Edição 1 637 - 23/2/2000

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Riscada do mapa

Rússia não vai reconstruir Grozni, a capital da Chechênia, reduzida a ruínas pelos bombardeios

Grozni, a capital da Chechênia, não existe mais. Os edifícios, casas, ruas e avenidas compõem hoje uma terra arrasada e silenciosa, onde soldados russos vagam observando o resultado da conquista da mais importante cidadela dos separatistas chechenos. De tão absoluta, a destruição levou o governo russo a descartar, na semana passada, qualquer plano para reerguer a cidade, que poderá em breve ser oficialmente riscada do mapa. Grozni, fundada em 1818 como uma fortaleza avançada do império dos czares, está morta, fechada para a população civil e caminha para se tornar apenas uma memória na belicosa história do Cáucaso. Os planos russos foram expostos de forma clara pelo vice-primeiro-ministro, Nikolai Koshman: "Grozni deve ter o status de uma cidade fechada". Responsável pela reconstrução da infra-estrutura da Chechênia, ele não reservou para a capital nenhum centavo do orçamento de 500 milhões de dólares. Ao contrário, os russos estão implodindo os prédios parcialmente destruídos e evacuando os moradores remanescentes. Os planos do Kremlin incluem transformar Gudermes, a segunda cidade da república, em nova capital.

Desde a II Guerra não se vê uma cidade européia ser aniquilada de forma tão completa. A guerra de 1994-1996 deixou cicatrizes profundas na capital que um dia abrigou 400.000 habitantes. Mas restou o suficiente para Grozni voltar a viver quando os canhões silenciaram. Desta vez, não sobrou nada. Foram três meses de incessantes bombardeios com o claro objetivo de acabar com o inimigo de qualquer maneira, como um médico que para vencer uma doença opta pela eliminação do doente. Absurda em termos médicos, a estratégia russa é perfeitamente lógica do ponto de vista militar. O combate em zona urbana é um pesadelo para todo Exército, sobretudo o russo, que foi humilhado nas ruas de Grozni na primeira fase do conflito. Entre 1942 e 1943, a apenas 500 quilômetros de Grozni, os nazistas tiveram 200.000 baixas na tentativa frustrada de conquistar Stalingrado. Dois anos mais tarde, 100.000 soviéticos tombaram na tomada de Berlim. No início dos anos 90, os Estados Unidos saíram às pressas da Somália depois que um pelotão de marines foi massacrado nas ruas de Mogadíscio. Por isso, os russos só foram para o corpo-a-corpo com os rebeldes após reduzir a cinzas a cidadela inimiga.

Surpreende o fato de essa estratégia tão brutal e inclemente ser adotada dentro da própria Rússia, contra seus próprios cidadãos, ainda que parte de uma etnia minoritária e com um longo histórico de ódio a Moscou. A impiedosa ofensiva reflete a moral política em vigor hoje no Kremlin, representada pelo soturno presidente Vladimir Putin. A guerra elevou sua popularidade e o fez franco favorito para as eleições de 26 de março. O maquiavelismo do atual governo salta tanto aos olhos que alguns analistas acreditam que o serviço secreto russo possa ter explodido edifícios de Moscou, matando 300 civis, para colocar a culpa nos chechenos. Quando o Kremlin fala em controlar a situação na república separatista, nunca menciona a possibilidade de acordo. A idéia é a subjugação total, nem que para isso cidades inteiras desapareçam, um raciocínio que hoje costuma ser evitado mesmo em conflitos internacionais. Grozni era o principal símbolo da rebeldia contra Moscou e pagou caro por isso. Stalingrado (atual Volgogrado) e Berlim renasceram, mas a Rússia de Putin não pretende deixar que o mesmo aconteça com a capital chechena.

Como em todo conflito sem regras, a queda de Grozni veio acompanhada de relatos de cenas de horror contra a população. Avolumam-se as denúncias de assassinatos, torturas e estupros perpetrados por soldados russos. Homens são mantidos em áreas onde os soldados dizem separar inocentes de guerrilheiros, mas que, segundo familiares, são campos de execuções. Um deles tem o sugestivo nome de Chernokosovo, em referência ao recente conflito em Kosovo, na Iugoslávia. Mulheres e crianças ficam em abrigos na periferia. O total de civis mortos está na casa dos milhares, mas essa é uma conta que o controle de informações impede que seja feita. Pressionado, o Kremlin nomeou um oficial para atender os grupos de defesa dos direitos humanos. Mas que ninguém se engane: a prioridade russa continua sendo a eliminação de uma formidável força de 8.000 guerrilheiros, ainda escondidos nas montanhas. Sem Grozni, a guerra apenas mudou de endereço.