Uma fatia do bolo
Países pobres querem maior
participação na riqueza mundial
Eliana Simonetti
Em Bangcoc, na Tailândia, representantes de governos de 190
países todos pobres ou em desenvolvimento, exceto o Japão
deram a conhecer ao mundo sua visão da globalização. É uma
imagem bem diferente daquela plácida e otimista que transpira
das reuniões do G-7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo.
Embora tenham reconhecido alguns avanços, especialmente no acesso
a novas tecnologias, as nações pobres, como regra geral, estão
muito aborrecidas. Elas acham que a globalização tem falhado
flagrantemente em integrar a porção menos favorecida do planeta
no processo de enriquecimento mundial. Nas ruas, o povo tailandês,
recém-saído de uma crise financeira, gritava contra o imperialismo
ianque, como se fazia na década de 60. O francês Michel Camdessus,
que encerrou treze anos de comando no Fundo Monetário Internacional,
levou um pedaço de bolo de morango no rosto. O agressor, um
americano militante de uma organização especializada em lambuzar
de glacê o rosto dos próceres da globalização, esqueceu que
nos últimos tempos o FMI tem defendido a idéia de que os governos
não podem desprezar o combate à pobreza.
Foi uma semana em que a linha imaginária que separa os ricos
países do Hemisfério Norte de seus esforçados primos pobres
da calota sul ficou muito parecida com um muro. Além disso,
houve bate-boca tanto entre tradicionais parceiros quanto entre
adversários figadais no comércio. Brasileiros e americanos divergiram
porque os Estados Unidos ergueram novas barreiras à importação
de aço e de produtos agrícolas. Europeus e japoneses reclamaram
contra o fechamento do mercado americano a seus produtos, e
todos falaram mal da Europa, que não importa produtos agrícolas.
Noutro front, foram tamanhos os desentendimentos entre o Brasil
e a Argentina, parceiros no Mercosul, que o governo brasileiro
resolveu recorrer a uma organização externa ao bloco comercial
sul-americano, a Organização Mundial do Comércio, para forçar
os argentinos a comprar os produtos têxteis feitos no Brasil.

Quem acompanhou o noticiário da semana teve a sensação de que
o mundo está em crise. E não se enganou. No ambiente sem fronteiras
que vem sendo criado no planeta, as negociações estão cada vez
mais acaloradas. "Todos querem exportar e enriquecer e
ninguém quer importar. Vivemos num mundo sem ordem. É cada um
por si", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente
da General Motors do Brasil e presidente da Anfavea, a associação
dos fabricantes de veículos. Pinheiro Neto é personagem de um
caso exemplar. Para vender os carros que produz, a GM está negociando
diretamente com o México, o Chile e a Venezuela. O governo brasileiro
só é chamado para tomar conhecimento do assunto quando os acertos
já estão costurados. Ao conseguir vender seus carros Astra para
o Chile, com alíquota de importação reduzida, a GM do Brasil
destroçou um contrato feito pela mesma GM, da Europa, que era
a que fornecia os automóveis aos chilenos. "O que importa
é a nossa fatia no bolo", diz Pinheiro Neto.
A reunião da Unctad, a conferência das Nações Unidas para o
comércio e o desenvolvimento, em Bangcoc, foi o retrato dessa
guerra. Normalmente, a reunião em Davos, na Suíça, é tida como
o encontro dos ricos para debater a economia mundial, e a Unctad
é o lado pobre da moeda, o encontro no qual os países em desenvolvimento
têm espaço para reclamar. Neste ano, no entanto, como a reunião
da Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos Estados Unidos,
foi um fracasso, e Davos não contribuiu em nada para o entendimento
global, esperava-se que os ricos desembarcassem em Bangcoc para
uma nova tentativa de diálogo. Isso não aconteceu. A décima
conferência da Unctad, encerrada neste sábado, foi uma choradeira
só.
Segundo dados divulgados pela Unctad, dos 4,8 bilhões de pessoas
que vivem no mundo em desenvolvimento, 3 bilhões sobrevivem
com o correspondente a menos de 2 dólares por dia. Os 20% da
população global que vive em países ricos desfrutam de 82% dos
resultados da expansão do comércio internacional e recebem 68%
dos investimentos externos diretos. A globalização está enriquecendo
os que já são ricos numa velocidade muito maior do que vem melhorando
a vida dos pobres. Todos em Bangcoc concordavam com a idéia
de que a solução dos problemas está nas mãos dos governos dos
países ricos. Em alguns casos eles precisariam tomar decisões
impopulares, confrontando grupos de pressões em seus próprios
países. "Precisamos humanizar a globalização, porque a
pobreza é a ameaça definitiva à estabilidade do mundo",
disse Michel Camdessus. "O que importa não é a quantidade
nem a intensidade da integração internacional, mas a sua qualidade",
disse o secretário-geral da Unctad, o brasileiro Rubens Ricupero.
