Edição 1 629 -22/12/1999

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Apesar de tudo, dizem que foi bom

Os brasileiros são generosos no

balanço de um ano cheio de sustos
e acreditam que 2000 será melhor

César Nogueira

O Brasil passou bem perto do desastre em 1999 e, no próximo ano, terá de fazer acrobacias para que sua economia melhore. No entanto, este último exercício fiscal se encerra com números bastante razoáveis. O produto interno bruto, PIB, deve aumentar um pouco, cerca de 0,5%, o que torna o Brasil um dos poucos países sul-americanos a apresentar crescimento. Os outros dois são Bolívia e Peru. Os demais, incluindo Chile e Argentina, viram sua economia esfriar. A inflação subiu, mas não explodiu. O índice de desemprego, apesar de altíssimo para a folha corrida brasileira, está parado na taxa de 7,5%. Esses são os resultados finais dos 365 dias em que vivemos em perigo constante de um desarranjo econômico grave.

Na semana passada, uma pesquisa feita pelo Ibope, a pedido da Confederação Nacional da Indústria, CNI, revelou que seis em cada dez pessoas acreditam que no ano que vem as coisas vão melhorar. Apenas 16% são pessimistas. A lista de preocupações continua carregadíssima. O medo de perder o emprego ocupa o primeiro lugar, o que é compreensível, dado o grau de incerteza gerado pela economia nos últimos tempos. Seguem-se saúde e drogas. O grande fantasma do passado, a inflação, ficou em último lugar. "Os entrevistados tendem a esquecer o passado. No caso, o primeiro semestre do ano. A opinião deles reflete mais o que viveram no segundo, que não foi tão ruim", diz Ney Figueiredo, consultor da CNI e membro do Conselho Superior de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.

Não se deve comemorar os números de 1999, porque eles são apenas passáveis. É verdade que o Plano Real, que estabilizou a economia a partir de 1994, continua de pé e ativo. Mas a questão do déficit público não foi resolvida, o sistema de previdência continua consumindo a maior parte do que se arrecada e a reforma do sistema tributário ficou para as calendas. O Brasil, mesmo com o câmbio mais favorável, não está exportando o suficiente. Portanto, continua dependendo fortemente do capital externo. Isso significa que a nação continua frágil diante de novas crises internacionais. Mas, em contraste com o dilúvio que banqueiros e analistas econômicos previram no começo do ano, durante o ataque especulativo contra o real, o país saiu-se até bem. Só para lembrar algumas profecias levadas muito a sério há alguns meses e que agora, em dezembro, parecem coisa de maluco: a inflação subiria para além de 20%, a recessão seria de pelo menos 4% e a moeda brasileira se diluiria numa desvalorização assustadora. O desemprego estaria fomentando o caos social. Nada disso aconteceu.

O país não desapareceu do mapa, como tantos vaticinaram. Ao contrário, avançou em muitos pontos. Em 1999, de todos os países emergentes, foi o destino preferido do investimento estrangeiro direto, desbancando até mesmo a China, o emergente predileto dos últimos anos. Investimento direto significa dólares entrando para ficar, e não apenas para lucrar temporariamente na bolsa ou com títulos do governo, que remuneram o capital em generosíssimos 19% ao ano (as taxas internacionais são de aproximadamente 6%). O Brasil recebeu neste ano cerca de 29 bilhões de dólares, que chegaram para montar empresas novas, comprar estatais privatizadas ou pedaços de companhias brasileiras. Em 1999, por exemplo, o Pão de Açúcar e a Embraer se associaram a estrangeiros para expandir seus negócios. A francesa Renault, que inaugurou sua unidade de montagem de veículos no Paraná em 1998, investiu mais 220 milhões de dólares neste ano na instalação de uma fábrica de motores. A canadense Alcan concluiu um investimento de 370 milhões de dólares para aumentar sua linha de produção de laminados de alumínio, em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.

Investimento direto é sinal de confiança na economia de um país. Quem interna dinheiro para montar uma fábrica ou um supermercado acha que as coisas andarão bem a médio e a longo prazo. Assim, mesmo com a subida da inflação e o fraco desempenho econômico do Brasil em 1999, o investidor acredita que o país é uma boa carta. Ele raciocina da seguinte maneira: a estabilidade veio para ficar e o governo tem uma agenda para reformar a estrutura econômica. Portanto, a chance de uma melhoria rápida é muito grande. "O investidor pesa risco e potencial. No caso do Brasil, o potencial tem influência maior", diz o economista Octavio de Barros, do Banco Bilbao Vizcaya, BBV. É por acreditar no que o Brasil promete, como um investimento que trará bons dividendos no futuro, que 430 das 500 maiores empresas do planeta estão plantadas no país.

