Edição 1 637 - 23/2/2000

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Uma fatia do bolo

Países pobres querem maior
participação na riqueza mundial

Eliana Simonetti

Em Bangcoc, na Tailândia, representantes de governos de 190 países – todos pobres ou em desenvolvimento, exceto o Japão – deram a conhecer ao mundo sua visão da globalização. É uma imagem bem diferente daquela plácida e otimista que transpira das reuniões do G-7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo. Embora tenham reconhecido alguns avanços, especialmente no acesso a novas tecnologias, as nações pobres, como regra geral, estão muito aborrecidas. Elas acham que a globalização tem falhado flagrantemente em integrar a porção menos favorecida do planeta no processo de enriquecimento mundial. Nas ruas, o povo tailandês, recém-saído de uma crise financeira, gritava contra o imperialismo ianque, como se fazia na década de 60. O francês Michel Camdessus, que encerrou treze anos de comando no Fundo Monetário Internacional, levou um pedaço de bolo de morango no rosto. O agressor, um americano militante de uma organização especializada em lambuzar de glacê o rosto dos próceres da globalização, esqueceu que nos últimos tempos o FMI tem defendido a idéia de que os governos não podem desprezar o combate à pobreza.

Foi uma semana em que a linha imaginária que separa os ricos países do Hemisfério Norte de seus esforçados primos pobres da calota sul ficou muito parecida com um muro. Além disso, houve bate-boca tanto entre tradicionais parceiros quanto entre adversários figadais no comércio. Brasileiros e americanos divergiram porque os Estados Unidos ergueram novas barreiras à importação de aço e de produtos agrícolas. Europeus e japoneses reclamaram contra o fechamento do mercado americano a seus produtos, e todos falaram mal da Europa, que não importa produtos agrícolas. Noutro front, foram tamanhos os desentendimentos entre o Brasil e a Argentina, parceiros no Mercosul, que o governo brasileiro resolveu recorrer a uma organização externa ao bloco comercial sul-americano, a Organização Mundial do Comércio, para forçar os argentinos a comprar os produtos têxteis feitos no Brasil.

Quem acompanhou o noticiário da semana teve a sensação de que o mundo está em crise. E não se enganou. No ambiente sem fronteiras que vem sendo criado no planeta, as negociações estão cada vez mais acaloradas. "Todos querem exportar e enriquecer e ninguém quer importar. Vivemos num mundo sem ordem. É cada um por si", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors do Brasil e presidente da Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos. Pinheiro Neto é personagem de um caso exemplar. Para vender os carros que produz, a GM está negociando diretamente com o México, o Chile e a Venezuela. O governo brasileiro só é chamado para tomar conhecimento do assunto quando os acertos já estão costurados. Ao conseguir vender seus carros Astra para o Chile, com alíquota de importação reduzida, a GM do Brasil destroçou um contrato feito pela mesma GM, da Europa, que era a que fornecia os automóveis aos chilenos. "O que importa é a nossa fatia no bolo", diz Pinheiro Neto.

A reunião da Unctad, a conferência das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento, em Bangcoc, foi o retrato dessa guerra. Normalmente, a reunião em Davos, na Suíça, é tida como o encontro dos ricos para debater a economia mundial, e a Unctad é o lado pobre da moeda, o encontro no qual os países em desenvolvimento têm espaço para reclamar. Neste ano, no entanto, como a reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos Estados Unidos, foi um fracasso, e Davos não contribuiu em nada para o entendimento global, esperava-se que os ricos desembarcassem em Bangcoc para uma nova tentativa de diálogo. Isso não aconteceu. A décima conferência da Unctad, encerrada neste sábado, foi uma choradeira só.

