Edição 1 629 -22/12/1999

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Uma nova economia?

A fórmula mais segura para o país dar certo
ainda é fazer o que
deve ser feito
na macroeconomia e continuar perseguindo

a eficiência privada e pública, no dia-a-dia

Ilustração Alê Setti

Existe uma "nova economia" mundial, principalmente nos Estados Unidos, nascida da "terceira revolução industrial" ou tudo não passa de uma miragem? Paul Krugman, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, tem insistido que a "nova economia se parece demais com a velha economia", para ser realmente novidade. Tem gente mais radical que ele, como o economista Bradford De Long, de Berkeley, que nega até mesmo a existência de uma revolução tecnológica. Ele dizia, no final de 1997, que ganhos crescentes de produtividade existem desde 1760, quando começou a era da Revolução Industrial.

Os defensores da "nova economia" também têm seus radicais. William Sahlman, da escola de administração de Harvard, trata com o mesmo sarcasmo os que se recusam a admitir a existência dessa "nova economia". Sahlman sustenta que as revolucionárias tecnologias multimídia digitais já alteraram os fundamentos da economia americana. Por isso, ela cresce continuadamente a taxas elevadas, com uma clara tendência deflacionária e não inflacionária.

Essa controvérsia aumenta à medida que as previsões de inflação nos EUA não se realizam. De um lado, analistas respeitáveis dizem que as coisas andam como andam basicamente porque a economia passa por uma fase de rendimentos crescentes que só afasta para mais adiante os limites macroeconômicos. Mas a máquina mantida aquecida por tanto tempo terá de desacelerar em algum momento. Do outro lado, profissionais não menos respeitáveis, como Peter Drucker e Michael Porter, afirmam que os ganhos microeconômicos se transformam em graus crescentes de liberdade macroeconômica e alteram a lógica da economia. Os aumentos de produtividade e os inúmeros fatores que reduzem seus custos operacionais e elevam a geração de valor permitem mais crescimento sem inflação. Cada um dos lados tem um ponto importante, que nos ajuda a entender as novas tendências econômicas desta virada do século. Cada um deles deixa de considerar pelo menos um argumento relevante do outro.

E qual a importância para nós dessa discussão? Muito grande. Primeiro porque as empresas brasileiras nos últimos dois anos começaram a adotar de forma mais generalizada alguns padrões gerenciais e tecnológicos da "nova economia". Isso pode ter impacto positivo na trajetória da inflação e do emprego nos próximos anos. Segundo porque ela chama a atenção para a importância coletiva da busca individual de eficiência e mostra que o sucesso nacional não depende mais só do governo.

Alguns analistas não vêem a importância das mudanças microeconômicas – de eficiência empresarial, padrão tecnológico, logística, flexibilidade, inovação – na melhoria do desempenho macroeconômico. Nos EUA elas têm contribuído para prolongar o ciclo de crescimento. As pressões inflacionárias derivadas do crescimento não aparecem na "nova economia" na mesma velocidade e magnitude com que emergiam na "velha economia".

O que os defensores da "nova economia" não vêem é que, embora amplie consideravelmente os graus de liberdade para crescer, essa dinâmica tecnológica não elimina as restrições macroeconômicas. No momento em que a capacidade da economia de gerar rendimentos crescentes diminuir, elas reaparecerão no horizonte.

No Brasil, que tem mais de velha do que de nova economia, é possível perceber que os ganhos de eficiência empresarial já contribuíram para reduzir o impacto inflacionário da desvalorização do início do ano. Mesmo considerando que a economia vinha desaquecida, não se deve desprezar a maior capacidade de absorção e redução de custos em muitos setores da economia. Os fatores macroeconômicos continuam contando, mas a microeconomia tem mais influência macroeconômica do que no passado. A fórmula mais segura para o país dar certo ainda é fazer o que deve ser feito na macroeconomia e continuar perseguindo a eficiência privada e pública, no dia-a-dia. Quanto à tal revolução: ela existe sim e vai mudar a sua vida muito mais do que você jamais ousou imaginar.

Sérgio Abranches é cientista político