Se a pesquisa do Ibope mostrou que as pessoas estão relativamente satisfeitas com a questão econômica, revelou também que continuam mal-humoradas a respeito do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em julho de 1998, pouco antes da crise da Rússia – que acabou precipitando a crise brasileira – , apenas 17% dos entrevistados julgavam seu governo ruim ou péssimo. Em março deste ano, já eram 41% os que atribuíam a pior nota a Fernando Henrique. No mês passado, as notícias sobre a economia eram bem melhores e o desastre previsto no início do ano estava afastado, mas a popularidade do presidente continuava mal. O índice de desaprovação estava em 48%.

É um comportamento muito interessante. Aparentemente, as pessoas julgam que a economia melhorou, mas não por mérito do presidente. É certo que, nessa questão, incidiram vários outros fatores. Não foi um ano bom do ponto de vista político. Começou com uma explosão de bom tamanho nos jardins do Planalto, quando se descobriu um socorro estranho aos bancos FonteCindam e Marka na semana da desvalorização do real – episódio que culminou com o afastamento do então presidente do Banco Central, Francisco Lopes. E termina com a CPI do Narcotráfico, cujas revelações são assustadoras.

O ano acaba sem que o governo tenha conseguido fazer o país engrenar uma segunda marcha no rumo do crescimento econômico. Esse é um problema sério, porque hoje há um contingente de 5,5 milhões de trabalhadores que não encontram ocupação. No próximo ano, mais 1,5 milhão de jovens estarão engrossando a fila de candidatos a um emprego. Para acomodar essa população na indústria e no comércio, o país precisa voltar a crescer urgentemente. Isso aconteceu muito timidamente neste ano. Nas projeções do governo, o PIB deverá avançar 4% no ano 2000. É uma marca difícil de alcançar, segundo a maioria dos economistas, embora o ambiente esperado para o próximo ano seja de maior normalidade. Pois, ainda que essa previsão otimista se realize, a abertura de novas vagas não deverá acontecer na mesma proporção. "Se o emprego crescer 2%, já devemos levantar as mãos para o céu", diz Edward Amadeo, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

São vários os motivos que explicam o fato de o emprego não ter a mesma velocidade do crescimento do PIB. Em primeiro lugar, os vacinados empresários brasileiros vão certamente esperar um pouco mais para começar a admitir para valer. Eles vão querer se certificar de que o crescimento da economia não é apenas uma bolha. Há também as chamadas razões estruturais. Com a corrida para aumentar os índices de produtividade, as empresas fazem cada vez mais com menos trabalhadores. Quem sofre é o emprego. Feitas todas as ponderações, chega-se a um desafio de bom tamanho. Apenas para absorver os jovens que chegam à idade de trabalho, o país precisa crescer 5% ao ano. E, se quiser erradicar o desemprego, a necessidade de crescimento, sustentado por anos a fio, vai para 7%.

Na condição em que o Brasil se encontra hoje, isso seria o mesmo que esperar um desempenho atlético de um recém-saído da UTI. O governo conseguiu fechar o ano com alguns tentos importantes. Conseguiu, por exemplo, gastar menos do que arrecadou. Outra boa notícia veio do câmbio. O dólar, que chegou a passar de 2 reais em outubro, começava a acomodar-se na semana passada, abaixo de 1,85 real. São bons presságios, mas esses números ainda devem ser vistos com cautela. "Estamos sarando, mas ainda estamos muito frágeis", diz Luiz Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária do BC.

Não é impossível transformar novamente o Brasil em uma locomotiva veloz, à semelhança do que aconteceu nos anos 70. Mas é preciso que haja dinheiro para investir – e não apenas o que chega do exterior. Para isso, o governo precisa ter superávits, de maneira a reduzir a dívida pública. Dessa forma, liberaria a poupança nacional para atividades produtivas e não para rolar seu próprio e monstruoso déficit. Isso só se consegue com a reforma da Previdência, do sistema tributário e do próprio Estado. Tarefas que ficaram para o ano que vem.

Com reportagem de Paula Pacheco