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Uma nova economia?
A fórmula
mais segura para o país dar certo
ainda é fazer o que deve
ser feito
na macroeconomia e continuar perseguindo
a eficiência privada e pública, no dia-a-dia
Ilustração
Alê Setti
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Existe
uma "nova economia" mundial, principalmente nos Estados
Unidos, nascida da "terceira revolução industrial"
ou tudo não passa de uma miragem? Paul Krugman,
economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts,
MIT, tem insistido que a "nova economia se parece demais
com a velha economia", para ser realmente novidade. Tem
gente mais radical que ele, como o economista Bradford
De Long, de Berkeley, que nega até mesmo a existência
de uma revolução tecnológica. Ele
dizia, no final de 1997, que ganhos crescentes de produtividade
existem desde 1760, quando começou a era da Revolução
Industrial.
Os defensores
da "nova economia" também têm seus radicais.
William Sahlman, da escola de administração
de Harvard, trata com o mesmo sarcasmo os que se recusam
a admitir a existência dessa "nova economia".
Sahlman sustenta que as revolucionárias tecnologias
multimídia digitais já alteraram os fundamentos
da economia americana. Por isso, ela cresce continuadamente
a taxas elevadas, com uma clara tendência deflacionária
e não inflacionária.
Essa
controvérsia aumenta à medida que as previsões
de inflação nos EUA não se realizam.
De um lado, analistas respeitáveis dizem que
as coisas andam como andam basicamente porque a economia
passa por uma fase de rendimentos crescentes que só
afasta para mais adiante os limites macroeconômicos.
Mas a máquina mantida aquecida por tanto tempo
terá de desacelerar em algum momento. Do outro
lado, profissionais não menos respeitáveis,
como Peter Drucker e Michael Porter, afirmam que os
ganhos microeconômicos se transformam em graus
crescentes de liberdade macroeconômica e alteram
a lógica da economia. Os aumentos de produtividade
e os inúmeros fatores que reduzem seus custos
operacionais e elevam a geração de valor
permitem mais crescimento sem inflação.
Cada um dos lados tem um ponto importante, que nos ajuda
a entender as novas tendências econômicas
desta virada do século. Cada um deles deixa de
considerar pelo menos um argumento relevante do outro.
E qual
a importância para nós dessa discussão?
Muito grande. Primeiro porque as empresas brasileiras
nos últimos dois anos começaram a adotar
de forma mais generalizada alguns padrões gerenciais
e tecnológicos da "nova economia". Isso pode
ter impacto positivo na trajetória da inflação
e do emprego nos próximos anos. Segundo porque
ela chama a atenção para a importância
coletiva da busca individual de eficiência e mostra
que o sucesso nacional não depende mais só
do governo.
Alguns
analistas não vêem a importância
das mudanças microeconômicas de eficiência
empresarial, padrão tecnológico, logística,
flexibilidade, inovação na melhoria
do desempenho macroeconômico. Nos EUA elas têm
contribuído para prolongar o ciclo de crescimento.
As pressões inflacionárias derivadas do
crescimento não aparecem na "nova economia" na
mesma velocidade e magnitude com que emergiam na "velha
economia".
O que
os defensores da "nova economia" não vêem
é que, embora amplie consideravelmente os graus
de liberdade para crescer, essa dinâmica tecnológica
não elimina as restrições macroeconômicas.
No momento em que a capacidade da economia de gerar
rendimentos crescentes diminuir, elas reaparecerão
no horizonte.
No Brasil,
que tem mais de velha do que de nova economia, é
possível perceber que os ganhos de eficiência
empresarial já contribuíram para reduzir
o impacto inflacionário da desvalorização
do início do ano. Mesmo considerando que a economia
vinha desaquecida, não se deve desprezar a maior
capacidade de absorção e redução
de custos em muitos setores da economia. Os fatores
macroeconômicos continuam contando, mas a microeconomia
tem mais influência macroeconômica do que
no passado. A fórmula mais segura para o país
dar certo ainda é fazer o que deve ser feito
na macroeconomia e continuar perseguindo a eficiência
privada e pública, no dia-a-dia. Quanto à
tal revolução: ela existe sim e vai mudar
a sua vida muito mais do que você jamais ousou
imaginar.
Sérgio Abranches
é cientista político
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