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Onde moram os Ribeiro?
Fotos Nelio Rodrigues

Os
Ribeiro, de Romaria, saem de casa todos os dias para colher café |
Estudo
diz que o Brasil tem 17 milhões
de pessoas como esta família de
agricultores mineiros. Eles vivem no
campo, mas nas estatísticas aparecem
como se fossem moradores da cidade
Angela Nunes,
de Romaria
As estatísticas
oficiais visam a traçar o perfil dos países de forma a orientar
as ações governamentais e os investimentos privados. Com
esse propósito, procura-se calcular tudo: quantos são os
pobres de uma nação e onde se concentram, quantos são
os fumantes, quanto se gasta com a saúde pública, qual é
o tráfego de uma rodovia, quantas crianças estão
fora da escola. Há uma relação direta entre a solidez
das informações colhidas e o desenvolvimento dos países.
E a explicação é simples. Para investir certo é
preciso conhecer os problemas a fundo. No Brasil, infelizmente, os dados
do governo muitas vezes são um convite à desinformação.
E por essa razão são postos em xeque a todo instante. O
mais recente debate nesse campo está sendo travado em torno de
um número divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), segundo o qual perto de 80% da população brasileira
vive na zona urbana e apenas 20% mora no campo. De acordo com um estudo
exaustivo preparado pelo economista José Eli da Veiga, da Universidade
de São Paulo, há um erro conceitual embutido no cálculo.
De acordo com seu levantamento, a divisão correta seria esta: população
urbana com 60% do total, população rural com 30% e outros
10% em uma faixa intermediária. Ou seja, existiriam 17 milhões
de pessoas que moram no campo, mas aparecem nas estatísticas como
cidadãos urbanos.
Antonio Milena

Nas
estatísticas, Romaria é tão zona urbana como
São Paulo, Salvador ou Belo Horizonte |
O professor
José Eli da Veiga chegou a essa conclusão depois de fazer
algumas visitas à Europa e aos Estados Unidos e constatar que a
diferenciação entre o ser urbano e o ser rural que se faz
lá fora é completamente divergente da brasileira. Por aqui,
a divisão é um tanto simplista. Qualquer pessoa que viva
numa cidade é um habitante da região urbana, não
importa que more num município com menos de 10.000
habitantes. Não é assim no exterior. Lá, leva-se
em conta a densidade habitacional do município. As regiões
consideradas urbanas possuem concentração acima de 150 habitantes
por quilômetro quadrado. Mas não é apenas isso. Há
ainda a forma como os moradores vivem. Têm uma relação
próxima com o meio ambiente? Eles possuem horta? Retiram o rendimento
da agricultura? Se sim, então moram numa área rural. Usam
transporte público? Trabalham em escritórios e empresas
e fazem as compras básicas em supermercados? Nesse caso, está-se
falando de habitantes da zona urbana. Existem dois conceitos de cidade
nos países desenvolvidos: as cidades rurais e as urbanas. Não
se emprega, ao contrário do que se faz no Brasil, uma distinção
radical que separa as cidades de um lado e o campo de outro. Isso acontece
porque o Brasil é um dos poucos lugares do mundo onde a definição
sobre o que é zona urbana e o que é zona rural cabe à
Câmara Municipal. Ou seja, obedece a conveniências políticas
e fiscais, e não a critérios técnicos.

No
município onde vivem não há semáforos,
e alguns dos poucos prédios são os da prefeitura, do
hospital e da escola |
Ao retornar
das viagens, José Eli da Veiga montou uma equipe de cinco pessoas
que se debruçou sobre o assunto durante um ano, na tentativa de aplicar
o padrão internacional ao Brasil. Descobriu-se, então, que
há diversos municípios classificados como urbanos que são
obviamente rurais. É o caso de Romaria, localizada no interior de
Minas Gerais, onde vivem 4.000 pessoas. Ali,
praticamente todas elas vivem como a família do agricultor José
Ribeiro (que se vê na foto ao acima). Ele trabalha em uma roça
de café como bóia-fria, não tem carro nem telefone
celular que, aliás, mal pega na cidade. Em Romaria, a prefeitura
fecha na hora do almoço, e o café é o forte da economia
local. Os maiores edifícios são a escola, a prefeitura e o
hospital. Não há semáforos. O grande acontecimento
local é uma festa religiosa, que se realiza uma vez por ano. De acordo
com os padrões internacionais, esse é o retrato do mundo rural.
Discutir
se os romarienses são urbanos ou rurais pode parecer simples capricho
acadêmico. Mas não é bem assim. Definir com clareza
o limite entre o mundo rural e o mundo urbano é fundamental. Os
moradores das grandes cidades pedem solução para problemas
de trânsito, habitação e criminalidade. No campo,
as pessoas têm outras necessidades, como crédito agrícola,
e consomem outros tipos de produto. Para os especialistas, a visão
distorcida da sociedade nesse aspecto, rural ou urbano, pode alimentar
um terrível círculo vicioso: o governo não investe
no campo porque o grosso da população está nas cidades.
Sem investimentos nem perspectivas, os habitantes do campo, mais precisamente
os moradores das "cidades rurais", acabam migrando em direção
às metrópoles. Lá, apinham-se em barracos de favelas
e em casas de periferia. Formam-se os cinturões de pobreza, onde
se instalam o tráfico e o banditismo. "Essas falhas fazem com que
o Brasil tenha uma visão distorcida da própria realidade
e de suas carências", diz José Eli da Veiga. O estudo provocou
uma revisão metodológica no próprio IBGE. O sistema
atual que classifica as pessoas entre urbanas e rurais será mantido,
mas estuda-se criar um novo banco de dados com a nova classificação.
"Estamos preparando uma espécie de mapa alternativo da população
para termos uma noção mais aproximada da realidade", diz
o presidente do instituto, Sérgio Besserman.
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