Edição 1 629 -22/12/1999

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Eusébio de Queiroz e a OMC

Só uma interpretação perversa da idéia de patriotismo
poderia levar-nos a recusar medidas eficazes para
extinguir esta prática degradante do trabalho infantil


Ilustração Alê Setti


M
uita coisa tem sido escrita sobre a conferência da Organização Mundial do Comércio, OMC, realizada em Seattle, nos Estados Unidos. Enquanto os pessimistas, como Giuliano Amato, ministro da Fazenda da Itália, temem que a ausência de um acordo entre os membros da OMC empurre o comércio internacional para um "caos mundial", os otimistas, como o sociólogo francês Edgar Morin, saúdam o "patriotismo terrestre" nascido em Seattle. Para Morin, a mobilização canalizada pelas ONGs em favor da regulação econômica e social do mercado mundial dará lugar à "segunda globalização" que poderá "civilizar a Terra", domesticando a primeira, atualmente em curso. Tanto Amato como Morin partem do princípio de que é preciso definir regras claras e impositivas para o comércio mundial. Sobre isso há um vasto consenso. O problema surge quando se escolhem essas regras. Quando entram em jogo as condições de trabalho de cada país, como no caso da mão-de-obra infantil empregada pelos fabricantes brasileiros de calçados, denunciado em Seattle pelo presidente Clinton. Incidente que deve ser posto em paralelo com uma crise internacional que quase nos levou à breca há 150 anos.

O que se passou foi o seguinte: no início do século XIX irrompeu na Inglaterra um movimento contra o tráfico atlântico de escravos. Formando uma coalização heterogênea de evangélicos, filantropos e proto-socialistas, os militantes desse movimento – unidos pelo credo politicamente correto oitocentista – eram também apoiados pelo lobby industrial de Manchester, que combatia os subsídios concedidos aos fazendeiros escravistas das Antilhas Britânicas.

Agindo com métodos que prefiguram a prática das ONGs (petições, desfiles, discursos, vaias e bengaladas nos encontros com a polícia), esses militantes, acusados de ser arruaceiros, burros ou inocentes úteis manipulados pelos industriais, forçaram o Parlamento britânico a abolir o tráfico negreiro em 1807. A partir daí, é claro, a Marinha de Guerra inglesa caiu em cima dos outros países que ainda tiravam proveito da "vantagem relativa" facilitada pelo comércio de escravos.

Grande exportador de açúcar, o Império do Brasil tornou-se o alvo principal da campanha antinegreira inglesa, movida pelos "arruaceiros" referidos acima e pelos produtores de açúcar das Antilhas Britânicas que não podiam mais importar africanos. Contudo, o Império deixou rolar o tráfico de escravos e continuou ganhando dinheiro com o desenvolvimento do comércio mundial.

Quando foi votado em Londres o "Sugar Act" (1846), eliminando as tarifas sobre a importação de açúcar estrangeiro na Inglaterra, houve festança no Brasil. Os negreiros investiram pesado e, nos dois anos seguintes, as importações de africanos atingiram no Brasil a mais alta média anual registrada na História. Ou seja, a liberalização do comércio mundial levou os exportadores brasileiros a utilizar ao máximo sua "vantagem relativa", importando mais africanos e ampliando a escravidão no país.

Mas os protestos ingleses aumentaram e a Royal Navy partiu para a ignorância, invadindo águas territoriais brasileiras e capturando navios de todo tipo. Tal foi o contexto em que o ministério de Eusébio de Queiroz, ao término de negociações complicadas com diplomatas, negreiros e fazendeiros brasileiros, conseguiu extinguir o tráfico de africanos (1850). O evento marca o verdadeiro nascimento do Estado brasileiro e a afirmação de uma vontade política nacional que rompeu as amarras com o passado colonial.

Hoje nos vemos diante de um dilema parecido. Apesar do destrambelho dos manifestantes em Seattle e do lobby econômico estrangeiro interessado em penalizar as exportações brasileiras, o trabalho infantil constitui uma chaga social em nosso país. Só uma interpretação perversa da idéia de patriotismo poderia levar-nos a recusar medidas eficazes para extinguir esta prática degradante.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)