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Apesar de
tudo, dizem
que foi bom
Os
brasileiros são generosos no
balanço
de um ano cheio de sustos
e
acreditam que 2000 será melhor
O
Brasil passou bem perto do desastre em 1999 e, no próximo
ano, terá de fazer acrobacias para que sua economia
melhore. No entanto, este último exercício
fiscal se encerra com números bastante razoáveis.
O produto interno bruto, PIB, deve aumentar um pouco, cerca
de 0,5%, o que torna o Brasil um dos poucos países
sul-americanos a apresentar crescimento. Os outros dois
são Bolívia e Peru. Os demais, incluindo Chile
e Argentina, viram sua economia esfriar. A inflação
subiu, mas não explodiu. O índice de desemprego,
apesar de altíssimo para a folha corrida brasileira,
está parado na taxa de 7,5%. Esses são os
resultados finais dos 365 dias em que vivemos em perigo
constante de um desarranjo econômico grave.
Na semana
passada, uma pesquisa feita pelo Ibope, a pedido da Confederação
Nacional da Indústria, CNI, revelou que seis em cada
dez pessoas acreditam que no ano que vem as coisas vão
melhorar. Apenas 16% são pessimistas. A lista de
preocupações continua carregadíssima.
O medo de perder o emprego ocupa o primeiro lugar, o que
é compreensível, dado o grau de incerteza
gerado pela economia nos últimos tempos. Seguem-se
saúde e drogas. O grande fantasma do passado, a inflação,
ficou em último lugar. "Os entrevistados tendem a
esquecer o passado. No caso, o primeiro semestre do ano.
A opinião deles reflete mais o que viveram no segundo,
que não foi tão ruim", diz Ney Figueiredo,
consultor da CNI e membro do Conselho Superior de Opinião
Pública da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.
Não
se deve comemorar os números de 1999, porque eles
são apenas passáveis. É verdade que
o Plano Real, que estabilizou a economia a partir de 1994,
continua de pé e ativo. Mas a questão do déficit
público não foi resolvida, o sistema de previdência
continua consumindo a maior parte do que se arrecada e a
reforma do sistema tributário ficou para as calendas.
O Brasil, mesmo com o câmbio mais favorável,
não está exportando o suficiente. Portanto,
continua dependendo fortemente do capital externo. Isso
significa que a nação continua frágil
diante de novas crises internacionais. Mas, em contraste
com o dilúvio que banqueiros e analistas econômicos
previram no começo do ano, durante o ataque especulativo
contra o real, o país saiu-se até bem. Só
para lembrar algumas profecias levadas muito a sério
há alguns meses e que agora, em dezembro, parecem
coisa de maluco: a inflação subiria para além
de 20%, a recessão seria de pelo menos 4% e a moeda
brasileira se diluiria numa desvalorização
assustadora. O desemprego estaria fomentando o caos social.
Nada disso aconteceu.
O país
não desapareceu do mapa, como tantos vaticinaram.
Ao contrário, avançou em muitos pontos. Em
1999, de todos os países emergentes, foi o destino
preferido do investimento estrangeiro direto, desbancando
até mesmo a China, o emergente predileto dos últimos
anos. Investimento direto significa dólares entrando
para ficar, e não apenas para lucrar temporariamente
na bolsa ou com títulos do governo, que remuneram
o capital em generosíssimos 19% ao ano (as taxas
internacionais são de aproximadamente 6%). O Brasil
recebeu neste ano cerca de 29 bilhões de dólares,
que chegaram para montar empresas novas, comprar estatais
privatizadas ou pedaços de companhias brasileiras.
Em 1999, por exemplo, o Pão de Açúcar
e a Embraer se associaram a estrangeiros para expandir seus
negócios. A francesa Renault, que inaugurou sua unidade
de montagem de veículos no Paraná em 1998,
investiu mais 220 milhões de dólares neste
ano na instalação de uma fábrica de
motores. A canadense Alcan concluiu um investimento de 370
milhões de dólares para aumentar sua linha
de produção de laminados de alumínio,
em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.
Investimento
direto é sinal de confiança na economia de
um país. Quem interna dinheiro para montar uma fábrica
ou um supermercado acha que as coisas andarão bem
a médio e a longo prazo. Assim, mesmo com a subida
da inflação e o fraco desempenho econômico
do Brasil em 1999, o investidor acredita que o país
é uma boa carta. Ele raciocina da seguinte maneira:
a estabilidade veio para ficar e o governo tem uma agenda
para reformar a estrutura econômica. Portanto, a chance
de uma melhoria rápida é muito grande. "O
investidor pesa risco e potencial. No caso do Brasil, o
potencial tem influência maior", diz o economista
Octavio de Barros, do Banco Bilbao Vizcaya, BBV. É
por acreditar no que o Brasil promete, como um investimento
que trará bons dividendos no futuro, que 430 das
500 maiores empresas do planeta estão plantadas no
país.
