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23 de janeiro de 2008
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Medicina
Os culpados não são as vítimas

É a letargia do governo que faz da
febre amarela um risco para os brasileiros


Victor De Martino e José Edward



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Perguntas e Respostas - Febre amarela
Nesta reportagem
Quadro: A evolução dos casos
Quadro: E essas doenças também estão sob controle?

O problema tinha data marcada para acontecer. O Brasil enfrenta surtos de febre amarela em intervalos de cinco a oito anos. Como o último havia ocorrido em 2000, já se sabia que a doença voltaria a eclodir por agora. O primeiro alarme soou em setembro, quando apareceram os primeiros corpos de macacos mortos, possivelmente, pela febre amarela. Mas o governo só deu o ar da sua falta de graça na semana passada, depois da morte de cinco pessoas. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, apareceu na TV para falar do assunto. Negou a ameaça de epidemia e pediu que a população não procurasse os postos de vacinação. Recomendou a imunização apenas para quem mora em áreas de risco, que já atingem 20 estados, ou para quem pretende viajar para lá. Dois dias e mais dois mortos depois, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, que perde todas as oportunidades de ficar calada, afirmou que o Brasil vive uma "epidemia da fofoca", e não de febre amarela. Na última quinta-feira, Temporão reapareceu com outro discurso e o dedo apontado para quem considera os culpados pela febre amarela: as próprias vítimas. "Todos os que viajam para essas áreas sabem que têm de se vacinar. Pessoas que não tomaram (a vacina) foram por sua conta e risco, pois a vacina está disponível", disse. A julgar pela fala do ministro Temporão, as vítimas de dengue, malária, leishmaniose, hanseníase e doença de Chagas também são culpadas (veja o quadro).

A febre amarela foi erradicada das cidades brasileiras em 1942, mas continua endêmica nas áreas próximas a florestas. Lá, os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes preservam o vírus da doença entre os macacos, que sofrem surtos em intervalos que variam de cinco a oito anos. Quando um surto passa, sobram apenas os animais que adquiriram resistência ao vírus. Ao morrerem, eles são substituídos por outros vulneráveis e, assim, a febre amarela volta a atacar. Os surtos entre os macacos são seguidos por aqueles em humanos. O risco maior é que as pessoas passem a doença a outras por meio do Aedes aegypti, mosquito que também transmite a dengue e infesta as cidades brasileiras. Se isso ocorrer, a possibilidade de se instalar uma epidemia crescerá dramaticamente. Esse cenário não é o mais provável, mas, ao contrário do que assegura o ministro Temporão, ele não pode ser descartado. "A ameaça existe. O risco de epidemia só pode ser evitado se o governo redobrar a vigilância sanitária", diz o sanitarista Arary Tiriba, da Escola Paulista de Medicina.

A febre amarela é uma doença com alto grau de mortalidade. Os primeiros sintomas aparecem de três a seis dias depois que se é picado por um mosquito infectado. A febre supera os 40 graus e a pele e os olhos ficam amarelos – daí o seu nome. Além disso, o paciente sente dores intensas na cabeça e no corpo e vomita muito. Se em três dias não há melhora, começam a ocorrer sangramentos no nariz, na gengiva, no estômago e no intestino. A próxima fase é a insuficiência renal e hepática, o que pode levar à morte. No Brasil, 46% dos casos são fatais. Como é endêmica nas matas, a febre amarela dificilmente será erradicada do país. Mas ela deve ser mais bem controlada. Basta que o governo exija vacinação para estrangeiros, medida que é adotada por países como a China e mesmo a Bolívia. Também é necessário tornar obrigatória a vacinação nas áreas de floresta e em suas franjas. Isso criaria uma barreira sanitária. Por último, é preciso que as autoridades alertem constantemente as pessoas que visitam esses locais para a necessidade de imunizar-se antes da viagem. A doença ameaça rotineiramente o país, porque o governo negligencia essas ações. Da mesma forma, tem sido incompetente no combate à hanseníase, à malária, à dengue, à leishmaniose e à doença de Chagas, cujas vítimas se acumulam ano a ano.



 

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