Segundo dados divulgados pela Unctad, dos 4,8 bilhões de pessoas que vivem no mundo em desenvolvimento, 3 bilhões sobrevivem com o correspondente a menos de 2 dólares por dia. Os 20% da população global que vive em países ricos desfrutam de 82% dos resultados da expansão do comércio internacional e recebem 68% dos investimentos externos diretos. A globalização está enriquecendo os que já são ricos numa velocidade muito maior do que vem melhorando a vida dos pobres. Todos em Bangcoc concordavam com a idéia de que a solução dos problemas está nas mãos dos governos dos países ricos. Em alguns casos eles precisariam tomar decisões impopulares, confrontando grupos de pressões em seus próprios países. "Precisamos humanizar a globalização, porque a pobreza é a ameaça definitiva à estabilidade do mundo", disse Michel Camdessus. "O que importa não é a quantidade nem a intensidade da integração internacional, mas a sua qualidade", disse o secretário-geral da Unctad, o brasileiro Rubens Ricupero. "Os governos dos países ricos precisam ter força para confrontar os que defendem o protecionismo em seu território", resumiu Kofi Annan, secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

Vista de Bangcoc a globalização é um movimento econômico irreversível, mas ainda carregado de problemas, marcado pela volatilidade financeira, recessão, concentração do poder econômico e impasse nas negociações comerciais. Uma babel, enfim, com a particularidade de que toda a confusão costuma reverter em prejuízo dos mais fracos. De acordo com estudos feitos pelos economistas ligados à Unctad, somente o protecionismo agrícola do Primeiro Mundo provoca prejuízos anuais de 20 bilhões de dólares aos países em desenvolvimento. Na África, na Ásia, no Pacífico e no Caribe cerca de 48 países serão incapazes de se livrar da desintegração social e da miséria sem empréstimos, assistência técnica e acesso aos mercados dos países ricos.

A questão é que o grande importador mundial atualmente são os Estados Unidos, cuja balança comercial anda tão desequilibrada que o déficit já atingiu 300 bilhões de dólares. Ninguém espera que os americanos continuem bancando esse déficit por muito mais tempo. O buraco na balança comercial foi definido recentemente por Alan Greenspan, presidente do banco central americano, como "o maior problema atual da economia dos Estados Unidos". Muito provavelmente o protecionismo vai ganhar mais fôlego e apoio entre os americanos. Por enquanto, os Estados Unidos ainda tentam escamotear seu protecionismo atrás de desculpas que soam cada vez mais hipócritas, como a luta contra o trabalho infantil ou a defesa do meio ambiente. Isso tende a acabar e é de se esperar que ajam mais abertamente na defesa de seu mercado. Aliás, essa nova abordagem já começou. Há dez dias, o governo americano elevou as tarifas cobradas sobre o aço importado e criou uma nova linha de financiamento para subsidiar o setor agrícola. "Em trinta anos de carreira, nunca vi barreiras tão flagrantes e discriminatórias como as que estão sendo adotadas agora pelos americanos", diz o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Luiz Felipe Lampreia. "Estamos sujeitos à lei do mais forte."

Na semana passada, esteve no Brasil o secretário de Comércio dos Estados Unidos, William Daley. Ele trouxe na delegação dezenove empresários americanos com a missão específica de incrementar as relações comerciais entre os dois países. Fez tudo errado. Começou criticando o processo de privatização e a lei de patentes adotados no Brasil, sem que ninguém tivesse pedido sua dispensável opinião sobre assuntos internos do Brasil. Depois, pressionou seus interlocutores em Brasília com argumentos favoráveis à adoção do sistema americano de telefonia celular na banda C, em detrimento do sistema europeu. Ocupou uma parte do seu tempo fazendo lobby para que a Alca, o acordo de livre comércio das Américas, que os Estados Unidos patrocinam, saia até 2005. E terminou dizendo que se os brasileiros não se comportassem direitinho iriam espantar os investimentos americanos do país. Enfim, um caubói valentão sem um traço de diplomacia ou respeito por seus anfitriões brasileiros. Tudo que o falastrão Daley conseguiu foi reacender os ânimos nacionalistas que começavam a sossegar.

Nos últimos sete anos, o Brasil importou 75 bilhões de dólares em produtos americanos e exportou apenas 61 bilhões de dólares para os Estados Unidos. Vendeu alguns aviões, que são caros, mas exportou principalmente produtos semimanufaturados de ferro ou aço, café, pastas químicas de madeira – coisas com pouco valor agregado, que exigem tecnologia simples. É claro que as barreiras americanas atrapalham os negócios brasileiros, mas o Brasil também tem uma parte de culpa nessa relação mal resolvida. "Há vinte anos a pauta brasileira de exportações quase não muda, e o Brasil está praticamente ausente da lista dos 100 produtos de exportação de maior dinamismo", diz Rubens Ricupero. "É preciso investir na qualidade das exportações brasileiras."

