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Não cabe em resenha

Distância intelectual e manipulação
da realidade, pelos olhos do historiador
Carlo Ginzburg

Diogo Mainardi

 
Anunciação: "uma jovem" virou "uma virgem", na tradução dos textos bíblicos para o grego

Veja o pedinte ali na esquina. Ele foi incorporado à paisagem. Você nem o nota. Para notá-lo, teria de ver a realidade com os olhos de um estrangeiro, de alguém que nunca viu algo parecido. Como fez Montaigne. No século XVI, alguns índios brasileiros foram levados para a França. Eles estranharam que os pobres da Europa tolerassem as injustiças em vez de esgoelar os mais ricos e incendiar suas casas. Montaigne assumiu o ponto de vista dos índios e olhou seu país como se fosse a primeira vez, despindo-o da pompa dos conquistadores. Antes de Montaigne, o mesmo procedimento foi usado pelo imperador romano Marco Aurélio, cujos exercícios filosóficos consistiam em ver um prato de comida como "o cadáver de um peixe ou de um porco" e o ato sexual como "esfregação de víscera e secreção de muco, acompanhada por espasmo".

Esse é o ponto de partida de Olhos de Madeira (tradução de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 336 páginas; 28 reais), do historiador italiano Carlo Ginzburg. Mais indicativo que o título é o subtítulo: Nove Reflexões sobre a Distância. No caso de Marco Aurélio e Montaigne, a distância se refere à capacidade de alheamento, de estranhamento, a fim de impedir que os hábitos e os automatismos cotidianos cancelem nossa percepção. Mas Ginzburg reflete também sobre outras formas de distanciamento: lingüístico, racial, social, estilístico, histórico. A própria vida de Ginzburg é um exemplo de distância. Ele é um judeu nascido em país cristão; como não teve formação religiosa, sua identidade judaica é, em grande parte, fruto da perseguição. Perseguição àquele que é considerado estranho, diferente, distante.

A relação entre judaísmo e cristianismo é um dos fundamentos de Olhos de Madeira. Ginzburg analisa como os evangelistas tentaram aproximar o Novo do Velho Testamento, valendo-se da linguagem das profecias messiânicas de Isaías. As duas tradições religiosas só começaram a se distanciar posteriormente, na tradução de uma língua ambígua como o aramaico para o grego, quando "servo de Deus" tornou-se "filho de Deus" e "uma jovem" tornou-se "uma virgem". As principais doutrinas do cristianismo, segundo Ginzburg, seriam o resultado de traduções equivocadas. Ou de traduções manipuladas.

A manipulação da realidade é outro tema de reflexão para Ginzburg. Desde a manipulação da religião, como em Maquiavel, até a manipulação da propaganda, como no estudo de Marx sobre Napoleão III. Cada época inventa o seu mito, a sua representação da verdade. Ela pode assumir o aspecto de idolatria por uma estátua de cera ou de furor patriótico, mas o objetivo é sempre o mesmo: garantir a ordem social e manter a distância em relação às classes ou etnias consideradas inferiores.

O conceito de superioridade social e racial implica a possibilidade de estabelecer outras hierarquias. Ginzburg descreve as contraposições que se formaram na História em torno de idéias hierarquizantes como escala de valores, progresso artístico ou avanço civilizatório. E conclui com as seguintes palavras: "Estender nossa compaixão a seres humanos distantíssimos seria, temo, mera retórica. Nossa capacidade de contaminar o presente, o passado e o futuro é incomparavelmente maior do que nossa fraca imaginação moral". Tema complexo demais para tentar discutir aqui, em poucas linhas. Livro bom é assim: não cabe numa resenha.

   
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