Sucessão
Querido da elite
Ciro Gomes é o candidato
preferido entre
os eleitores das classes A e B
Integrantes da alta cúpula
tucana destrinchavam na semana passada os números de
uma pesquisa eleitoral muito animadora para a candidatura
Ciro Gomes. Se a eleição presidencial fosse hoje,
Lula, do PT, estaria em primeiro lugar entre os candidatos,
com 29% dos votos, e Ciro Gomes em segundo, com 20%. Mas as
posições se invertem quando se analisa apenas
o universo de eleitores nas chamadas classes A e B, na qual
estão os 20% dos brasileiros mais ricos. Ciro dá
um salto e sobe ao primeiro lugar, com 31% das intenções
de voto. Nesse cenário, Lula continua como seu principal
adversário, mas despenca para 17% das intenções
de voto, separado do primeiro lugar por uma bela margem de 14
pontos. Na simulação, o candidato tucano é
Mário Covas, que aparece com apenas 4% das intenções
gerais de voto, ou 5% nas classes A e B. Os tucanos encomendaram
o trabalho por uma razão bastante objetiva. As classes
A e B costumam funcionar como uma espécie de antena da
sociedade. Saber o que elas acham de um determinado assunto
é fundamental para conhecer as bases do pensamento do
resto da sociedade em geral no dia de amanhã. O tucanato
trabalha com a suspeita de que, dentro de algum tempo, o eleitorado
de maneira global venha a reproduzir a preferência da
camada mais alta. Com isso, Ciro assumiria a ponta na corrida
sucessória. Disparado.
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O fenômeno acontece
porque os eleitores das classes A e B têm mais acesso
aos jornais, às revistas, à internet, ao rádio
e à televisão. Por essa razão, são
os primeiros a conhecer as novidades e os primeiros a julgá-las.
É por isso que, no jargão dos marketeiros, essas
pessoas são chamadas de "formadores de opinião".
A experiência mostra que, para ser viável, o candidato
precisa agradar a esse segmento social. Em 1989, quando lançou
sua candidatura, Fernando Collor fazia o discurso dos descamisados
e dizia falar a língua do povão. Não era
bem assim. No começo, sua popularidade nas classes menos
favorecidas era limitada, mas a elite o adotou porque o via
como uma esperança de renovação. "No começo,
o povão nem o conhecia", diz Marcos Coimbra, diretor
do instituto de pesquisas Vox Populi. As pesquisas daquela época
mostram que o crescimento do então candidato Collor ocorria
primeiro entre os mais ricos e, algum tempo depois, se espalhava.
"Caso Collor não fizesse sucesso na elite, talvez nunca
tivesse chegado a lugar nenhum", afirma Coimbra.
Van Gogh A
influência das classes A e B é um fenômeno
que pode ser observado em outras áreas, não apenas
na política. As grandes inovações tecnológicas,
as artes, e até mesmo a moda, tudo faz sucesso entre
os mais ricos antes de se tornar um sucesso popular. Um novo
modelo de sapato surge nos desfiles de Paris e meses depois
acaba popularizado em cópias pelos camelôs. Um
quadro de Van Gogh precisa bater recordes milionários
em leilões antes de se popularizar em reproduções
baratas. A moda de homem usar brinco surgiu entre os artistas
e a elite. Depois se adaptou às orelhas das classes C
e D.
Com a virada na pesquisa
de intenção de votos na elite, Ciro se consolida
como um candidato de verdade e começa a não fazer
mais sentido a suspeita de que acabaria pleiteando apenas um
cargo de vice.
Para Lula, o quadro é
desolador. Numa das próximas simulações,
o tucanato promete colocar outros nomes na corrida presidencial.
ACM pode sair para dar lugar a Roseana Sarney. E Covas deve
ser substituído por José Serra, ministro da Saúde.
A expectativa em torno do desempenho dos dois é grande.
ACM tem ficado com 6% nas pesquisas. Serra, com 3%.