Louca aventura

Em seu novo livro, Paulo Coelho faz
referência às suas internações psiquiátricas

Coelho: hóspede
três vezes de um
hospício carioca
nos anos 60
Foto: Paulo Jares  

 

Trecho
"Paulo Coelho (...) tinha um excelente motivo para interessar-se pela história de Veronika.
Ele fora internado num hospício. (...) Isto acontecera três vezes (...). O lugar de sua internação fora a Casa de Saúde Dr. Eiras.
A razão do seu internamento era, até hoje, estranha para ele mesmo; (...) talvez fosse o seu desejo de ser 'artista', algo que todos na família consideravam como a melhor maneira de viver na marginalidade, e morrer na miséria."

O lançamento de um livro de Paulo Coelho é sempre um acontecimento. Ele é o escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos — 21 milhões de livros em dez anos. Veronika Decide Morrer (Objetiva; 221 páginas; 15 reais), que chega nesta semana às livrarias, traz uma novidade. Nele, outra vez, Paulo Coelho aparece como personagem. Só que, desta vez, o autor descreve um episódio marcante em sua vida, revelado com exclusividade por VEJA em reportagem de capa publicada em abril deste ano: suas internações em hospitais psiquiátricos. Três vezes, na segunda metade da década de 60, Paulo foi internado num hospício carioca, a Casa de Saúde Dr. Eiras. "Sempre fui péssimo aluno. Quando descobri o teatro, minha vida mudou. Meus pais acharam que eu tinha pirado e fui internado", conta Paulo.

Veronika Decide Morrer não é um depoimento sobre a estada do escritor no hospício. É um livro de ficção em que o autor se vale de sua própria experiência para criar a trama, ambientada em parte num manicômio da Eslovênia — sim, isso mesmo, Eslovênia. O personagem com seu nome aparece apenas uma vez, em terceira pessoa. Paulo Coelho fala, com conhecimento de causa, das descargas de choques elétricos, por exemplo. "Levei vários choques. Ficava me contorcendo, estrebuchando. E, mesmo depois dos choques, ainda tinha convulsões", diz o autor. No livro, um personagem esquizofrênico chamado Eduard leva choques elétricos dos enfermeiros. "A visão normal ia diminuindo, como se alguém fechasse uma cortina — até que tudo desaparecia por completo. Não havia qualquer dor ou sofrimento", descreve Paulo, no livro, baseado em sua própria experiência, mas referindo-se ao personagem. Quando Paulo ficou internado na Dr. Eiras, tinha uma certa liberdade. Podia até escrever e tocar violão. "Tinha um esquizofrênico que ficava sempre perto de mim quando ouvia a música", diz ele. No livro, Eduard sempre corre para perto da personagem Veronika quando ela toca alguma música no piano do hospício.

Coma induzido — Em suas internações, Paulo Coelho também viu pacientes sendo tratados com uma técnica chamada choque insulínico — hoje fora de uso. Em Veronika Decide Morrer, a personagem Zedka é submetida a esse tratamento. "A pessoa levava injeções de insulina até entrar num coma induzido. Em seguida, ganhava uma injeção de glicose para voltar à consciência. Teoricamente, sairia disso mais calma. Mas é uma técnica absurda porque levava a pessoa à beira da morte", recorda Paulo. O autor ganhou alta médica na sua primeira internação em 1965. Nas outras duas vezes em que foi internado, ele fugiu. "Vi o elevador parar no andar em que eu estava. Entrei, ninguém me perguntou nada. Quando cheguei ao térreo, saí pela porta e fui embora", lembra. No livro, dois personagens fogem com facilidade parecida.

Outra experiência da vida real que Paulo colocou no livro foi a observação de que muita gente encarava sua passagem pelo hospício com certa naturalidade. "Era confortável ser louco aos 18 anos. Significava que você não teria mais responsabilidades", diz. "Dentro do hospício, a comida era boa, eu tinha cigarros, via um filme no cinema interno uma vez por semana. Sabia que não era louco, mas achava que, para ser um escritor, precisava passar por aquilo. Tudo era uma grande aventura", resume o autor.

Marcelo Camacho




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