Edição 1 629 -22/12/1999

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Piratas do barulho

Em fábrica de CDs falsos, polícia encontra
a pista de negócio de 40 milhões de cópias

Fabio Schivartche

Antonio Milena
Indústria clandestina:
polícia encontra
27 000 CDs
num casebre paulista

O CD pirata é a pedra no sapato da indústria fonográfica. Com menos de 3.000 reais, qualquer pessoa compra um computador para regravar um disco. Fábricas clandestinas, muitas delas instaladas no Paraguai ou em Taiwan, produzem milhares de títulos, vendidos por camelôs a 5 reais. Nas lojas, o CD original, que pagou impostos e direitos autorais, custa acima de 20 reais. Na semana passada, a polícia paulista marcou um tento contra os falsários, ao desbaratar o maior laboratório clandestino de regravação já descoberto no país. Em um casebre no centro da capital, grossas portas de aço escondiam um aparato tecnológico de última geração capaz de reproduzir 58 CDs por vez. Com toda a parafernália, a produção poderia chegar a 5.000 CDs por dia. Dos 27.461 discos encontrados, a maioria era de cópias de CDs do grupo de pagode Só Pra Contrariar, do padre Marcelo Rossi, dos sertanejos Leonardo e Roberta Miranda e do romântico Daniel – artistas que estão entre os mais pirateados do país.

O prejuízo da indústria com a pirataria chega a 300 milhões de dólares por ano, conforme a Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos do Brasil. Na segunda-feira 13, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou o início da produção de um selo holográfico que deverá ser colado nas caixas dos discos. A identificação visual não é, no entanto, a arma mais eficaz contra a pirataria. Ninguém é enganado ao comprar um CD fajuto: o preço costuma ser bem menor que o de um original e no encarte, de pior qualidade gráfica, não consta o código de barras ou o CGC da gravadora. Para cada dez CDs legítimos, calcula-se, há quatro ilegais. Dos estimados 40 milhões de discos piratas produzidos em 1999, apenas 1,3 milhão foi apreendido. O Brasil demorou para criar sua entidade de defesa da indústria fonográfica – em 1995. O Paraguai postergou a sua ainda mais. Logo, não é de surpreender que 25% dos CDs e fitas cassete piratas vendidos por aqui venham de lá. Em julho e novembro deste ano, duas fábricas foram descobertas em Ciudad del Este, do lado paraguaio da Ponte da Amizade. Juntas, podiam produzir 140.000 CDs por dia. É só a ponta do iceberg.

O sucesso dos PCs Frankenstein

A abertura da economia brasileira não foi suficiente para colocar ordem no negócio de computadores. De cada dez PCs vendidos no primeiro semestre, seis foram contrabandeados ou tiveram o imposto sonegado. São números enormes, comparáveis aos da China e da Rússia, países líderes no ramo da pirataria. Um estudo feito pelo escritório brasileiro da consultoria internacional IDC concluiu que a maioria desses equipamentos é vendida para uso doméstico. Mas três em cada dez acabam em órgãos do governo, que se deixam ludibriar com notas frias ou por empresas fantasmas. É fácil entender a preferência pelo equipamento montado no fundo do quintal, o PC Frankenstein: o preço é em média 30% menor que o de marcas conhecidas. Os grandes fabricantes não conseguem vender tão barato. A tributação sobre a importação de componentes de informática pode ultrapassar 50%.

Os componentes contrabandeados vêm de Miami, do Paraguai ou diretamente da China, onde são fabricados. Chegam ao Brasil de navio ou de avião. Apenas 25% da carga, escolhida por amostragem como acontece com os passageiros nos aeroportos, é fiscalizada pela Receita Federal. Exceto pelo preço, o PC ilegal só tem desvantagens. Pode ter sido montado com peças de segunda mão ou defeituosas – e não há para quem reclamar. Como mostra o tamanho do mercado clandestino de PCs, a maioria ainda prefere pagar pra ver.

Paula Pacheco