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Gaiola dourada
Prisão de Mônaco, onde está
o assassino de Safra,
enche os prisionaeiros de mordomias
O padrão em Mônaco é a ostentação. Não
há, no principado da família Grimaldi, lugar para nada
de segunda classe. Os hotéis precisam ser os mais luxuosos,
as princesas as mais belas, o cassino o mais badalado.
O surpreendente é que o xadrez local onde está preso
Ted Maher, enfermeiro americano responsável pela morte
do banqueiro brasileiro Edmond Safra em Mônaco, no início
deste mês não foge ao estilo. Na única prisão do minúsculo
Estado encravado num rochedo da belíssima costa francesa
do Mediterrâneo, os prisioneiros desfrutam do bom e do
melhor. Ou do melhor que se pode ter atrás das grades:
serviço de hotelaria, celas amplas e refeições reverenciadas
entre as melhores de Mônaco. Responsável por duas mortes,
Maher é um caso raro, pois a maioria de seus colegas responde
por crimes do colarinho-branco. Ele provocou um incêndio
no apartamento de Safra com a intenção de simular o salvamento
do patrão bilionário e usufruir os benefícios de sua gratidão.
Deu tudo errado. O banqueiro e sua enfermeira trancaram-se
em um banheiro blindado e acabaram morrendo sufocados
pela fumaça. À espera do julgamento, Maher tem direito
integral às mordomias do sistema prisional monegasco.
Localizado no coração de Mônaco, com
uma encantadora vista para o mar, o presídio tem muros
erguidos em 1709, cuja aparência é mantida impecável.
Com 4.500 metros quadrados
e quarenta celas, uma de suas singularidades é permitir
aos presos escolher as acomodações. Quem preza a privacidade
pode escolher uma cela individual e terá TV a cabo,
rádio, mobiliário confortável e ar-condicionado. Se
preferir a companhia de um colega, pode dividir a cela,
de dimensões nunca menores que 15 metros quadrados.
A administração tem orgulho em oferecer um verdadeiro
ambiente familiar. O diretor, Charles Marson, trabalha
com a própria mulher, Andrée, que cuida da gerência.
O filho do casal, Renaud, é um dos vinte carcereiros.
À disposição dos quinze prisioneiros, existem 23 funcionários,
todos empenhados em fazer com que nada saia errado na
aconchegante penitenciária. "Nós preferimos não
falar em prisioneiros, mas em clientes", diz Marson.
No melhor estilo da Riviera Francesa,
a boa alimentação é ponto de honra. O preso prefere
comida vegetariana? Pode contar com um prato de legumes
cuidadosamente preparado por um dos quatro chefs do
estabelecimento. De manhã, são servidos croissants,
café solúvel, manteiga e geléia em porções individuais,
como as utilizadas nos aviões. As outras refeições,
sempre em bandejas aquecidas, podem contar com frutos
do mar e até champanhe, em ocasiões especiais. Se a
porção for mais que suficiente, é possível manter uma
sobra na geladeira da cela, para o caso de a fome aparecer
de surpresa no meio da noite. Nos fins de semana, as
sobremesas incluem torta e sorvete.
A monotonia é combatida com uma ampla
biblioteca, uma sala de ginástica e partidas de pingue-pongue.
A lembrança de que se trata de uma prisão e não de uma
colônia de férias está na vigilância. O circuito interno
de TV registra todos os passos dos presos. E há obrigações,
como tomar banho todos os dias. Seja pelo severo controle
ou pelas ótimas instalações, o complexo só registrou
uma fuga, em 1953. Permanecer um longo tempo nesse luxuoso
estabelecimento não é coisa para qualquer um. Depois
da quase inevitável condenação, o assassino de Safra
será transferido para uma cadeia comum na França. Os
únicos a cumprir pena com mordomia são os próprios cidadãos
de Mônaco, cuja população permanente é de 32.000
pessoas. No principado mais famoso do mundo é assim.
Até a prisão é um privilégio de poucos.
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