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Inovação A cada nova apresentação do criador da Apple, os competidores apostam que, dessa vez, Steve Jobs vai chutar para fora ou mandar na trave. Mas o zen-paranóico continua com uma taxa de acerto de 100% ao lançar produtos que voam no mercado
"Oi, eu sou um PC." "Oi, eu sou um Mac." Essas duas apresentações são seguidas de diálogos fulminantes em que o certinho PC, representando todos os computadores pessoais não-Mac do mercado, é trucidado pelo maneiríssimo Mac. Elas fazem parte de uma das campanhas publicitárias mais funcionais da história da propaganda. As peças retratam com precisão o terremoto que a Apple está promovendo no mundo dos computadores, especialmente entre os jovens consumidores. Foi com um desses hilariantes jograis que Steve Jobs, o homem do renascimento da indústria de alta tecnologia e chefão da Apple, abriu no Macworld 2008, em São Francisco, na semana passada, mais uma de suas já lendárias keynotes, palavra inglesa que designa discursos que dão o tom e sintetizam a mensagem principal de um evento. No filminho de abertura, o personagem PC diz que teve um ano passado terrível, mas que estava cheio de esperanças para 2008. Ao que o personagem Mac responde: "Ah, sei, então você vai copiar tudo o que nós fizemos em 2007". Corta. Gargalhadas na platéia. O foco, então, se concentra na figura de camiseta preta de mangas compridas arregaçadas, controle remoto na mão, óculos redondos e calça jeans. Ao lado de um Mac no palco, a infalível garrafa de água mineral. Clássico Jobs.
Desde que Steve Jobs, fundador da Apple, voltou à companhia em 1997, depois de um exílio involuntário de quase doze anos, suas keynotes têm sido o evento mais esperado do instável e paranóico mercado de tecnologia digital americano. A esperança dos competidores é sempre a mesma. Agora ele vai errar. Mas Jobs continua acertando. Há anos ele dita o ritmo e o rumo das inovações. A série de acertos não tem paralelo na indústria.
Primeiro foram os Macs coloridos, em seguida o inefável Cube (um computador em forma de cubo, sem ventoinhas barulhentas, com base de acrílico transparente e que parecia flutuar no ar) e depois a série invicta de iPod, que abriu caminho para o iPhone. Todos eles se tornaram objeto de culto. Na semana passada foi a vez do MacBook Air, o mais delgado, leve e irresistível computador portátil da história (1,9 centímetro de espessura e 1,3 quilo). Seu modelo mais caro custa 3 100 dólares (preço bem mais alto do que o de laptops de especificações equivalentes) e carrega uma inovação tentadora para a fiel vanguarda da tecnologia de consumo. Os saudosistas devem se lembrar de que, quando os rádios a válvula começaram a ser substituídos por aparelhos com transistores nos anos 50, os novos modelos traziam uma inscrição gravada que dava orgulho ao possuidor: solid state. Pois o MacBook Air dá essa mesma sensação de progresso, de estar pari passu com o que existe de mais novo no mercado. Uma versão do aparelho não tem disco rígido, que foi substituído por um "solid-state drive". Traduzindo, sai uma engrenagem móvel pesada e consumidora de energia, entra uma peça única, sólida e silenciosa. Mais um clássico Jobs. Bem, o leitor que chegou até aqui pode se intrigar com o fato de que a reportagem não se diferenciou muito do que seria uma propaganda da Apple. Ou seja, só foram listadas coisas positivas sobre Jobs e seus produtos. Não é difícil encontrar defeitos em ambos. Jobs é arrogante, explode com freqüência e destrata seus funcionários com o despudor de um senhor de escravos. O iPod, o iPhone os Macs e agora o Air são produtos que, característica por característica, podem ser batidos por concorrentes melhores e mais baratos disponíveis no mercado. O que não se pode negar, no entanto, é que cada vez mais os consumidores desprezam essas comparações tópicas e entram na fila das lojas Mac nos Estados Unidos e na Europa para desfrutar a experiência de ter um iPod ou um iPhone. A revista inglesa The Economist escreveu no ano passado que o iPhone estava sendo chamado na blogosfera