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A vingança do
artilheiro
Depois de fracassar em vários times,
Guilherme se consagra como o goleador do Brasil
Daniella Camargos,
de
Belo Horizonte
Ricardo Correa
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Se o Atlético
Mineiro chegou à final do Campeonato Brasileiro de Futebol,
deve a façanha em grande parte a uma única pessoa.
Trata-se de Guilherme de Cássio Alves, 25 anos, paulista,
centroavante do time e artilheiro do torneio. Dá para
medir o grau de participação do jogador nos méritos
do time que entrou na reta final do campeonato como um azarão,
em sétimo lugar, e chegou à finalíssima,
com uma vaga já assegurada para disputar a Taça
Libertadores da América do ano que vem. Guilherme fez
metade dos gols do Atlético na competição,
doze deles nos jogos decisivos contra Cruzeiro, Vitória
e Corinthians. Até domingo passado, já havia marcado
28 vezes, uma a menos do que o recordista do campeonato, Edmundo,
que em 1997 fez 29 gols nas 33 partidas que o Vasco da Gama
disputou. O Atlético havia jogado 27 vezes, o que garantia
ao seu artilheiro a média de 1,03 gol, a segunda melhor
da história do Brasileiro. O primeiro lugar nesse item
é de outro atleticano, Reinaldo, que em 1977 fazia quatro
gols a cada três vezes que seu time entrava em campo.
"Odeio perder. Esse papo de que o importante é competir
é conversa fiada. Eu quero é ganhar todas", diz
o artilheiro, que comemora seus gols berrando palavrões
e elogios a si próprio.
Nada
na vida e na carreira de Guilherme indicava que ele iria desempenhar
um dia o papel de herói do futebol. Antes de chegar ao
Atlético, perambulou de clube em clube, sem deixar saudade
por onde passou. Foi campeão mundial com o São
Paulo, mas como simples reserva. Foi artilheiro na Espanha,
mas num time de segunda classe, o Rayo Vallecano. O Grêmio
de Porto Alegre o dispensou por mau comportamento. "Ele só
jogou a sério três partidas", conta um diretor
do clube gaúcho. "Estava mais preocupado em badalar do
que em jogar bola." Certa vez, ao fugir da concentração
para curtir a noite gaúcha, caiu de um muro de 3 metros
de altura. Machucou a cabeça e ainda foi confundido com
um ladrão pelo vigia de uma churrascaria próxima.
Com a cabeça enfaixada, Guilherme voltou à concentração
levado pela polícia. Antes de chegar ao Atlético,
passou pelo Vasco, onde nunca conseguiu firmar-se entre os titulares.
Em Minas, continuou
remando contra a maré da profissão. Quando está
de folga, é freqüentador assíduo da noite
belo-horizontina. Por causa das cervejadas, já foi criticado
por torcedores e pela imprensa, que o acusaram de estar barrigudo.
"Saio sim, bebo sim", confirma o atacante. "Isso não
é da conta de ninguém, pelo menos enquanto não
estiver prejudicando meu desempenho." Não está.
Guilherme é daquele tipo de atacante que pouco se nota
em campo, quase não toca na bola, dificilmente faz lances
de efeito, mas que é mortal de frente para o gol. Ao
contrário de muito jogador mais famoso, faz gols nos
momentos decisivos do campeonato, quando o time mais precisa
dele.
Filho de uma
família de classe média da cidade de Marília,
no interior de São Paulo, Guilherme estudou até
o 2º grau, mas nunca tirou a cabeça, e os pés,
do mundo da bola. Com 17 anos já havia assinado seu primeiro
contrato de jogador profissional. Jamais abandonou por completo
a vida boêmia. Desde sua passagem pela Espanha consulta
periodicamente o cardiologista. Naquela época, descobriu
que tem sopro no coração. Trata-se de uma anomalia
benigna, a CIA, sigla para cavidade inter-atrial. Seu coração
tem uma pequena comunicação entre os átrios
direito e esquerdo, o que em nada prejudica o desempenho atlético.
A partir da terceira ou quarta década da vida, em 10%
das pessoas que apresentam a enfermidade, pode provocar arritmia
e cansaço físico. "Guilherme é um exemplo
contra o preconceito, pois muitos médicos não
liberam atletas com esse tipo de problema", diz o cardiologista
Nabil Ghorayeb, do Hospital do Coração de São
Paulo. Como todo jogador de futebol, ele gosta de carrões
importados. Tem um Mercedes e um Jeep Cherokee. Estar em companhia
de loiras deslumbrantes é outra de suas paixões.
Mas sem compromisso. "Sou novo. Quero curtir a vida sem ter
de dar satisfações a ninguém.
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O
vôlei levanta a bola do futebol
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José
Roberto: vitórias
nas quadras |
Qualquer
que seja o vencedor do campeonato de futebol, haverá
motivo de orgulho para o vôlei do Brasil. Por trás
do desempenho dos jogadores do Corinthians e do Atlético
Mineiro, os dois finalistas do mais importante torneio
nacional de futebol das Américas, estão
a mão e o trabalho de homens formados nas quadras
de vôlei. Até muito pouco tempo atrás,
José Roberto Guimarães, o gerente de futebol
do Corinthians, e Paulo Roberto de Freitas, o Bebeto,
que ocupa o mesmo cargo no Atlético, estavam habituados
a ver a bola ser jogada com as mãos. Ambos foram
jogadores e depois treinadores de vôlei, com passagem
pela seleção brasileira, onde ganharam os
títulos mais valiosos da modalidade. Em 1984, Bebeto
comandou o time que ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas
de Los Angeles. Oito anos mais tarde, quando a seleção
chegou ao ouro em Barcelona, quem dava as ordens no banco
era José Roberto. O encontro dos dois no futebol
não é mera coincidência. "Eles são
competentes e vão se dar bem em qualquer lugar",
diz José Carlos Brunoro, que também já
foi técnico da seleção de vôlei
e campeão de futebol com o Palmeiras.
Com a chegada
de grandes investidores do mercado financeiro ao futebol,
foi necessário encontrar administradores com experiência
profissional no esporte. No Brasil, o vôlei, muito
antes do futebol, tornou-se o primeiro esporte a desenvolver
um projeto de profissionalização, convivendo
com o patrocínio de empresas, usufruindo a cobertura
e as cotas da televisão e explorando as oportunidades
do marketing. Já no início dos anos 80,
Bebeto era técnico e administrador de um time de
vôlei montado pelo Bradesco, o maior banco privado
do país, que disputava a hegemonia das quadras
com a Pirelli, de Brunoro. José Roberto passou
por experiência semelhante em um time de outro banco,
o Banespa. Quando o Corinthians assinou seu contrato de
parceria com o grupo de investimento Hicks, Muse, Tate
& Furst foi buscar José Roberto para ocupar
o cargo de dirigente remunerado do clube. O Atlético
empreendeu neste ano uma longa operação
de saneamento financeiro e administrativo. Fora Bebeto,
trouxe também a economista Elena Landau, ex-diretora
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social. Bebeto adotou no clube práticas elementares
mas que eram tidas como novidade no futebol. Desde sua
chegada, por exemplo, o Atlético, que era mais
falado por atrasar pagamentos e dar calotes do que por
ganhar títulos, colocou suas contas em dia. "Para
poder cobrar as obrigações dos outros temos
de cumprir as nossas primeiro", ensina. Os frutos já
estão amadurecendo. Além de disputar a final
do campeonato, o clube negocia a parceria com um grande
grupo econômico.
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