Vício de branco
O drama dos médicos
que cedem ao apelo das drogas
e se tornam dependentes de morfina
Cristina Poles e Sandra
Boccia
"Saí do quarto e apliquei uma ampola inteira
de morfina na veia. Foi como um orgasmo. A sensação
de bem-estar nascia no umbigo e se espalhava para o resto
do corpo. A dor da alma se dissipava. Em duas semanas, estava
viciado. Foi o começo do inferno. Eu me aplicava
umas doze vezes por dia. Se demorasse mais de uma hora para
tomar uma nova dose, surgiam os sintomas da abstinência
ansiedade, suores, frio na barriga, diarréia.
Hoje estou livre da dependência, mas ainda sonho com
as sensações maravilhosas da droga. Todos
os dias acordo com medo de não resistir e voltar
a usar."
O depoimento acima é do médico R.J., um clínico-geral
de 31 anos. O quarto a que se refere pertence a um dos mais
importantes hospitais do interior de São Paulo. Aquela
primeira dose aconteceu numa noite de inverno em 1996, depois
de um de seus piores plantões, passado ao lado de
uma paciente em estado terminal. Exausto, emocionalmente
abalado, o médico correu para o banheiro, enterrou
a agulha no braço e injetou morfina na veia. Um derivado
do ópio, a substância é de uso restrito
ao ambiente hospitalar, como anestésico e analgésico
no tratamento de doentes acometidos de grande dor física.
É, pode-se dizer, a versão legal da heroína,
a mais devastadora das drogas. Consumida em excesso e com
freqüência, vicia e pode levar à morte
por parada cardiorrespiratória. O doutor R.J. sabia
perfeitamente o veneno que estava jogando corpo adentro.
Mas sucumbiu ao milagre do prazer instantâneo da morfina
e, conseqüentemente, à posterior agonia
do vício. Durante um ano, ele foi incapaz de trabalhar
sem a droga, colocando em risco não apenas a própria
vida, mas a de seus pacientes.
Claudio Rossi
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"Talvez
não devesse ter
sido médico, porque me
envolvia demais com as
dores dos pacientes. A
droga me trazia alívio num
passe de mágica. O
sentimento de impotência simplesmente sumia."
R.J.,
31 anos, clínico-geral
e ex-dependente
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Claudio Rossi
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Drogas de uso hospitalar: atração
fatal ao alcance da mão do médico
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Histórias como a do doutor R.J. são comuns
nos corredores dos hospitais. O vício da morfina
entre os homens de branco é um fenômeno mundial
de tal dimensão que já é considerado
uma espécie de doença ocupacional. Algo similar
aos problemas pulmonares que afetam os trabalhadores das
minas de carvão. Raras, no entanto, são as
categorias profissionais com uso tão acentuado de
um único tipo de droga. Dos 9.600
médicos americanos entrevistados num estudo da Universidade
da Califórnia, publicado no respeitado The Journal
of the American Medical Association, cerca de 20% usaram
opiáceos. A incidência é impressionante,
duas vezes superior à média de consumo de
drogas da população em geral. O consumo de
morfina e substâncias similares entre os médicos
só perde para o álcool (veja
quadro). No Brasil não se tem números
precisos, mas não há razões para supor
que o abuso seja menor, visto que as condições
de trabalho são piores. Somente sob a supervisão
da psiquiatra carioca Maria Tereza de Aquino, diretora do
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção
ao Uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro,
passaram oitenta médicos viciados nos últimos
oito anos. "O mais preocupante é que esses médicos
estão na ativa, atendendo em UTIs, aplicando anestesias
ou participando de cirurgias", diz ela.
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"Vivia ansioso para ficar
a sós com a droga.
Meu organismo pedia mais
e mais. Hoje, reassumi
o controle de minha vida.
A sensação de
estar limpo é maravilhosa."
Samuel Paulo Thomas,
38 anos, cirurgião
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O que leva tantos médicos a usar morfina é
o stress típico da profissão e a facilidade
de acesso ao medicamento. Diferentemente dos dependentes
de maconha, cocaína ou heroína, os médicos
não precisam lidar com traficantes nem freqüentar
pontos-de-venda de entorpecentes para obter a droga preferida.
Como as ampolas de morfina e suas variações,
como dolantina ou fentanil, só estão disponíveis
nos hospitais, tornaram-e um vício quase exclusivo
da classe médica. "Eu era um drogado de luxo", diz
o ex-anestesista paraibano José Antonio Ribeiro Silva,
de 49 anos. "Abria o armário onde ficava o estoque
de opiáceos e me servia." Silva serviu-se livremente
por sete anos, alguns dos quais como chefe do departamento
de anestesia de um dos mais importantes hospitais de referência
para o tratamento de câncer, em São Paulo.
