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Fim do sufoco
FHC diz
que 1999 foi
o seu pior ano
na Presidência,
mas acha que a retomada
do crescimento
já começou
Expedito
Filho e
Guilherme Barros
Ana Araujo
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"No começo do ano, tive a sensação
de que tudo o que havíamos
construído poderia ir para o espaço" |
Janeiro
de 1999. Recém-empossado pela segunda vez, o presidente
Fernando Henrique Cardoso vivia a maior crise já
enfrentada por ele no governo. O país assistia
espantado a mudanças dramáticas no comando
do Banco Central e na política cambial. A popularidade
de FHC iria despencar em seguida, como resultado das más
notícias econômicas que se acumulavam e de
confusões sucessivas no cenário político.
Na ante-sala do presidente, podia-se colher um indicador
sonoro da gravidade do momento. Seu telefone tocava com
freqüência muito mais baixa do que a normal.
A crise
começou no fim de 1998 e atravessou os primeiros
meses de 1999 sem dar sinais de que cederia. Vieram a
CPI dos Bancos, as previsões catastróficas
do acordo com o Fundo Monetário Internacional,
a ameaça de moratória dos governadores,
as brigas com o Congresso pela aprovação
das reformas e várias outras subcrises. "Foi o
ano mais difícil que enfrentei na Presidência",
diz Fernando Henrique, 68 anos. O desastre, como se viu
depois, não seria tão grande quanto se imaginou.
Nesta entrevista, o presidente recorda esse período
ruim, analisa seu governo e fala do futuro.
Veja
Como
foi este ano para o senhor?
FHC
Foi
o período mais difícil que enfrentei na
Presidência. No começo deste ano, eu tive
a nítida sensação de que tudo o
que tínhamos construído poderia ir para
o espaço.
Veja
Por
causa da desastrosa mudança na política
cambial?
FHC
Mais do que o câmbio, o que aconteceu foi a perda
do controle da economia. Havia a ameaça da volta
da inflação e de muitos outros problemas.
O curioso é que, em abril, eu já tinha
a sensação de que os problemas tinham
sido superados e foi nesse exato momento que a sociedade
verdadeiramente percebeu que o país estava em
crise. Se a gente olhar as críticas ao governo
e as pesquisas de perda de popularidade, elas acontecem
a partir de março, quando já tínhamos
ultrapassado o olho do furacão. Esse tumulto
só se acalmou depois de setembro deste ano. A
sociedade custou a perceber que a mudança econômica
já tinha sido feita e o pior dos problemas já
havia sido ultrapassado. A retórica dos formadores
de opinião, da oposição e mesmo
dos meus partidários continuou a mesma. Eles
não tinham percebido que a tendência da
economia era outra. Fiquei sozinho durante muito tempo.
Veja
Há quem ache que o senhor continua sozinho.
FHC
Essa
é uma visão errada. As pessoas acham sempre
que o presidente está isolado, que vive a solidão
do poder. Isso é conversa fiada. Tenho a quem
recorrer. É verdade que a solidão do poder
existe, mas isso é outra coisa. Certas decisões
o presidente tem de tomar sozinho mesmo. Mudar o presidente
do Banco Central e a política cambial, por exemplo,
foi uma decisão minha. Mudar outra vez o presidente
do Banco Central recém-nomeado foi outra decisão
que tive de tomar sozinho. Nesses casos, sim, é
preciso conviver com a solidão da decisão.
E uma decisão errada pode levar o país
para o espaço.
Veja
O
senhor é acusado de ser muito lento ao tomar
suas decisões.
FHC
Eu
não tomo decisões de repente. Exatamente
porque sei qual é o custo dessas decisões.
Vivemos num país relativamente mal organizado,
contraditório, segmentado. O Brasil não
é homogêneo. Se o governo não imprimir
certa tranqüilidade ao país, pode provocar
tumulto o tempo todo. Não se deve governar um
país na base do supetão. O pior é
que esse tem sido um padrão cada vez mais adotado
na política. A política cada vez mais
é mídia, e a mídia requer o inusitado.
Se o político vier com uma surpresa, se atacar
alguém, por exemplo, terá direito a um
espaço nobre na mídia e, portanto, na
política. É difícil governar com
estabilidade num mundo que requer instabilidade, excitação
e nervosismo. Se o governante se transformar num político
comum, ele vai para o abismo. Um sujeito que não
tem a responsabilidade que eu tenho no governo pode
dizer qualquer coisa e aparecer no jornal num dia, no
dia seguinte, mas esse procedimento não tem substância.
Veja
O
senhor está descrevendo o estilo adotado por
Antonio Carlos Magalhães?
