Edição 1 637 - 23/2/2000

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Irã

Desafio aos mulás

Reformistas enfrentam seu maior teste numa
eleição com jeito de plebiscito

A História mostra que turbante não combina com democracia. Ainda mais quando se trata do Irã, a terra dos aiatolás e das mulheres cobertas de preto. Mas há certas nuances. A república islâmica costuma realizar eleições razoavelmente limpas (sobretudo se comparadas às da maioria de seus vizinhos) e respeita a vontade das urnas de modo inusitado para um Estado teocrático. Na sexta-feira passada, os iranianos depositaram seus votos numa eleição com feições plebiscitárias. Escolhiam-se os deputados do Majlis, o Parlamento, mas o pano de fundo era a definição do sentido do pêndulo na disputa entre reformistas e o clero linha-dura sobre o destino da revolução islâmica. A questão está na ordem do dia desde a espetacular vitória do reformista Mohammed Khatami, em 1997. Quando se tinha como certa a eleição de um presidente alinhado com o conservadorismo oficial, os iranianos, sobretudo os jovens e as mulheres, viraram a mesa e elegeram Khatami, cuja promessa era aliviar o peso do fanatismo xiita no dia-a-dia da população. Só nesta semana, quando forem contados os votos das províncias mais remotas e feitas as complexas contas da representação proporcional, é que se saberá o tamanho da bancada reformista. Todas as estimativas eram, às vésperas do pleito, de uma grande manifestação popular por mudanças.

No sistema teológico criado pelo falecido aiatolá Khomeini, o poder real repousa nas mãos do líder supremo — o próprio Khomeini, enquanto viveu, e hoje o aiatolá Ali Khamenei. Ele controla as Forças Armadas, a polícia, o Judiciário e tem a última palavra sobre todos os assuntos internos e internacionais de alguma importância. Às vésperas das eleições, o alto clero fez valer suas prerrogativas e vetou a candidatura de centenas de pessoas, quase todas das fileiras reformistas. Ainda assim, respira-se mais livremente no Irã desde a vitória de Khatami. Já é possível ver casais de namorados em Teerã, antenas parabólicas nos telhados e até críticas nos jornais. Tudo isso, contudo, continua oficialmente proibido. Se os reformistas confirmarem a vitória prevista para sexta-feira passada, talvez o país possa dar o passo mais ousado: iniciar as reformas institucionais. Há coisas básicas a ser instituídas, como a entrega do poder a candidatos eleitos, um Judiciário independente e a separação entre mesquita e Estado.

O clero vai permitir tudo isso? O certo é que os turbantes negros já não representam a verdadeira cara do país. Dois terços da população têm menos de 30 anos e pouco se lembram do movimento revolucionário que, em 1979, apeou o xá Reza Pahlevi e colocou o país de costas para o mundo. Mesmo sem conhecer outra realidade, os jovens estão ansiosos por uma vida de maior liberdade e abertura para o exterior. Nas universidades e nas ruas, o regime islâmico tem sido enfrentado com pequenas transgressões, como o uso de batom e unhas pintadas — e também ruidosas manifestações. Em julho, depois que a polícia religiosa invadiu a universidade de Teerã e espancou os alunos, os protestos estudantis chegaram perto de se transformar num levante popular. Às sextas-feiras, dia de folga no Irã, centenas de pessoas saem de Teerã em direção às montanhas, onde podem usufruir um pouco mais de liberdade. Algo como andar de mãos dadas com alguém do sexo oposto, ouvir música americana e dançar — necessidades básicas de um jovem em qualquer país.

Para as mulheres, condenadas a viver de acordo com códigos de conduta medievais, o momento é ainda mais decisivo. O número de candidatas, 513 de um total de 6.083, foi excepcionalmente alto. Temas antes proibidos, como a equivalência salarial ou o fim dos casamentos forçados, foram escancarados durante a campanha. O regime iraniano não chegou a extremos como proibir o trabalho feminino, a exemplo do que faz o governo islâmico do Afeganistão, mas as mulheres são consideradas legalmente inferiores aos homens. Uma mulher quer ir à Justiça? Seu testemunho valerá a metade do de um homem. Ficou viúva? Não adianta chiar: os bens serão herdados pelo sogro. Contra as adversidades, as mulheres do país conseguem ter um bom nível educacional e são maioria nas universidades. O que necessitam agora é se livrar do xador, o pano preto que lhes esconde os cabelos.

Sob o aiatolá Ali Khamenei, um líder sem carisma, as rédeas começaram a se soltar, mas a linha dura xiita está longe de ter entregue os pontos. Uma vitória esmagadora dos candidatos reformistas e moderados ajudaria o presidente Khatami a conter as forças conservadoras e levar adiante sua proposta de liberalização gradual do regime. Desde que tomou posse, ele vem se debatendo contra um Parlamento dominado por conservadores, que não quer nem ouvir falar de novidades. Um de seus principais ministros foi demitido pelos parlamentares. Outro aliado importante, o prefeito de Teerã, Gholam-Hossein Karbaschi, passou dois anos na prisão e levou sessenta chibatadas, acusado de corrupção. A relativa liberdade de imprensa, um dos principais feitos do presidente, vive sob constante ameaça. O resultado das urnas pode tornar a teocracia iraniana menos sufocante.