Quando se faz muito ruído, como está acontecendo agora, é difícil que se ouçam idéias de bom senso. Os ricos têm ignorado o clamor dos pobres porque têm seus próprios problemas com que se preocupar. Não há garantias de que a prosperidade dure para sempre, e os trabalhadores americanos e europeus receiam perder o emprego se seus países importarem produtos mais baratos de lugares pobres, onde os salários sejam baixos. Os pobres que seguiram a cartilha da globalização abriram seus mercados, privatizaram empresas estatais e acolheram investimentos externos. Já não sabem mais o que fazer para diminuir a distância que os separa dos países mais bem aquinhoados. Na semana passada, enquanto transcorria a reunião da Unctad, a Suíça tomou uma providência que pode ser um indicativo do caminho a seguir. Anunciou um pacote de socorro ao Brasil e a mais quatro países latino-americanos. Não é dinheiro. É auxílio técnico para que os países atraiam investimentos destinados a aquecer áreas dedicadas à exportação, que são as que, no fundo, realmente acrescentam riqueza às nações.

 

Capital do Terceiro Mundo

Protecionismo nos Estados Unidos funciona como as piores mazelas que os americanos costumam apontar no Terceiro Mundo. Em última análise é o dinheiro do lobby que determina se um produto estrangeiro sofrerá restrições tarifárias ou qualquer outro tipo de obstáculo para entrar no mercado americano. Recentemente, a revista Time fez uma reportagem de capa sobre o bilionário Carl Lindner, dono das famosas bananas Chiquita. Irritado com a restrição à venda de suas bananas na Europa, Lindner foi à ofensiva em Washington. Doou cerca de 250 000 dólares para as campanhas de eminências do Partido Democrata, do presidente Clinton, e conseguiu que os Estados Unidos aumentassem a tarifa de importação de três produtos europeus. É assim que são as coisas por lá.

As leis protecionistas não são baixadas por decreto. São votadas no Congresso. Para os lobistas, fazê-las aprovar dá um enorme trabalho e consome uma montanha de dinheiro. Estima-se que circularão 500 milhões de dólares, somente neste ano, nesse mercado negro do convencimento. Para os países prejudicados, derrubar essas leis é quase impossível. "Vai ser preciso que os empresários brasileiros montem também uma estrutura de lobby de grande porte por aqui", disse a Flávia Sekles um alto funcionário da embaixada brasileira em Washington.

Em outubro do ano passado, um grupo de deputados americanos reuniu-se numa sala do Congresso para ouvir reclamações de executivos das maiores companhias siderúrgicas dos EUA. Estavam presentes Curtis Barnette, presidente da Bethlehem Steel, James Haech, vice-presidente executivo da LTV, e Paul Wilhelm, presidente do U.S. Steel Group. Todos pediam proteção contra o aço importado do Brasil, da Europa, do Japão e da Coréia do Sul. Com custo de produção elevado, as siderúrgicas americanas perdem na briga com o produto estrangeiro. Para se defender, mantêm um lobby estrondoso. Investem mais de 20 milhões de dólares só em propaganda. Às vésperas da eleição presidencial, não tiveram grande dificuldade em convencer os deputados a estabelecer impostos que encareceram o aço importado. Resultado: as vendas de aço brasileiro para os Estados Unidos caíram 70% no ano passado e deverão ser menores neste ano.

Entre os lobbies americanos que mais ferem os interesses brasileiros está o dos produtores de suco de laranja. Eles têm seus interesses representados por dois grupos organizados sob o nome de "comitês de ação política". Um da Califórnia e outro da Flórida, os dois Estados que mais produzem suco no país. Entre 1998 e 1999, o comitê da Flórida doou cerca de 60 000 dólares para candidatos a deputado que defendem seus interesses. Quanto doou aos partidos ninguém sabe. Mas os resultados foram notáveis. Empresas brasileiras pagam um pedágio de 40% sobre o preço internacional do suco de laranja para entrar nos EUA.