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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Cárcamo
Da esquerda para a direita:
José Serra: o candidato que se expuser agora não chega até a eleição
Jereissati: seu nome é o melhor, diz FHC, mas só para os aliados de Jereissati
Malan: o nome que FHC gostaria de ver no PSDB
Paulo Renato: cercado de pesquisas e conversas com bruxo americano

Policarpo Junior

Num domingo recente, Fernando Henrique Cardoso e dona Ruth receberam a visita do ministro Pedro Malan e sua mulher no Palácio da Alvorada. A certa altura, quando o assunto enveredou para o campo da sucessão presidencial, FHC insistiu para que Malan assinasse ficha de filiação ao PSDB, uma condição obrigatória para ser candidato em 2002. Como não lograva sucesso, o presidente dirigiu-se à mulher de Malan e disse:

– Catarina, vê se convence o cabeça-dura do seu marido.

O apelo de Fernando Henrique saiu mesclado com o tom de brincadeira próprio de conversas desse tipo, mas dá uma medida de como o presidente está trabalhando nos bastidores de sua sucessão. FHC quer estimular o maior número de candidaturas aliadas para observar quem voa mais alto, mas tem uma predileção cada vez mais evidente pelo nome de seu ministro da Fazenda. Acha que Malan seria o mais fiel seguidor de sua obra e também vê nele qualidades que julga fundamentais para chegar ao Palácio do Planalto: é um técnico respeitado, fala com a autoridade de um presidente e tem trânsito fácil entre a elite econômica dentro e fora do país.

Até agora, Catarina não convenceu o marido a assinar a ficha do PSDB. Mas sua tarefa, se é que está empenhada em cumpri-la, vai ficando mais fácil a cada dia que passa. Antes, Malan se mostrava totalmente avesso à idéia de estrear na política, mas sua resistência é decrescente. "Ele se arrepiava com a simples insinuação de disputar uma cadeira no Parlamento. Hoje, ele não se arrepia mais", define um interlocutor freqüente do ministro. De fato, Malan costumava dizer que não tinha perfil para fazer política, mas começa a adquirir gosto até de receber políticos em seu gabinete. Num desses encontros recentes, insistiu para que o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, cuja visita se destinava a tratar um assunto técnico, se alongasse mais um pouco para jogar conversa fora. Fernando Henrique nunca convidou expressamente o ministro da Fazenda para disputar a Presidência da República. Se o convite eventualmente ocorrer, Malan certamente ficará lisonjeado, como qualquer um, mas seria uma conversa difícil. Num diálogo com um auxiliar, ele chegou a revelar que tem receio de ouvir um apelo direto de Fernando Henrique. "Eu não sei se conseguiria recusar", disse.

 
Ed Ferreira/AE

O ministro Malan: agora, eventual estréia na política não lhe causa mais arrepios

"Eu sinto que ele quer. Eu, no lugar dele, ia querer", diz o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio. Depois de perceber a inclinação de Fernando Henrique pelo nome de Malan, o tucanato começou a se mobilizar. A idéia é que todas as lideranças do partido façam uma discreta romaria ao gabinete do ministro para pedir que se filie ao PSDB até o dia 5 de outubro, último prazo para que possa candidatar-se no ano que vem. A estratégia é envolver todos os caciques nesse movimento, incluindo até mesmo os tucanos que disputam a indicação presidencial, como os ministros José Serra, da Saúde, e Paulo Renato Souza, da Educação. Quem conhece os bastidores do governo sabe que Paulo Renato desempenharia esse papel sem maiores constrangimentos. A dúvida é saber se José Serra, que vive trocando farpas com Malan, teria o desprendimento de convidá-lo a virar um tucano oficial. Se a romaria não surtir o efeito desejado, aí o próprio presidente entraria em cena e faria o apelo final.

Fernando Henrique Cardoso tem dado corda a todos os nomes possíveis. Quando conversa com o ministro Paulo Renato, tido como o mais fraco entre os pretendentes ao governo, o presidente nunca o desestimula, embora não acredite em suas chances. Em contatos com aliados de José Serra, sempre que perguntado sobre qual é o nome do seu coração, FHC não vacila: "O Serra, claro", responde. Aos amigos do governador do Ceará, Tasso Jereissati, o presidente costuma dizer que o nome mais preparado, entre todos, é o do próprio Tasso. Fernando Henrique deixou crescer até a onda do ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga. Em sua estratégia de estimular os pretendentes, mesmo porque isso adia uma decisão que o enfraqueceria, caso fosse tomada muito cedo, FHC gostou de saber dos movimentos do presidente da Câmara, deputado Aécio Neves, que na semana passada foi recebido num jantar por grandes empresários de São Paulo – de onde saiu, é claro, sob fortes especulações de que estaria dando a largada para entrar na maratona presidencial. O nome de Malan é apenas mais um na galeria, mas o ministro conta com algumas vantagens.

