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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Onde moram os Ribeiro?

Fotos Nelio Rodrigues

Os Ribeiro, de Romaria, saem de casa todos os dias para colher café

Estudo diz que o Brasil tem 17 milhões
de pessoas como esta família de
agricultores mineiros. Eles vivem no
campo, mas nas estatísticas aparecem
como se fossem moradores da cidade

Angela Nunes, de Romaria

As estatísticas oficiais visam a traçar o perfil dos países de forma a orientar as ações governamentais e os investimentos privados. Com esse propósito, procura-se calcular tudo: quantos são os pobres de uma nação e onde se concentram, quantos são os fumantes, quanto se gasta com a saúde pública, qual é o tráfego de uma rodovia, quantas crianças estão fora da escola. Há uma relação direta entre a solidez das informações colhidas e o desenvolvimento dos países. E a explicação é simples. Para investir certo é preciso conhecer os problemas a fundo. No Brasil, infelizmente, os dados do governo muitas vezes são um convite à desinformação. E por essa razão são postos em xeque a todo instante. O mais recente debate nesse campo está sendo travado em torno de um número divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo o qual perto de 80% da população brasileira vive na zona urbana e apenas 20% mora no campo. De acordo com um estudo exaustivo preparado pelo economista José Eli da Veiga, da Universidade de São Paulo, há um erro conceitual embutido no cálculo. De acordo com seu levantamento, a divisão correta seria esta: população urbana com 60% do total, população rural com 30% e outros 10% em uma faixa intermediária. Ou seja, existiriam 17 milhões de pessoas que moram no campo, mas aparecem nas estatísticas como cidadãos urbanos.

 
Antonio Milena

Nas estatísticas, Romaria é tão zona urbana como São Paulo, Salvador ou Belo Horizonte

O professor José Eli da Veiga chegou a essa conclusão depois de fazer algumas visitas à Europa e aos Estados Unidos e constatar que a diferenciação entre o ser urbano e o ser rural que se faz lá fora é completamente divergente da brasileira. Por aqui, a divisão é um tanto simplista. Qualquer pessoa que viva numa cidade é um habitante da região urbana, não importa que more num município com menos de 10.000 habitantes. Não é assim no exterior. Lá, leva-se em conta a densidade habitacional do município. As regiões consideradas urbanas possuem concentração acima de 150 habitantes por quilômetro quadrado. Mas não é apenas isso. Há ainda a forma como os moradores vivem. Têm uma relação próxima com o meio ambiente? Eles possuem horta? Retiram o rendimento da agricultura? Se sim, então moram numa área rural. Usam transporte público? Trabalham em escritórios e empresas e fazem as compras básicas em supermercados? Nesse caso, está-se falando de habitantes da zona urbana. Existem dois conceitos de cidade nos países desenvolvidos: as cidades rurais e as urbanas. Não se emprega, ao contrário do que se faz no Brasil, uma distinção radical que separa as cidades de um lado e o campo de outro. Isso acontece porque o Brasil é um dos poucos lugares do mundo onde a definição sobre o que é zona urbana e o que é zona rural cabe à Câmara Municipal. Ou seja, obedece a conveniências políticas e fiscais, e não a critérios técnicos.



No município onde vivem não há semáforos, e alguns dos poucos prédios são os da prefeitura, do hospital e da escola
Ao retornar das viagens, José Eli da Veiga montou uma equipe de cinco pessoas que se debruçou sobre o assunto durante um ano, na tentativa de aplicar o padrão internacional ao Brasil. Descobriu-se, então, que há diversos municípios classificados como urbanos que são obviamente rurais. É o caso de Romaria, localizada no interior de Minas Gerais, onde vivem 4.000 pessoas. Ali, praticamente todas elas vivem como a família do agricultor José Ribeiro (que se vê na foto ao acima). Ele trabalha em uma roça de café como bóia-fria, não tem carro nem telefone celular – que, aliás, mal pega na cidade. Em Romaria, a prefeitura fecha na hora do almoço, e o café é o forte da economia local. Os maiores edifícios são a escola, a prefeitura e o hospital. Não há semáforos. O grande acontecimento local é uma festa religiosa, que se realiza uma vez por ano. De acordo com os padrões internacionais, esse é o retrato do mundo rural.

Discutir se os romarienses são urbanos ou rurais pode parecer simples capricho acadêmico. Mas não é bem assim. Definir com clareza o limite entre o mundo rural e o mundo urbano é fundamental. Os moradores das grandes cidades pedem solução para problemas de trânsito, habitação e criminalidade. No campo, as pessoas têm outras necessidades, como crédito agrícola, e consomem outros tipos de produto. Para os especialistas, a visão distorcida da sociedade nesse aspecto, rural ou urbano, pode alimentar um terrível círculo vicioso: o governo não investe no campo porque o grosso da população está nas cidades. Sem investimentos nem perspectivas, os habitantes do campo, mais precisamente os moradores das "cidades rurais", acabam migrando em direção às metrópoles. Lá, apinham-se em barracos de favelas e em casas de periferia. Formam-se os cinturões de pobreza, onde se instalam o tráfico e o banditismo. "Essas falhas fazem com que o Brasil tenha uma visão distorcida da própria realidade e de suas carências", diz José Eli da Veiga. O estudo provocou uma revisão metodológica no próprio IBGE. O sistema atual que classifica as pessoas entre urbanas e rurais será mantido, mas estuda-se criar um novo banco de dados com a nova classificação. "Estamos preparando uma espécie de mapa alternativo da população para termos uma noção mais aproximada da realidade", diz o presidente do instituto, Sérgio Besserman.

 
 
   
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