Gabe
Nevins, como um jovem suspeito de homicídio, em Paranoid Park: olhar desolador
sobre a solidão
Paranoid
Park (Estados Unidos/França, 2007. Estréia nesta sexta-feira
no país) Nenhum outro cineasta tem se debruçado com tanto
instinto, compreensão e perspicácia sobre os dilemas da adolescência
e juventude quanto o americano Gus Van Sant. Depois da obra-prima Elefante,
em que traçou um cenário fictício para o massacre real da
escola de Columbine, e de Últimos Dias, em que imaginou o tumulto
íntimo que teria precedido o suicídio do roqueiro Kurt Cobain, o
diretor desenha um outro cenário desolador em Paranoid Park
nome de uma pista de skate freqüentada por rebeldes em geral em Portland,
no estado de Oregon. Alex (Gabe Nevins) já foi lá algumas vezes;
pode ou não ser coincidência, então, que a polícia
o interrogue a respeito do assassinato de um segurança nos trilhos de trem
próximos ao local. Seja qual for sua ligação com o fato,
a experiência é desestabilizadora para um garoto de 16 anos que não
tem com quem dividi-la. Os pais de Alex estão se divorciando; seu irmão
mais novo está desmoronando com a separação; ele não
tem nenhuma afinidade com a namorada. Van Sant disseca o isolamento e a confusão
de Alex não apenas nos aspectos mais experimentais do filme, que mistura
várias películas diferentes, mas na própria fisionomia de
Gabe Nevins, ainda indecisa entre a infância e a maturidade. É de
partir o coração.
LIVROS
Universo
Elétrico, de David Bodanis (tradução de Paulo Cezar
Castanheira; Record; 294 páginas; 44 reais) Ex-professor de história
da prestigiosa Universidade Oxford, na Inglaterra, o americano David Bodanis hoje
se dedica a saborosos livros de divulgação científica, como
esse Universo Elétrico, uma bela síntese histórica
das pesquisas sobre eletricidade. Seu trajeto vai do italiano Alessandro Volta,
que inventou a pilha no século XVIII, aos dias de hoje. Na introdução,
o autor especula sobre o que ocorreria se toda a eletricidade da Terra simplesmente
se apagasse uma dissolução geral da matéria, já
que as forças elétricas mantêm as moléculas unidas.
É uma maneira muito eficaz de demonstrar a importância do tema, que
ele apresenta com clareza e humor. Leia
trecho.
No
Inferno, de George Pelecanos (tradução de Beth Vieira; Companhia
das Letras; 360 páginas; 43 reais) A agência de investigação
do detetive Derek Strange personagem costumeiro dos livros de Pelecanos
é contratada para descobrir o paradeiro de uma adolescente que fugiu
de casa e se perdeu no submundo da prostituição em Washington. No
meio da investigação, porém, um garoto do time de futebol
americano organizado por Strange é brutalmente assassinado, e o detetive,
tomado de culpa e desejo de vingança, sai em busca do criminoso. Pelecanos
conquistou seu lugar entre os melhores autores policiais contemporâneos
com tramas complexas, que incursionam por temas políticos. No Inferno
segue a receita, com um enredo pontuado por tensões raciais e sociais.
Leia
trecho.
DISCOS
Live
at B.B. King Blues Club, The Yardbirds (Azul Music) O grupo inglês
teve em sua formação três dos maiores guitarristas da história
Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Mas sua trajetória não
se resume a esses instrumentistas. Os Yardbirds foram um dos maiores destaques
do rock inglês dos anos 60, tanto nas releituras que faziam de clássicos
do blues americano quanto em composições próprias. No início
da década, eles voltaram à ativa com dois integrantes da formação
original o guitarrista Chris Dreja e o baterista Jim McCarty e três
jovens músicos. Live é o registro de uma apresentação
do grupo na casa noturna do bluesman B.B. King, em Nova York. Traz hits dos Yardbirds
e uma versão incendiária de Dazed and Confused, canção
que ficou célebre na interpretação do Led Zeppelin. O rapazola
Ben King, guitarrista de 24 anos, honra o posto que já foi de Clapton,
Beck e Page.
Colecionador
Durante
as décadas de 50 e 60 e avançando pelas duas seguintes ,
o simpático, engenhoso e infinitamente paciente Ray Harryhausen foi, sozinho,
todo um setor da indústria de efeitos especiais. Mestre da stop motion,
técnica em que bonecos são fotografados quadro a quadro, com minúsculas
alterações de um para outro, a fim de obter fluidez no movimento,
Harryhausen proporcionou momentos de grande excitação às
platéias ávidas por monstros e extraterrestres. Agora, a Sony lança
em DVDs duplos, repletos de extras, três de seus trabalhos mais representativos
(todos eles, aliás, raridades). Em O Monstro do Mar Revolto, de
1955, um polvo radioativo ataca um submarino, só para começar. A
Invasão dos Discos Voadores, de 1956, está explicado no próprio
título: alienígenas chegam em naves que voam com grande elegância
graças ao artista, é claro e instauram o caos. A estrela
do pacote, porém, é A 20 Milhões de Milhas da Terra,
de 1957, em que uma espécie de lagartixa vinda de Vênus se agiganta,
quebra suas correntes, luta com um elefante numa seqüência exímia
e causa danos consideráveis ao Coliseu. Todas são produções
baratas, com atores canastrões, o que lhes dá um certo charme trash.
E em todas também Harryhausen, hoje com 87 anos, mostra o seu gênio
em cenas às vezes até poéticas, como aquela em que a pequena
lagartixa abre pela primeira vez os olhos para a luz.