"Os governos dos países ricos precisam ter força para confrontar
os que defendem o protecionismo em seu território", resumiu
Kofi Annan, secretário-geral da Organização das Nações Unidas.
Vista de Bangcoc a globalização é um movimento econômico irreversível,
mas ainda carregado de problemas, marcado pela volatilidade
financeira, recessão, concentração do poder econômico e impasse
nas negociações comerciais. Uma babel, enfim, com a particularidade
de que toda a confusão costuma reverter em prejuízo dos mais
fracos. De acordo com estudos feitos pelos economistas ligados
à Unctad, somente o protecionismo agrícola do Primeiro Mundo
provoca prejuízos anuais de 20 bilhões de dólares aos países
em desenvolvimento. Na África, na Ásia, no Pacífico e no Caribe
cerca de 48 países serão incapazes de se livrar da desintegração
social e da miséria sem empréstimos, assistência técnica e acesso
aos mercados dos países ricos.
A questão é que o grande importador mundial atualmente são
os Estados Unidos, cuja balança comercial anda tão desequilibrada
que o déficit já atingiu 300 bilhões de dólares. Ninguém espera
que os americanos continuem bancando esse déficit por muito
mais tempo. O buraco na balança comercial foi definido recentemente
por Alan Greenspan, presidente do banco central americano, como
"o maior problema atual da economia dos Estados Unidos".
Muito provavelmente o protecionismo vai ganhar mais fôlego e
apoio entre os americanos. Por enquanto, os Estados Unidos ainda
tentam escamotear seu protecionismo atrás de desculpas que soam
cada vez mais hipócritas, como a luta contra o trabalho infantil
ou a defesa do meio ambiente. Isso tende a acabar e é de se
esperar que ajam mais abertamente na defesa de seu mercado.
Aliás, essa nova abordagem já começou. Há dez dias, o governo
americano elevou as tarifas cobradas sobre o aço importado e
criou uma nova linha de financiamento para subsidiar o setor
agrícola. "Em trinta anos de carreira, nunca vi barreiras
tão flagrantes e discriminatórias como as que estão sendo adotadas
agora pelos americanos", diz o ministro das Relações Exteriores
brasileiro, Luiz Felipe Lampreia. "Estamos sujeitos à lei
do mais forte."
Na semana passada, esteve no Brasil o secretário de Comércio
dos Estados Unidos, William Daley. Ele trouxe na delegação dezenove
empresários americanos com a missão específica de incrementar
as relações comerciais entre os dois países. Fez tudo errado.
Começou criticando o processo de privatização e a lei de patentes
adotados no Brasil, sem que ninguém tivesse pedido sua dispensável
opinião sobre assuntos internos do Brasil. Depois, pressionou
seus interlocutores em Brasília com argumentos favoráveis à
adoção do sistema americano de telefonia celular na banda C,
em detrimento do sistema europeu. Ocupou uma parte do seu tempo
fazendo lobby para que a Alca, o acordo de livre comércio das
Américas, que os Estados Unidos patrocinam, saia até 2005. E
terminou dizendo que se os brasileiros não se comportassem direitinho
iriam espantar os investimentos americanos do país. Enfim, um
caubói valentão sem um traço de diplomacia ou respeito por seus
anfitriões brasileiros. Tudo que o falastrão Daley conseguiu
foi reacender os ânimos nacionalistas que começavam a sossegar.
Nos últimos sete anos, o Brasil importou 75 bilhões de dólares
em produtos americanos e exportou apenas 61 bilhões de dólares
para os Estados Unidos. Vendeu alguns aviões, que são caros,
mas exportou principalmente produtos semimanufaturados de ferro
ou aço, café, pastas químicas de madeira coisas com pouco
valor agregado, que exigem tecnologia simples. É claro que as
barreiras americanas atrapalham os negócios brasileiros, mas
o Brasil também tem uma parte de culpa nessa relação mal resolvida.
