Edição 1 629 -22/12/1999

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A vingança do artilheiro

Depois de fracassar em vários times,
Guilherme se consagra como o goleador do Brasil

Daniella Camargos, de Belo Horizonte

Ricardo Correa


S
e o Atlético Mineiro chegou à final do Campeonato Brasileiro de Futebol, deve a façanha em grande parte a uma única pessoa. Trata-se de Guilherme de Cássio Alves, 25 anos, paulista, centroavante do time e artilheiro do torneio. Dá para medir o grau de participação do jogador nos méritos do time que entrou na reta final do campeonato como um azarão, em sétimo lugar, e chegou à finalíssima, com uma vaga já assegurada para disputar a Taça Libertadores da América do ano que vem. Guilherme fez metade dos gols do Atlético na competição, doze deles nos jogos decisivos contra Cruzeiro, Vitória e Corinthians. Até domingo passado, já havia marcado 28 vezes, uma a menos do que o recordista do campeonato, Edmundo, que em 1997 fez 29 gols nas 33 partidas que o Vasco da Gama disputou. O Atlético havia jogado 27 vezes, o que garantia ao seu artilheiro a média de 1,03 gol, a segunda melhor da história do Brasileiro. O primeiro lugar nesse item é de outro atleticano, Reinaldo, que em 1977 fazia quatro gols a cada três vezes que seu time entrava em campo. "Odeio perder. Esse papo de que o importante é competir é conversa fiada. Eu quero é ganhar todas", diz o artilheiro, que comemora seus gols berrando palavrões e elogios a si próprio.

Nada na vida e na carreira de Guilherme indicava que ele iria desempenhar um dia o papel de herói do futebol. Antes de chegar ao Atlético, perambulou de clube em clube, sem deixar saudade por onde passou. Foi campeão mundial com o São Paulo, mas como simples reserva. Foi artilheiro na Espanha, mas num time de segunda classe, o Rayo Vallecano. O Grêmio de Porto Alegre o dispensou por mau comportamento. "Ele só jogou a sério três partidas", conta um diretor do clube gaúcho. "Estava mais preocupado em badalar do que em jogar bola." Certa vez, ao fugir da concentração para curtir a noite gaúcha, caiu de um muro de 3 metros de altura. Machucou a cabeça e ainda foi confundido com um ladrão pelo vigia de uma churrascaria próxima. Com a cabeça enfaixada, Guilherme voltou à concentração levado pela polícia. Antes de chegar ao Atlético, passou pelo Vasco, onde nunca conseguiu firmar-se entre os titulares.

Em Minas, continuou remando contra a maré da profissão. Quando está de folga, é freqüentador assíduo da noite belo-horizontina. Por causa das cervejadas, já foi criticado por torcedores e pela imprensa, que o acusaram de estar barrigudo. "Saio sim, bebo sim", confirma o atacante. "Isso não é da conta de ninguém, pelo menos enquanto não estiver prejudicando meu desempenho." Não está. Guilherme é daquele tipo de atacante que pouco se nota em campo, quase não toca na bola, dificilmente faz lances de efeito, mas que é mortal de frente para o gol. Ao contrário de muito jogador mais famoso, faz gols nos momentos decisivos do campeonato, quando o time mais precisa dele.

Filho de uma família de classe média da cidade de Marília, no interior de São Paulo, Guilherme estudou até o 2º grau, mas nunca tirou a cabeça, e os pés, do mundo da bola. Com 17 anos já havia assinado seu primeiro contrato de jogador profissional. Jamais abandonou por completo a vida boêmia. Desde sua passagem pela Espanha consulta periodicamente o cardiologista. Naquela época, descobriu que tem sopro no coração. Trata-se de uma anomalia benigna, a CIA, sigla para cavidade inter-atrial. Seu coração tem uma pequena comunicação entre os átrios direito e esquerdo, o que em nada prejudica o desempenho atlético. A partir da terceira ou quarta década da vida, em 10% das pessoas que apresentam a enfermidade, pode provocar arritmia e cansaço físico. "Guilherme é um exemplo contra o preconceito, pois muitos médicos não liberam atletas com esse tipo de problema", diz o cardiologista Nabil Ghorayeb, do Hospital do Coração de São Paulo. Como todo jogador de futebol, ele gosta de carrões importados. Tem um Mercedes e um Jeep Cherokee. Estar em companhia de loiras deslumbrantes é outra de suas paixões. Mas sem compromisso. "Sou novo. Quero curtir a vida sem ter de dar satisfações a ninguém.

O vôlei levanta a bola do futebol


José Roberto: vitórias
nas quadras

Qualquer que seja o vencedor do campeonato de futebol, haverá motivo de orgulho para o vôlei do Brasil. Por trás do desempenho dos jogadores do Corinthians e do Atlético Mineiro, os dois finalistas do mais importante torneio nacional de futebol das Américas, estão a mão e o trabalho de homens formados nas quadras de vôlei. Até muito pouco tempo atrás, José Roberto Guimarães, o gerente de futebol do Corinthians, e Paulo Roberto de Freitas, o Bebeto, que ocupa o mesmo cargo no Atlético, estavam habituados a ver a bola ser jogada com as mãos. Ambos foram jogadores e depois treinadores de vôlei, com passagem pela seleção brasileira, onde ganharam os títulos mais valiosos da modalidade. Em 1984, Bebeto comandou o time que ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles. Oito anos mais tarde, quando a seleção chegou ao ouro em Barcelona, quem dava as ordens no banco era José Roberto. O encontro dos dois no futebol não é mera coincidência. "Eles são competentes e vão se dar bem em qualquer lugar", diz José Carlos Brunoro, que também já foi técnico da seleção de vôlei e campeão de futebol com o Palmeiras.

Com a chegada de grandes investidores do mercado financeiro ao futebol, foi necessário encontrar administradores com experiência profissional no esporte. No Brasil, o vôlei, muito antes do futebol, tornou-se o primeiro esporte a desenvolver um projeto de profissionalização, convivendo com o patrocínio de empresas, usufruindo a cobertura e as cotas da televisão e explorando as oportunidades do marketing. Já no início dos anos 80, Bebeto era técnico e administrador de um time de vôlei montado pelo Bradesco, o maior banco privado do país, que disputava a hegemonia das quadras com a Pirelli, de Brunoro. José Roberto passou por experiência semelhante em um time de outro banco, o Banespa. Quando o Corinthians assinou seu contrato de parceria com o grupo de investimento Hicks, Muse, Tate & Furst foi buscar José Roberto para ocupar o cargo de dirigente remunerado do clube. O Atlético empreendeu neste ano uma longa operação de saneamento financeiro e administrativo. Fora Bebeto, trouxe também a economista Elena Landau, ex-diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Bebeto adotou no clube práticas elementares mas que eram tidas como novidade no futebol. Desde sua chegada, por exemplo, o Atlético, que era mais falado por atrasar pagamentos e dar calotes do que por ganhar títulos, colocou suas contas em dia. "Para poder cobrar as obrigações dos outros temos de cumprir as nossas primeiro", ensina. Os frutos já estão amadurecendo. Além de disputar a final do campeonato, o clube negocia a parceria com um grande grupo econômico.