Entrevista:
João Guilherme Estrella O sobrevivente
O protagonista do livro
Meu Nome Não É Johnny, que
virou filme, fala de vício, tráfico, prisão
e de como renasceu
Ronaldo Soares
"Ficava três,
quatro noites sem dormir, sem comer. Tomava ácido
e cheirava cocaína ao mesmo tempo"
O
carioca João Guilherme Estrella tem uma história
como poucas. Entre 1989 e 1995, chegou a ser o principal distribuidor
de drogas para a elite do Rio de Janeiro, credencial que lhe
franqueou acesso às melhores festas da cidade e a transações
milionárias. No auge de sua carreira, recebeu 150 000
dólares em uma única partida de cocaína
para a Europa. Em seguida, foi preso e condenado a dois anos
de reclusão. Primeiro, na carceragem da Polícia
Federal, espremido numa cela com integrantes da facção
criminosa Comando Vermelho. Depois, num manicômio judiciário.
Aos 46 anos, está casado com uma advogada, pretende ter
um filho, trabalha como produtor musical, prepara-se para lançar
um CD e é o protagonista do livro que virou filme de
sucesso. Meu Nome Não É Johnny (Ed. Record),
escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, vendeu 22 000 exemplares
desde 2004. O filme homônimo, com Selton Mello no papel
principal, estreou no início de janeiro e já foi
visto por quase 1 milhão de pessoas. Na semana passada,
Estrella recebeu VEJA em sua produtora, em Ipanema, para a seguinte
entrevista.
Veja O que
leva um jovem de família estruturada, situação
financeira privilegiada e boa educação, como era
o seu caso, a mergulhar nas drogas? Estrella Geralmente as pessoas acham que isso
está ligado a insatisfação, problemas familiares,
perdas afetivas, episódios de violência doméstica.
Para mim, não é bem isso. A partir da minha própria
experiência, acredito que, na maioria dos casos, o uso
de drogas é apenas uma fase, superada quando o jovem
faz a transição para uma postura mais séria
na vida. Quando comecei a fumar maconha, com 14 anos, era um
consumo esporádico, recreativo. Minha família
estava completamente estruturada, eu estudava em um colégio
muito bom, tinha amor em casa, diálogo, liberdade com
confiança... Isso permaneceu durante todo o meu período
de experimentação de drogas, que foi até
os 18, 19 anos. O filme retrata o momento em que meu pai adoece,
ele e minha mãe se separam e a família começa
a se desestruturar. Não foi isso que me fez virar traficante.
Mas essas coisas aconteceram num momento em que talvez eu começasse
a realizar aquela passagem para o mundo adulto. Essa transição
foi completamente atropelada.
Veja Quando
o senhor se deu conta de que era um viciado? Estrella Em nenhum
momento caiu a ficha. Eu simplesmente não parava para
pensar nisso, estava num ritmo alucinante. Ficava três,
quatro, cinco noites sem dormir, sem comer, só bebendo,
fumando cigarro e cheirando. Tomava ácido e cheirava
cocaína ao mesmo tempo, uma mistura bombástica.
Só bateu uma certa preocupação depois dos
28 anos, quando comecei a negociar cocaína e ela passou
a chegar a minhas mãos em quantidades realmente exageradas.
No começo, 3, 4 quilos de cada vez, mas no auge cheguei
a negociar 15 quilos.
Veja O
que exatamente o atraía? Estrella Vários
fatores explicam o poder de sedução das drogas.
O principal deles, pela minha experiência, é que
elas representam a extensão da adolescência. Não
deixá-las é uma forma de continuar levando aquela
vida de diversão, ausência de patrão, não-cumprimento
de ordens, liberdade, aventura. Quando você passa a revender,
agrega a isso uma sensação de poder efêmera,
ligada à quantidade de dinheiro que entra e também
ao tamanho do assédio das pessoas. Você sente que
realmente está movimentando a cidade, não é
mais um mero espectador dos fatos.
Veja O
senhor virou um "barão do pó" mesmo
sem ter uma grande estrutura por trás de seus negócios.
Como conseguiu isso? Estrella Eu
fazia tudo praticamente sozinho, não queria saber da
estrutura que fazia a droga chegar até mim. Havia uma
pessoa que trazia a cocaína de Rondonópolis (MT),
e só. Esse cara até tentou me apresentar as pessoas
acima dele, mas eu nunca quis saber dessa coisa de Colômbia,
Bolívia, matutos, facções, morros etc.
Me bastava esse contato. Quando chegava um caminhão com
200 quilos de cocaína, esse cara me ligava. Eu ficava
com 10, 15 quilos de pó, antes de ele começar
a distribuição. Era um privilégio. Eu recebia
com exclusividade uma quantidade bem razoável de uma
cocaína de qualidade. Mas não fazia nem contabilidade
das minhas vendas, não tinha o menor controle. Quando
as pessoas me pediam para comprar fiado, eu topava, mesmo sabendo
que a maioria não iria pagar. Era uma forma de me livrar
de clientes indesejáveis. Quando o cara vinha me pedir
de novo, eu dizia: "Queridão, tchau". Vendia
1 grama de cocaína pura por 30 reais, enquanto na rua
se comprava meio grama de cocaína misturada pelo mesmo
preço. Então chegou um momento em que pouca gente
vendia, só eu. Por isso a polícia passou a me
considerar um dos principais traficantes do Rio de Janeiro.
