Poesia e silêncio

Numa obra maior, Octavio Paz traz do século
XVII a voz de sóror Juana Inés de la Cruz

Roberto Pompeu de Toledo

Rep. Storia Letteratura Spagnola


"Em fins do século XVII havia na Cidade do México (...) 29 conventos de freis e 22 de freiras. A população da cidade era de uns 20 mil espanhóis e criollos e uns 8 mil índios, mestiços e mulatos. Não se deve estranhar o número de religiosos: (...) para a maioria dos freis e freiras, o claustro era uma carreira, uma profissão. (...) o século era religioso como o nosso é científico e técnico."
Trecho de Sóror Juana Inés de la Cruz As Armadilhas da Fé

Ela era bela e era freira. Inteligente e admirada. Ser bela e freira, eis uma combinação que intriga e encanta. Era requisitada e festejada, tinha amigos nos altos círculos e, além do mais, era poeta. Principalmente, era poeta. E não uma poeta qualquer, mas autora de uma obra que acabou por consagrá-la como um nome importante da literatura em língua espanhola. "Ouve-me com os olhos/já que estão tão distantes os ouvidos", escreveu num poema a um amigo ausente. "Ouve-me surdo, pois me queixo muda." Ela amava os paradoxos, os jogos com as palavras e os conceitos, e tinha um domínio de virtuose sobre o ritmo da frase. A personagem em questão é sóror Juana Inés de la Cruz, figura importante da literatura do México, onde nasceu e viveu entre 1648 e 1695. Três séculos depois, outra figura importante da literatura do México, o poeta e ensaísta Octavio Paz, falecido em abril último, ganhador do Prêmio Nobel em 1990, fez dela o tema de um livro publicado no original em 1981 e agora lançado no Brasil, Sóror Juana Inés de la Cruz — As Armadilhas da Fé (tradução de Wladir Dupont; Siciliano; 709 páginas; 56 reais).

Primeira recomendação é que o leitor se aproxime deste livro com a reverência devida a um monumento. Pois o livro é um monumento. Os dois somados, Octavio Paz e sóror Juana, ou fundidos, o que talvez seja mais apropriado dizer, o produto serve à maior glória de ambos — a Octavio Paz por revelá-lo como autor de uma prodigiosa façanha intelectual e a Juana Inés por focalizá-la sob uma luz que a atualiza e revigora. Segunda recomendação é que não se deixe perturbar pela tentativa de aprisioná-lo em algum gênero. Trata-se de uma biografia, mas também não se trata, tanto pelo que lhe falta quanto pelo que lhe sobra. Falta-lhe maior documentação sobre a vida de sóror Juana, indisponível talvez para sempre, para que seja verdadeiramente uma biografia. Sobram incursões em outras áreas, da história à crítica literária, para que possa ser considerado apenas uma biografia. O livro é biografia de uma personalidade literária, história do México, sociologia de um período, ensaio cultural sobre a era barroca, crítica literária que esquadrinha em minúcias o labor poético, mas sobretudo é o esforço de uma pessoa para decifrar outra, trazê-la perto e compreendê-la, por cima de uma distância de três séculos.

Não é esforço pequeno. O fosso de três séculos é um oceano de incompreensão. Do lado de lá há um mundo regido por uma política, uma economia e uma ciência diversas das nossas, e povoado por pessoas de outra mentalidade e outra circunstância. Octavio Paz, engenheiro do tempo, serve-se dos instrumentos da erudição, da inteligência e da sensibilidade, para construir uma ponte sobre os séculos. O resultado é um livro, esqueçam-se os gêneros, sobre um ser humano que viveu no século XVII e que — fator importante — era mulher. É também um diálogo entre um poeta (e uma pessoa) do século XX e uma poeta (e uma pessoa) do século XVII. Juana Inés pedia que a ouvissem surdos. Octavio Paz percebe que a voz da freira é "um dizer rodeado de silêncios", limitado pelo "que não se pode dizer". Paz apura os ouvidos. Seu propósito é dizer a seus leitores o que sóror Juana não pôde dizer aos dela.