Muito de seu sucesso profissional foi alcançado graças
a sua capacidade de trabalho aparentemente inesgotável.
Para estar sempre alerta, ele recorria e todos os
colegas sabiam, diz a um poderoso combustível:
um coquetel à base de morfina e dolantina. Só
se livrou da dependência com uma internação
de 45 dias. Depois do susto, abandonou a anestesiologia,
especializou-se em psiquiatria e hoje se dedica ao tratamento
de dependentes químicos.
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"O mais preocupante
é que esses
médicos estão
na ativa, atendendo
em UTIs ou
participando de cirurgias."
Maria
Tereza de Aquino, psiquiatra
carioca
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"A sós com a droga" Infelizmente,
nem sempre se pode contar com o sucesso da recuperação.
O anestesista paulista J.V., pai de três crianças,
morreu de overdose no dia 8 deste mês, aos 38 anos.
O corpo foi encontrado em casa, ao lado de três ampolas
vazias de morfina. Cerca de um mês antes, em entrevista
a VEJA, ele garantiu ter vencido a luta contra o vício.
"Foi apenas um sonho ruim", definiu. Tinha então
motivos para otimismo, pois estava afastado da droga havia
um ano, depois de dois anos de abuso. No curto espaço
de tempo entre a entrevista e a morte, teve uma recaída
no pesadelo.
À medida que o vício avançava, o
cirurgião baiano Samuel Paulo Thomas, de 38 anos,
foi percebendo que não podia mais contar com a destreza
e a precisão exigidas em uma cirurgia. Se o telefone
tocava, convocando-o para uma emergência, mandava
avisar que não estava. Sentia-se o tempo todo sonolento
e só pensava nas ampolas de dolantina. "Vivia ansioso
para ficar a sós com a droga", diz. Esse amargo relacionamento
começou de forma banal. Ele fraturou o joelho numa
partida de futebol e se livrou das dores lancinantes prescrevendo
a si mesmo meia ampola de dolantina. No ano passado, decidiu
que era hora de procurar ajuda e passou cinqüenta dias
numa clínica de recuperação no interior
paulista. "Reassumi o controle de minha vida", comemora.
"A sensação de estar limpo é maravilhosa."
Estar limpo, no jargão dos dependentes, traduz-se
por não usar drogas.
Claudio
Rossi
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"Eu era um drogado de luxo.
No hospital, bastava
abrir o armário e
me servir à vontade. Todos
os meus colegas sabiam
do meu vício e
não fizeram nada para me ajudar."
José
Antonio Ribeiro Silva, 49 anos, ex-anestesista e hoje
psiquiatra
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A coragem de Thomas em expor o próprio vício
é exemplar, mas uma raridade. Se para qualquer pessoa
é difícil assumir a dependência química,
que dirá para os médicos, acostumados à
idéia de que os doentes são sempre os outros.
Por isso tantos personagens desta reportagem são
identificados apenas por iniciais. Os colegas de trabalho,
quando descobrem, na maioria dos casos, optam pelo silêncio.
Nos dois maiores conselhos regionais de medicina, o de São
Paulo e o do Rio, existem apenas oito processos administrativos
sobre fraude, furto ou comportamento indevido relacionados
a opiáceos. "As denúncias não chegam
aos conselhos por causa do corporativismo", explica Rui
Haddad, conselheiro do CRM do Rio. Na prática diária
da medicina, médico não denuncia médico.
É assim no mundo inteiro. "Muitas vezes os amigos
não fazem nada com medo de tirar o ganha-pão
do dependente", disse a VEJA John Dunn, da Universidade
de Londres, especialista em abuso de substâncias químicas.
Na Inglaterra e nos Estados Unidos, o código de ética
médica é explícito sobre o assunto:
é considerada falta grave saber da dependência
de um colega e ficar de braços cruzados. No Brasil,
de modo geral, os médicos fazem vista grossa. "É
um absurdo, sobretudo quando há vidas em jogo", critica
o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal
de São Paulo. "O comportamento ético seria
encaminhar o dependente para tratamento."
Água destilada "Você está
usando morfina, não é?" Diante da pergunta
do diretor de um hospital em São Paulo, o clínico-geral
L.B., de 38 anos, estremeceu. Admitiu o vício e esperou
pelo pior. Que nada. O chefe simplesmente aconselhou: "Tudo
bem. Só não pegue mais daqui do hospital".