de "Jesus Phone"! Pichações em muros na Califórnia dão conta de que "Jobs is God" ("Jobs é Deus"). Blasfêmias. No entanto, são vendidos com sucesso na internet kits de roupas e adereços que permitem a qualquer um se vestir como Steve Jobs. "Pena que não adianta aos outros chefões do Vale do Silício comprar o kit. Eles não podem ser Jobs", diz Larry Ellison, dono da Oracle, amigo do guru da Apple e ele próprio uma lenda viva do mundo digital. Mas o que faz de Jobs Jobs? "Na Apple, quando as pessoas têm a visão de um bom projeto, elas o perseguem sem medir esforços", disse a VEJA o diretor de design da Philips, Oscar Peña. Outro especialista, Mark Rolston, da californiana Frog Design, complementa: "Na grande maioria das empresas não é isso o que ocorre. Em geral, um produto é definido a partir do que é mais barato ou, pior, com base no que é mais conveniente". Em uma de suas raras entrevistas, concedida à revista Time, Steve Jobs resume o seu segredo e o da Apple: "Todo fabricante de automóveis gosta de exibir seu carro-conceito, que deixa a imprensa e os consumidores de queixo caído. O problema é que, quando ele finalmente é lançado, quatro anos depois o carro é um lixo. O que acontece? Ora, o designer tem uma peça maravilhosa nas mãos, mas os engenheiros simplesmente não conseguem fabricá-la em série. Na Apple, nós conseguimos". Como? Não tente o truque em sua própria empresa. "Os engenheiros vêm com 38 razões para matar nossas melhores idéias, e eu digo a eles que não aceito nãos porque eu sou o chefe e sei que aquilo pode ser feito como eu quero", disse Jobs na mesma entrevista. Talvez seu conselho mais sábio tenha sido o que circula em vídeo no YouTube, dito aos formandos da Universidade Stanford em 2005: "Stay hungry; stay foolish". Como entender a mensagem? Antes um pouco de contexto. Jobs, de 52 anos, é um filho adotivo que abandonou a universidade no 2º ano e foi hippie. Continua zen, adepto da meditação e confiante em seu instinto. Para isso funcionar é preciso "continuar faminto e meio louco". Mas é bom lembrar que nesse mercado "só os paranóicos sobrevivem", na máxima de Andy Grove, fundador da Intel, a maior fabricante de chips de computadores. Jobs é descrito como o mais paranóico de todos. O certo é que funciona essa mistura de zen com paranóia, foco e objetividade. Empresa mais inovadora do planeta, a Apple figura no modestíssimo 130º lugar no ranking das companhias que mais investem em pesquisa e desenvolvimento feito pela consultoria Booz Allen. Ela coloca 710 milhões de dólares por ano no desenvolvimento de novidades. Em recursos, perde de longe para marcas como a Toyota (primeiro lugar, com gastos anuais de 7,7 bilhões de dólares), a Ford (terceiro, com 7,2 bilhões de dólares) e a Microsoft (oitavo, com 6,5 bilhões de dólares). Mas em resultado... Bem, basta lembrar o comercial do PC x Mac. A vida é injusta principalmente com a Ford e a Microsoft, que gastam tanto e não colhem um décimo dos triunfos inovadores da Apple. A empresa de Jobs se organizou de maneira que contraria a sabedoria convencional do capitalismo e do Vale do Silício, o centro do sistema solar das inovações digitais, que manda concentrar-se apenas em um ou dois setores. A Apple desenha e fabrica seus aparelhos, desenvolve o sistema operacional e os programas dos computadores e vende ela mesma na internet as músicas e os filmes pela iTunes Store. ("O que é isso, a Rússia soviética?", pergunta a revista Time.) Em seu número da semana passada, outra revista, Business -Week, publica uma reportagem em que famosos designers de produtos dos Estados Unidos foram desafiados a imaginar como ficariam diversos objetos de uso comum caso fossem projetados pela Apple. Dois exemplos: o carro teria painel "sensível ao toque". A câmera de vídeo obedeceria a comandos de voz e mandaria os filmes direto para o YouTube. Se mantiver a taxa de acerto por mais alguns anos, Jobs poderá ampliar o escopo de sua campanha publicitária para alguma coisa assim: "Oi, eu sou convencional". "Oi, eu sou um Mac".
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