Veja
A idéia de que um dia a polícia o pegaria não
vinha a sua mente? Estrella Também
nesse caso demorou a cair a ficha. Só me dei conta do
perigo quando fui preso pela primeira vez. Eu estava num restaurante
com amigos, uns policiais me pegaram no banheiro e me levaram
para o carro. Fiz um acordo ali mesmo. Eles queriam 5 000 dólares,
mas acabei pagando 3 500, que foi o que deu para arrumar. Minha
sorte foi ter fechado o acordo logo no carro, evitando que eles
entrassem na minha casa, onde havia meio quilo de cocaína.
Se eles fossem lá, o acerto sairia bem mais caro, provavelmente
uns 30.000 dólares.
Veja Se
pediam alto assim, é de imaginar que os ganhos eram realmente
exorbitantes. Estrella Tinha
amigo meu que ficava impressionado. Em uma hora e meia, na sexta-feira,
eu ganhava mais do que o cara, que ralava para caramba o mês
inteiro. Numa sexta à noite ganhava o salário
daqueles brasileiros que estão no patamar mais alto da
pirâmide, o equivalente hoje a 20 000 reais. Mas não
estava naquilo por dinheiro. Existia até um certo desprezo
por ele. Eu torrava tudo o que ganhava, não tinha nenhum
apego. O dinheiro era mais um ingrediente para movimentar aquela
aventura toda.
Veja Que
acabou na prisão... Estrella Foram
duas situações distintas na cadeia. Na Polícia
Federal, como não denunciei ninguém, meu castigo
foi ficar na cela de uma facção criminosa, o Comando
Vermelho. Na custódia da PF havia uns 150 presos, de
integrantes de facções inimigas a cidadãos
estrangeiros. É um ambiente pesadíssimo, você
corre risco de vida 24 horas por dia. Aqui fora, a gente xinga
o amigo e tudo bem. Na cadeia, se fizer isso, mesmo de brincadeira,
você pode dormir e não acordar. No manicômio
era outra situação. As pessoas costumam dizer
que é mais fácil lá, mas não é
bem assim. Você está dentro de uma cela que não
tem problema de superlotação, mas vai dormir no
mesmo lugar, trancado, com pessoas que sofrem de psicoses gravíssimas.
Havia psicopatas que mataram pais, filhos. Eles tomam toneladas
de remédios. Eu vigiava para ver se estavam tomando mesmo.
E dava bronca quando não tomavam. Senão, era impossível
dormir. Mesmo assim, tentaram me matar três vezes.
Veja É
possível ressocializar um ser humano em um ambiente daqueles? Estrella Não
há nada que indique isso. Lembro até de um episódio
que ajuda a explicar por quê. Pedi para minha família
trazer o Banco Imobiliário para eu jogar com os caras
na cela. Quando o jogo parava naquela casinha do "Vá
ao banco e pegue 500 reais", nunca tinha dinheiro. Os caras
roubavam o banco. De verdade. As cedulazinhas sumiam. Tinha
gente que não devolvia nem depois do jogo. Chegava uma
hora em que não havia mais dinheiro para jogar, uma coisa
impressionante. É uma forma de falar brincando de uma
coisa séria. Não há nada naquele ambiente
que ajude alguém a se ressocializar. Outros problemas
também são graves...
Veja Quais? Estrella Tive
provas cabais de que o sigilo previsto na delação
premiada não existe. Recebi em minhas mãos o depoimento
de um preso que aceitou me delatar. Isso me chegou por um advogado
que não era o meu. Cada vírgula da delação
que o cara havia feito estava ali, na minha frente. Pelo acordo,
ninguém poderia saber daquilo. E eu, dentro de uma carceragem,
recebi a informação integral. Os presos da minha
cela queriam matar o cara, mas não deixei.
Veja Qual
foi sua estratégia para sobreviver? Estrella Tenho
uma enorme capacidade de me adaptar às situações.
Percebi rapidamente que, mais do que me manter vivo fisicamente,
eu tinha de combater a minha própria mente, que se tornara
um inimigo perigosíssimo. O fator psicológico
era avassalador. Era nisso que eu tinha de focar para sobreviver.
No manicômio, eu vi um cara sadio, normal, ficar maluco.
Ele não agüentou a barra e começou a andar
em círculos, lendo a Bíblia o tempo todo.
O cara pirou.
Veja E
o senhor, como fez para preservar sua sanidade mental? Estrella No
início, na carceragem da PF, foi muito difícil.