Com a conivência do colega, o doutor L.B. viveu oito
anos embalado por coquetéis de opiáceos. No
auge do vício, oferecia-se para trabalhar nas ambulâncias.
Durante o transporte, o médico fica sozinho com o
paciente geralmente em estado grave, sem condições
de perceber o que acontece a sua volta. "Nessas ocasiões,
era uma ampola de morfina para o doente, uma para mim",
conta ele. Para abandonar a droga, L.B. passou quatro meses
em um centro de recuperação em Miami, nos
Estados Unidos. Traumatizado com a experiência do
passado e para não cair em tentação
novamente, virou homeopata.
O Ministério da Saúde impõe uma série
de normas para o uso de opiáceos. Uma delas prevê
o registro dos estoques, das entradas, saídas e da
perda desses medicamentos. O Hospital Albert Einstein, em
São Paulo, um dos mais conceituados do país,
foi além: determinou que uma ampola de entorpecente
ainda que usada só pode ser descartada por
um médico na presença de uma testemunha. Não
bastasse, os dois têm de assinar um documento em que
se informam o dia, a hora e a quantidade jogada no lixo.
Tudo para evitar que algum doutor use o resto de morfina
para alimentar o vício.
Na ânsia pela droga, os médicos usam das
mais variadas estratégias. Quando é arriscado
demais surrupiar a substância das farmácias
dos hospitais, alguns trocam o opiáceo receitado
para aliviar a dor do paciente por água destilada.
Outros usam apenas parte da dose prescrita e ficam com o
resto. Em ambos os casos, deixam o doente à mercê
da dor. Se as aplicações são constantes,
com o tempo as veias enrijecem, dificultando a entrada da
droga no organismo. Muitos médicos optam então
pelas injeções no pênis ou debaixo da
língua. O diploma de medicina concede uma vantagem
adicional ao viciado: o médico tem o poder de receitar
opiáceos a si mesmo. Nunca os médicos brasileiros
estiveram tão vulneráveis ao uso de entorpecentes.
A profissão impõe uma rotina desgastante.
De cada dez, seis têm mais de três empregos,
segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Ganham, em
média, 1.300 reais por
mês, menos do que recebe um metalúrgico do
ABC paulista para trabalhar quarenta horas semanais. Há
também a pressão da responsabilidade. Muitos
relutam em reconhecer que nem sempre é possível
salvar uma vida, não importa quanto se lute por ela.
A morfina funciona como um lenitivo para a exaustão
física e o sofrimento psicológico. Na aula
inaugural do curso de residência em anestesiologia
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
o psiquiatra Arthur Guerra sempre inclui um alerta sobre
os riscos da droga no dia-a-dia dos hospitais. "Os alunos
desdenham", lamenta o médico. "Eu não vou
ficar assim, professor", dizem os estudantes. É um
trágico engano, típico da profissão,
acreditar que a roupa branca e um estetoscópio pendurado
no pescoço são garantias de imunidade contra
os males das pessoas comuns. É um trágico
engano.
O problema
do álcool
Oscar Cabral
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| Doutor Bou-Habib:
culpa e recuperação |
O vício da morfina é uma particularidade
da classe médica. O alcoolismo, não.
Como ocorre com o restante da população,
o abuso de bebida é o principal problema de
dependência entre os homens de branco. Conforme
dados do International Doctors in Alcoholics Anonymous,
IDAA, uma vertente internacional dos Alcoólicos
Anônimos apenas para médicos, de cada
dez profissionais vítimas de dependência,
nove são alcoólatras. Num estudo conduzido
pelo psiquiatra Arthur Guerra, da Universidade de
São Paulo, o álcool aparece em primeiro
lugar no ranking das substâncias mais usadas
pelos 3 725 estudantes de medicina entrevistados.
O nefrologista capixaba João Chequer Bou-Habib,
53 anos, conhece o drama de perto. "Comecei a beber
ainda na escola e levei o vício pela carreira
afora", conta. Bou-Habib acordava todos os dias se
sentindo culpado, mas não tinha força
para abandonar o vício. Esperava ansioso pelo
último paciente para se entregar à bebida.
Foram três anos assim. "Só me recuperei
quando cheguei ao fundo do poço", diz. Professor
da Universidade da Califórnia, em San Francisco,
Bou-Habib mantém-se distante do copo com a
ajuda do IDAA. Tirando proveito da própria
experiência, hoje ele trabalha na recuperação
de seus colegas dependentes de drogas, incluídos
a morfina e o álcool.
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