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Alunos quase
iguais
Exame nacional desmistifica a supremacia
da escola particular sobre a pública
Eduardo Nunomura
Divulgados na semana passada, os resultados
do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, puseram abaixo
um mito a respeito da educação no Brasil: o da existência
de um profundo abismo entre o ensino pago e o gratuito.
O que se viu é que a escola pública não é tão ruim quanto
se acostumou a apregoar. E a particular nem tão boa. Se
a velha crença estivesse correta, era de esperar que os
alunos das escolas pagas dessem um banho nos colegas dos
colégios gratuitos. Não foi o que ocorreu. Passaram pelo
Enem 315.960
estudantes. A nota média de pontos obtidos nas provas
de redação e conhecimentos gerais ficou em 51. Os alunos
das instituições particulares obtiveram 57 e os das públicas,
45. A diferença existe, mas o fosso não é tão fundo assim
sobretudo quando se leva em conta que dos únicos cinco
alunos com a pontuação máxima em conhecimentos gerais,
três não pagaram pela educação média. Foi uma boa surpresa.
Edson Roberto Didoné Júnior, de 18
anos, é um desses campeões vindos da escola pública.
Recebeu nota 100 em conhecimentos gerais e 95 em redação.
Nascido numa família de classe média (a renda familiar
é de 2.000
reais por mês) de Santa Bárbara do Oeste, no interior
de São Paulo, ele sempre estudou na rede estadual de
ensino. "Os problemas, como a falta de material,
eram compensados com o empenho e a motivação dos professores",
diz Edson. Em casa, a mãe sempre ajudou o filho nas
lições. A experiência de Edson comprova algo que os
educadores já sabem: o ensino ministrado nas salas de
aula é muito importante, mas não é tudo na formação
de um bom aluno. Conta bastante o incentivo que recebe
da família e as condições sócio-econômicas em que vive.
"Os pais que participam ativamente da educação
dos filhos fazem uma diferença monumental na formação
desse aluno", diz o economista Claudio de Moura
Castro, assessor para educação do Banco Interamericano
de Desenvolvimento.
A nota média dos estudantes cujos pais
têm diploma universitário foi de 60,6 pontos. Para os
filhos de pais que não completaram o ensino fundamental
(o antigo 1º grau) o desempenho ficou abaixo dos 46,6
pontos. É preocupante, visto que, de cada dez alunos
da rede pública, sete têm pais com ginasial incompleto,
segundo uma pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação. Quanto maior é a renda familiar, melhor
a performance dos alunos no exame. Filhos de famílias
com ganhos mensais superiores a 6.800 reais chegaram a ter um desempenho 70% melhor
que os estudantes de renda inferior a dois salários
mínimos. Não se trata apenas de dinheiro, mas de postura
em relação à educação. Em geral, os mais ricos começam
a preparar a educação do filho quando ele nasce. Os
mais pobres só fazem isso lá pelos 6 anos de idade,
época em que a criança vai para a escola.
Ana Araújo
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| Paulo Renato: fim da decoreba no aprendizado |
O líder absoluto de pontos no Enem, com 100 em redação
e 98,4 em conhecimentos gerais, o paulistano Vinícius
Cifú Lopes, de 17 anos, mal acabara de sair das fraldas
quando pisou pela primeira vez na escola. Filho de pais
separados, Vinícius sempre estudou em colégios particulares.
Tem poucos amigos, não pratica esporte, nunca namorou.
E, surpreendentemente, não gosta de estudar. "Abomino",
diz. "Sobretudo quando se tem de decorar as matérias."
Nesse sentido, a prova foi perfeita, pois deu maior
importância à capacidade de raciocínio. "O currículo
do ensino médio sempre foi pautado pelas exigências
do vestibular, com mais memorização do que raciocínio",
diz o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. "Esperamos
que o Enem mude isso." Vinícius tem dois desafios
pela frente os vestibulares para o curso de engenharia
do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, ITA, um dos
mais exigentes do país, e para matemática na Universidade
de São Paulo.
O
fato de alunos das escolas pública e privada terem alcançado
resultados similares não representa um atestado de excelência
para o ensino gratuito. A perda de qualidade na rede
pública é fato reconhecido pelos educadores. Ela decorre,
em boa parte, da enorme expansão na quantidade de alunos.
Nos últimos vinte anos, o número de estudantes do ensino
médio mais que quadruplicou nos colégios estaduais e
triplicou nos municipais. Em contrapartida, a procura
pelos estabelecimentos particulares aumentou apenas
12%, índice menor que o crescimento da população. Ainda
assim, o balanço é positivo. Há quarenta anos, metade
das crianças entre 7 e 14 anos estava fora das salas
de aula. Hoje, o índice de escolarização supera os 90%
em todo o país. O resultado do Enem é revelador, mas
não pode ser visto como um retrato fiel do ensino médio
no Brasil. Antes de mais nada, porque não se tratou
de uma amostragem nacional. A maioria dos participantes
veio do Sudeste e quase metade, de escolas particulares.
Um cenário bem diferente da realidade: 84% dos alunos
do ensino médio estudam na rede pública, contra os 16%
da particular. Mesmo tendo de
desembolsar 20 reais para fazer o exame, o número de
alunos inscritos neste ano foi quase o triplo do de
1998. Isso porque os resultados da prova passaram a
valer pontos para o vestibular de 93 universidades.
É bom, pois assim o Brasil fica se conhecendo melhor.
Com reportagem de Valéria
Blanc, de Brasília
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