Edição 1 637 - 23/2/2000

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Universidades

Diploma na berlinda

De 410 cursos avaliados pelo MEC, 95 são
tão ruins que podem ser fechados

Eduardo Nunomura

Os quarenta alunos recém-aprovados no vestibular para engenharia elétrica do Centro Universitário da Cidade, UniverCidade, no subúrbio carioca de Madureira, foram surpreendidos na semana passada com uma péssima notícia. A qualidade de ensino oferecida ali é tão ruim que, se não melhorar, o curso pode vir a fechar antes que eles recebam o diploma. É ruim porque, dos 29 professores, apenas cinco têm título de doutor. Dispõe de apenas 200 computadores, disputados por mais de 2.000 alunos dos onze cursos oferecidos pela instituição. O laboratório de máquinas elétricas está mais para oficina de fundo de quintal que para centro de estudos. A carga horária dos alunos não ultrapassa três horas diárias. Um desastre educacional que custa caro (mensalidades de 594 reais) e ameaça o futuro do estudante. A engenharia elétrica do UniverCidade não é um caso isolado. Entre agosto e outubro do ano passado, 3.000 professores contratados pelo Ministério de Educação passaram o pente-fino em 410 cursos de economia, jornalismo e engenharia elétrica e mecânica em todo o país. A engenharia elétrica do UniverCidade integra a lista dos 95 que receberam o conceito "insuficiente" nos três critérios de avaliação – qualidade do corpo docente, ensino e instalações.

A avaliação dos cursos feita pelo MEC chega em boa hora. Com o aumento da demanda por vagas universitárias nas últimas duas décadas, houve uma proliferação de escolas que cobram caro por um ensino de má qualidade. Agora, com a soma dessa avaliação e do resultado obtido pelos alunos no Provão, têm-se um retrato mais claro do ensino superior no país. Dos cursos com três conceitos "insuficiente", a maioria é oferecida pela universidade privada – 64%. A superioridade, contudo, não é grande o suficiente para fornecer um atestado de qualidade ao ensino público. Em um primeiro momento, a avaliação do MEC não deve ser entendida como uma condenação. É mais um sinal de alerta. "O aluno tem a chance de escolher o melhor curso ou fiscalizar o que ele estiver fazendo até que a qualidade seja recuperada", diz o diretor de Políticas do Ensino Superior do MEC, Luiz Roberto Liza Curi.

Um dos problemas do ensino superior no Brasil é que muitos alunos só estão interessados em obter o diploma, sem se importar com a instituição que emitiu o canudo. É uma atitude tola, pois o mercado de trabalho dá cada vez mais prioridade aos egressos das boas faculdades. A comparação entre o estudo do MEC e os resultados do Provão, a avaliação da escola com base no desempenho dos estudantes, demonstra que os melhores alunos saem das melhores universidades – o que é óbvio, mas só agora comprovado de forma estatística. Um exemplo: dos onze cursos de economia com três conceitos "muito bom", dez tiraram notas A e B no Provão. O da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, instituição privada, conseguiu a nota máxima em todos os quesitos. Os formandos submetidos ao Provão do ano passado, idem.

Das escolas de engenharia elétrica, a da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, é uma das mais procuradas. No último vestibular, a relação candidato/vaga para o curso diurno foi de 9,1. Para o noturno, de 4,1 – duas vezes maior que a procura pela engenharia elétrica do UniverCidade. Nos três critérios avaliados pelo MEC, a faculdade paulista obteve três "muito bom". Nos provões de 1998 e 1999, os alunos conseguiram a nota máxima. Os 100 calouros do curso de engenharia elétrica da Unicamp, que acabaram de passar no vestibular, só têm a comemorar. Dos 106 professores, 100 são doutores. Os laboratórios da faculdade são de ponta. A faculdade não chama a atenção apenas dos alunos. Grandes empresas como a Companhia Paulista de Força e Luz, Motorola e Companhia Vale do Rio Doce firmam convênios com a Unicamp para o desenvolvimento de novos projetos em conjunto com os estudantes.

Fazer a avaliação de faculdades ou universidades é um hábito internacional que só há três anos começou a ser levado a sério no Brasil. É importante porque diferencia as boas escolas das más. Com o sistema de avaliação – tanto o Provão quanto a análise da qualidade de condições das escolas –, o MEC passa a dispor de informações para melhorar a fiscalização do ensino superior. É similar ao que ocorre nos Estados Unidos. Lá, há total liberdade para a criação de cursos, mas nenhum formando recebe o diploma sem passar pelo crivo de uma apreciação externa. No Brasil, apenas os formandos em direito são submetidos a um exame nacional de aferição de capacidade profissional. Quem é reprovado no teste realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil não pode exercer a profissão.

A análise das faculdades dessas quatro áreas foi a segunda etapa da avaliação da qualidade da graduação brasileira. O resultado vai pesar no processo de renovação de sua licença para funcionar. Os cursos com três notas D ou E consecutivas no Provão ou dois conceitos insuficientes nas avaliações da qualidade ficam na berlinda. Atualmente, oito faculdades de administração e quatro de direito estão ameaçadas de fechamento. Considerado ruim pelo MEC, o curso de administração das Faculdades Integradas Upis, de Brasília, deu a volta por cima. "Contratamos professores com mestrado e doutorado e melhoramos a biblioteca e os laboratórios", diz o presidente da instituição, Vicente Nogueira Filho. No ano passado, uma boa surpresa. Nota B no Provão e a renovação, por três anos, do curso pelo MEC. Um exemplo a ser seguido.

Com reportagem de Silvia Rogar, do Rio de Janeiro

Saiba mais
Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais)

 

 


Fotos: Claudio Rossi e Oscar Cabral

À esquerda, laboratório da Unicamp: instalações, professores e ensino de ponta. À direita, sala de projetos do UniverCidade: má qualidade a preço alto