Se
a pesquisa do Ibope mostrou que as pessoas estão
relativamente satisfeitas com a questão econômica,
revelou também que continuam mal-humoradas a respeito
do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em julho de 1998,
pouco antes da crise da Rússia que acabou precipitando
a crise brasileira , apenas 17% dos entrevistados julgavam
seu governo ruim ou péssimo. Em março deste
ano, já eram 41% os que atribuíam a pior nota
a Fernando Henrique. No mês passado, as notícias
sobre a economia eram bem melhores e o desastre previsto
no início do ano estava afastado, mas a popularidade
do presidente continuava mal. O índice de desaprovação
estava em 48%.
É
um comportamento muito interessante. Aparentemente, as pessoas
julgam que a economia melhorou, mas não por mérito
do presidente. É certo que, nessa questão,
incidiram vários outros fatores. Não foi um
ano bom do ponto de vista político. Começou
com uma explosão de bom tamanho nos jardins do Planalto,
quando se descobriu um socorro estranho aos bancos FonteCindam
e Marka na semana da desvalorização do real
episódio que culminou com o afastamento do então
presidente do Banco Central, Francisco Lopes. E termina
com a CPI do Narcotráfico, cujas revelações
são assustadoras.
O ano acaba
sem que o governo tenha conseguido fazer o país engrenar
uma segunda marcha no rumo do crescimento econômico.
Esse é um problema sério, porque hoje há
um contingente de 5,5 milhões de trabalhadores que
não encontram ocupação. No próximo
ano, mais 1,5 milhão de jovens estarão engrossando
a fila de candidatos a um emprego. Para acomodar essa população
na indústria e no comércio, o país
precisa voltar a crescer urgentemente. Isso aconteceu muito
timidamente neste ano. Nas projeções do governo,
o PIB deverá avançar 4% no ano 2000. É
uma marca difícil de alcançar, segundo a maioria
dos economistas, embora o ambiente esperado para o próximo
ano seja de maior normalidade. Pois, ainda que essa previsão
otimista se realize, a abertura de novas vagas não
deverá acontecer na mesma proporção.
"Se o emprego crescer 2%, já devemos levantar as
mãos para o céu", diz Edward Amadeo, secretário
de Política Econômica do Ministério
da Fazenda.
São
vários os motivos que explicam o fato de o emprego
não ter a mesma velocidade do crescimento do PIB.
Em primeiro lugar, os vacinados empresários brasileiros
vão certamente esperar um pouco mais para começar
a admitir para valer. Eles vão querer se certificar
de que o crescimento da economia não é apenas
uma bolha. Há também as chamadas razões
estruturais. Com a corrida para aumentar os índices
de produtividade, as empresas fazem cada vez mais com menos
trabalhadores. Quem sofre é o emprego. Feitas todas
as ponderações, chega-se a um desafio de bom
tamanho. Apenas para absorver os jovens que chegam à
idade de trabalho, o país precisa crescer 5% ao ano.
E, se quiser erradicar o desemprego, a necessidade de crescimento,
sustentado por anos a fio, vai para 7%.
Na condição
em que o Brasil se encontra hoje, isso seria o mesmo que
esperar um desempenho atlético de um recém-saído
da UTI. O governo conseguiu fechar o ano com alguns tentos
importantes. Conseguiu, por exemplo, gastar menos do que
arrecadou. Outra boa notícia veio do câmbio.
O dólar, que chegou a passar de 2 reais em outubro,
começava a acomodar-se na semana passada, abaixo
de 1,85 real. São bons presságios, mas esses
números ainda devem ser vistos com cautela. "Estamos
sarando, mas ainda estamos muito frágeis", diz Luiz
Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária
do BC.
Não
é impossível transformar novamente o Brasil
em uma locomotiva veloz, à semelhança do que
aconteceu nos anos 70. Mas é preciso que haja dinheiro
para investir e não apenas o que chega do
exterior. Para isso, o governo precisa ter superávits,
de maneira a reduzir a dívida pública. Dessa
forma, liberaria a poupança nacional para atividades
produtivas e não para rolar seu próprio e
monstruoso déficit. Isso só se consegue com
a reforma da Previdência, do sistema tributário
e do próprio Estado. Tarefas que ficaram para o ano
que vem.
Com reportagem de Paula
Pacheco

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