Petróleo
Foi apenas um susto
O preço internacional do petróleo dispara,
mas encontra um mundo mais preparado
Consuelo Dieguez
O
mundo levou um susto na semana passada, quando o preço internacional
do petróleo rompeu a barreira dos 30 dólares por barril. Foi
a mais alta cotação dos últimos nove anos e o triplo do preço
de apenas um ano atrás. O susto tinha razão de ser. O petróleo
é um componente básico dos preços no mundo inteiro. Se seu valor
aumenta, a inflação sobe. Alan Greenspan, o presidente do Fed,
o banco central americano, chegou a avisar que as taxas de juros
subiriam para conter o consumo e a inflação se as coisas continuassem
caminhando como estavam, já que os Estados Unidos importam a
metade dos 18 milhões de barris de petróleo que consomem diariamente.
Foi uma ameaça aterradora. Se além de pagar alto pelo óleo o
mundo ainda fosse privado da voracidade do consumo da economia
americana, haveria, sem dúvida, nova crise mundial. Mas no final
da semana o quadro já parecia bem menos alarmante. Logo depois
de receber a visita de um mensageiro americano, o ministro da
Energia do México, Luis Téllez, avisou que seu país aumentará
a produção de petróleo na tentativa de provocar queda nos preços
internacionais. Até o ministro do Petróleo da Arábia Saudita,
maior produtor mundial, Ali Naimi, já admitiu que há exagero
na cotação do produto. "O preço ideal fica entre 20 e 25
dólares por barril", disse. Assim, espera-se que a Opep,
o clube que reúne os países exportadores de petróleo, defina
um aumento na produção em sua próxima reunião, em março, e que
com isso o preço caia.
A
birra dos árabes, em cujo território estão as maiores reservas
internacionais, elevou artificialmente o preço do petróleo em
três fatídicas ocasiões: em 1973, 1979 e 1981. Os preços dispararam
também durante a Guerra do Golfo, em 1991, quando o Iraque,
grande produtor, foi posto fora do negócio pelo embargo da ONU.
Em 1979 o Brasil importava nada menos que 85% do óleo que consumia.
Naquela época, a economia imediatamente mergulhou em uma das
maiores crises de sua história. Para conter a alta dos preços,
os Estados Unidos elevaram os juros de 5% para 19% ao ano, quebrando
a maioria dos países que estavam pendurados em empréstimos externos
o Brasil entre eles. Nunca como agora o Brasil esteve
tão seguro diante das altas internacionais do produto. Importa
apenas 29% do que consome. Mesmo assim o governo já gastou mais
do que se previa na conta do petróleo. A intenção era fazer
com que, neste ano, a diferença entre o preço internacional
do óleo e o cobrado pelo combustível na bomba dos postos desse
um lucro de 3,4 bilhões de dólares ao Tesouro. Agora, mesmo
que o preço internacional caia rapidamente, o governo tem de
buscar recursos para cobrir o que parece ser um buraco certo
em suas contas. É um dilema. Ou autoriza o aumento dos combustíveis
e corre o risco de criar inflação, ou cobra a fatura do contribuinte
via aumento de impostos. Portanto, é bom que os brasileiros
se preparem.
O momento atual é diferente de outras crises do petróleo não
só para o Brasil mas para todo o mundo e por vários motivos.
Um deles é a razão que levou à alta do preço do óleo no mercado
internacional. Ele não subiu porque os poços do Kuwait estivessem
pegando fogo ou porque os Estados Unidos saíssem em defesa de
Israel contra ataques árabes. O preço subiu por uma questão
de mercado. O petróleo barato de quase todo o ano passado foi
um dos pilares que sustentaram o excelente desempenho da economia
americana. Também ajudou na recuperação do Japão e dos Tigres
Asiáticos. A aceleração econômica naquela região acabou catapultando
a cotação. O aumento do consumo do combustível provocado pelo
acelerado crescimento econômico obrigou os Estados Unidos a
avançar sobre seus estoques de óleo. Pelo mesmo motivo, o Japão
e os países asiáticos inflaram suas importações do produto.
A natureza também jogou contra. Para suportar o inverno mais
rigoroso dos últimos tempos, europeus e americanos gastaram
muito mais óleo nos aquecedores domésticos. Ao perceber essa
compulsão pelo produto, a Opep, dona de mais de 70% das reservas
mundiais do combustível, resolveu aproveitar. Numa reunião no
final de novembro, os onze países membros da confraria decidiram
reduzir suas cotas de produção. Estavam em cena todos os ingredientes
da inapelável lei da oferta e da procura. Com a demanda em alta
e a produção em queda, o preço sobe não há como ser diferente.
Nas contas externas de países como a Venezuela, vender petróleo
a 30 dólares o barril é uma bênção.
Ocorre que atualmente há produtores de petróleo que não compõem
o corpo da Opep, como a Noruega. Outros países, como o Brasil,
que extraíam pouquíssimo óleo anos atrás, hoje produzem quase
tudo o que consomem. Novas tecnologias permitem a substituição
do combustível por fontes alternativas de energia. Gás, álcool,
eletricidade e até energia solar já podem ser usados para mover
indústrias e motores de automóveis. Não são utilizados porque
o petróleo ainda é uma opção mais barata. O mundo pode lançar
mão dessas alternativas caso a pressão altista fique muito grande.
Os produtores de petróleo sabem muito bem disso.