
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Deu
para entender
a
mensagem?
O
moderno primeiro-ministro
do
Japão faz
uma viagem
rumorosa
em
direção ao
passado
O
primeiro-ministro Junichiro Koizumi é a figura mais "moderna" que
já ascendeu a esse posto no Japão. "Moderna" vai entre aspas
por todas as reservas que a palavra merece, neste caso como em quase todos
os outros em que é empregada. Koizumi, sabe-se lá o que
pensa. Para um brasileiro, seria pretensioso demais tentar adivinhá-lo.
Em todo caso, jamais se viu, em aparência, primeiro-ministro como
ele, portador de vasta cabeleira de rebelde, ou pelo menos do que era
considerado rebelde no tempo dos Beatles, e adepto de roupas informais.
Seu tipo, jovial como o de um John Kennedy do Sol Nascente, tanto se distancia
do apagado primeiro-ministro japonês convencional que ele virou
herói "pop" no país, celebrado em pôsteres e camisetas.
No entanto...
No entanto, coube a Koizumi empreender, na semana passada, uma das mais
reverentes jornadas em direção ao passado que se pode conceber
no Japão: visitar o templo de Yasukuni. Trata-se de um lugar consagrado
aos "divinos espíritos" dos que morreram nas diversas guerras do
país, desde a restauração Meiji do século
XIX. "Divinos espíritos" é como a tradição
xintoísta, tão voltada para o culto aos mortos, chama o
que outras religiões chamariam de "almas". Em Yasukuni, fundado
em 1869, cultuam-se 2,5 milhões de "divinos espíritos".
Nos arquivos do templo, todos eles são identificados pelo nome,
data, local de nascimento e circunstâncias em que morreram. Um capítulo
especial é dedicado aos mortos na II Guerra Mundial. São
então homenageados desde o primeiro-ministro da época, Hideki
Tojo, considerado criminoso de guerra pelos vencedores, até os
soldadinhos que morreram nas "operações especiais de ataque",
como são conhecidas as operações suicidas.
O imperador e outros membros da família real costumam participar
de cerimônias em Yasukuni. Quanto a primeiros-ministros, só
um o havia feito antes de Koizumi Yasuhiro Nakasone, em 1985.
A visita de uma autoridade japonesa ao local costuma liberar velhos fantasmas.
As acusações de que o militarismo e o imperialismo ainda
dominariam o caráter nipônico voltam à tona. Foi assim
com a visita de Koizumi. A China e a Coréia do Sul, vítimas
da invasão e das atrocidades japonesas durante a II Guerra Mundial,
manifestaram oficialmente seu repúdio. Na Coréia do Sul,
encenando um gesto extremado de protesto, vinte jovens cortaram a ponta
do dedo mínimo.
Yasukuni é visitado por 8 milhões de pessoas por ano, inclusive
turistas estrangeiros. É um dos pontos altos do roteiro em Tóquio.
O lugar é bonito. Entra-se passando por baixo de um monumental
torii, nome daquele típico portal de duas colunas e uma
trave horizontal a encimá-las. O torii em questão,
de aço, e não de madeira, como de hábito, é
o maior do país e consiste, o atual, numa reconstrução.
O original, também de aço, foi doado para a fabricação
de armas, nos anos 40, como parte do esforço de guerra. Por aí
se adivinha o espírito que anima Yasukuni. No museu que faz parte
do complexo do templo, há retratos de soldados e suas últimas
cartas às famílias. Há memoráveis primeiras
páginas de jornal, como a do Asahi Shinbum de 9 de dezembro
de 1941, com a seguinte manchete: "Grande vitória no Havaí
e nas Filipinas". Tratava-se do ataque a Pearl Harbour. As missões
suicidas merecem especial atenção. Réplicas dos célebres
aviões dos pilotos camicases são expostas junto dos menos
conhecidos torpedos que, conduzidos no mar por mergulhadores que lhes
iam dando o rumo, procuravam o casco dos navios inimigos.
A ambigüidade do Japão com relação ao passado
belicista, às vezes o lamentando, às vezes o cultuando,
às vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, é motivo
de queixas permanentes. Por que Koizumi, tão novo no cargo, tão
popular e tão moderninho, foi mexer nesse vespeiro? Se não
foi antes, não vai ser agora que ousaremos invadir-lhe a mente.
Limitemo-nos à explicação que ele próprio
deu: "Fiz esta visita para renovar meu empenho em prol da paz". Eis um
paradoxo: visita-se um templo evocativo da guerra para celebrar a paz.
Ou, então, eis um exemplo da infinita possibilidade de manipular
os conceitos de guerra e paz. Tal característica não é
exclusividade japonesa. Os monumentos a soldados desconhecidos ou panteões
militares ao redor do mundo com freqüência são também
justificados como celebrações de paz. Quem faria discurso
em favor da guerra? No Japão, a justificativa dos que visitam Yasukuni,
do imperador aos professores que conduzem grupos de alunos, é a
mesma do primeiro-ministro. O próprio nome Yasukuni quer dizer,
em japonês cúmulo da ambigüidade "país
pacífico".
À
saída do templo há, ou havia, ao tempo em que o autor destas
linhas o visitou, faz alguns anos, um questionário em que o visitante
é convidado a dizer se entendeu a mensagem ali transmitida. As
alternativas são: "Entendi bem", "Mais ou menos", "Não entendi".
O correto . nenhuma dúvida a respeito só pode
ser cravar a última. Um solene e definitivo "Não entendi".
|
|
 |
|
 |

|
 |