O futuro já era
A revista Time elege Brasília
como um dos
monstrengos arquitetônicos do século XX
Nelio Rodrigues
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Praça dos Três Poderes:
"construções
expostas ao sol inclemente e aos ventos"
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Na semana passada, a revista Time, em sua edição
americana, publicou uma série de artigos com projeções
sobre as mudanças que deverão ocorrer no dia-a-dia
dos cidadãos no século XXI. Evitando a futurologia,
a revista baseia-se apenas em tendências que já
estão em curso na sociedade e em tecnologias que
a ciência domina ou está prestes a dominar.
No artigo dedicado à arquitetura, a Time enxerga
o declínio do estilo modernista, aquele que nos últimos
cinqüenta anos recheou as cidades do mundo inteiro
com prédios de linhas retas, feitos de concreto,
aço e vidro. O novo padrão seria aquele utilizado
em construções como a Opera de Sydney, na
Austrália, e o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha.
Nesses prédios, as paredes parecem flutuar como bandeirolas
e, do exterior, não se sabe muito bem onde ficam
o teto e o chão.
Num quadro complementar ao artigo, a Time relaciona
três construções do século XX
que considera verdadeiros atentados à boa arquitetura.
Uma delas é o prédio da MetLife (ex-edifício
Pan Am), em Nova York, uma chapa de concreto que comprometeu
o horizonte da Park Avenue, de autoria do alemão
Walter Gropius, um dos papas do modernismo. Outra é
o Les Halles, em Paris, um monstrengo pós-moderno
erguido no local onde ficava um antigo mercado. O terceiro
exemplo de má arquitetura eleito pela Time é
Brasília. A cidade, segundo a revista, é composta
de construções incômodas, expostas ao
sol inclemente e aos ventos. O arquiteto Oscar Niemeyer,
autor dos projetos dos mais famosos prédios públicos
da cidade, é classificado como criador de uma capital
"modernista cafona".
As opiniões veiculadas na revista americana podem
mexer com os brios dos brasileiros. Afinal, Brasília
é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade
e permanece como a jóia mais vistosa da arquitetura
nacional. Sob a ótica fria da História, no
entanto, o julgamento da Time não é
desprovido de fundamento. Quando foi construída,
na passagem dos anos 50 para os 60, Brasília ganhou
o apelido de "cidade do futuro". Seus maiores símbolos,
como a Praça dos Três Poderes, o Palácio
da Alvorada ou a Esplanada dos Ministérios, foram
erguidos de acordo com o que havia de mais revolucionário
no ideário arquitetônico. Meio século
depois, o que era futurista foi parar no escaninho do passado.
As construções brasilienses já não
impressionam tanto pela ousadia. Para quem trabalha nos
prédios oficiais de Brasília, resta ainda
conviver com uma série de esquisitices. Num lugar
tão cheio de luminosidade como o Planalto Central,
por exemplo, o Congresso Nacional fica abaixo do nível
do chão. Os edifícios também foram
projetados de maneira tal que, no verão, se transformam
em verdadeiras fornalhas. Brasília pode não
ser cafona, como diz a Time, mas é pouco funcional.
E arquitetura sem funcionalidade é como amor sem
sexo.