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Onde o povo está
Empresas
acham que a classe
média não vai tão cedo aumentar
seus gastos e buscam uma saída
no consumo de baixa renda

Murilo Ramos
Claudio Rossi

Supermercados:
grandes redes buscam clientes em bairros da periferia
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Neste período
de juros altos, crise energética, aperto fiscal e massa salarial
estagnada, as empresas estão indo buscar dinheiro onde o povo está.
O alvo prioritário dos maiores supermercados, montadoras de automóveis
e lojas de departamentos são os brasileiros de baixa renda, que
vivem em lares com receita familiar entre dois e dez salários mínimos.
A estratégia é ganhar vendendo pouco para muitos. E muitos,
no caso, são mais de 120 milhões de pessoas, quase 70% da
população brasileira, que respondem por um terço
de tudo o que é consumido no país. Só no ano passado,
o mercado de baixa renda foi dimensionado em 230 bilhões de reais
pela agência de publicidade Popular, criada especialmente para falar
com esse tipo de consumidor. A aposta das empresas agora é conseqüência
de um fenômeno de mobilidade social recente. O Plano Real tirou
da indigência mais de 20 milhões de brasileiros que, durante
os últimos sete anos, se tornaram consumidores. Atualmente eles
compõem o segmento da sociedade que está dando um dinamismo
extra à economia, que, de outra forma, poderia ter perdido ainda
mais força.
Os supermercados
não demoraram a adotar uma mudança de foco e direcionar
suas ações às classes populares. As grandes redes
avaliam que as vendas de suas lojas localizadas em bairros de classe alta
vão crescer pouco ou quase nada nos próximos doze meses.
O Carrefour acaba de abrir três lojas de descontos que levam a bandeira
Dia. O grupo carioca Sendas inaugurou duas filiais na periferia do Rio
de Janeiro, com o sugestivo nome Mais em Conta. Os supermercados Bompreço,
controlados pelos holandeses do Royal Ahold, que atuam no Nordeste, aderiram
à idéia. Duas lojas começarão a funcionar
em setembro em cidades próximas ao Recife. O empresário
Abilio Diniz, por sua vez, não planeja abrir tão cedo novas
unidades dos supermercados Extra ou Pão de Açúcar,
mas vai acrescentar até dezembro mais vinte às 114 lojas
do Barateiro, todas encravadas em bairros pobres.
Vender pouco
para muitos também se tornou a estratégia central da Estrela,
líder do mercado nacional de brinquedos. A empresa mudou as características
de seus produtos e atualmente 70% das suas mercadorias têm preço
inferior a 30 reais. De acordo com o presidente da Associação
Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista,
essa redução dobrou o número de crianças com
acesso a um brinquedo nos últimos cinco anos. O setor de material
de construção também deve muito ao consumidor popular.
Isso pode ser observado na venda de cimento. Cerca de 60% de seu faturamento
vem da comercialização do produto em pequenas quantidades,
no máximo três sacos, utilizados geralmente na reforma de
casas. Os consumidores das classes média e alta estão se
precavendo, com receio de se endividar num cenário econômico
pouco previsível. "Esse grupo de pessoas não deixou de consumir
nem diminuiu de tamanho. Elas estão mais cautelosas", diz Alberto
Serrentino, da consultoria empresarial Gouvêa de Souza & MD.
Pesam ainda sobre essa parcela da população o impacto do
aumento das tarifas públicas e a forte desvalorização
cambial, que atinge principalmente os produtos mais caros, que utilizam
componentes importados ou têm seus preços regulados pelo
mercado internacional.
Artigos
que até pouco tempo atrás eram considerados símbolos
do consumismo de classe média tornaram-se acessíveis às
camadas da população com menor poder aquisitivo. Os celulares
pré-pagos são um emblema desse fenômeno. Hoje, 65%
dos assinantes da Telesp Celular, a maior operadora do país, utilizam
o sistema. Desses, a maioria pertence à população
de baixa renda. Ao perceber isso, a empresa lançou uma coleção
de aparelhos com o apelo dos principais times do futebol paulista. Acertou
em cheio. Em apenas três meses, conseguiu vender 300.000
unidades, o melhor resultado obtido por ela na promoção
de um produto. Com os veículos 1.0, a indústria automobilística
brasileira praticamente se especializou nesse mercado. No início
dos anos 90, somente 18% dos carros zero-quilômetro eram comprados
por famílias com renda mensal de até 2.000
reais. No ano passado, de cada quatro carros que saíram das fábricas,
um foi parar na garagem de uma casa com renda familiar de até onze
salários mínimos.
"Essa parcela
da população não quer irracionalmente o melhor, mas
exige um produto honesto", diz o administrador de empresas Stephen Kanitz,
articulista de VEJA. Conquistar o consumidor de baixa renda não
significa, portanto, vender badulaques. Exatamente como os consumidores
de alto padrão, os de menor renda são caprichosos e se melindram
facilmente. O próprio Pão de Açúcar já
havia tentando sem sucesso nos anos 80 ganhar a simpatia desses clientes,
com as lojas populares Minibox. Os supermercados não decolaram
naquela época porque o serviço era muito ruim e impessoal.
Um bom exemplo a seguir agora pode ser o das mercearias de bairro. "Nesses
pontos comerciais, os clientes são reconhecidos, tratados pelo
nome e sentem-se à vontade", afirma Kanitz. É justamente
sobre esse terreno que os supermercados querem avançar.
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Líder
popular
Adauto F. Perin
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A Abril Music teve crescimento recorde de 111% e se tornou, no mês
passado, dona de um quarto do mercado, a maior fatia de vendas do
mercado brasileiro. Nunca antes uma gravadora de repertório
local conseguira desbancar suas concorrentes multinacionais no mercado
de discos. Parte fundamental da estratégia da Abril Music
é motivar o consumidor de baixa renda. A gravadora, que pertence
ao Grupo Abril, que edita VEJA, decidiu investir preferencialmente
em artistas brasileiros populares, como o grupo de forró
Falamansa e a dupla sertaneja Bruno & Marrone. "O preço
do CD é fundamental. Não pode passar de 20 reais",
diz Alexandre Ktenas, diretor de marketing da empresa. A estratégia
tem outro ponto positivo. Ao praticar preços baixos, a Abril
Music inibe a pirataria, que hoje já responderia por mais
da metade das vendas de CDs no Brasil.
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Fonte: Ipsos-Marplan |
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