Edição 1 629 -22/12/1999

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Fim do sufoco

FHC diz que 1999 foi o seu pior ano
na
Presidência, mas acha que a retomada
do
crescimento já começou

Expedito Filho e Guilherme Barros

Ana Araujo
"No começo do ano, tive a sensação
de que tudo o que havíamos
construído poderia ir para o espaço"


J
aneiro de 1999. Recém-empossado pela segunda vez, o presidente Fernando Henrique Cardoso vivia a maior crise já enfrentada por ele no governo. O país assistia espantado a mudanças dramáticas no comando do Banco Central e na política cambial. A popularidade de FHC iria despencar em seguida, como resultado das más notícias econômicas que se acumulavam e de confusões sucessivas no cenário político. Na ante-sala do presidente, podia-se colher um indicador sonoro da gravidade do momento. Seu telefone tocava com freqüência muito mais baixa do que a normal.

A crise começou no fim de 1998 e atravessou os primeiros meses de 1999 sem dar sinais de que cederia. Vieram a CPI dos Bancos, as previsões catastróficas do acordo com o Fundo Monetário Internacional, a ameaça de moratória dos governadores, as brigas com o Congresso pela aprovação das reformas e várias outras subcrises. "Foi o ano mais difícil que enfrentei na Presidência", diz Fernando Henrique, 68 anos. O desastre, como se viu depois, não seria tão grande quanto se imaginou. Nesta entrevista, o presidente recorda esse período ruim, analisa seu governo e fala do futuro.  

Veja – Como foi este ano para o senhor?
FHC – Foi o período mais difícil que enfrentei na Presidência. No começo deste ano, eu tive a nítida sensação de que tudo o que tínhamos construído poderia ir para o espaço.

Veja – Por causa da desastrosa mudança na política cambial?
FHC –
Mais do que o câmbio, o que aconteceu foi a perda do controle da economia. Havia a ameaça da volta da inflação e de muitos outros problemas. O curioso é que, em abril, eu já tinha a sensação de que os problemas tinham sido superados e foi nesse exato momento que a sociedade verdadeiramente percebeu que o país estava em crise. Se a gente olhar as críticas ao governo e as pesquisas de perda de popularidade, elas acontecem a partir de março, quando já tínhamos ultrapassado o olho do furacão. Esse tumulto só se acalmou depois de setembro deste ano. A sociedade custou a perceber que a mudança econômica já tinha sido feita e o pior dos problemas já havia sido ultrapassado. A retórica dos formadores de opinião, da oposição e mesmo dos meus partidários continuou a mesma. Eles não tinham percebido que a tendência da economia era outra. Fiquei sozinho durante muito tempo.

Veja – Há quem ache que o senhor continua sozinho.
FHC –
Essa é uma visão errada. As pessoas acham sempre que o presidente está isolado, que vive a solidão do poder. Isso é conversa fiada. Tenho a quem recorrer. É verdade que a solidão do poder existe, mas isso é outra coisa. Certas decisões o presidente tem de tomar sozinho mesmo. Mudar o presidente do Banco Central e a política cambial, por exemplo, foi uma decisão minha. Mudar outra vez o presidente do Banco Central recém-nomeado foi outra decisão que tive de tomar sozinho. Nesses casos, sim, é preciso conviver com a solidão da decisão. E uma decisão errada pode levar o país para o espaço.  

Veja – O senhor é acusado de ser muito lento ao tomar suas decisões.
FHC –
Eu não tomo decisões de repente. Exatamente porque sei qual é o custo dessas decisões. Vivemos num país relativamente mal organizado, contraditório, segmentado. O Brasil não é homogêneo. Se o governo não imprimir certa tranqüilidade ao país, pode provocar tumulto o tempo todo. Não se deve governar um país na base do supetão. O pior é que esse tem sido um padrão cada vez mais adotado na política. A política cada vez mais é mídia, e a mídia requer o inusitado. Se o político vier com uma surpresa, se atacar alguém, por exemplo, terá direito a um espaço nobre na mídia e, portanto, na política. É difícil governar com estabilidade num mundo que requer instabilidade, excitação e nervosismo. Se o governante se transformar num político comum, ele vai para o abismo. Um sujeito que não tem a responsabilidade que eu tenho no governo pode dizer qualquer coisa e aparecer no jornal num dia, no dia seguinte, mas esse procedimento não tem substância.