Uma delas está numa pesquisa recente, encomendada pelo Palácio do Planalto, na qual os eleitores foram convidados a avaliar o desempenho dos ministros. José Serra foi quem se saiu melhor, com 18% das menções. Não chegou a surpreender. Serra é candidatíssimo à sucessão de Fernando Henrique, cuida de um ministério que lida com o cotidiano das pessoas e movimenta um suntuoso orçamento de quase 30 bilhões de reais. A surpresa foi aparecer o nome de Pedro Malan em segundo lugar, com 16%. Diferentemente de Serra, Malan é responsável por uma área técnica que o leva a aparições públicas mais pelos problemas que pelas soluções. Os analistas oficiais foram pesquisar e descobriram que inflação, globalização e crises econômicas são assuntos que chamam a atenção dos eleitores mais do que se imaginava. "Até o eleitor das classes C, D e E fala sobre globalização e a crise na Argentina. Fazer campanha subindo em bode não quer dizer mais nada", diz um assessor de FHC.

Há outros dados recentes que jogam água no moinho de Malan. Desde o início do governo de Fernando Henrique, o ministro sempre se evaporou nas crises. Nos momentos críticos, coube ao próprio presidente aparecer em público para defender a política econômica e enfrentar os adversários – uma situação da qual FHC já reclamou várias vezes, sublinhando sempre que seu ministro da Fazenda era excessivamente recatado. De uns tempos para cá, no entanto, Malan mudou. Não perde uma oportunidade de defender o governo e, nessas ocasiões, passou a enfatizar que é um dos poucos a fazer isso porque a defesa oficial "está fora de moda". Também não deixa escapar as chances de criticar o PT e seu candidato, Luís Inácio Lula da Silva, e nunca altera o vocabulário: bate contra o que chama ora de "salvacionismo messiânico", ora de "messianismo salvacionista", o que dá no mesmo. Na semana passada, ao explicar no Senado o acordo assinado com o Fundo Monetário Internacional, falou por seis horas e não se esqueceu de atacar Lula, a quem chamou de irresponsável e leviano.

Além do comportamento público, o ministro da Fazenda mudou suas atitudes dentro do governo. Malan continua afirmando não ter vocação para a política e diz que não tem estômago para ficar a noite toda no Piantella, o restaurante preferido dos parlamentares em Brasília, fazendo intrigas com empresários, lobistas e jornalistas. Aliás, ele conversa pouquíssimo com jornalistas, um recurso de que se valem os políticos tradicionais para abrir espaço na mídia. Malan é também um homem muito discreto em todas as ocasiões. Não se viu explosão alguma nas vezes em que o ministro José Serra tentou avançar sobre a área econômica, que seria por definição terreno privativo do ministro da Fazenda. Na crise cambial de janeiro de 1999, Serra conseguiu emplacar seu amigo Chico Lopes na presidência do Banco Central – da qual sairia logo em seguida, após as denúncias envolvendo o tratamento privilegiado dado aos bancos Marka e FonteCindam. Desde então, Malan foi recuperando terreno na área econômica. Primeiro, no Banco Central. Depois, dominou a diretoria do Banco do Brasil. Por fim, reassumiu o controle do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Bruxo publicitário – Por ora, Serra não demonstra preocupação com a ascensão do nome de Malan. A seus interlocutores, tem dito que qualquer candidato que ganhe muito destaque agora, faltando ainda mais de um ano para a eleição, não resistirá à pancadaria até lá. Por isso, acha positivo que Malan comece a se expor. O ministro Paulo Renato também não se mostra preocupado e tem confidenciado a seus auxiliares que, em sua opinião, o jogo nem começou. Entende que a população ainda não vincula o trabalho realizado na educação a seu nome e que, mais tarde, com muita exposição pública, esse vínculo pode ser estabelecido. Por via das dúvidas, Paulo Renato não deixa de ouvir conselhos de quem quer que seja. Está sempre munido de pesquisas eleitorais e de desempenho no governo e já teve dois contatos com Dick Morris, o bruxo publicitário do ex-presidente americano Bill Clinton. Foram encontros casuais, um nos Estados Unidos e outro no Brasil. "Foi só bate-papo. Afinal, quem não gostaria de ouvir as opiniões do Dick Morris?", diz um assessor do ministro.

Na corrida interna do governo, Paulo Renato aparece menos cotado, e talvez isso se deva ao pouco contraste que oferece em relação aos outros dois. Serra e Malan, ao contrário, apresentam diferenças mais nítidas. O ministro da Saúde nunca viu com bons olhos a política econômica do governo, era crítico ferrenho da valorização cambial e se alinha à corrente mais desenvolvimentista do empresariado. Já Malan comandou a política econômica nos dois mandatos de Fernando Henrique, adota uma postura francamente liberal e privatizante e tem bom trânsito no sistema financeiro. Mas ambos, como candidatos, teriam de defender o governo. "É como se Malan fosse a Coca-Cola e Serra, a Coca-Cola light", compara um assessor do presidente. "A Coca-Cola light faz propaganda dizendo que ela é melhor e não engorda. Na prática, está criticando a Coca-Cola tradicional, mas não pode dizer isso com todas as letras." Como uma eleição presidencial não é campanha publicitária, muita água ainda vai rolar.

 
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  Só para inglês ver
  Reportagem publicada em 28/3/2001 sobre os bastidores da sucessão presidencial no Planalto

 
 
   
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