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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Protesto com o
próprio sangue

Com automutilação, sul-coreanos
demonstram como a II Guerra
ainda perturba a Ásia

Fotos AFP
Fotos AFP
Sul-coreanos decepam dedo: contra visita de Koizumi a templo xintoísta (à dir.)

Chovia na manhã de segunda-feira passada em Seul, capital da Coréia do Sul, quando um grupo de vinte jovens se alinhou diante do Portão da Independência, um conjunto de prédios que serviu de prisão para nacionalistas coreanos durante os 35 anos de ocupação japonesa, encerrada em 1945. Como num ritual, ajoelharam-se e cada um deles colocou o dedo mínimo de uma das mãos sob uma guilhotina improvisada com uma faca de cozinha. Com a outra mão, num gesto rápido, deceparam a ponta do dedinho. O sangue ainda jorrava enquanto os integrantes do grupo enrolavam o pedaço do dedo decepado numa bandeira sul-coreana e gritavam impropérios contra o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi. A automutilação foi protesto contra a visita que Koizumi fazia em Tóquio, naquele dia, a um santuário xintoísta em memória dos soldados japoneses mortos durante a II Guerra.


Reuters

IMOLAÇÃO
A mais radical forma de protesto: sul-coreano se imola em protesto contra o Japão


A China, a Coréia do Sul e outros países asiáticos estão furiosos com a visita ao santuário que homenageia, entre milhões de mortos, uma dúzia de figurões condenados como criminosos de guerra depois da derrota, em 1945. Os dedos cortados demonstram como as paixões estão inflamadas. O clima estava tenso desde o início deste ano, quando se tornou público que os livros escolares japoneses iriam omitir os barbarismos cometidos nos países ocupados. Os vizinhos exigem reconhecimento oficial da culpa pelos nipônicos e indenização para os sobreviventes. O Japão nem sequer admite responsabilidade pelo período imperialista, na primeira metade do século XX. Nesse aspecto, os japoneses adotam uma postura diversa da alemã. No pós-guerra, o governo da Alemanha não apenas se responsabilizou pelos horrores do nazismo como pagou indenizações.

A visita do primeiro-ministro japonês ao santuário equivale a um chanceler alemão prestar homenagem ao túmulo de Hermann Goering, o braço direito de Adolf Hitler. Por que Koizumi, o primeiro-ministro moderninho que prometeu reformar o Japão, está correndo o risco de se indispor com a China e com a Coréia do Sul (sua parceira na Copa do Mundo de 2002)? A explicação: aproveitando-se da alta popularidade, Koizumi quis afagar a direita conservadora. O santuário, no qual nenhum primeiro-ministro pisava desde 1985, é um símbolo para aqueles que acham que o Japão não tem razão para pedir desculpa. É interessante notar que ao lado do santuário está o Museu da Guerra, que preserva a memória dos camicases que jogavam seus aviões sobre os navios americanos ou dirigiam pessoalmente os torpedos até o alvo. O sacrifício pessoal é muito valorizado pela cultura japonesa. Se os vizinhos não esquecem as humilhações, o Japão, que se orgulhava de seu império e das tradições milenares, parece ter deixado no acordo de rendição parte de sua alma. Os nacionalistas não se conformam com a humilhação sofrida pelo imperador Hiroito, que após a capitulação perdeu sua condição de divindade, apesar de ter preservado o trono.


HARAQUIRI
O escritor Yukio Mishima, no dia do suicídio: ritual samurai contra rendição japonesa


A mais espetacular manifestação desse sentimento foi o seppuku, também conhecido como haraquiri, cometido pelo escritor Yukio Mishima, em 1970. Um dos mais brilhantes intelectuais de sua geração, Mishima invadiu um quartel com mais três seguidores e optou pela forma mais solene de haraquiri: foi decapitado por um sabre do século XVIII de um de seus seguidores. Como os nobres samurais, Mishima preferiu a morte honrosa à humilhação, seguindo a mesma ética de autoflagelo dos jovens sul-coreanos. Os dedos cortados mostram como a determinação de se matar por uma causa honrosa vai além da ilha nipônica e está entranhada na alma oriental. Neste caso específico, trata-se de uma curiosa influência mútua: a mutilação do dedinho, que os sul-coreanos utilizam em protesto contra o Japão desde os anos 70, foi inspirada num ritual da Yakuza, a máfia japonesa. A diferença é que os chefões do crime organizado a utilizam para punir os traidores.

O martírio heróico não é, evidentemente, monopólio do Extremo Oriente. Os fundamentalistas muçulmanos do Oriente Médio prometem o céu a quem se explode amarrado a uma bomba matando dezenas de inimigos em volta. A insistência oriental no auto-sacrifício, contudo, não encontra paralelo no hemisfério ocidental. Na China medieval, budistas costumavam imolar-se na crença de que o fogo purifica a alma. O costume acabou sendo disseminado pela região, mas há muito perdeu o caráter religioso e se firmou como um protesto político. Mesmo no Tibete, país dominado por intensa religiosidade, os monges que hoje ateiam fogo ao corpo o fazem para chamar a atenção para sua causa pró-independência de Pequim. O impressionante protesto dos sul-coreanos ressaltou os ressentimentos que todos os países da região ainda guardam do Japão. Na China, Taiwan, Tailândia, Filipinas, Indonésia e até em Hong Kong, que viveram sob ocupação dos japoneses, há manifestações populares com apoio do Estado. Durante a ocupação da Coréia, pelo menos 200.000 mulheres foram usadas como escravas sexuais pelos soldados enviados por Tóquio. A presença japonesa na Manchúria, entre 1931 e 1945, foi marcada por massacres e até pelo uso experimental de armas bacteriológicas. Só na cidade chinesa de Nanquim, 350.000 pessoas foram massacradas numa orgia brutal. No total, 20 milhões de chineses foram mortos pelos japoneses. São atrocidades difíceis de esquecer.

 
 
   
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