Edição 1 629 -22/12/1999

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A briga pelo Sol

De olho no turismo, países se engalfinham
pelo título de primeiro amanhecer do milênio

Juliana De Mari

Um punhado de paisecos nos confins do mundo está travando uma dura batalha. Eles disputam a honra de receber os primeiros raios de sol do milênio. Uma briga exótica, que revela quanto podem ser confusos os conceitos que regem as datas e os horários no planeta. Cada país adota um critério diferente do outro e, em alguns casos, recorre a pitorescas artimanhas para passar à frente dos concorrentes, como instituir um horário de verão de última hora ou mesmo deslocar por conta própria as linhas internacionais de fuso horário. A maioria desses países está plantada em torno da Linha Internacional de Data, um risco imaginário que corta o planeta do Pólo Norte ao Pólo Sul na região do meridiano 180º e que marca a passagem de um dia para o outro. Mas há ainda competidores a milhares de quilômetros de distância, em pleno Oceano Índico, onde o Sol nasce quase seis horas depois. "É uma disputa baseada principalmente em convenções, da mesma forma que toda essa história que envolve a passagem do milênio", diz Dennis McCarthy, um dos diretores do Observatório Naval dos Estados Unidos, um dos centros que zelam pelas regras de contagem das horas no mundo.


Se o critério for a estrita observação da hora local em que o Sol vai nascer, a Geleira de Dibble, na costa da Antártica, será o primeiro ponto terrestre a receber a alvorada do ano-novo. Os computadores dos principais observatórios astronômicos já calcularam que o fenômeno ocorrerá aos oito minutos do dia 1º de janeiro, pouco depois de o Sol ter-se posto, nos instantes finais de 31 de dezembro. No resto do continente gelado, durante todo o verão reina o fenômeno conhecido como sol da meia-noite, em que o astro nunca se põe. O problema é que o espetáculo da aurora polar do milênio só será assistido por pingüins e focas. A Geleira de Dibble é tão inóspita e inacessível que ninguém, nem mesmo pesquisadores, anda por lá. Na disputa pelo amanhecer do milênio, lugar desabitado conta pouco, mesmo entre os astrônomos e cientistas. Para boa parte deles o ponto terrestre que vale mesmo é onde tem gente. Por esse critério, a Ilha Pitt, no extremo leste da Nova Zelândia, é um dos mais bem cotados. Lá, sessenta fazendeiros e suas ovelhas assistirão ao nascer do Sol às 5h45 da manhã, uma hora depois de ele ter brotado na Antártica, segundo o padrão de Greenwich. "Aqui é o ponto em que a humanidade dará as boas-vindas ao novo milênio", diz Sharon van Gulik, responsável pelas comemorações da virada do milênio no país. "Não importa o que você faça com a linha do tempo, com seu fuso horário, porque é aqui que o Sol nasce primeiro", diz ela.

A zarabatana neozelandesa tem destino certo: Tonga e Kiribati. O primeiro país simplesmente decidiu há quatro meses adiantar o relógio e dar uma rasteira nas outras ilhas. Tonga estará comemorando o novo milênio em suas belas praias quando a Europa ainda estiver preparando a festa da virada. Kiribati foi mais ousado. Esticou por conta própria em 1.600 quilômetros a linha de mudança de data e colocou no páreo uma ilha que deveria ter um dia de desvantagem em relação às demais. Para deixar bem claro os motivos da manobra, até trocou o nome do amontoado de pedras de Ilha Caroline para Ilha Millennium. O Observatório Real de Greenwich, que zela pelo padrão de tempo universal, não reconheceu oficialmente a mudança mas admite que não há motivos legais que impeçam um país de adotar o horário que melhor lhe convier. Já o governo vizinho, das Ilhas Fiji, reclamou. E muito.

Um dos mais badalados paraísos tropicais do mundo, esse país formado por mais de 300 ilhas pretende lucrar muito com a virada do milênio. Transatlânticos circularão por suas ilhas para comemorar duas vezes a chegada do ano-novo cruzando a linha de mudança de data. Por ficar exatamente sobre o meridiano 180º, que é a base da linha de mudança, o país reivindica a honra de ser o primeiro a chegar à meia-noite do dia 31, e, portanto, o primeiro a receber o milênio. "É no meridiano 180º que um dia começa e termina", diz um comunicado oficial do governo sobre o assunto. "Todo mundo faz contagem regressiva para a meia-noite e não para o amanhecer, um horário em que habitualmente se dorme", argumentam as autoridades de Fiji. É também na meia-noite que se fundamentam as reivindicações de uma pequena ilha do Golfo de Bengala, pertencente à Índia. Só que com uma pequena diferença dos fijianos. Para a população da Ilha de Katchall, o que interessa é a meia-noite de Greenwich, Inglaterra. Isso porque quando o ano-novo irromper na linha do Tempo Universal, que rege todos os demais fusos horários e passa pela cidadezinha inglesa, o Sol estará nascendo em suas praias. Katchall teria portanto a primeira alvorada de acordo com os padrões ingleses e, acreditam os indianos, universais. Vários astrônomos, principalmente os europeus, apóiam esse ponto de vista.

Enquanto a disputa estiver sendo travada, os brasileiros mal terão acabado o almoço do dia 31. Por aqui, o Sol do novo milênio só dará sua graça cerca de quinze horas depois de surgir no Pacífico Sul. Não sem polêmicas. Diferentemente do que todos imaginam, não será a Ponta do Seixas, em João Pessoa, o primeiro ponto a ver o alvorecer. O pedaço mais oriental do país receberá os primeiros raios quase três minutos depois do Cabo de São Tomé, no Estado do Rio de Janeiro. "Na maior parte do ano é o Nordeste que recebe o Sol primeiro", diz a astrônoma Josina Oliveira do Nascimento, do Observatório Nacional. "Só que, com a inclinação do globo terrestre e a posição do Sol no início do ano, a vez é do Rio", explica ela. Difícil vai ser consolar os paraibanos que gastaram 1,5 milhão de reais para fazer a festa na Ponta do Seixas.

 

 


Ilustração: Wander Mendes