Edição 1 637 - 23/2/2000

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O futuro já era

A revista Time elege Brasília como um dos
monstrengos arquitetônicos do século XX

 
Nelio Rodrigues

Praça dos Três Poderes: "construções expostas ao sol inclemente e aos ventos"

Na semana passada, a revista Time, em sua edição americana, publicou uma série de artigos com projeções sobre as mudanças que deverão ocorrer no dia-a-dia dos cidadãos no século XXI. Evitando a futurologia, a revista baseia-se apenas em tendências que já estão em curso na sociedade e em tecnologias que a ciência domina ou está prestes a dominar. No artigo dedicado à arquitetura, a Time enxerga o declínio do estilo modernista, aquele que nos últimos cinqüenta anos recheou as cidades do mundo inteiro com prédios de linhas retas, feitos de concreto, aço e vidro. O novo padrão seria aquele utilizado em construções como a Opera de Sydney, na Austrália, e o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. Nesses prédios, as paredes parecem flutuar como bandeirolas e, do exterior, não se sabe muito bem onde ficam o teto e o chão.

Num quadro complementar ao artigo, a Time relaciona três construções do século XX que considera verdadeiros atentados à boa arquitetura. Uma delas é o prédio da MetLife (ex-edifício Pan Am), em Nova York, uma chapa de concreto que comprometeu o horizonte da Park Avenue, de autoria do alemão Walter Gropius, um dos papas do modernismo. Outra é o Les Halles, em Paris, um monstrengo pós-moderno erguido no local onde ficava um antigo mercado. O terceiro exemplo de má arquitetura eleito pela Time é Brasília. A cidade, segundo a revista, é composta de construções incômodas, expostas ao sol inclemente e aos ventos. O arquiteto Oscar Niemeyer, autor dos projetos dos mais famosos prédios públicos da cidade, é classificado como criador de uma capital "modernista cafona".

As opiniões veiculadas na revista americana podem mexer com os brios dos brasileiros. Afinal, Brasília é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade e permanece como a jóia mais vistosa da arquitetura nacional. Sob a ótica fria da História, no entanto, o julgamento da Time não é desprovido de fundamento. Quando foi construída, na passagem dos anos 50 para os 60, Brasília ganhou o apelido de "cidade do futuro". Seus maiores símbolos, como a Praça dos Três Poderes, o Palácio da Alvorada ou a Esplanada dos Ministérios, foram erguidos de acordo com o que havia de mais revolucionário no ideário arquitetônico. Meio século depois, o que era futurista foi parar no escaninho do passado. As construções brasilienses já não impressionam tanto pela ousadia. Para quem trabalha nos prédios oficiais de Brasília, resta ainda conviver com uma série de esquisitices. Num lugar tão cheio de luminosidade como o Planalto Central, por exemplo, o Congresso Nacional fica abaixo do nível do chão. Os edifícios também foram projetados de maneira tal que, no verão, se transformam em verdadeiras fornalhas. Brasília pode não ser cafona, como diz a Time, mas é pouco funcional. E arquitetura sem funcionalidade é como amor sem sexo.