"Há vinte anos a pauta brasileira de exportações quase
não muda, e o Brasil está praticamente ausente da lista dos
100 produtos de exportação de maior dinamismo", diz Rubens
Ricupero. "É preciso investir na qualidade das exportações
brasileiras."
Quando se faz muito ruído, como está acontecendo agora, é difícil
que se ouçam idéias de bom senso. Os ricos têm ignorado o clamor
dos pobres porque têm seus próprios problemas com que se preocupar.
Não há garantias de que a prosperidade dure para sempre, e os
trabalhadores americanos e europeus receiam perder o emprego
se seus países importarem produtos mais baratos de lugares pobres,
onde os salários sejam baixos. Os pobres que seguiram a cartilha
da globalização abriram seus mercados, privatizaram empresas
estatais e acolheram investimentos externos. Já não sabem mais
o que fazer para diminuir a distância que os separa dos países
mais bem aquinhoados. Na semana passada, enquanto transcorria
a reunião da Unctad, a Suíça tomou uma providência que pode
ser um indicativo do caminho a seguir. Anunciou um pacote de
socorro ao Brasil e a mais quatro países latino-americanos.
Não é dinheiro. É auxílio técnico para que os países atraiam
investimentos destinados a aquecer áreas dedicadas à exportação,
que são as que, no fundo, realmente acrescentam riqueza às nações.
Capital do Terceiro Mundo
Protecionismo nos Estados Unidos funciona como as piores
mazelas que os americanos costumam apontar no Terceiro
Mundo. Em última análise é o dinheiro do lobby que determina
se um produto estrangeiro sofrerá restrições tarifárias
ou qualquer outro tipo de obstáculo para entrar no mercado
americano. Recentemente, a revista Time fez uma
reportagem de capa sobre o bilionário Carl Lindner, dono
das famosas bananas Chiquita. Irritado com a restrição
à venda de suas bananas na Europa, Lindner foi à ofensiva
em Washington. Doou cerca de 250 000 dólares para as campanhas
de eminências do Partido Democrata, do presidente Clinton,
e conseguiu que os Estados Unidos aumentassem a tarifa
de importação de três produtos europeus. É assim que são
as coisas por lá.
As leis protecionistas não são baixadas por decreto.
São votadas no Congresso. Para os lobistas, fazê-las aprovar
dá um enorme trabalho e consome uma montanha de dinheiro.
Estima-se que circularão 500 milhões de dólares, somente
neste ano, nesse mercado negro do convencimento. Para
os países prejudicados, derrubar essas leis é quase impossível.
"Vai ser preciso que os empresários brasileiros montem
também uma estrutura de lobby de grande porte por aqui",
disse a Flávia Sekles um alto funcionário da embaixada
brasileira em Washington.
Em outubro do ano passado, um grupo de deputados americanos
reuniu-se numa sala do Congresso para ouvir reclamações
de executivos das maiores companhias siderúrgicas dos
EUA. Estavam presentes Curtis Barnette, presidente da
Bethlehem Steel, James Haech, vice-presidente executivo
da LTV, e Paul Wilhelm, presidente do U.S. Steel Group.
Todos pediam proteção contra o aço importado do Brasil,
da Europa, do Japão e da Coréia do Sul. Com custo de produção
elevado, as siderúrgicas americanas perdem na briga com
o produto estrangeiro. Para se defender, mantêm um lobby
estrondoso. Investem mais de 20 milhões de dólares só
em propaganda. Às vésperas da eleição presidencial, não
tiveram grande dificuldade em convencer os deputados a
estabelecer impostos que encareceram o aço importado.
Resultado: as vendas de aço brasileiro para os Estados
Unidos caíram 70% no ano passado e deverão ser menores
neste ano.
Entre os lobbies americanos que mais ferem os interesses
brasileiros está o dos produtores de suco de laranja.
Eles têm seus interesses representados por dois grupos
organizados sob o nome de "comitês de ação política".
Um da Califórnia e outro da Flórida, os dois Estados que
mais produzem suco no país. Entre 1998 e 1999, o comitê
da Flórida doou cerca de 60 000 dólares para candidatos
a deputado que defendem seus interesses. Quanto doou aos
partidos ninguém sabe. Mas os resultados foram notáveis.
Empresas brasileiras pagam um pedágio de 40% sobre o preço
internacional do suco de laranja para entrar nos EUA.
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