Riscada do mapa
Rússia
não vai reconstruir Grozni, a capital da Chechênia,
reduzida a ruínas pelos bombardeios
Grozni, a capital da
Chechênia, não existe mais. Os edifícios,
casas, ruas e avenidas compõem hoje uma terra arrasada
e silenciosa, onde soldados russos vagam observando o resultado
da conquista da mais importante cidadela dos separatistas
chechenos. De tão absoluta, a destruição
levou o governo russo a descartar, na semana passada, qualquer
plano para reerguer a cidade, que poderá em breve
ser oficialmente riscada do mapa. Grozni, fundada em 1818
como uma fortaleza avançada do império dos
czares, está morta, fechada para a população
civil e caminha para se tornar apenas uma memória
na belicosa história do Cáucaso. Os planos
russos foram expostos de forma clara pelo vice-primeiro-ministro,
Nikolai Koshman: "Grozni deve ter o status de uma cidade
fechada". Responsável pela reconstrução
da infra-estrutura da Chechênia, ele não reservou
para a capital nenhum centavo do orçamento de 500
milhões de dólares. Ao contrário, os
russos estão implodindo os prédios parcialmente
destruídos e evacuando os moradores remanescentes.
Os planos do Kremlin incluem transformar Gudermes, a segunda
cidade da república, em nova capital.
Desde a II Guerra não
se vê uma cidade européia ser aniquilada de
forma tão completa. A guerra de 1994-1996 deixou
cicatrizes profundas na capital que um dia abrigou 400.000
habitantes. Mas restou o suficiente para Grozni voltar a
viver quando os canhões silenciaram. Desta vez, não
sobrou nada. Foram três meses de incessantes bombardeios
com o claro objetivo de acabar com o inimigo de qualquer
maneira, como um médico que para vencer uma doença
opta pela eliminação do doente. Absurda em
termos médicos, a estratégia russa é
perfeitamente lógica do ponto de vista militar. O
combate em zona urbana é um pesadelo para todo Exército,
sobretudo o russo, que foi humilhado nas ruas de Grozni
na primeira fase do conflito. Entre 1942 e 1943, a apenas
500 quilômetros de Grozni, os nazistas tiveram 200.000
baixas na tentativa frustrada de conquistar Stalingrado.
Dois anos mais tarde, 100.000 soviéticos tombaram
na tomada de Berlim. No início dos anos 90, os Estados
Unidos saíram às pressas da Somália
depois que um pelotão de marines foi massacrado nas
ruas de Mogadíscio. Por isso, os russos só
foram para o corpo-a-corpo com os rebeldes após reduzir
a cinzas a cidadela inimiga.
Surpreende o fato de
essa estratégia tão brutal e inclemente ser
adotada dentro da própria Rússia, contra seus
próprios cidadãos, ainda que parte de uma
etnia minoritária e com um longo histórico
de ódio a Moscou. A impiedosa ofensiva reflete a
moral política em vigor hoje no Kremlin, representada
pelo soturno presidente Vladimir Putin. A guerra elevou
sua popularidade e o fez franco favorito para as eleições
de 26 de março. O maquiavelismo do atual governo
salta tanto aos olhos que alguns analistas acreditam que
o serviço secreto russo possa ter explodido edifícios
de Moscou, matando 300 civis, para colocar a culpa nos chechenos.
Quando o Kremlin fala em controlar a situação
na república separatista, nunca menciona a possibilidade
de acordo. A idéia é a subjugação
total, nem que para isso cidades inteiras desapareçam,
um raciocínio que hoje costuma ser evitado mesmo
em conflitos internacionais. Grozni era o principal símbolo
da rebeldia contra Moscou e pagou caro por isso. Stalingrado
(atual Volgogrado) e Berlim renasceram, mas a Rússia
de Putin não pretende deixar que o mesmo aconteça
com a capital chechena.
Como em todo conflito
sem regras, a queda de Grozni veio acompanhada de relatos
de cenas de horror contra a população. Avolumam-se
as denúncias de assassinatos, torturas e estupros
perpetrados por soldados russos. Homens são mantidos
em áreas onde os soldados dizem separar inocentes
de guerrilheiros, mas que, segundo familiares, são
campos de execuções. Um deles tem o sugestivo
nome de Chernokosovo, em referência ao recente conflito
em Kosovo, na Iugoslávia. Mulheres e crianças
ficam em abrigos na periferia. O total de civis mortos está
na casa dos milhares, mas essa é uma conta que o
controle de informações impede que seja feita.
Pressionado, o Kremlin nomeou um oficial para atender os
grupos de defesa dos direitos humanos. Mas que ninguém
se engane: a prioridade russa continua sendo a eliminação
de uma formidável força de 8.000 guerrilheiros,
ainda escondidos nas montanhas. Sem Grozni, a guerra apenas
mudou de endereço.