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dupla Danny Glover e Gibson: amigos, amigos; negócios não tão à parte |
Três é o número cabalístico dos filmes que viraram série. As melhores são trilogias: Guerra nas Estrelas, Indiana Jones, Duro de Matar, De Volta para o Futuro e Mad Max. Os filmes que desafiaram essa maldição se tornaram repetitivos caso das séries de terror Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. Máquina Mortífera 4, que entra em cartaz no Brasil nesta semana, quebrou o tabu. É o melhor dos filmes do verão americano, que chegam por aqui nas férias de meio de ano. Tem seqüências de ação espetaculares, a exaltação da amizade e bom humor. Acima de tudo, tem Mel Gibson fazendo o que ele mais gosta de fazer: o papel de Mel Gibson.
Mel Gibson, claro, nunca é tão Mel Gibson quanto em Máquina Mortífera. A série é como ele: trepidante, violenta, politicamente incorreta e, no final, irresistível. Americano de origem australiana, filho de um ferroviário com uma cantora de ópera, Gibson é desses sujeitos que perdem o amigo mas não perdem a piada. Suas tiradas sarcásticas já irritaram meio Estados Unidos, principalmente feministas, seu alvo predileto (veja quadro). Chegado numa bebida, só conseguiu livrar-se do vício com a ajuda dos Alcoólatras Anônimos. Preconceituoso, diz que não beija mulheres tatuadas. As atrizes de pele lisa têm o privilégio de fruir os lábios mais habilidosos de Hollywood, segundo elas próprias. Da lânguida Michelle Pfeiffer à durona Sigourney Weaver, todas se desmancham quando são escaladas para contracenar com Mel Gibson.
Em Máquina Mortífera 4, ele não tem muita chance de mostrar o talento de beijoqueiro. O filme é adrenalina pura do começo ao fim. Os vilões são todos chineses. Entre eles, destaca-se um matador, Wah Sing Ku, que é interpretado pelo astro das artes marciais Jet Li. Há piadas com homossexuais. No filme, o eterno parceiro de Gibson, Danny Glover, fica escandalizado ao pensar que um outro policial da corporação, vivido pelo novato Chris Rock, está apaixonado por ele. Há seqüências desnecessariamente violentas. Algumas são malfeitas dá para perceber o dublê de Mel nos momentos de perigo. Por último, o filme, como acontece sempre nos episódios da série, justifica o abuso e o desrespeito aos direitos humanos por parte de policiais. Não importa: o público adora.
Lado bonzinho O charme de Máquina Mortífera vem do fato de que Mel Gibson, ao criar a série à sua imagem e semelhança, não colocou nela apenas sua incorreção política, mas também seu lado bonzinho. Católico militante, casado com a mesma mulher, Robyn Moore, desde 1980, pai de seis filhos, Gibson gosta de dizer que a família é a coisa mais importante de sua vida e que largaria tudo por ela. Propagador de valores como a fidelidade e o companheirismo, Gibson gosta de trombeteá-los em seus filmes. O grande tema de Máquina Mortífera 4 é mesmo a amizade. O policial Martin Riggs, interpretado por Gibson, seu parceiro Roger Murtaugh (Danny Glover) e seus respectivos filhos, namoradas e acólitos formam na verdade uma espécie de família, em que todos se ajudam e se protegem mutuamente.
Gibson se orgulha de manter esse clima de amizade também no set de filmagem. Tanto que os letreiros finais mostram fotos da equipe inteira rindo, como naqueles retratos tirados no Natal da casa da vovó. Amigo de Danny Glover na vida real, Mel Gibson tem declarado, em entrevistas para promover o filme, que o fez sobretudo para ajudar o amigo, que passava por apuros financeiros e andava com a carreira em decadência. Pode até ser, mas está claro que esse não foi o único estímulo. Para voltar a interpretar o durão Martin Riggs, Gibson ganhou um adiantamento de 25 milhões de dólares, mais 10% do lucro total do estúdio. Isso significa que ele deverá embolsar algo em torno de 45 milhões, a maior quantia já recebida por um ator em um único filme. A "máquina mortífera" Mel Gibson é, antes de mais nada, uma máquina de ganhar dinheiro. E de beijar belas atrizes, aquelas de pele lisinha como casca de pêssego, convém não esquecer.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |