Edição 1 637 - 23/2/2000

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Segurança

Eles têm a chave

O esboço do projeto antiviolência do governo propõe cadeias de segurança mínima para presos

Daniela Pinheiro

O ministro da Justiça, José Carlos Dias, convocou a imprensa na semana passada para anunciar um conjunto de medidas antiviolência. Pela importância conferida pelo governo ao evento, divulgado com dias de antecedência, ficou a impressão de que o problema da criminalidade finalmente começaria a ser resolvido. Infelizmente, não foi desta vez. O pacote para conter a ação da marginalidade é até volumoso — são catorze tópicos —, mas não passa de uma carta de ótimas intenções teóricas. O ministro falou em combater o crime por meio de treinamento de policiais militares e civis, em criar um "observatório nacional de segurança pública" e intensificar a luta contra o tráfico de armas. As idéias do ministro podem ser o que de melhor Brasília já apresentou com a reduzida verba disponível para o setor, mas os especialistas no assunto ficaram desapontados. Esperava-se mais. No pacote há uma única providência prática que merece destaque: a construção de cadeias públicas de segurança mínima.

As pessoas podem ser levadas a pensar que o país precisaria justamente do contrário: cadeias de segurança máxima. Nesse aspecto, a idéia do ministro é uma inovação. Estudo do Ilanud, braço da Organização das Nações Unidas, ONU, sobre reincidência de presos mostra que 45% dos detentos brasileiros que cumprem pena em cadeias de segurança máxima voltam ao crime e acabam novamente detidos. Nas prisões de segurança mínima ou quando o preso cumpre penas alternativas, o índice cai para 12%. O governo já liberou 150 milhões de reais para a construção imediata de pelo menos sessenta unidades carcerárias com esse modelo. São cadeias pequenas, com cerca de 250 vagas cada uma, preparadas para abrigar presos de baixa periculosidade. Das 204.000 pessoas que compõem o contingente carcerário brasileiro, calcula-se que 60% possam ser classificadas dessa forma e estejam aptas a ocupar uma vaga em cadeias com menos grades.

 
Mais cadeias, menos dinheiro

O Brasil tem 204 000 presos
O custo médio de cada um ao mês é de 700 reais

O governo gasta com eles ao ano 1,7 bilhão de reais
O Ministério da Justiça planeja construir cadeias de baixa segurança para 50 000 presos
Nas novas cadeias, o custo de cada preso ao mês é de 300 reais
O índice de reincidência entre os presos em penitenciárias de segurança máxima é de 45%
A reincidência entre os presos nas cadeias de baixa segurança é de 12%

Só dois carcereiros — Esse novo conceito de cadeia foi baseado num exemplo existente: a cadeia pública de Bragança Paulista, cidade localizada no interior de São Paulo. Lá não há superpopulação, as dependências são limpas, a grade é baixa e só não foge quem não quer, até porque apenas dois carcereiros trabalham no local. Os presos que apresentam bom comportamento são escolhidos para fazer a vigilância. Os "galerias", como são chamados, carregam consigo o molho de chaves das celas dos colegas. Conseguir uma arma branca também é moleza. Em todos os banheiros existem espelhos, os presos comem de garfo e faca e trabalham com serrotes e chaves de fenda. Outro dado importante é que 90% dos detentos têm trabalho remunerado na prisão. A média de salário é de 90 reais. "A economia que se faz com isso é absurda", comenta o secretário de Administração Penitenciária de São Paulo, Nagashi Furukawa, um dos idealizadores do conceito implantado em Bragança Paulista. Há seis anos, a cadeia é administrada pela Associação de Proteção e Assistência Carcerária, Apac, uma organização não governamental. Foi firmado um convênio com o governo estadual por meio do qual a entidade recebe por mês 45.000 reais, o mesmo que se empregava apenas para a compra de refeições para os 220 presos.