Duas interrogações — Sóror Juana nasceu Juana Ramírez, filha natural de um pai que talvez nem tenha conhecido e uma mãe de família rural remediada. O quadro histórico era o da Nova Espanha — nome do México colonial —, da qual Paz, num desafio ao pensamento convencional mexicano, traça um perfil que equivale a uma reabilitação. Era, escreve, "um país enorme, próspero e pacífico". Da menina Juana Inés sabe-se pouco. Amava os livros e a certa altura acalentou o projeto de vestir-se de homem para credenciar-se ao privilégio masculino que era freqüentar a universidade. Acabou num convento, o que configura a primeira das duas grandes interrogações de sua existência. Por que resolveu ser freira? Por que, sendo bela e evidenciando mais vocação para a vida social do que para a religiosa, se decidiu pelo convento? A segunda interrogação tem origem lá bem adiante, quando, escritora aclamada em todo o mundo hispânico, decide não mais escrever e entrega-se inteiramente à reserva da vida religiosa. Por quê? Em torno dessas duas interrogações, Octavio Paz constrói seu livro.

Juana Inés decidiu ser freira, conclui Paz, respondendo à primeira interrogação, porque o convento era o meio de que dispunha para executar seu projeto pessoal. E que projeto era esse? Estudar, aprender. Propocionar-se uma vida intelectual. Ou, como escreve Paz, "saber". Muito se falou de supostas tendências "masculinas" em sóror Juana. Apontariam para essa direção desde o desejo de se fazer de homem para freqüentar a universidade até os poemas dedicados a amigas em que se faz de amante ardente. "Essa mulher é um homem de muita barba", disse, já à época, um crítico espanhol. Em nosso tempo, Juana Inés tem sido presa fácil do oportunismo psicanalítico, que tenta explicá-la com base em supostas aflições sexuais. Octavio Paz joga a questão mais para o alto do corpo. Sóror Juana quis ser homem, sim, mas para realizar algo só aos homens reservado — a busca do saber. No mais, "se existe um temperamento feminino, no sentido mais arrebatador da palavra", escreve, "esse é o de sóror Juana".

A uma jovem como ela, naquele meio e naquele lugar, haveria dois caminhos: o casamento ou o convento. A opção do casamento seria a morte certa do projeto intelectual. Equivaleria à entrega da vontade a um dono e do tempo aos afazeres domésticos. A vida religiosa também apresentava inconvenientes. Se, para um homem, já seria difícil justificar um interesse muito maior pela literatura, a filosofia, a astronomia e a música do que pela teologia, e uma produção artística mais profana do que sagrada, que dizer de uma mulher? Mesmo assim, com jeito, lançando mão de suas naturais graças sociais e de uma desenvergonhada inclinação para a adulação dos poderosos, sóror Juana conseguiu garantir-se um espaço. Fez-se amiga de todos os vice-reis e vice-rainhas que a seu tempo governaram o México, em nome da Espanha. A proteção da corte contrabalançava a má vontade dos prelados eclesiásticos. Em sua cela, no convento de São Jerônimo, cuja rotina Octavio Paz descreve magnificamente, conseguiu mesmo juntar uma biblioteca considerável. Tudo parecia estar dando certo. A ponto de permitir-se, mesmo sendo freira, expressar sentimentos galantes como os contidos nestes versos, que aqui se transcrevem em espanhol mesmo, para não perder o viço: "Este amoroso tormiento/ que en mi corazón se vé,/ sé que lo siento, y no sé/ la causa porque lo siento". Tudo ia tão bem e no entanto...

