Edição 1 637 - 23/2/2000

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Sucessão

Querido da elite

Ciro Gomes é o candidato preferido entre
os eleitores das classes A e B

Integrantes da alta cúpula tucana destrinchavam na semana passada os números de uma pesquisa eleitoral muito animadora — para a candidatura Ciro Gomes. Se a eleição presidencial fosse hoje, Lula, do PT, estaria em primeiro lugar entre os candidatos, com 29% dos votos, e Ciro Gomes em segundo, com 20%. Mas as posições se invertem quando se analisa apenas o universo de eleitores nas chamadas classes A e B, na qual estão os 20% dos brasileiros mais ricos. Ciro dá um salto e sobe ao primeiro lugar, com 31% das intenções de voto. Nesse cenário, Lula continua como seu principal adversário, mas despenca para 17% das intenções de voto, separado do primeiro lugar por uma bela margem de 14 pontos. Na simulação, o candidato tucano é Mário Covas, que aparece com apenas 4% das intenções gerais de voto, ou 5% nas classes A e B. Os tucanos encomendaram o trabalho por uma razão bastante objetiva. As classes A e B costumam funcionar como uma espécie de antena da sociedade. Saber o que elas acham de um determinado assunto é fundamental para conhecer as bases do pensamento do resto da sociedade em geral no dia de amanhã. O tucanato trabalha com a suspeita de que, dentro de algum tempo, o eleitorado de maneira global venha a reproduzir a preferência da camada mais alta. Com isso, Ciro assumiria a ponta na corrida sucessória. Disparado.


O fenômeno acontece porque os eleitores das classes A e B têm mais acesso aos jornais, às revistas, à internet, ao rádio e à televisão. Por essa razão, são os primeiros a conhecer as novidades e os primeiros a julgá-las. É por isso que, no jargão dos marketeiros, essas pessoas são chamadas de "formadores de opinião". A experiência mostra que, para ser viável, o candidato precisa agradar a esse segmento social. Em 1989, quando lançou sua candidatura, Fernando Collor fazia o discurso dos descamisados e dizia falar a língua do povão. Não era bem assim. No começo, sua popularidade nas classes menos favorecidas era limitada, mas a elite o adotou porque o via como uma esperança de renovação. "No começo, o povão nem o conhecia", diz Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisas Vox Populi. As pesquisas daquela época mostram que o crescimento do então candidato Collor ocorria primeiro entre os mais ricos e, algum tempo depois, se espalhava. "Caso Collor não fizesse sucesso na elite, talvez nunca tivesse chegado a lugar nenhum", afirma Coimbra.

Van Gogh — A influência das classes A e B é um fenômeno que pode ser observado em outras áreas, não apenas na política. As grandes inovações tecnológicas, as artes, e até mesmo a moda, tudo faz sucesso entre os mais ricos antes de se tornar um sucesso popular. Um novo modelo de sapato surge nos desfiles de Paris e meses depois acaba popularizado em cópias pelos camelôs. Um quadro de Van Gogh precisa bater recordes milionários em leilões antes de se popularizar em reproduções baratas. A moda de homem usar brinco surgiu entre os artistas e a elite. Depois se adaptou às orelhas das classes C e D.

Com a virada na pesquisa de intenção de votos na elite, Ciro se consolida como um candidato de verdade e começa a não fazer mais sentido a suspeita de que acabaria pleiteando apenas um cargo de vice.

Para Lula, o quadro é desolador. Numa das próximas simulações, o tucanato promete colocar outros nomes na corrida presidencial. ACM pode sair para dar lugar a Roseana Sarney. E Covas deve ser substituído por José Serra, ministro da Saúde. A expectativa em torno do desempenho dos dois é grande. ACM tem ficado com 6% nas pesquisas. Serra, com 3%.