 
.Fotos Antonio Milena
A cadeia de Bragança
Paulista com poucas grades e guardas:
exemplo do modelo almejado pelo Ministério
da Justiça

O banheiro da cadeia de Bragança, limpo como o de um shopping center: espelho em todas as pias

Preso de Bragança, condenado por assassinato, observa a baixa grade:
quem quiser foge


No decorrer da história, o conceito de penitenciária mudou bastante. No século XVIII, os devedores do governo passavam meses isolados em porões. Em geral, a punição terminava com espancamento, tortura e a pena de morte. No século seguinte, a idéia de enclausuramento e isolamento foi muito difundida. Acreditava-se que, só ficando sozinho, o preso seria penitente e poderia ser "reformado". No final do século XIX, as primeiras experiências de trabalhos coletivos em colônias agrícolas apareceram nos Estados Unidos. A curiosidade é que havia também uma lei do silêncio. Enquanto trabalhavam, os presos não podiam trocar uma palavra sequer entre si. Caso o fizessem, eram transferidos para a solitária. O conceito de megacomplexos penitenciários foi introduzido por volta de 1930, com a inauguração do presídio de Alcatraz, nos Estados Unidos. Celebrado em filmes e livros, Alcatraz simbolizava o controle total do Estado. Dali, não se fugia e se controlava todos os passos do preso. A decadência e o conseqüente fechamento de Alcatraz se deram exatamente depois da fuga de alguns detentos. Atualmente, as prisões menos populosas, com presos separados pelo grau de periculosidade, são uma idéia difundida em âmbito internacional.

A estarrecedora situação do sistema carcerário brasileiro faz com que qualquer iniciativa seja bem-vinda. Os milhares de presos estão enfurnados em celas sujas e agrupados como sardinhas, numa máquina que é criminosa e cara. Para manter toda essa gente, o governo gasta 1,7 bilhão de reais por ano. Com todo esse dinheiro, os indicadores não mudam. O sistema penal do Brasil é comparável ao que há de pior no mundo. Em escala mundial, rivaliza com as prisões de países como Burundi, Camarões e Gâmbia, na África. O desanimador é que tramitam no Congresso Nacional 47 projetos de lei sobre segurança pública e 29 que tratam de alterações no sistema penitenciário do país, mas nenhum deles vai à votação. O projeto do ministro é mais uma proposta a ser debatida.

 
A maior prisão do mundo

Os Estados Unidos alcançaram mais um recorde de desempenho, este muito duvidoso. Segundo uma estimativa da organização não governamental Justice Policy Institute, JPI, com base em dados do Departamento de Justiça, as cadeias dos EUA reúnem 2 milhões de pessoas, o que corresponde a 25% dos detentos do mundo. E não é só isso. Outros 3,5 milhões estão em liberdade condicional ou cumprindo penas alternativas.

O patamar é assustador. É como se toda a população da Dinamarca estivesse cumprindo pena. Desde 1980, o número de presos quadruplicou nos EUA. Enquanto a França tem noventa presos para 100 000 habitantes, nos Estados Unidos são 750. A quantidade pode sugerir que os índices de violência nos Estados Unidos são mais altos que no resto do mundo, mas não. A criminalidade americana vem caindo abruptamente, alcançando os níveis mais baixos desde a década de 70. Para os defensores de uma política de segurança mais dura, é a prova de que uma legislação rígida dá resultado. Mas seus críticos alegam que a violência vinha diminuindo antes da adoção de leis mais rigorosas, que levam para a cadeia qualquer um que cometa um pequeno delito. Além disso, os Estados Unidos devem gastar neste ano mais de 40 bilhões de dólares com seu sistema carcerário. Os custos para a construção de presídios já superam as despesas com novas universidades.

A população se questiona se vale a pena gastar tanto para manter tanta gente atrás das grades, principalmente porque mais de 60% dos detentos cometeram crimes considerados não violentos. Outro problema é a disparidade entre a proporção racial dentro das cadeias e fora delas. Os negros são menos de 13% da população americana, mas nas prisões estão em número igual ao de brancos. Um em cada três negros homens de 20 a 29 anos está preso ou em liberdade condicional. Um negro nascido no início dos anos 90 tem 29% de probabilidade de ir parar na cadeia algum dia. Para um branco, o risco é de 4%. Ainda que essa discussão esteja na ordem do dia, poucas mudanças devem ocorrer, ao menos no curto prazo. Em ano eleitoral, um número pequeno de candidatos arriscaria propor leis mais brandas no combate ao crime.

 

Os presidiários em cada país
(por 100 000 habitantes)
México
Colômbia
Venezuela
.
Brasil
Chile
Estados Unidos

108

110
113
122
173

750