com suas atuações. Com essa postura, é claro, levanta insinuações. Há dois anos, a revista americana Esquire garantiu que o segredo que Spacey tanto quer esconder é de natureza sexual. O ator ficou furioso. "Não sou gay", disse. "Mas também não vou dizer o que sou."

Apesar de seu sucesso recente nas telas, foi graças a um trabalho nos palcos que Spacey, de 40 anos, ganhou lugar de honra em Beleza Americana. Sua interpretação impetuosa no dificílimo texto The Iceman Cometh, de Eugene O'Neill, encantou o diretor Sam Mendes, que foi assistir ao espetáculo durante uma curta temporada londrina. "Quando ofereci o papel principal do filme a Kevin, ele suspirou aliviado: pela primeira vez, não teria de matar todos os outros personagens ou ser a figura mais inteligente em cena", relembra Mendes. Sempre um ator de sutilezas e nuances, Spacey se supera em Beleza Americana. Seja passando ridículo (como nas cenas em que baba pela loirinha Mena Suvari), seja no momento em que recobra a auto-estima há muito perdida, ele mantém a platéia em estado de atenção durante todo o filme. Ganhe ou não o Oscar, pode-se ter certeza: ele é um dos maiores atores de sua geração.


Saiba mais
Site oficial do filme na Dreamworks
Rotten Tomatoes (notícias e entrevistas)

Site oficial na Amazon.com

Assista a trechos do filme