Edição 1 637 - 23/2/2000

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Estados

Em estado de graça

Lucila Soares

IBGE descobre que a indústria do Espírito Santo cresceu mais do que a média brasileira

O Espírito Santo está longe de ser conhecido pelo poderio de sua economia. Ao contrário, sempre foi uma espécie de primo pobre do Sudeste. Sob o ponto de vista do desenvolvimento econômico, era como um naco do Nordeste incrustado numa região onde reluzem São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas foi justamente esse Estado, do qual o país só tem ouvido falar em momentos de crise — como a que derrubou Élcio Álvares do Ministério da Defesa —, que apresentou o melhor desempenho industrial em 1999. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, a produção industrial do Espírito Santo cresceu 9% no ano passado, em relação a 1998. Um resultado e tanto se comparado com a queda de quase 1% registrada pela indústria brasileira. No confronto com São Paulo, cuja indústria encolheu 4,2%, o desempenho capixaba fica ainda mais brilhante.


A descoberta do Espírito Santo foi feita pelo IBGE, que decidiu medir o desempenho da indústria do Estado somente no ano passado. Os técnicos ficaram tão espantados com os números que começaram a fazer um trabalho retrospectivo. Revelou-se, então, que entre 1990 e 1999 a indústria capixaba cresceu 30,1%, quase o dobro da média brasileira. "O Espírito Santo é o último grande segredo do Brasil", ironiza José Carlos da Fonseca, secretário estadual da Fazenda.

Um estudo da Federação das Indústrias do Espírito Santo mostra que o crescimento do ano passado não foi episódico. Ele segue uma tendência de aquecimento econômico. No segundo semestre de 1999, os indicadores de vendas, emprego e produção foram positivos. Para esse resultado contribuíram tanto as grandes empresas que são símbolo do Estado, como a Companhia Siderúrgica de Tubarão, CST, e a Aracruz Celulose, quanto setores como o têxtil, o das confecções e o calçadista, formados por centenas de pequenas e médias empresas. A produção da indústria têxtil cresceu 49% de janeiro a novembro de 1999, enquanto a média no país foi de modestos 2,2%.

O segredo do Espírito Santo? Bem, o Estado tem a economia direcionada para a exportação. Desde o final do século XIX, quando se montou ali o complexo cafeeiro-portuário, o Espírito Santo vive voltado para o exterior. Hoje vende aço, papel e celulose, tem um porto moderno e, desde a desvalorização do real, em janeiro do ano passado, vende também suas roupas e sapatos para estrangeiros. "Somos os precursores da globalização", diz o governador José Ignacio Ferreira, para quem, é claro, Vitória é a capital do mundo. Mas, exageros à parte, o Espírito Santo é, de fato, uma grata revelação. E a descoberta levanta outra questão interessante. Se somente no ano passado o IBGE decidiu pesquisar o desempenho industrial de um Estado que não é assim tão apagado, imagine o que há para ser conhecido pelos sertões brasileiros, áreas pouco valorizadas pelos observadores acostumados a medir a economia pelos indicadores dos centros tradicionais que foram sucesso no passado, mas hoje estão estagnados ou em franca decadência. Os números verdadeiros do Brasil, sem dúvida, ainda são um segredo para os brasileiros.