FHC
Ele
é talvez quem mais saiba fazer isso, mas não
é só ele. O Serjão (o
ex-ministro das Comunicações Sergio Motta)
também
fazia. O Ciro faz. O Lula faz menos. O Brizola também
faz. Repito: não se pode governar um país
com gestos histriônicos. Eu mudei quase todos
os ministros sem muita crise. Nas mesmas posições
só ficaram o Pedro Malan, na Fazenda, e o Lampreia
(Luiz Felipe),
nas
Relações Exteriores. Não estou
pregando aqui o imobilismo.
Veja
Seu governo, muitas vezes, é acusado de imobilista.
FHC
É
porque muitas vezes confundem governar com histrionismo,
que de fato não é meu estilo. Agora, topo
qualquer parada, inclusive as impopulares.
Veja
O
senhor ficou ressentido com políticos que o apoiaram
na fase de euforia do Plano Real e depois o atacaram
no momento difícil, atribuindo-lhe a responsabilidade
até mesmo pelos efeitos das crises da Ásia
e da Rússia no Brasil?
FHC
Ressentido
não fiquei. Senti uma certa angústia,
sim. Eu entendo essa posição deles, mas
não justifico. Essa é a debilidade do
nosso sistema político. Nós governamos
num sistema que é precário. Nós
temos um sistema em que o Congresso é muito forte,
mas os partidos, não. Isso é uma coisa
complicada. Fora do Congresso, não existe partido.
O que temos são personalidades fortes, que são
capazes de se separar dos partidos e ter os próprios
objetivos políticos. Assim, num ou noutro momento
de dificuldade surge esse comportamento no qual desaparece
a sustentação verbal ao governo. Eu não
posso me queixar do voto do Congresso. Votaram sempre
a favor das iniciativas do governo. A perda de popularidade
não significou a perda do voto no Congresso.
Significou outra coisa. Em função de nosso
sistema político, representou uma retórica
muito agressiva. Só eu sei quanto custa manter
esse equilíbrio que tenho mantido. Custa muita
paciência, muita conversa, custa ter de engolir
sapo.
Veja
Por
que, na sua visão, o senhor tem apoio no Congresso,
mesmo sofrendo críticas de alguns nomes de peso
da Câmara e do Senado?
FHC
Só se governa com apoio quando se é capaz
de apresentar um projeto que tenha sustentação.
Eu acho que, apesar de ter havido alguns estremecimentos,
represento o projeto hegemônico. Qual é
o outro caminho? O que vai fazer com o país?
Tem uma política alternativa para o país?
Qual? Quando alguém quer esboçar uma política
alternativa, como faz o Ciro Gomes, ele a esboça
voltando ao passado. Passa a argumentar que o problema
é a dívida interna e inventa uma teoria
que não se sustenta. Ou então como fazem
o Leonel Brizola e o Itamar Franco, que querem voltar
ao nacional-estatismo. Só que o mundo não
permite que possamos voltar ao nacional-estatismo. Eu
sempre disse que a oposição não
apresenta alternativas. Continua sem apresentar as alternativas.
Veja
E
o PT?
FHC
É
a nossa oposição mais consistente. Mas
está ainda com as vísceras sendo deglutidas
por eles próprios, já que não sabem
o rumo que devem tomar. Se são socialistas ou
se não são socialistas, se é terceria
via ou não é terceira via, se o partido
tem base operária ou não tem base operária,
e assim por diante.
Veja
Como
o senhor vê o Lula nessa questão de ter
ou não um rumo preciso?
FHC
O
que ele é? Ele é socialista, nacional-estatista,
o que ele é? Ele não resolveu essa questão.
Veja
Existe
a suspeita de que seu sonho secreto, caso consiga recuperar
a popularidade perdida, seria virar presidente num sistema
parlamentarista.
FHC
Não,
eu acho que quatro anos é pouco e oito é
suficiente.
Veja
O
senhor acha que há possibilidade de o país
recuperar o otimismo em relação ao crescimento?
FHC
Eu
acho que já começou a retomada. Na verdade,
o que houve neste ano foi uma parada, não um
retrocesso. Nós não chegamos a andar para
trás. Acho que agora estamos engatando de novo
para caminhar.
Veja
As
perdas de vários de seus colaboradores mais próximos,
como André Lara Resende, Luiz Carlos Mendonça
de Barros e Edmar Bacha, na área econômica,
enfraqueceram a que ponto seu governo?
FHC
Do
ponto de vista operacional, talvez o governo nunca tenha
estado tão bom como agora. Nunca antes esteve
tão afinado.
Veja
Por
quê?
FHC
Porque passou da etapa de discutir as teorias. Agora,
eu posso deixar o governo ligado no piloto automático
que não haverá problemas. Veja o programa
Brasil em Ação, como foi bem feito. É
uma mudança muito grande no modo de gerir o país.
O Congresso ainda não tomou conhecimento disso.
Continua discutindo as emendas e não os programas
do Brasil em Ação. Nós mudamos
em quase todas as áreas. Hoje eu tenho muito
menos trabalho do que tinha antes.