Vieira: pretexto
para a desgraça
de Juana Inés

"Infinitos infernos" — No entanto, no início de 1693, sóror Juana renunciou às letras. Num documento, reconhece perante os superiores eclesiásticos que seus pecados "são enormes e sem igual" e se diz merecedora de "infinitos infernos". O pecado foi a dedicação à literatura e ao estudo. Juana Inés humilha-se e anula-se. Tinha 44 anos, morreria dois anos depois. Por que fez isso? Sucessivos autores, principalmente católicos, referiram-se ao episódio como algo positivo. "Foi sua hora mais bela", escreveu um. A decisão foi freqüentemente descrita como uma "conversão". Foi mesmo? Octavio Paz, ao cabo de uma investigação em que soma talento de detetive a uma fina percepção das profundezas da alma humana, demonstra que não. Ao contrário, foi o momento de sua derrota, diante da intolerância de superiores religiosos que, tão desconfiados de sua independência quanto invejosos de seu prestígio, se aproveitaram de um momento de vulnerabilidade, quando não podia contar com o apoio dos amigos na corte, para exigir-lhe a rendição. Já há muito, esses superiores insistiam em que deixasse as letras em favor do recolhimento que a religião — e a condição de mulher — impunha. "A preeminência alcançada por sóror Juana ofendia muitos prelados", escreve Paz; "todos eles eram seus superiores e quase todos se achavam teólogos, literatos e poetas. A freira encarnava uma exceção dupla e insuportável: a de seu sexo e de sua superioridade intelectual".

Ser mulher, eis a fragilidade maior de Juana Inés. A vida inteira ela soube disso, e fez da defesa da mulher uma constante em sua obra. Um entre muitos exemplos é o poema em que fala dos "homens néscios que acusam a mulher sem razão", e pergunta: "Quem tem a culpa, a que peca por uma paga/ ou o que paga para pecar?" Essa espécie de feminismo precursor dá um sopro de atualidade ao caso da freira mexicana. Num texto célebre, "Respuesta a sor Filotea de la Cruz", redigido no auge de sua briga com os prelados, propôs, com audácia para a época, que se criassem escolas para mulheres, e argumentou: "Nem a tolice é exclusiva das mulheres nem a inteligência privilégio dos homens".

Um dos perseguidores de Juana Inés foi o jesuíta Nuñes de Miranda, homem de tantas certezas que uma vez, diante das hesitações de um vice-rei quanto a uma determinada ação, escreveu-lhe: "Vossa Excelência faça o que lhe parecer melhor, mas eu bem sei que isso é o que deve fazer, e se não fizer irá sem remédio ao inferno, sem passar pelo purgatório". Outro era o arcebispo da Cidade do México, Aguiar y Seijas, cuja misoginia o levava a propagar que, caso uma mulher entrasse em sua casa, mandaria trocar o piso. Paz descreve esses personagens com vigor de romancista. Juana Inés resistiu-lhes quanto pôde. O começo da derrota foi um texto em que, numa rara incursão pela teologia, criticou um sermão do padre Antônio Vieira — o nosso Vieira, glória da língua portuguesa, que, a partir de suas pregações nos púlpitos de Salvador e Lisboa, construiu uma reputação que se espalhou pelo mundo católico. Por que a teologia, por que Vieira? Octavio Paz dá a chave: "A teologia era a máscara da política". Vieira era amigo de Aguiar y Seijas. Ora, ao atacá-lo, sóror Juana atacava Aguiar, o mais graduado de seus inimigos. Foi talvez uma aposta desesperada. Perdeu. Os inimigos apertaram o cerco. A freira sentiu-se só, teve medo — da excomunhão, da Inquisição — e depôs as armas. Num dos desdobramentos mais pungentes de sua rendição, entregou aos prelados sua biblioteca. A partir daí, levaria uma vida de isolamento e penitência.

Octavio Paz, engenheiro de pontes sobre os séculos, compara a perseguição e a indução à autocrítica de que foi vítima sóror Juana com práticas similares adotadas pelos regimes comunistas no século XX. Os dois casos, segundo ele, "unicamente se podem dar em sociedades fechadas, regidas por uma burocracia política e eclesiástica que governa em nome de uma ortodoxia". Juana Inés seria um Galileu sem processo, um Giordano Bruno sem fogueira — ou ainda um dissidente soviético cuja Sibéria foi o silêncio de sua cela. Foi preciso passar pela experiência das tiranias ideológicas do século XX para compreender as tiranias ideológicas do século XVII. E quando se fala em "compreender", acrescenta Paz, está-se falando em algo mais do que "entender": "Compreender significa abraçar, no sentido físico e também no espiritual". É o que ele faz. Com os braços estendidos sobre os séculos, o poeta do nosso tempo incerto abraça a freira silenciada pela ortodoxia opressora do tempo dela. Este é o sentido deste livro.




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