Edição 1 637 - 23/2/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Protecionismo fere os pobres
Caso Ambev: agora é guerra
Sobe o preço, mas o país é quase auto-suficiente
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Petróleo

Foi apenas um susto

O preço internacional do petróleo dispara,
mas encontra um mundo mais preparado

Consuelo Dieguez

O mundo levou um susto na semana passada, quando o preço internacional do petróleo rompeu a barreira dos 30 dólares por barril. Foi a mais alta cotação dos últimos nove anos e o triplo do preço de apenas um ano atrás. O susto tinha razão de ser. O petróleo é um componente básico dos preços no mundo inteiro. Se seu valor aumenta, a inflação sobe. Alan Greenspan, o presidente do Fed, o banco central americano, chegou a avisar que as taxas de juros subiriam para conter o consumo e a inflação se as coisas continuassem caminhando como estavam, já que os Estados Unidos importam a metade dos 18 milhões de barris de petróleo que consomem diariamente. Foi uma ameaça aterradora. Se além de pagar alto pelo óleo o mundo ainda fosse privado da voracidade do consumo da economia americana, haveria, sem dúvida, nova crise mundial. Mas no final da semana o quadro já parecia bem menos alarmante. Logo depois de receber a visita de um mensageiro americano, o ministro da Energia do México, Luis Téllez, avisou que seu país aumentará a produção de petróleo na tentativa de provocar queda nos preços internacionais. Até o ministro do Petróleo da Arábia Saudita, maior produtor mundial, Ali Naimi, já admitiu que há exagero na cotação do produto. "O preço ideal fica entre 20 e 25 dólares por barril", disse. Assim, espera-se que a Opep, o clube que reúne os países exportadores de petróleo, defina um aumento na produção em sua próxima reunião, em março, e que com isso o preço caia.

A birra dos árabes, em cujo território estão as maiores reservas internacionais, elevou artificialmente o preço do petróleo em três fatídicas ocasiões: em 1973, 1979 e 1981. Os preços dispararam também durante a Guerra do Golfo, em 1991, quando o Iraque, grande produtor, foi posto fora do negócio pelo embargo da ONU. Em 1979 o Brasil importava nada menos que 85% do óleo que consumia. Naquela época, a economia imediatamente mergulhou em uma das maiores crises de sua história. Para conter a alta dos preços, os Estados Unidos elevaram os juros de 5% para 19% ao ano, quebrando a maioria dos países que estavam pendurados em empréstimos externos – o Brasil entre eles. Nunca como agora o Brasil esteve tão seguro diante das altas internacionais do produto. Importa apenas 29% do que consome. Mesmo assim o governo já gastou mais do que se previa na conta do petróleo. A intenção era fazer com que, neste ano, a diferença entre o preço internacional do óleo e o cobrado pelo combustível na bomba dos postos desse um lucro de 3,4 bilhões de dólares ao Tesouro. Agora, mesmo que o preço internacional caia rapidamente, o governo tem de buscar recursos para cobrir o que parece ser um buraco certo em suas contas. É um dilema. Ou autoriza o aumento dos combustíveis e corre o risco de criar inflação, ou cobra a fatura do contribuinte via aumento de impostos. Portanto, é bom que os brasileiros se preparem.

O momento atual é diferente de outras crises do petróleo não só para o Brasil mas para todo o mundo – e por vários motivos. Um deles é a razão que levou à alta do preço do óleo no mercado internacional. Ele não subiu porque os poços do Kuwait estivessem pegando fogo ou porque os Estados Unidos saíssem em defesa de Israel contra ataques árabes. O preço subiu por uma questão de mercado. O petróleo barato de quase todo o ano passado foi um dos pilares que sustentaram o excelente desempenho da economia americana. Também ajudou na recuperação do Japão e dos Tigres Asiáticos. A aceleração econômica naquela região acabou catapultando a cotação. O aumento do consumo do combustível provocado pelo acelerado crescimento econômico obrigou os Estados Unidos a avançar sobre seus estoques de óleo. Pelo mesmo motivo, o Japão e os países asiáticos inflaram suas importações do produto.

A natureza também jogou contra. Para suportar o inverno mais rigoroso dos últimos tempos, europeus e americanos gastaram muito mais óleo nos aquecedores domésticos. Ao perceber essa compulsão pelo produto, a Opep, dona de mais de 70% das reservas mundiais do combustível, resolveu aproveitar. Numa reunião no final de novembro, os onze países membros da confraria decidiram reduzir suas cotas de produção. Estavam em cena todos os ingredientes da inapelável lei da oferta e da procura. Com a demanda em alta e a produção em queda, o preço sobe – não há como ser diferente. Nas contas externas de países como a Venezuela, vender petróleo a 30 dólares o barril é uma bênção.

Ocorre que atualmente há produtores de petróleo que não compõem o corpo da Opep, como a Noruega. Outros países, como o Brasil, que extraíam pouquíssimo óleo anos atrás, hoje produzem quase tudo o que consomem. Novas tecnologias permitem a substituição do combustível por fontes alternativas de energia. Gás, álcool, eletricidade e até energia solar já podem ser usados para mover indústrias e motores de automóveis. Não são utilizados porque o petróleo ainda é uma opção mais barata. O mundo pode lançar mão dessas alternativas caso a pressão altista fique muito grande. Os produtores de petróleo sabem muito bem disso.

 
Ilustrações: Wander Mendes