Edição 1 629 -22/12/1999

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O MST urbano

Com métodos semelhantes aos dos sem-terra, os
sem-teto atacam os prédios nas grandes cidades

Marcos Gusmão

Fotos: Claudio Rossi
Edifício ocupado em São Paulo e a sem- teto Antônia, ao lado dos filhos: "Se despejar, a gente vai para outro"


O planejamento pode consumir meses, mas o ataque é rápido. Definido o alvo, em geral um edifício comercial abandonado localizado numa região central da cidade grande, o Movimento dos Sem-Teto faz a invasão em alguns minutos, normalmente à noite, com algo entre 100 e 200 famílias. No dia seguinte, eles informam às autoridades a disposição de deixar o prédio caso recebam um lugar para morar. O comportamento dos sem-teto é praticamente igual ao dos sem-terra, tanto no discurso quanto na ação. As bandeiras que usam são vermelhas, os gritos de guerra falam em trotskismo, maoísmo e marxismo e o objeto de ataque é quase sempre um imóvel improdutivo. Há mais um ponto de semelhança com o MST rural. As estatísticas apontam que nos últimos tempos o número de invasões patrocinadas pelo MST urbano aumentou significativamente. No decorrer de 1999 ocorreram vinte na capital paulista, dez no Rio de Janeiro e outra dezena em Belo Horizonte e no Recife. No total, contam-se mais de 100 invasões. Para efeito de comparação, registraram-se quarenta ocupações em 1998.

Viabilizar habitação popular é um dos grandes desafios de qualquer governo. Se por um passe de mágica o Brasil reunisse recursos para construir casas para todos que moram em favelas, cortiços ou com os parentes, seriam necessários 5 milhões de moradias – 1 milhão no Estado de São Paulo. Com o natural processo de migração do campo para a cidade grande, o problema se agrava anualmente. Sem dinheiro para pagar aluguel, a camada mais pobre da população vai morar a até duas ou três horas-ônibus do trabalho. Para os sem-teto, essa opção não existe. Eles não querem se mudar para a periferia, porque ganham a vida no centro fazendo bico de vigilantes, faxineiros, carregadores ou camelôs. O custo da viagem inviabilizaria o negócio deles. "Se a polícia tira a gente de um prédio, logo aparece outro imóvel para ocupar", diz a sem-teto Antônia Albaniza Costa, que participou de uma invasão com 250 pessoas em São Paulo na semana passada. Faxineira desempregada, casada com um carregador também desempregado, Antônia não suportou o aluguel de 200 reais cobrado num cortiço. O casal tem cinco filhos.

Quem são os invasores

Sem profissão definida, a maior parte ganha a vida como biscateiro ou ambulante. A renda familiar dificilmente ultrapassa os 300 reais mensais
A maioria mora em cortiços e não consegue pagar o aluguel de até 200 reais por um quarto, 30% moram em favelas da periferia e 10% vivem na rua
No ano passado, realizaram cerca de 40 ocupações de prédios abandonados no país. Neste ano, o número de invasões saltou para 100
Organizam-se em pelo menos 200 entidades espalhadas pelo Brasil