Veja – O senhor está descrevendo o estilo adotado por Antonio Carlos Magalhães?
FHC –
Ele é talvez quem mais saiba fazer isso, mas não é só ele. O Serjão (o ex-ministro das Comunicações Sergio Motta) também fazia. O Ciro faz. O Lula faz menos. O Brizola também faz. Repito: não se pode governar um país com gestos histriônicos. Eu mudei quase todos os ministros sem muita crise. Nas mesmas posições só ficaram o Pedro Malan, na Fazenda, e o Lampreia (Luiz Felipe), nas Relações Exteriores. Não estou pregando aqui o imobilismo.  

Veja – Seu governo, muitas vezes, é acusado de imobilista.
FHC – É porque muitas vezes confundem governar com histrionismo, que de fato não é meu estilo. Agora, topo qualquer parada, inclusive as impopulares.  

Veja – O senhor ficou ressentido com políticos que o apoiaram na fase de euforia do Plano Real e depois o atacaram no momento difícil, atribuindo-lhe a responsabilidade até mesmo pelos efeitos das crises da Ásia e da Rússia no Brasil?
FHC –
Ressentido não fiquei. Senti uma certa angústia, sim. Eu entendo essa posição deles, mas não justifico. Essa é a debilidade do nosso sistema político. Nós governamos num sistema que é precário. Nós temos um sistema em que o Congresso é muito forte, mas os partidos, não. Isso é uma coisa complicada. Fora do Congresso, não existe partido. O que temos são personalidades fortes, que são capazes de se separar dos partidos e ter os próprios objetivos políticos. Assim, num ou noutro momento de dificuldade surge esse comportamento no qual desaparece a sustentação verbal ao governo. Eu não posso me queixar do voto do Congresso. Votaram sempre a favor das iniciativas do governo. A perda de popularidade não significou a perda do voto no Congresso. Significou outra coisa. Em função de nosso sistema político, representou uma retórica muito agressiva. Só eu sei quanto custa manter esse equilíbrio que tenho mantido. Custa muita paciência, muita conversa, custa ter de engolir sapo.  

Veja – Por que, na sua visão, o senhor tem apoio no Congresso, mesmo sofrendo críticas de alguns nomes de peso da Câmara e do Senado?
FHC –
Só se governa com apoio quando se é capaz de apresentar um projeto que tenha sustentação. Eu acho que, apesar de ter havido alguns estremecimentos, represento o projeto hegemônico. Qual é o outro caminho? O que vai fazer com o país? Tem uma política alternativa para o país? Qual? Quando alguém quer esboçar uma política alternativa, como faz o Ciro Gomes, ele a esboça voltando ao passado. Passa a argumentar que o problema é a dívida interna e inventa uma teoria que não se sustenta. Ou então como fazem o Leonel Brizola e o Itamar Franco, que querem voltar ao nacional-estatismo. Só que o mundo não permite que possamos voltar ao nacional-estatismo. Eu sempre disse que a oposição não apresenta alternativas. Continua sem apresentar as alternativas.

Veja – E o PT?
FHC –
É a nossa oposição mais consistente. Mas está ainda com as vísceras sendo deglutidas por eles próprios, já que não sabem o rumo que devem tomar. Se são socialistas ou se não são socialistas, se é terceria via ou não é terceira via, se o partido tem base operária ou não tem base operária, e assim por diante.

Veja – Como o senhor vê o Lula nessa questão de ter ou não um rumo preciso?
FHC –
O que ele é? Ele é socialista, nacional-estatista, o que ele é? Ele não resolveu essa questão.

Veja – Existe a suspeita de que seu sonho secreto, caso consiga recuperar a popularidade perdida, seria virar presidente num sistema parlamentarista.
FHC –
Não, eu acho que quatro anos é pouco e oito é suficiente.  

Veja – O senhor acha que há possibilidade de o país recuperar o otimismo em relação ao crescimento?
FHC –
Eu acho que já começou a retomada. Na verdade, o que houve neste ano foi uma parada, não um retrocesso. Nós não chegamos a andar para trás. Acho que agora estamos engatando de novo para caminhar.

Veja – As perdas de vários de seus colaboradores mais próximos, como André Lara Resende, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Edmar Bacha, na área econômica, enfraqueceram a que ponto seu governo?
FHC –
Do ponto de vista operacional, talvez o governo nunca tenha estado tão bom como agora. Nunca antes esteve tão afinado.  

Veja – Por quê?
FHC –
Porque passou da etapa de discutir as teorias. Agora, eu posso deixar o governo ligado no piloto automático que não haverá problemas. Veja o programa Brasil em Ação, como foi bem feito. É uma mudança muito grande no modo de gerir o país. O Congresso ainda não tomou conhecimento disso. Continua discutindo as emendas e não os programas do Brasil em Ação. Nós mudamos em quase todas as áreas. Hoje eu tenho muito menos trabalho do que tinha antes.  

