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Edição 2044

23 de janeiro de 2008
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Com histórias cruéis como a de 4 Meses, 3 Semanas
e 2 Dias,
os romenos expõem seu passado infernal


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Durante um dia e uma noite intermináveis, Otilia (a extraordinária Anamaria Marinca) circula por uma cidade do interior da Romênia a pé, de ônibus, de bonde, de táxi e por fim quase correndo, ofegando e apavorada, sob a sensação de um desastre iminente. Acompanhar seu périplo em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Romênia, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma experiência incômoda e exaustiva. Essa, porém, é a força do filme do diretor romeno Cristian Mungiu, premiado com a Palma de Ouro em Cannes no ano passado: a maneira como ele obriga a platéia a provar da angústia da protagonista em sua concentração absoluta. Otilia é colega de quarto de Gabita (Laura Vasiliu) numa república universitária. Gabita está grávida e decidiu fazer um aborto. Frágil, desorganizada e confusa, ela delega à amiga a tarefa de fazer os arranjos necessários: juntar o dinheiro; encontrar-se com o furtivo Sr. Bebe, que cuidará do procedimento, e de quem não se ouve uma palavra sobre qualificações profissionais; reservar um quarto de hotel, onde ela deverá esperar a expulsão do feto e se recuperar; e então desfazer-se das evidências do crime. Ou seja, carregar pela cidade o feto, embrulhado numa toalha, e jogá-lo em algum lugar onde não venha a ser encontrado. Já seria o suficiente para lacerar os nervos de qualquer um. Mas no caminho de Otilia há ainda incontáveis obstáculos, quase surreais na sua mesquinhez: os funcionários públicos indolentes que administram a recepção dos hotéis estatais, a escassez de tudo – de dinheiro a sabonetes –, a desconfiança constante, o pragmatismo monstruoso do Sr. Bebe. Em resumo, uma engrenagem que ocupa todos os espaços e que é indiferente aos indivíduos.

4 Meses se passa em 1987, às vésperas da queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo. Mas, na Romênia do ditador Nicolae Ceausescu, um dos países mais repressivos e atrasados do bloco socialista – onde o aborto fora criminalizado em 1966 –, não se vê sinal de que algo está por mudar. Pior: de tão isolados, os romenos nem sequer se dão conta de sua extrema desvantagem. As coisas são como são, e contorná-las é o melhor que se pode querer. O diretor Mungiu, entretanto, não quer se ocupar desse quadro mais aberto. Ele e os outros cineastas de seu país, que nos últimos dois ou três anos irromperam nos festivais internacionais, fecham o foco nos sobressaltos do dia-a-dia: a dificuldade de conseguir um quarto de hospital (em A Morte do Sr. Lazarescu), as picuinhas ideológicas entre os moradores de um vilarejo (A Leste de Bucareste), a confusão que se instala quando dois garotos quebram um busto de Ceausescu (Como Eu Festejei o Fim do Mundo). Da mesma forma que em 4 Meses – o título se refere ao tempo real de gestação de Gabita, o qual ela tem de esconder –, todos eles narram pequenas histórias de ignomínia. É uma elegantíssima vingança contra um passado atroz, cuja herança ainda está longe de se apagar. E é também um desafio: o que esses diretores querem saber, dos eventuais retardatários ideológicos que assistam a seus filmes, é se depois de testemunhar tanta humilhação eles ainda terão cara de sair por aí romantizando o inferno alheio.

 

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