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Eusébio
de Queiroz e a OMC
Só
uma interpretação perversa da idéia
de patriotismo
poderia levar-nos a recusar medidas eficazes para
extinguir esta prática degradante do trabalho
infantil
Ilustração Alê
Setti
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Muita
coisa tem sido escrita sobre a conferência da
Organização Mundial do Comércio,
OMC, realizada em Seattle, nos Estados Unidos. Enquanto
os pessimistas, como Giuliano Amato, ministro da Fazenda
da Itália, temem que a ausência de um acordo
entre os membros da OMC empurre o comércio internacional
para um "caos mundial", os otimistas, como o sociólogo
francês Edgar Morin, saúdam o "patriotismo
terrestre" nascido em Seattle. Para Morin, a mobilização
canalizada pelas ONGs em favor da regulação
econômica e social do mercado mundial dará
lugar à "segunda globalização"
que poderá "civilizar a Terra", domesticando
a primeira, atualmente em curso. Tanto Amato como Morin
partem do princípio de que é preciso definir
regras claras e impositivas para o comércio mundial.
Sobre isso há um vasto consenso. O problema surge
quando se escolhem essas regras. Quando entram em jogo
as condições de trabalho de cada país,
como no caso da mão-de-obra infantil empregada
pelos fabricantes brasileiros de calçados, denunciado
em Seattle pelo presidente Clinton. Incidente que deve
ser posto em paralelo com uma crise internacional que
quase nos levou à breca há 150 anos.
O que
se passou foi o seguinte: no início do século
XIX irrompeu na Inglaterra um movimento contra o tráfico
atlântico de escravos. Formando uma coalização
heterogênea de evangélicos, filantropos
e proto-socialistas, os militantes desse movimento
unidos pelo credo politicamente correto oitocentista
eram também apoiados pelo lobby industrial
de Manchester, que combatia os subsídios concedidos
aos fazendeiros escravistas das Antilhas Britânicas.
Agindo
com métodos que prefiguram a prática das
ONGs (petições, desfiles, discursos, vaias
e bengaladas nos encontros com a polícia), esses
militantes, acusados de ser arruaceiros, burros ou inocentes
úteis manipulados pelos industriais, forçaram
o Parlamento britânico a abolir o tráfico
negreiro em 1807. A partir daí, é claro,
a Marinha de Guerra inglesa caiu em cima dos outros
países que ainda tiravam proveito da "vantagem
relativa" facilitada pelo comércio de escravos.
Grande
exportador de açúcar, o Império
do Brasil tornou-se o alvo principal da campanha antinegreira
inglesa, movida pelos "arruaceiros" referidos acima
e pelos produtores de açúcar das Antilhas
Britânicas que não podiam mais importar
africanos. Contudo, o Império deixou rolar o
tráfico de escravos e continuou ganhando dinheiro
com o desenvolvimento do comércio mundial.
Quando
foi votado em Londres o "Sugar Act" (1846), eliminando
as tarifas sobre a importação de açúcar
estrangeiro na Inglaterra, houve festança no
Brasil. Os negreiros investiram pesado e, nos dois anos
seguintes, as importações de africanos
atingiram no Brasil a mais alta média anual registrada
na História. Ou seja, a liberalização
do comércio mundial levou os exportadores brasileiros
a utilizar ao máximo sua "vantagem relativa",
importando mais africanos e ampliando a escravidão
no país.
Mas os
protestos ingleses aumentaram e a Royal Navy partiu
para a ignorância, invadindo águas territoriais
brasileiras e capturando navios de todo tipo. Tal foi
o contexto em que o ministério de Eusébio
de Queiroz, ao término de negociações
complicadas com diplomatas, negreiros e fazendeiros
brasileiros, conseguiu extinguir o tráfico de
africanos (1850). O evento marca o verdadeiro nascimento
do Estado brasileiro e a afirmação de
uma vontade política nacional que rompeu as amarras
com o passado colonial.
Hoje
nos vemos diante de um dilema parecido. Apesar do destrambelho
dos manifestantes em Seattle e do lobby econômico
estrangeiro interessado em penalizar as exportações
brasileiras, o trabalho infantil constitui uma chaga
social em nosso país. Só uma interpretação
perversa da idéia de patriotismo poderia levar-nos
a recusar medidas eficazes para extinguir esta prática
degradante.
Luiz
Felipe de Alencastro é
historiador (lfa@workmail.com)
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