Veja
Mesmo
na economia?
FHC
O
Malan é uma pessoa que está aqui comigo
há muitos anos. Eu sei o que o Malan pensa e
ele sabe o que eu penso. Eu sei como ele atua. A Fazenda
anda sozinha. De vez em quando, o Malan me traz uma
questão para conversar, geralmente no fim de
semana.
Veja
No
fim de semana?
FHC
Como
ele mora aqui em Brasília, vem ao Alvorada nos
fins de semana. Chega, toma um uísque e aí
conversamos sobre tudo. O Lampreia e o Paulo Renato
(ministro
da Educação) também
vêm aqui.
Veja
O
ministro da Previdência, Waldeck Ornélas,
responde a quem? Ao senhor ou a ACM?
FHC
O
Antonio Carlos não se mete com as políticas
do governo. Essa discussão sobre quem manda no
governo só acontece na imprensa. Ele gosta dessa
discussão. Faz de conta que manda. Poder real
no governo ele não tem. Agora, eu converso com
ele sobre o Congresso, sim.
Veja
Se
a situação econômica melhorar, o
senhor poderá influir bastante na escolha de
seu sucessor. Existe desde já algum nome que
prefira aos demais?
FHC
Eu não tenho o direito de lavar as mãos
na sucessão. Não foi para dar um rumo
que fiquei mais quatro anos? Eu terei, claro, um candidato.
Veja
A
pergunta é se o senhor já tem, secretamente,
um nome de sua predileção.
FHC
Um
não digo, mas dois ou três, sim.
Veja
Como
analisa o século que vai acabar dentro de alguns
dias?
FHC
Acho que foi um século de ouro, não no
sentido de opulência, mas de grandes transformações,
de grandes avanços tecnológicos e científicos.
O avanço que houve neste século é
incomparável em relação aos anteriores.
O que ocorreu foi um verdadeiro renascimento em termos
de revolução tecnológica. Se o
século XVIII foi das luzes, da razão,
este foi o da tecnologia, da razão aplicada.
Foi violento também, mas evitou-se a violência
pior, que seria o holocausto atômico, como notou
(o historiador
inglês Eric) Hobsbawm.
Portanto, acho que foi um século marcante, de
muitas transformações, e todas para melhor.
Acredito que, com essa base tecnológica, dá
para acreditar que o próximo século será
muito promissor.
Veja
E
a miséria?
FHC
Será possível enfrentar o problema da
pobreza. Qual é a grande crítica a este
século? É a de que, apesar de ter enriquecido
muitos países, deixou muita pobreza. Mas é
preciso notar que o século XX criou as bases
materiais para resolver esse problema. Outra coisa importante
deste século é que ele nasceu sob a égide
do imperialismo. Até a primeira metade vivemos
o imperialismo. Mas o imperialismo acabou. E por que
acabou? Porque o Estado deixou de ser a alavanca da
economia. A economia venceu o Estado. A esquerda atrasada
não percebeu que o imperialismo acabou. Os Estados
Unidos não precisam mais da força do Estado
para invadir. Os Estados Unidos invadem pela cabeça,
via meios de comunicação, tecnologia.
Globalização é isso. Esse negócio
do global é muito mal entendido. O global é
entendido como se fosse o imperialismo.
Veja
Mas
não é só a esquerda que entende
assim.
FHC
Não
é só a esquerda mesmo. A Fiesp (Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo),
por exemplo, não é esquerda. Ela é
só atrasada.
Veja
A
conferência de Seattle mostra que o Primeiro Mundo
também é protecionista. Como resolver
esse cruzamento de globalização com protecionismo?
FHC
Os
vários beneficiários da globalização
também querem beneficiar-se do protecionismo.
É uma dupla desvantagem para nós e uma
dupla esperteza deles. Nós não podemos
ter uma visão ingênua. Temos de ter também
uma política de defesa de nossos interesses.
Não podemos fazer concessões aqui sem
haver concessões do outro lado. Por que abrir
mercado aqui se o mercado de lá continua fechado?
Nossas barreiras alfandegárias são muito
altas ainda e a pressão para abrir é muito
grande. Tem de ter um toma-lá-dá-cá,
senão a gente só perde.
Veja
Faz
sentido a acusação ao governo Collor e
ao seu governo de que o Brasil abriu muito rápido
sem pedir contrapartidas?
FHC
Eu
acho que faz sentido, mas eu só fiz fechar. No
meu governo, o que fiz foi reparar os danos ocasionados
pelos outros. As acusações que fazem ao
meu governo são exageradas. Fazem essas críticas
porque eu defendo a abertura. Os que fazem a acusação
acham que o país tem de estar permanentemente
fechado. Eu quero que abra, mas também acho que
não se pode abrir desconsiderando a realidade.
E houve abertura desconsiderando realidades no governo
Collor.
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