Edição 1 629 -22/12/1999

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Gaiola dourada

Prisão de Mônaco, onde está o assassino de Safra,
enche os prisionaeiros de mordomias

O padrão em Mônaco é a ostentação. Não há, no principado da família Grimaldi, lugar para nada de segunda classe. Os hotéis precisam ser os mais luxuosos, as princesas as mais belas, o cassino o mais badalado. O surpreendente é que o xadrez local – onde está preso Ted Maher, enfermeiro americano responsável pela morte do banqueiro brasileiro Edmond Safra em Mônaco, no início deste mês – não foge ao estilo. Na única prisão do minúsculo Estado encravado num rochedo da belíssima costa francesa do Mediterrâneo, os prisioneiros desfrutam do bom e do melhor. Ou do melhor que se pode ter atrás das grades: serviço de hotelaria, celas amplas e refeições reverenciadas entre as melhores de Mônaco. Responsável por duas mortes, Maher é um caso raro, pois a maioria de seus colegas responde por crimes do colarinho-branco. Ele provocou um incêndio no apartamento de Safra com a intenção de simular o salvamento do patrão bilionário e usufruir os benefícios de sua gratidão. Deu tudo errado. O banqueiro e sua enfermeira trancaram-se em um banheiro blindado e acabaram morrendo sufocados pela fumaça. À espera do julgamento, Maher tem direito integral às mordomias do sistema prisional monegasco.

Localizado no coração de Mônaco, com uma encantadora vista para o mar, o presídio tem muros erguidos em 1709, cuja aparência é mantida impecável. Com 4.500 metros quadrados e quarenta celas, uma de suas singularidades é permitir aos presos escolher as acomodações. Quem preza a privacidade pode escolher uma cela individual e terá TV a cabo, rádio, mobiliário confortável e ar-condicionado. Se preferir a companhia de um colega, pode dividir a cela, de dimensões nunca menores que 15 metros quadrados. A administração tem orgulho em oferecer um verdadeiro ambiente familiar. O diretor, Charles Marson, trabalha com a própria mulher, Andrée, que cuida da gerência. O filho do casal, Renaud, é um dos vinte carcereiros. À disposição dos quinze prisioneiros, existem 23 funcionários, todos empenhados em fazer com que nada saia errado na aconchegante penitenciária. "Nós preferimos não falar em prisioneiros, mas em clientes", diz Marson.

No melhor estilo da Riviera Francesa, a boa alimentação é ponto de honra. O preso prefere comida vegetariana? Pode contar com um prato de legumes cuidadosamente preparado por um dos quatro chefs do estabelecimento. De manhã, são servidos croissants, café solúvel, manteiga e geléia em porções individuais, como as utilizadas nos aviões. As outras refeições, sempre em bandejas aquecidas, podem contar com frutos do mar e até champanhe, em ocasiões especiais. Se a porção for mais que suficiente, é possível manter uma sobra na geladeira da cela, para o caso de a fome aparecer de surpresa no meio da noite. Nos fins de semana, as sobremesas incluem torta e sorvete.

A monotonia é combatida com uma ampla biblioteca, uma sala de ginástica e partidas de pingue-pongue. A lembrança de que se trata de uma prisão e não de uma colônia de férias está na vigilância. O circuito interno de TV registra todos os passos dos presos. E há obrigações, como tomar banho todos os dias. Seja pelo severo controle ou pelas ótimas instalações, o complexo só registrou uma fuga, em 1953. Permanecer um longo tempo nesse luxuoso estabelecimento não é coisa para qualquer um. Depois da quase inevitável condenação, o assassino de Safra será transferido para uma cadeia comum na França. Os únicos a cumprir pena com mordomia são os próprios cidadãos de Mônaco, cuja população permanente é de 32.000 pessoas. No principado mais famoso do mundo é assim. Até a prisão é um privilégio de poucos.