Irã
Desafio aos mulás
Reformistas
enfrentam seu maior teste numa
eleição com jeito de plebiscito
A História mostra
que turbante não combina com democracia. Ainda mais quando
se trata do Irã, a terra dos aiatolás e das mulheres
cobertas de preto. Mas há certas nuances. A república
islâmica costuma realizar eleições razoavelmente
limpas (sobretudo se comparadas às da maioria de seus
vizinhos) e respeita a vontade das urnas de modo inusitado para
um Estado teocrático. Na sexta-feira passada, os iranianos
depositaram seus votos numa eleição com feições
plebiscitárias. Escolhiam-se os deputados do Majlis,
o Parlamento, mas o pano de fundo era a definição
do sentido do pêndulo na disputa entre reformistas e o
clero linha-dura sobre o destino da revolução
islâmica. A questão está na ordem do dia
desde a espetacular vitória do reformista Mohammed Khatami,
em 1997. Quando se tinha como certa a eleição
de um presidente alinhado com o conservadorismo oficial, os
iranianos, sobretudo os jovens e as mulheres, viraram a mesa
e elegeram Khatami, cuja promessa era aliviar o peso do fanatismo
xiita no dia-a-dia da população. Só nesta
semana, quando forem contados os votos das províncias
mais remotas e feitas as complexas contas da representação
proporcional, é que se saberá o tamanho da bancada
reformista. Todas as estimativas eram, às vésperas
do pleito, de uma grande manifestação popular
por mudanças.
No sistema teológico
criado pelo falecido aiatolá Khomeini, o poder real repousa
nas mãos do líder supremo o próprio
Khomeini, enquanto viveu, e hoje o aiatolá Ali Khamenei.
Ele controla as Forças Armadas, a polícia, o Judiciário
e tem a última palavra sobre todos os assuntos internos
e internacionais de alguma importância. Às vésperas
das eleições, o alto clero fez valer suas prerrogativas
e vetou a candidatura de centenas de pessoas, quase todas das
fileiras reformistas. Ainda assim, respira-se mais livremente
no Irã desde a vitória de Khatami. Já é
possível ver casais de namorados em Teerã, antenas
parabólicas nos telhados e até críticas
nos jornais. Tudo isso, contudo, continua oficialmente proibido.
Se os reformistas confirmarem a vitória prevista para
sexta-feira passada, talvez o país possa dar o passo
mais ousado: iniciar as reformas institucionais. Há coisas
básicas a ser instituídas, como a entrega do poder
a candidatos eleitos, um Judiciário independente e a
separação entre mesquita e Estado.
O clero vai permitir tudo
isso? O certo é que os turbantes negros já não
representam a verdadeira cara do país. Dois terços
da população têm menos de 30 anos e pouco
se lembram do movimento revolucionário que, em 1979,
apeou o xá Reza Pahlevi e colocou o país de costas
para o mundo. Mesmo sem conhecer outra realidade, os jovens
estão ansiosos por uma vida de maior liberdade e abertura
para o exterior. Nas universidades e nas ruas, o regime islâmico
tem sido enfrentado com pequenas transgressões, como
o uso de batom e unhas pintadas e também ruidosas
manifestações. Em julho, depois que a polícia
religiosa invadiu a universidade de Teerã e espancou
os alunos, os protestos estudantis chegaram perto de se transformar
num levante popular. Às sextas-feiras, dia de folga no
Irã, centenas de pessoas saem de Teerã em direção
às montanhas, onde podem usufruir um pouco mais de liberdade.
Algo como andar de mãos dadas com alguém do sexo
oposto, ouvir música americana e dançar
necessidades básicas de um jovem em qualquer país.
Para as mulheres, condenadas
a viver de acordo com códigos de conduta medievais, o
momento é ainda mais decisivo. O número de candidatas,
513 de um total de 6.083, foi excepcionalmente alto. Temas antes
proibidos, como a equivalência salarial ou o fim dos casamentos
forçados, foram escancarados durante a campanha. O regime
iraniano não chegou a extremos como proibir o trabalho
feminino, a exemplo do que faz o governo islâmico do Afeganistão,
mas as mulheres são consideradas legalmente inferiores
aos homens. Uma mulher quer ir à Justiça? Seu
testemunho valerá a metade do de um homem. Ficou viúva?
Não adianta chiar: os bens serão herdados pelo
sogro. Contra as adversidades, as mulheres do país conseguem
ter um bom nível educacional e são maioria nas
universidades. O que necessitam agora é se livrar do
xador, o pano preto que lhes esconde os cabelos.
Sob o aiatolá Ali
Khamenei, um líder sem carisma, as rédeas começaram
a se soltar, mas a linha dura xiita está longe de ter
entregue os pontos. Uma vitória esmagadora dos candidatos
reformistas e moderados ajudaria o presidente Khatami a conter
as forças conservadoras e levar adiante sua proposta
de liberalização gradual do regime. Desde que
tomou posse, ele vem se debatendo contra um Parlamento dominado
por conservadores, que não quer nem ouvir falar de novidades.
Um de seus principais ministros foi demitido pelos parlamentares.
Outro aliado importante, o prefeito de Teerã, Gholam-Hossein
Karbaschi, passou dois anos na prisão e levou sessenta
chibatadas, acusado de corrupção. A relativa liberdade
de imprensa, um dos principais feitos do presidente, vive sob
constante ameaça. O resultado das urnas pode tornar a
teocracia iraniana menos sufocante.