Uma coisa que eu fazia para manter a cabeça em ordem
era ficar horas embaixo dágua, meditando no chuveiro,
que era um cano na parede. Eu ficava muito ali, até que
os presos me avisaram que, como a gente não pegava muito
sol, meu pulmão poderia ser afetado. A primeira semana
foi horrível. Cheguei a chorar algumas vezes. Baixinho,
claro, para ninguém perceber. Na cadeia não se
chora. Vi um cara receber a notícia da morte do irmão,
ficar arrasado, mas não deixar correr uma lágrima.
Já no manicômio, se a juíza não tivesse
me permitido o uso de um instrumento musical e se eu não
tivesse trabalhado lá dentro, teria sido insuportável.
Veja Como
é a passagem do tempo dentro de uma prisão? Estrella O
dia simplesmente não acaba. Ali dentro, dois anos são
uma eternidade. Em um dia você pode ler um livro inteiro,
fazer duas músicas, trabalhar seis horas num expediente
qualquer da cadeia, assistir a um filme na televisão,
à novela, ao jornal da TV, e quando vai ver ainda são
4 da tarde. O dia não termina, é uma coisa impressionante.
Agora, reconheço também que foi na prisão
que eu passei a me enxergar, a me observar. Quem vem da adolescência
e emenda numa loucura daquelas não reflete sobre si mesmo.
Descobri que eu não tinha me visto ainda por dentro.
E esse é um momento muito importante, em que você
passa a valorizar a família absurdamente e a perceber
quanto tem de cultivar isso. Minha família, que tinha
ficado à parte quando eu comecei a me envolver com drogas,
me amparou no momento mais difícil. Ela não me
abandonou.
Veja O
senhor trata de forma bem-humorada fatos trágicos. Isso
é uma fuga? Estrella O
bom humor sempre foi um grande companheiro. Parece incrível,
mas eu até consegui me divertir em alguns momentos. Quando
trabalhava na administração do manicômio,
por exemplo, peguei um monte de caixas de clipes e elásticos
para brincar de guerra com os presos. Eu distribuía para
o pessoal da minha cela, e a gente invadia a cela dos outros
dando "tiros" com aquilo. Os caras ficaram chateados
porque só a gente tinha esse privilégio, e passei
a fornecer elásticos e clipes a todo mundo. Mas tivemos
de parar, porque as pessoas estavam se machucando.
Veja Se
o senhor tivesse o condão de mudar algo em sua vida,
que momento escolheria? Estrella O
que vou falar não deve ser interpretado como arrependimento,
pois não é. Quando resolvi fazer a última
viagem para vender cocaína na Europa, que foi o que me
levou à prisão, tive a sensação
de que era a hora de desistir. Eu ia começar a trabalhar,
tinha acertado com um amigo de ser diretor artístico
de uma casa de shows. Tive aquele sexto sentido, mas não
segui meu instinto. Por outro lado, eu também precisava
daquilo, precisava bater em algum muro. Em vez de ser preso,
eu poderia ter morrido de overdose. Até hoje não
sei como meu organismo suportou a quantidade gigantesca de cocaína
que consumi. Também não sei como consegui largar
o vício sem fazer tratamento para enfrentar as crises
de abstinência na prisão, que eram muito violentas.
O máximo que fiz foi tomar diazepam durante dois meses
no manicômio, porque estava agitado demais, ansioso à
espera da sentença, e precisava me acalmar. Desde que
saí da prisão não uso drogas. Uma vez por
mês tomo chope com uns amigos, e só. Me permito
isso porque os psicanalistas não me consideraram um dependente
químico. Consigo manter um consumo leve, espaçado.
Não é algo que um dependente químico consiga
fazer.
Veja A
que o senhor atribui o envolvimento cada vez maior de jovens
de classe média com drogas e com o tráfico? Estrella Na
grande maioria, são histórias parecidas com a
minha, de rapazes que não têm a menor noção
da conseqüência de seus atos. Se por três ou
quatro dias eles passassem pelo que passei, talvez pensassem
duas vezes. O que me preocupa é que, se eles forem presos,
talvez sejam condenados a uma pena exagerada. Uma coisa que
os juízes têm de observar, seja o réu pobre,
seja rico, é a história dele. Sei que é
difícil, porque há milhares de processos, não
há tempo nem juízes em quantidade suficiente para
julgar cada indivíduo de forma mais humana.
Veja Como
se sente com essa exposição toda que o senhor
ganhou em decorrência do filme e do livro? Estrella Eu
só recebo parabéns. Não contei a minha
história para passar mensagens do tipo faça isso,
não faça aquilo. Mas é muito bacana que
as pessoas tenham entendido que isso é uma volta por
cima. Eu me sinto como se estivesse encerrando um ciclo, com
o disco que vou lançar agora. A principal coisa que o
consumo de drogas fez comigo foi me dispersar, desviar-me dos
objetivos principais da minha vida. A última lembrança
que tenho de algo que eu queria muito na minha adolescência
era ser músico. Por isso, esse disco é um ciclo
que se fecha. Agora posso me considerar uma pessoa pronta para
seguir adiante.