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A briga pelo
Sol
De olho no turismo, países se engalfinham
pelo título de primeiro amanhecer do milênio
Juliana De Mari
Um punhado de paisecos nos confins do
mundo está travando uma dura batalha. Eles disputam a
honra de receber os primeiros raios de sol do milênio.
Uma briga exótica, que revela quanto podem ser confusos
os conceitos que regem as datas e os horários no planeta.
Cada país adota um critério diferente do outro e, em alguns
casos, recorre a pitorescas artimanhas para passar à frente
dos concorrentes, como instituir um horário de verão de
última hora ou mesmo deslocar por conta própria as linhas
internacionais de fuso horário. A maioria desses países
está plantada em torno da Linha Internacional de Data,
um risco imaginário que corta o planeta do Pólo Norte
ao Pólo Sul na região do meridiano 180º e que marca a
passagem de um dia para o outro. Mas há ainda competidores
a milhares de quilômetros de distância, em pleno Oceano
Índico, onde o Sol nasce quase seis horas depois. "É
uma disputa baseada principalmente em convenções, da mesma
forma que toda essa história que envolve a passagem do
milênio", diz Dennis McCarthy, um dos diretores do
Observatório Naval dos Estados Unidos, um dos centros
que zelam pelas regras de contagem das horas no mundo.

Se o critério for a estrita observação da hora local
em que o Sol vai nascer, a Geleira de Dibble, na costa
da Antártica, será o primeiro ponto terrestre a receber
a alvorada do ano-novo. Os computadores dos principais
observatórios astronômicos já calcularam que o fenômeno
ocorrerá aos oito minutos do dia 1º de janeiro, pouco
depois de o Sol ter-se posto, nos instantes finais de
31 de dezembro. No resto do continente gelado, durante
todo o verão reina o fenômeno conhecido como sol da
meia-noite, em que o astro nunca se põe. O problema
é que o espetáculo da aurora polar do milênio só será
assistido por pingüins e focas. A Geleira de Dibble
é tão inóspita e inacessível que ninguém, nem mesmo
pesquisadores, anda por lá. Na disputa pelo amanhecer
do milênio, lugar desabitado conta pouco, mesmo entre
os astrônomos e cientistas. Para boa parte deles o ponto
terrestre que vale mesmo é onde tem gente. Por esse
critério, a Ilha Pitt, no extremo leste da Nova Zelândia,
é um dos mais bem cotados. Lá, sessenta fazendeiros
e suas ovelhas assistirão ao nascer do Sol às 5h45 da
manhã, uma hora depois de ele ter brotado na Antártica,
segundo o padrão de Greenwich. "Aqui é o ponto
em que a humanidade dará as boas-vindas ao novo milênio",
diz Sharon van Gulik, responsável pelas comemorações
da virada do milênio no país. "Não importa o que
você faça com a linha do tempo, com seu fuso horário,
porque é aqui que o Sol nasce primeiro", diz ela.
A zarabatana neozelandesa tem destino
certo: Tonga e Kiribati. O primeiro país simplesmente
decidiu há quatro meses adiantar o relógio e dar uma
rasteira nas outras ilhas. Tonga estará comemorando
o novo milênio em suas belas praias quando a Europa
ainda estiver preparando a festa da virada. Kiribati
foi mais ousado. Esticou por conta própria em 1.600 quilômetros a linha de mudança de data e
colocou no páreo uma ilha que deveria ter um dia de
desvantagem em relação às demais. Para deixar bem claro
os motivos da manobra, até trocou o nome do amontoado
de pedras de Ilha Caroline para Ilha Millennium. O Observatório
Real de Greenwich, que zela pelo padrão de tempo universal,
não reconheceu oficialmente a mudança mas admite que
não há motivos legais que impeçam um país de adotar
o horário que melhor lhe convier. Já o governo vizinho,
das Ilhas Fiji, reclamou. E muito.
Um dos mais badalados paraísos tropicais
do mundo, esse país formado por mais de 300 ilhas pretende
lucrar muito com a virada do milênio. Transatlânticos
circularão por suas ilhas para comemorar duas vezes
a chegada do ano-novo cruzando a linha de mudança de
data. Por ficar exatamente sobre o meridiano 180º, que
é a base da linha de mudança, o país reivindica a honra
de ser o primeiro a chegar à meia-noite do dia 31, e,
portanto, o primeiro a receber o milênio. "É no
meridiano 180º que um dia começa e termina", diz
um comunicado oficial do governo sobre o assunto. "Todo
mundo faz contagem regressiva para a meia-noite e não
para o amanhecer, um horário em que habitualmente se
dorme", argumentam as autoridades de Fiji. É também
na meia-noite que se fundamentam as reivindicações de
uma pequena ilha do Golfo de Bengala, pertencente à
Índia. Só que com uma pequena diferença dos fijianos.
Para a população da Ilha de Katchall, o que interessa
é a meia-noite de Greenwich, Inglaterra. Isso porque
quando o ano-novo irromper na linha do Tempo Universal,
que rege todos os demais fusos horários e passa pela
cidadezinha inglesa, o Sol estará nascendo em suas praias.
Katchall teria portanto a primeira alvorada de acordo
com os padrões ingleses e, acreditam os indianos, universais.
Vários astrônomos, principalmente os europeus, apóiam
esse ponto de vista.
Enquanto a disputa estiver sendo travada,
os brasileiros mal terão acabado o almoço do dia 31.
Por aqui, o Sol do novo milênio só dará sua graça cerca
de quinze horas depois de surgir no Pacífico Sul. Não
sem polêmicas. Diferentemente do que todos imaginam,
não será a Ponta do Seixas, em João Pessoa, o primeiro
ponto a ver o alvorecer. O pedaço mais oriental do país
receberá os primeiros raios quase três minutos depois
do Cabo de São Tomé, no Estado do Rio de Janeiro. "Na
maior parte do ano é o Nordeste que recebe o Sol primeiro",
diz a astrônoma Josina Oliveira do Nascimento, do Observatório
Nacional. "Só que, com a inclinação do globo terrestre
e a posição do Sol no início do ano, a vez é do Rio",
explica ela. Difícil vai ser consolar os paraibanos
que gastaram 1,5 milhão de reais para fazer a festa
na Ponta do Seixas.
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