Veja – Mesmo na economia?
FHC –
O Malan é uma pessoa que está aqui comigo há muitos anos. Eu sei o que o Malan pensa e ele sabe o que eu penso. Eu sei como ele atua. A Fazenda anda sozinha. De vez em quando, o Malan me traz uma questão para conversar, geralmente no fim de semana.  

Veja – No fim de semana?
FHC –
Como ele mora aqui em Brasília, vem ao Alvorada nos fins de semana. Chega, toma um uísque e aí conversamos sobre tudo. O Lampreia e o Paulo Renato (ministro da Educação) também vêm aqui.

Veja – O ministro da Previdência, Waldeck Ornélas, responde a quem? Ao senhor ou a ACM?
FHC –
O Antonio Carlos não se mete com as políticas do governo. Essa discussão sobre quem manda no governo só acontece na imprensa. Ele gosta dessa discussão. Faz de conta que manda. Poder real no governo ele não tem. Agora, eu converso com ele sobre o Congresso, sim.  

Veja – Se a situação econômica melhorar, o senhor poderá influir bastante na escolha de seu sucessor. Existe desde já algum nome que prefira aos demais?
FHC – Eu não tenho o direito de lavar as mãos na sucessão. Não foi para dar um rumo que fiquei mais quatro anos? Eu terei, claro, um candidato.

Veja – A pergunta é se o senhor já tem, secretamente, um nome de sua predileção.
FHC –
Um não digo, mas dois ou três, sim.

Veja – Como analisa o século que vai acabar dentro de alguns dias?
FHC –
Acho que foi um século de ouro, não no sentido de opulência, mas de grandes transformações, de grandes avanços tecnológicos e científicos. O avanço que houve neste século é incomparável em relação aos anteriores. O que ocorreu foi um verdadeiro renascimento em termos de revolução tecnológica. Se o século XVIII foi das luzes, da razão, este foi o da tecnologia, da razão aplicada. Foi violento também, mas evitou-se a violência pior, que seria o holocausto atômico, como notou (o historiador inglês Eric) Hobsbawm. Portanto, acho que foi um século marcante, de muitas transformações, e todas para melhor. Acredito que, com essa base tecnológica, dá para acreditar que o próximo século será muito promissor.

Veja – E a miséria?
FHC –
Será possível enfrentar o problema da pobreza. Qual é a grande crítica a este século? É a de que, apesar de ter enriquecido muitos países, deixou muita pobreza. Mas é preciso notar que o século XX criou as bases materiais para resolver esse problema. Outra coisa importante deste século é que ele nasceu sob a égide do imperialismo. Até a primeira metade vivemos o imperialismo. Mas o imperialismo acabou. E por que acabou? Porque o Estado deixou de ser a alavanca da economia. A economia venceu o Estado. A esquerda atrasada não percebeu que o imperialismo acabou. Os Estados Unidos não precisam mais da força do Estado para invadir. Os Estados Unidos invadem pela cabeça, via meios de comunicação, tecnologia. Globalização é isso. Esse negócio do global é muito mal entendido. O global é entendido como se fosse o imperialismo.  

Veja – Mas não é só a esquerda que entende assim.
FHC –
Não é só a esquerda mesmo. A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), por exemplo, não é esquerda. Ela é só atrasada.  

Veja – A conferência de Seattle mostra que o Primeiro Mundo também é protecionista. Como resolver esse cruzamento de globalização com protecionismo?
FHC –
Os vários beneficiários da globalização também querem beneficiar-se do protecionismo. É uma dupla desvantagem para nós e uma dupla esperteza deles. Nós não podemos ter uma visão ingênua. Temos de ter também uma política de defesa de nossos interesses. Não podemos fazer concessões aqui sem haver concessões do outro lado. Por que abrir mercado aqui se o mercado de lá continua fechado? Nossas barreiras alfandegárias são muito altas ainda e a pressão para abrir é muito grande. Tem de ter um toma-lá-dá-cá, senão a gente só perde.  

Veja – Faz sentido a acusação ao governo Collor e ao seu governo de que o Brasil abriu muito rápido sem pedir contrapartidas?
FHC –
Eu acho que faz sentido, mas eu só fiz fechar. No meu governo, o que fiz foi reparar os danos ocasionados pelos outros. As acusações que fazem ao meu governo são exageradas. Fazem essas críticas porque eu defendo a abertura. Os que fazem a acusação acham que o país tem de estar permanentemente fechado. Eu quero que abra, mas também acho que não se pode abrir desconsiderando a realidade. E houve abertura desconsiderando realidades no governo Collor.