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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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A festa global

Cada vez maiores, raves viram
moda em todos os continentes

Cristiano Dias


Luciana Prezia

MANAUS
No início do mês, mais de 45 000 pessoas estiveram na rave patrocinada pelo governo do Amazonas. Com denúncia de corrupção incluída, colocou o Brasil no circuito desses grandes eventos

Tomadas pela Street Parade, uma das maiores raves do planeta, as ruas estreitas de Zurique, na Suíça, lembravam o Carnaval de Salvador, só que com música eletrônica em vez do axé: 1 milhão de jovens de várias partes do mundo se arrastando atrás de 31 carros de som, animados por mais de 150 DJs. Muita gente que esteve lá, há duas semanas, também marcou presença em outras festas do gênero nesta temporada de verão no Hemisfério Norte. Multidões dançaram em lugares improváveis, como as obras abandonadas de uma usina nuclear na Ucrânia, num casarão que pertenceu ao ditador Tito na Eslovênia ou numa praia de Goa, na Índia. Em Ibiza, a ilha espanhola onde as raves ganharam o atual tamanho colossal, acredita-se que boa parte do 1,5 milhão de visitantes deste ano veio atrás de uma boa festa. Em Hong Kong, foram realizadas 61 raves no ano passado, três vezes mais que em 1999. Na França, só no primeiro semestre foram feitas mais de 700. As raves (pronuncia-se reives), essas festas enormes com música intensa, geralmente ao ar livre, que duram muitas horas ou até dias, tornaram-se um fenômeno global.

A voracidade com que os jovens correm atrás dessas maratonas musicais criou um calendário de festas espalhadas pelo mundo. E até um novo tipo de turismo – o de gente jovem e animada, geralmente com dinheiro no bolso, que perambula de festa em festa ou escolhe passar as férias na mais exótica possível. Pela facilidade com que pode ser percorrida em trem, ônibus ou de carona, a Europa se tornou o cenário ideal das raves, que reúnem de roqueiros a mauricinhos. Não é difícil agrupar 800 mil pessoas, como ocorreu no mês passado na Love Parade, em Berlim. Em comparação, os festivais de rock europeus, que a geração anterior tanto adorava, dificilmente chegam a 100.000 espectadores. No início deste mês, o Brasil entrou no circuito das raves realizadas em locais inusitados com o Ecosystem 1.0, em Manaus. O local foi uma pedreira abandonada, cercada pela mata amazônica, por onde passaram 45.000 pessoas em quatro dias de festa, com supervisão do Greenpeace, e com DJs brasileiros e estrangeiros. Até o apresentador de TV Gugu Liberato esteve lá para conferir. A versão amazonense logo ganhou características locais: ameaça virar um escândalo político com a acusação de que o governo estadual gastou 3,6 milhões de reais com a festa, sem licitação alguma. Isso porque um dos promotores foi o filho do governador Amazonino Mendes.

As raves surgiram na Inglaterra no final dos anos 80. A intenção era escapar das leis locais que proíbem a venda de bebidas alcoólicas depois de certo horário e fecham as danceterias cedo demais para o padrão clubber. Evidentemente, muitos queriam um lugar para se drogar sem risco de a polícia aparecer. As primeiras foram realmente clandestinas. Eram tão escondidas que, no início, a maior aventura era encontrá-las. A Street Parade, a rave de Zurique, reuniu pouco mais de 2.000 pessoas em sua primeira edição, no início dos anos 90. Sobrou o nome, mas o espírito inicial foi substituído pela lógica do show business. Antes organizadas pelos próprios DJs ou por gerentes de discotecas de Londres e Ibiza, agora são promovidas por governos e empresas.

As mega-raves, como a de Zurique, são amplamente divulgadas e patrocinadas por grandes empresas, como a Coca-Cola e a Siemens. Para os freqüentadores, uma bênção, pois ganharam nos quesitos espetáculo, organização e segurança. Com a popularidade da música eletrônica, os DJs viraram astros pop. O cachê de uma dessas estrelas pode ultrapassar os 30.000 dólares por noite. Uma rave pode ser um bom negócio para cidades sem maiores atrativos – mas nem sempre. A prefeitura de San Antonio, pequena cidade da ilha de Ibiza, cancelou uma festa da MTV inglesa devido à chiadeira dos moradores, que preferem o sossego. A maioria das cidades, contudo, se beneficia da renda do turismo que chega junto com esses eventos. Em pouco mais de trinta horas de festa, Zurique faturou 90 milhões de dólares, o suficiente para repetir a folia no ano que vem.

Os puristas torcem o nariz, evidentemente. Quem quer manter o espírito alternativo das primeiras raves, mais parecidas com o festival de Woodstock do que com o Carnaval de Salvador, procura lugares cada vez mais afastados. Foi assim que surgiram festas em locais distantes da Europa, como Durban, na África do Sul, e em ilhas perdidas na Tailândia. Em junho, uma rave desse tipo arrastou 5.000 jovens para a Zâmbia, um país miserável da África Meridional. Foram dez dias de festa que culminaram com um eclipse solar. As raves em Goa, um pedaço da Índia que já foi colônia portuguesa, que eram modestas até bem pouco tempo atrás, hoje atraem 10.000 pessoas. Com isso, os mais tradicionalistas fugiram para as praias de Kerala, no sul do país, onde reúnem bem menos gente, mas mantêm o espírito original.

 
Veja também
Do arquivo de VEJA on-line
  Amazônia será o palco de festival de música eletrônica
  Reportagem publicada em 30/7/2001 apresenta a rave realizada no meio da Floresta Amazônica

 

   
 
   
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