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Odalisca
na Poltrona, de Matisse: cores vivas e decorativismo |
| Fotos: Museu de Arte Moderna |
Até que nos anos 50 os borrões do pintor americano Jackson Pollock elevassem Nova York à condição de capital da arte moderna, Paris reinou absoluta como a Hollywood dos pincéis e cinzéis. Em busca de fama, fortuna e prestígio, uma legião de artistas italianos, romenos, espanhóis, americanos e até brasileiros acorreu à capital francesa. A maioria "vivendo de esperança e morrendo de fome", como notou o crítico italiano Giulio Carlo Argan. Poucos triunfaram, como Picasso e Matisse. Outros, como Modigliani, sucumbiram diante do álcool e da doença. Tal como um guarda-chuva, a cidade abrigou várias tendências, unidas pelo cosmopolitismo e a rejeição à arte acadêmica. Essa vasta produção entrou para a história como a Escola de Paris. Tal ecletismo se reflete na mostra em cartaz até o dia 13 de setembro no Museu de Arte Moderna de São Paulo. São 72 obras, realizadas por 51 artistas, emprestadas pelo Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris.
| Mulher
com Leque, de Modigliani: retratista magistral |
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Sucinto, o acervo exibido se propõe a cumprir uma tarefa hercúlea a de formar um panorama das principais vertentes da arte moderna produzida na França. Um percurso grandioso e intrincado, com paradas obrigatórias no fovismo, cubismo, a arte abstrata e figurativa entre as duas guerras mundiais. A ambição da mostra é tão grande que ela não poderia deixar de apresentar lacunas, a começar pela ausência do escultor romeno Constantin Brancusi, o maior nome do século em seu ofício. Faz falta também Pablo Picasso pintor, representado apenas por duas esculturas ainda impregnadas pelo academicismo, e portanto secundárias em sua obra. Ainda assim, a coleção francesa é de respeito. Nela despontam telas portentosas com as assinaturas de Modigliani, Matisse, Braque e Derain, entre outros.
Herdeiro da graça renascentista de Botticelli, Modigliani foi um retratista magistral. As figuras longilíneas de contornos marcados de seus retratos carregam uma sensualidade pontuada pela melancolia. É o caso de sua Mulher com Leque (1919), o retrato da pálida modelo Lunia Czechowska, que, indolente, segura um leque. De certa maneira, o triste Modigliani representa o oposto de Henri Matisse, que pintava a alegria de viver. Odalisca na Poltrona (1928) é um autêntico Matisse. Traz uma fornida odalisca, símbolo do prazer, em meio a cores vivas e padronagens decorativas, como cortinas e um tabuleiro de xadrez.
Já na vertente abstrata, a mostra oferece pelo menos duas grandes surpresas, que por si só justificam uma visita ao MAM. Uma é um óleo do italiano Magnelli (1937), notável pela tensão que cria entre as formas irregulares e uma sutil gama de cores, a meio caminho entre a pintura plana e a tridimensionalidade. Outra bela atração é o guache do holandês Bram Van Velde (1969). Restrito a pinceladas ralas, do verde-claro ao cinza, o artista trabalhou a luminosidade e a transparência das cores. Compôs aquilo que o seu amigo, o dramaturgo Samuel Beckett, batizou de "desvelamento sem fim".
Angela Pimenta
Copyright © 1998, Abril
S.A. |