Edição 1 637 - 23/2/2000

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Caso Ambev: agora é guerra
Sobe o preço, mas o país é quase auto-suficiente
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Bebidas

Agora é guerra!

AmBev e Kaiser partem para o tudo ou nada e
trocam desaforos na frente dos consumidores

César Nogueira

"Eles (a Coca-Cola) resolveram colocar o irmãozinho pequeno para brigar com a gente." – Marcel Telles, co-presidente da AmBev, sobre a campanha da Kaiser contra a fusão

"Nós da AmBev não somos contra fusões nem multinacionais. Só queremos que o Brasil tenha direito a ter as suas..." – Campanha da AmBev no rádio

"O parecer é burro e covarde." – Marcel Telles, sobre o parecer da Secretaria de Direito Econômico que sugere a venda de uma das três marcas da AmBev

"A AmBev faz um discurso hipócrita. Fala em nacionalismo e tem acionistas suíços" – Humberto Pandolpho, presidente da Kaiser, em entrevista a VEJA

"Não somos contra fusões, somos contra o monopólio." – Mensagem do presidente da Kaiser na TV

"Os pareceres foram baseados na Lei Antitruste. A comunicação feita pela AmBev é revanchista e mentirosa." – Humberto Pandolpho, em entrevista coletiva

Os apreciadores de cerveja estão habituados às guerras publicitárias entre os fabricantes da bebida. Mas nunca a coisa esquentou tanto quanto neste verão. Como numa briga de bar, os dois principais produtores, a AmBev, nascida da fusão de Brahma e Antarctica, e a Kaiser, resolveram partir para as garrafadas. O bate-boca passou pelo Congresso e pela Polícia Federal. Na TV, as propagandas com cenas de praias, mulheres esculturais e rapagões de boa estampa bebendo cerveja cederam espaço a imagens dos presidentes das empresas, com discursos que lembram o horário político. "Não somos contra fusões, somos contra o monopólio", dizia, em um comercial, o presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, em campanha contra a junção dos dois principais concorrentes em uma megaempresa. "Nós da AmBev não somos contra fusões nem multinacionais. Só queremos que o Brasil tenha o direito de ter as suas...", retrucava, na semana passada, um comunicado da AmBev em que ela se apresenta como uma multinacional verde-amarela.

A propaganda, que normalmente é usada pelas empresas para ganhar a preferência dos consumidores, tornou-se uma arma para conquistar-lhes a opinião. Como se, em lugar de beber, tivessem de votar em cervejas. O irônico é que gasta-se uma fortuna em publicidade para aparentemente convencer 160 milhões de brasileiros quando o processo de fusão das cervejarias será decidido por um pequeniníssimo grupo de técnicos, os sete integrantes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, que deverá dar a sua palavra a respeito da criação da AmBev em pouco mais de um mês. Pode sacramentá-la ou inviabilizá-la. Daí o esforço das empresas para fazer a cabeça da população e influenciar a decisão dos burocratas. "Reservamos 3,6 milhões de reais só para essa campanha", diz Pandolpho, da Kaiser. "Já autorizamos uma verba publicitária extra de 5 milhões de reais. Até onde eles forem, nós vamos", contra-ataca Marcel Telles, co-presidente da AmBev. Ao jogar para a torcida num jogo que será decidido no tapetão pelos sete conselheiros do Cade, as empresas estão dando mais transparência à questão. Isso é bastante positivo.

Divulgação
Cerveja Kaiser e Coca-Cola: flagrante
da distribuição conjunta


O debate esquentou nas últimas semanas. A Kaiser colocou no ar um comercial com seu presidente acusando a AmBev de querer monopolizar o mercado. A AmBev deu o troco ao sugerir que a Kaiser estaria agindo por inspiração da Coca-Cola, interessada em pôr pedras no caminho de uma futura internacionalização do guaraná Antarctica. Na semana passada, a Kaiser levou a briga aos tribunais. A empresa quer que a concorrente prove a acusação de que o sistema Coca-Cola controla a Kaiser. Num lance agressivo, a AmBev fez chegar às redações de jornais na última semana a fotografia, obtida numa ação de espionagem industrial, em que um funcionário com macacão da Coca-Cola faz a entrega de uma caixa de cerveja Kaiser a um estabelecimento não identificado – o que provaria a operação conjunta das duas empresas.

A arbitragem dessas questões não é fácil, porque é um tipo de problema com o qual o país não tinha defrontado até agora. O jogo da globalização exige empresas cada vez maiores. Pelo mundo afora, megafusões de empresas passaram a ser notícias banais. O problema, para os governos, é saber como garantir que animais econômicos desse porte não se tornem predadores de consumidores desamparados. O caso da AmBev é típico. A empresa pode transformar-se na terceira maior cervejaria do mundo, uma máquina de bebidas capaz de despejar em bares, restaurantes e lares 25 milhões de litros de cerveja e refrigerante por dia. Ficará grande o suficiente para enfrentar gigantes como a holandesa Heineken ou a americana Budweiser. Na bula da fusão, porém, há uma contra-indicação: a AmBev torna-se senhora absoluta do mercado brasileiro. Evitar que isso desemboque na manipulação do mercado e em prejuízo para os consumidores é uma preocupação do governo. O problema tem dois tipos de solução. Pode-se zerar as tarifas de importação de cervejas, caso a AmBev abuse do aumento de preços, ou pode-se, à moda dos governos fortes, inviabilizar a fusão.