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Portuários
com
paletó e joystick
Tecnologia
usada nas docas de
Cingapura assusta os Estados Unidos

Joana Calmon
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| O
"cais-fantasma" da cidade de Cingapura: operadores controlam
a distância todo o movimento |
Sabe quantos
portuários são necessários para desembarcar um contêiner
no Porto de Santos? Vinte e dois. Atenção: isso não
é uma piada, como aquela que pergunta quantas louras são
necessárias para trocar uma lâmpada queimada. Sabe quantas?
Sete. Uma para segurar a lâmpada junto ao bocal e seis para girar
a escada de forma a enroscá-la. No caso dos portuários,
em vez de rir, o certo é chorar. Nas últimas semanas, a
imprensa americana deu destaque à preocupação de
empresários locais com o avanço tecnológico de portos
como o de Cingapura, país do Sudeste Asiático, e como essa
superioridade poderia diminuir a competitividade dos Estados Unidos. Em
Cingapura, a movimentação de um contêiner mobiliza
não 22 funcionários, como em Santos, mas apenas dois. Com
o objetivo de aumentar a produtividade, em Cingapura a figura de estivadores,
conferentes e capatazes foi substituída pela de funcionários
de paletó, que controlam as operações com o uso de
joysticks, dentro de uma central computadorizada. Ali, os empregados não
manipulam diretamente a carga. Ela é retirada dos navios por meio
de guindastes movidos por controle remoto. Cada uma das caixas possui
um código de barras, com informações sobre seu conteúdo
e destino. Um equipamento faz a leitura óptica e encaminha as mercadorias
para um sistema integrado de transportes. Para tristeza brasileira, Santos
ainda engatinha no campo tecnológico. No local, o que há
de mais parecido com um joystick são os manetes usados pelos motoristas
para dirigir os portainers, uma versão mais moderna dos antigos
guindastes.
Os terminais
de Cingapura são tão sofisticados que conseguiram dar um
novo significado à palavra "fantasma", associada à idéia
de abandono. Os terminais fantasmas de Cingapura, ao contrário
do que a expressão sugere, registram um movimento intenso. Só
que não se vêem funcionários no pátio. O surgimento
dos portos fantasmas se deu por uma questão estratégica.
Investir em automação nessa área significa reduzir
drasticamente os custos e aumentar a competitividade no comércio
internacional. Quem corre na contramão enfrenta sérios problemas.
Por causa do excesso de mão-de-obra, da burocracia alfandegária
e da ausência de equipamentos modernos, o custo médio do
Porto de Santos para embarcar ou desembarcar um contêiner é
de 250 dólares mais do que o triplo do valor registrado
no terminal de Cingapura. "Boa parte dos avanços conseguidos em
produtividade no campo se perde no caminho que a mercadoria é obrigada
a percorrer até chegar ao exterior", afirma Carlo Lovatelli, presidente
da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos
Vegetais.
Na feroz
guerra comercial contra os outros países, o Brasil já larga
atrás, em razão da distância em relação
aos principais compradores, como os Estados Unidos e a União Européia.
Passa pelos portos nacionais 95% do volume total de 244 milhões
de toneladas de produtos exportados anualmente. Para compensar a desvantagem
geográfica, o país deveria estar operando com terminais
modernos e eficientes. Se não bastasse, a maioria das mercadorias
nacionais chega aos portos através de rodovias. Esse é o
sistema mais caro para fazer o escoamento da produção, em
qualquer lugar do mundo. Antes de sair de uma fazenda no Mato Grosso,
a tonelada do grão da soja vale, em média, 100 dólares.
Quando embarca num navio no Porto de Santos, rumo ao exterior, já
está custando quase 34% a mais. Nos Estados Unidos, o acréscimo
no preço da soja não passa de 20%, no caminho entre o produtor
e o navio.
A eficiência
portuária brasileira aumentou e muito nos últimos
anos. A movimentação das cargas custava até três
vezes mais e as instalações portuárias eram ainda
piores. Durante a década de 90, cerca de 80% dos terminais passaram
para as mãos da iniciativa privada, que melhorou a qualidade do
serviço. Hoje, o grande entrave ao processo de evolução
são as questões trabalhistas. A máfia portuária
enfia goela abaixo das empresas um número excessivo de operários
dentro das docas. Muitos deles ficam de braços cruzados, olhando
a movimentação do cais. Ou nem sequer comparecem ao trabalho.
Toda vez que a administração de um terminal sugere diminuir
o contingente preestabelecido para cada operação, enfrenta
greves, quebra-quebras e invasão de navios. Enquanto essa situação
persistir, o Brasil, por maior que seja, nunca terá padrões
que são rotina na diminuta Cingapura.
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